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Wanderley analisa a crise política

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QUEM PROCURA ACHA, NEM SEMPRE O QUE QUER

2 de março de 2016

Por Wanderley Guilherme, no blog Segunda Opinião

Nem tudo era renascentista na Renascença; nem tudo é democrático na democracia; nem tudo é justo no Judiciário. Se necessário, enterre-se este postulado boca adentro de qualquer promotor, juiz ou atrevido procurador que o desafie. À conta do gênio de Michelângelo venderam-se contrafações arte por toda a Europa e, desde o século XVIII, pelo mundo todo, até chegarmos à peripatética disneilândia carioca com estátuas de Tom Jobim andando meio inebriado pelo Arpoador, ele que era de Ipanema, de Pixinguinha em frente a uma livraria em estreita e antiga travessa, um controverso Ary Barroso servindo de porteiro em restaurante do Leme e, não há limite para temperamentos abusivos, um Carlos Drummond de Andrade sentado em banco na praia de Copacabana, que nunca frequentou. Grande parte das personalidades públicas a qualquer tempo e em qualquer lugar não passa de contrafação de uma virtude esquecida.

Não bastassem os grupos de pressão assustadoramente fornidos de recursos a extrair benefícios e privilégios sob a proteção do direito democrático de organização e de defesa de interesses próprios, lemos agora a sem-cerimônia de auditores, fiscais de renda, policiais, procuradores e juízes, todos com enorme capacidade de atingir economicamente a administração pública e a segurança da população, a chantagear governos estaduais, municipais e até o governo central, extorquindo o que, mais do que ajustes salariais, converteu-se em pagamentos mensais para proteção mafiosa. Certamente estão indignados com a resistência popular à perda de renda e de emprego.

A devassa promovida pela investigação Lava-Jato revelando a monumental predação rotineira do patrimônio nacional por parte de ladravazes à sombra da burocracia pública, dos partidos políticos e da competência empresarial de importante segmento da ordem privada, favorece a intermitente manifestação de fanatismo partidário e ausência de decoro de juízes, promotores, procuradores e policiais, beneficiários da impunidade que dizem perseguir. Denúncias precipitadas, deliberada violação de sigilo processual, incontinência verbal e deboche no exercício de mandato judicial, tudo se acumula nesta já agora evidentemente bem programada sucessão de anúncios e de profecias. Herdeiros do espetáculo de degradação promovido pelos julgadores da AP470, os alienados e cegos pelo fanatismo partidário estão semeando brutal explosão de violência, que virá, a menos que autoridades maiores os recoloquem no afazer a que estão obrigados: apurar e revelar, sem firulas e descontroles de conduta, os crimes cometidos contra a sociedade brasileira em conexão com as atividades da Petrobrás. Revelações que sejam ordenadas, fundamentadas e apresentadas com sobriedade.

ÚLTIMAS PALAVRAS

Tolerância passada do ponto é tergiversação.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário

Editor em Cafezinho
Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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