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setembro 2016

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Jeremy Corbyn: o fim da briga interna no Partido Trabalhista Britânico?

Escrito por , Postado em Mariana T Noviello, Política



Jeremy Corbyn ganhou, pela segunda vez, a confiança dos Trabalhistas e é agora o líder incontestável do Partido. A boa notícia é que não há mais espaço para dúvidas e o partido, finalmente, poderá se concentrar naquilo que deveria ter se concentrado desde o referendo que levou à decisão do Reino Unido de sair da União Europeia (o Brexit): produzir narrativas e políticas alternativas, se opor com eficácia ao governo Conservador e se preparar – e convencer o público em geral – para ser o governo do país nas próximas eleições.

Esta disputa para a liderança do Partido, nunca deveria ter acontecido. Corbyn já tinha sido eleito líder em 2015, depois da derrota dos Trabalhistas nas eleições gerais, com Labour sendo atacado tanto pelos partidos nacionalistas de direita (Ukip – partido instigador do Brexit) e de esquerda (SNP – o partido nacionalista escocês).

A vitória de um velho esquerdista rebelde foi uma surpresa. De fato, seu nome só tinha sido proposto, porque era a sua vez de representar o bloco de esquerda do partido na disputa para a liderança. Ninguém esperava que ganhasse, nem mesmo ele. Mas parece que a política aqui, como em todas as partes do mundo, está um pouco imprevisível. As regras do Partido mudaram, dando às bases a oportunidade de mostrar seu desgosto com o tipo de política que o Partido Trabalhista vinha fazendo desde a era Blair, na década de 90, e o (não tão) gradual deslocamento à direita.

O descontentamento das bases, mais a oportunidade de eleições democráticas, deram a oportunidade à velha esquerda e às novas gerações de ‘despartizados’ de eleger um novo líder e construir um Partido Trabalhista, diferente e mais à esquerda. A filiação partidária cresceu como uma bola de neve, impulsionada pela segunda disputa para a liderança (as regras davam a oportunidade de novos filados votarem), fazendo do Labour Party o maior partido de esquerda da Europa.

Mas qual o problema? Muitos partidos tradicionais dariam de tudo para ver sua filiação crescer com o entusiasmo dos jovens. O problema, parece estar com os parlamentares do partido. Em sua maioria, eles não votaram em Corbyn, e se as regras não tivessem sido alteradas, Corbyn jamais seria líder. Apesar disso, muitos parlamentares resolveram aceitar uma posição no gabinete sombra de Corbyn.

Vários parlamentares alegaram que depois de muitas confusões, controvérsias e decisões políticas em que Corbyn contradizia os membros de seu gabinete, a indiferença do líder Trabalhista em relação à Europa, com a vitória do Brexit, foi a última gota d’água. Segundo os preceitos tradicionais, os parlamentares utilizaram-se do voto de não-confiança, pedindo que Corbyn se demitisse.

Mas ele se recusou – e podia se apoiar na grande popularidade que tinha no Partido renovado. O dilema é verdadeiro: enquanto Corbyn está certo em dizer que são os filiados que devem ter a última palavra, é também verdade que os parlamentares têm um mandato legítimo. Eles foram eleitos pelo público, de acordo com um programa partidário, e representam – não só os filiados do Partido – mas todos os cidadãos de seus distritos eleitorais.

As divergências só acirraram a disputa, com acusações vindo de ambos os lados. Entretanto, estava claro, que numa segunda eleição, Corbyn ganharia. Talvez os parlamentares tivessem acreditado que poderiam reduzir a maioria de Corbyn. Improvável para todos os que viam a disputa de fora. De fato, Corbyn não só ganhou, mas por uma margem ainda maior.

Para aqueles que ainda acreditam no poder da política, é de extrema importância que o Partido agora pare de brigar. Mas parece que isso não acontecerá tão cedo, já que o Partido insiste em continuar a discussão interna, agora debatendo como Corbyn deve escolher os membros de seu gabinete sombra…

Enquanto isso, Theresa May, a Primeira Ministra Conservadora, não precisa se preocupar com a oposição que não venha de seu próprio partido (mas isso são outras histórias). Há várias questões urgentes, nenhuma talvez tão importante como uma estratégia para poder, pelo menos, mitigar os efeitos do voto Brexit.

Algumas das críticas feitas ao Líder Trabalhista não tem a ver com políticas públicas, mas com sua incapacidade em comandar uma oposição eficaz no parlamento. Alguns argumentam que Corbyn está mais interessado em ‘construir um movimento social’ do que em fazer política parlamentar. Também criticam tanto a falta de profissionalismo de sua equipe como a de estratégia política. Não deixa de ser irônico que é justamente sua ‘falta de profissionalismo’ e a aparência de ‘falta de maquiagem política’ que atraem seus apoiadores.

Por outro lado, é preciso dizer que, apesar do crescente número de ‘Corbynistas’, nem todos estão enamorados. Alguns se tornaram ex-adeptos, como o acadêmico Richard Murphy, que aparentemente concebeu parte da política econômica de Corbyn. Seus apoiadores rebatem as críticas de incompetência argumentando que ele não teve tempo suficiente para trabalhar, e tem sido constantemente atacado pela mídia.

Independentemente da nossa opinião, Corbyn tem um forte mandato. Tanto para a sobrevivência a médio prazo da esquerda no Reino Unido, como para a população britânica, esperemos que as críticas contra Corbyn estejam equivocadas, e que ele e seus parlamentares consigam trabalhar juntos. Porque há urgência em relação aos objetivos de ambos os lados (que na minha opinião, não deveriam ser irreconciliáveis), sejam estes a oposição parlamentar, o crescimento da base do Partido, a reconquista das tradicionais áreas pós-industriais e o convencimento do público em geral com políticas que possam abrir um caminho – de esquerda – para sair da crise com a construção de uma sociedade mais equitativa, justa e inclusiva.

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1 Comentário em "Jeremy Corbyn: o fim da briga interna no Partido Trabalhista Britânico?"

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Erik Bouzan
Visitante

Gostaria de saber mais sobre o processo de eleições internas do Labour Party

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