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janeiro 2017

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Mentira e dissimulação contra a barbárie nos presídios

Escrito por , Postado em Análise de Mídia, Assinante, Luis Edmundo Araujo

Espiando o poder: análise diária da grande imprensa

Foto: Ailton de Freitas/Globo

Por Luis Edmundo Araujo, colunista do Cafezinho

“País tem 93 assassinados em apenas 6 dias”, diz a manchete da Folha de São Paulo de hoje, sobre a guerra com cenas de violência explícita que tomou conta dos presídios nacionais neste início de ano. Depois da morte de 56 detentos numa prisão entregue à gestão privada em Manaus, o Estado de São Paulo anuncia em sua manchete que “PCC mata 31 em Roraima e divulga cenas no WhatsApp”. No subtítulo, dá o tom de tais cenas ao contar que “vítimas foram decapitadas, esquartejadas e tiveram o coração arrancado”. Embaixo, na chamada para a “Coluna do Estadão”, o jornal fala do episódio que o Globo escancara no título da notícia principal da capa, dizendo que “ministro negou ajuda a Roraima antes de chacina”. O ministro é Alexandre de Moraes, da Justiça e da foto aí de cima, que unindo o apreço pessoal pelas aparições na mídia à incompetência exposta por seu antecessor no cargo, no blog de Luis Nassif, volta a ficar na berlinda.

Cerca de dois meses antes da morte de 31 presos na maior penitenciária de Boa Vista, a governadora de Roraima, Suely Campos, enviou ofício pedindo ajuda ao ministro. O Globo afirma no texto da chamada para a manchete, na primeira página, que “o ministro Alexandre de Moraes disse ter recebido só solicitação de ajuda para o controle da entrada de venezuelanos no estado”. Em seguida, o jornal expõe a mentira do ministro dizendo que ele “foi desmentido pelo ofício enviado pela governadora Suely Campos após chacina em novembro”.

Na “Coluna do Estadão”, o jornal paulista confirma que “desde 2015, a governadora de Roraima, Suely Campos, apela por reforço da Força Nacional”, e completa a informação dizendo que “por telefone, Suely pediu ‘ações reais a Michel Temer’. ‘O que adianta o ministro (Alexandre de Moraes) vir aqui se já ocorreu o pior? Só para usar a imprensa?’, questionou a governadora, enquanto no GGN, blog de Nassif, o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão explica “por que ‘governo’ Temer não tem tutano para enfrentar crise penitenciária”.

Subprocurador-Geral da República e professor adjunto da Universidade de Brasília, Aragão foi ministro de Estado da Justiça no governo de Dilma Rousseff. Segundo ele, o governo Temer “não tem minimamente condições de lidar com” a crise do sisteme penitenciário, e “a razão é simples: a crise não se resolve ‘no pau’, como querem os brucutus sob o comando de Alexandre Moraes”.

Aragão cita ainda a proposta de Cármen Lúcia, ministra presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de que juízes fiscalizem administradores penitenciários “com poderes pretensamente delegados pelo CNJ”. Segundo ele, “isso é bem Brasil pós-golpe”. “Quando surge uma crise que causa comoção pública, a solução proposta é simples: mais ‘pau’, seja na forma de violência bruta ou na forma de mais poder de polícia”.

A coluna de Merval Pereira hoje no Globo, “Visões de Lula”, trata, como já diz o título, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Circulam na internet dois vídeos com declarações atuais do ex-presidente Lula”, começa dizendo Merval, pra completar afirmando que nos tais vídeos, “podemos ver como pensa o ex-presidente sobre a crise brasileira e, sobretudo, que soluções propõe para superarmos os problemas atuais.”

Seguem-se as críticas mais que esperadas a tudo o que Lula diz até que em determinado ponto do texto o colunista do Globo afirma que “a capacidade dos líderes do PT de imputarem a outros os problemas que criaram nos 13 anos de governo revela-se agora na crise do sistema penitenciário”. “O presidente Michel Temer demorou a reagir, e quando o fez usou uma expressão infeliz para definir a tragédia de Manaus”, reconhece Merval, antes de, no fim das contas, eximir o governo atual de qualquer responsabilidade nessa crise.

O ministro da Justiça “teima em minimizar a guerra de facções criminosas”, mas, de acordo com o colunista do Globo, “é evidente que não é o governo Temer, que tem 4 meses como efetivo, o responsável pela crise penitenciária, nem pelos 12 milhões de desempregados”. Ao lado, na mesma página, o jornal carioca informa que “presos dizem que massacre em Roraima foi retaliação a Manaus”.

A matéria diz que “vídeos divulgados por detentos logo após a chacina” na Penitenciária Agrícola de Monte Cristo reforçam a “tese de que se trata de uma retaliação e tentativa de exibição de força do Primeiro Comando da Capital, que tem maioria na penitenciária, ao massacre de seus integrantes, em Manaus”. Na página ao lado, “cai secretário de Temer que pediu mais chacinas”.

Trata-se de Bruno Júlio, do PMDB, filho do ex-deputado federal Cabo Júlio (PMDB-MG) e, até ontem, titular da Secretaria de Juventude. “Eu sou meio coxinha sobre isso. Sou filho de polícia, né? Tinha era que matar mais. Tinha que fazer uma chacina por semana”, disse o ex-secretário em entrevista ontem ao blog de Ilimar Franco, do Globo.

A declaração é reveladora de como pensa boa parte dos integrantes do atual governo, inclusive o ministro da Justiça, mas é preciso disfarçar, simular alguma humanidade e, por isso, de acordo com o Globo, o Planalto cobrou o então secretário “sobre as declarações e o desautorizou a falar sobre o tema”. “No fim da noite, Bruno pediu exoneração do cargo, aceita por Michel Temer”, concluiu o Globo.

O Estadão afirma no editorial que “O Estado é o responsável”, ao dizer que “nas últimas décadas o Estado – em todos os seus níveis – abandonou o sistema penitenciário”. Na mesma primeira página do jornal paulista, João Domingos diz que “falta plano estratégico”, e que a “tragédia carrega ausência do Estado, abandono de políticas públicas, insensibilidade à barbárie”.

Embaixo, José Vicente da Silva Filho fala da “realidade desafiadora” do título de seu artigo, ao afirmar que “medidas do plano de segurança parecem adequadas, mas sua execução é extremamente complexa”. O Globo vai no mesmo caminho, e no editorial opina que “gestão é grande dúvida no programa de segurança”, sem deixar de falar que tal programa, “é positivo, por ser um compromisso formal da União de atuar, com o resto da Federação, contra o avanço da criminalidade”.

“Políticas públicas, nem pensar! Desqualificam-nas como ‘coisa de petista gastador e incompetente’”, lembra Eugênio Aragão, antes de ressaltar que “os órgãos que poderiam formular essas políticas ou foram liquidados, ou foram desempoderados, com a alocação dos seus recursos para outras áreas”. Como exemplo, ele cita a “brilhante ideia do Sr. Alexandre Moraes, de desviar os recursos do fundo penitenciário para o Plano Nacional de Segurança Pública”.

A medida, de acordo com Aragão, desafiou decisão do STF de agosto de 2015, “que determinou a aplicação urgente desses recursos, para pôr cobro ao ‘estado de inconstitucionalidade’ vigente nos presídios.” E se o Globo, no editorial, diz que “as incertezas que rondam este ou qualquer outro plano têm a ver com a falta de ferramentas de gestão — mais até que de recursos financeiros —, para monitorá-lo constantemente”, o próprio jornal mostra claramente, em matéria de alto de página, que tipo de gestão defende.

“Com três anos, presídio privado não teve rebeliões”, afirma o título do texto que começa falando que “há um único presídio construído no Brasil em sistema de Parceria PúblicoPrivada (PPP)”. “Em seus três anos de existência, nunca houve motim, rebelião ou mortes violentas — e contam-se duas fugas”, completa o jornal que demorou três dias para informar que a gestão do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), onde houve o massacre de Manaus, havia sido entregue à iniciativa privada.

E o Diário do Centro do Mundo (DCM), no link do dia, reproduz texto de Leandro Fortes no Facebook, no qual o jornalista informa que “a Umanizzare Gestão Prisional Privada, empresa responsável pelo presídio privado onde ocorreu o recente massacre de presos, em Manaus, mantém um lobista de plantão no Congresso Nacional: o deputado Silas Câmara, do PSD do Amazonas”.

Fortes informa ainda que nas eleições de 2014, a empresa “doou 200 mil reais para a campanha a deputado federal de Silas”. “Expoente da chamada ‘bancada da bala’ Silas foi um dos 43 parlamentares responsáveis, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, pela aprovação da admissibilidade da PEC 171/1993 – que prevê a redução da maioridade penal para 16 anos”, continua o jornalista.

“Ou seja, o nobre parlamentar trabalha para garantir carne fresca para os presídios privados da Umanizzare – ao todo, seis, no Amazonas, e dois, em Tocantins”, afirma o jornalista. Segundo ele, “a bispa Antônia Lucia, mulher de Silas, eleita deputada federal em 2010, foi cassada, em 2011, também por falsidade ideológica, formação de caixa dois e compra de votos, no Acre”.

“Ela é do mesmo partido de Marco Feliciano e Jair Messias Bolsonaro. É esse o nível dos políticos que estão por trás dos interesses do bilionário negócio de presídios privados, no Brasil”, conclui Leandro Fortes. E Eugênio Aragão lembra, no blog de Nassif, que “menos Estado só pode levar à incapacidade da gestão pública para prevenir tragédias como as que tiveram lugar no Amazonas e, agora, em Roraima”.

Aviso aos leitores: a coluna não será publicada nesta segunda-feira, mas, em compensação, será publicada extraordinariamente na quarta.

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