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janeiro 2017

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E o FMI, ao contrário do Brasil, agora busca o bem-estar social

Escrito por , Postado em Análise de Mídia, Assinante, Luis Edmundo Araujo

Espiando o poder: análise quase diária da grande imprensa

Foto: Andressa Anholete/AFP

Por Luis Edmundo Araujo, colunista do Cafezinho

Ferve ainda a questão dos presídios por todo o País e nas capas do Globo e da Folha de São Paulo. No Rio Grande do Norte, o governo segue o exemplo das autoridades paulistas, negocia acordo com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e as rebeliões agora invadem as ruas. O jornal carioca mostra o fogo lambendo as barricadas montadas, na foto acima, enquanto no diário paulista bombeiros atuam para conter o incêndio do ônibus destruído. No fim do texto da primeira página resumindo sua manchete, na qual “disputa entre facções sai de prisão e atemoriza RN”, a Folha dá chamada para o artigo da professora do Departamento de Economia da FEA-USP Laura Carvalho, que afirma, na capa, que “quanto menor o Estado de bem-estar social, maior o Estado penitenciário”. O Estado de São Paulo, porém, parece não se preocupar muito com isso e diz na manchete, quase em tom de euforia, que “corte de 0,75 ponto é ‘novo ritmo dos juros’, afirma BC”. Tudo parece caminhar bem na economia, deduz o leitor ao ler o jornal que, assim como o restante de seus concorrentes aliados da grande mídia, não deu a menor atenção ao aviso do Fundo Monetário Internacional, ele mesmo, o FMI, que elegeu como prioridade do momento, vejam só, o combate à desigualdade social que, no fim das contas, gera os conflitos.

Diretora do FMI contradiz Meirelles e afirma que prioridade deve ser combate à desigualdade social“, diz o título da matéria no site da BBC Brasil, na qual “a presidenta do FMI, Christine Lagarde, fez essa declaração “após ouvir o ministro da Fazenda brasileiro, Henrique Meirelles, defender a necessidade de adotar amargas reformas, como o governo Michel Temer tem feito no país”. As declarações, tanto de Lagarde quanto de Meirelles, foram dadas no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça.

O ministro brasileiro justificou as duras medidas do ajuste nacional lembrando que a classe média dobrou no País “nos últimos quinze anos” e que “por causa da recessão que vimos nos últimos anos, essa dinâmica se inverteu”. Segundo ele, esse seria “um problema de curto prazo”, afirmação com a qual não concorda a presidenta do FMI. “Não sei por que as pessoas não escutaram a mensagem (de que a desigualdade é nociva), mas certamente os economistas se revoltaram e disseram que não era problema deles”, disse Christine Lagarde.

A presidenta do FMI reconheceu resistências ao tema no próprio Fundo Monetário Internacional, que, segundo ela, “agora se converteu para aceitar a importância da desigualdade social e a necessidade de estudá-la e promover políticas em resposta a ela”. A matéria da BBC conta ainda que em seu discurso em Davos, “Lagarde destacou que a desigualdade social precisa estar no centro das atenções dos economistas se eles quiserem um crescimento sustentável e, como consequência, uma classe média forte”.

Para afirmar isso, ela se baseia num estudo do FMI concluído 2013. “Assinado pelos especialistas Jaejoon Woo, Elva Bova, Tidiane Kinda e Y. Sophia Zhang, segundo a BBC, o estudo “aponta que políticas de controle de gastos públicos resultam na geração de desemprego a curto prazo, o que contribui para a contração da classe média e o aumento do fosso social entre ricos e pobres”. Em resumo, o levantamento do FMI conclui que “pacotes de cortes nos gastos públicos tendem a piorar mais significativamente a desigualdade social, do que pacotes de aumentos de impostos”.

Na Folha, Clóvis Rossi destaca o assunto em seu artigo, “Hora de repaginar o capitalismo”. O colunista diz que “Davos propõe agenda que, sem desprezar o já velho Consenso de Washington, inclua melhorar nível de vida”, e conclui seu raciocínio afirmando que “para um Brasil que não consegue nem sequer retomar o crescimento, redefinir o seu padrão, ainda por cima com inclusão social, seria uma ‘bem-vinda’ revolução”.

Nada disso, porém, foi notícia nem no Estadão nem no Globo, que preferiram destacar, em tom otimista, a participação brasileira no Fórum de Davos. “BC: queda de juro continuará forte”, afirma a chamada de capa do Globo sobre o assunto que no Estadão é manchete, baseadas, ambas, na declaração do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, de que “o corte de juros da semana passada, de 0,75 ponto, é o ‘novo ritmo’ da política monetária”.

“Segundo presidente do Banco Central, Brasil passou por um choque e vive agora processo de reformas”, garante o subtítulo da manchete do Estado de São Paulo. Em outra chamada de capa, ao lado, o jornal conta que “Paraguai e Lava Jato são sucessos em Davos”. O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, foi ao Fórum de Davos e sua presença por lá foi, digamos, festejada pelo Globo, que chegou a afirmar que isso mostraria o “avanço institucional” do Brasil.

A presidenta do FMI pede menos desigualdade social e a grande mídia brasileira prefere dar mais destaque a Janot. à Lava Jato e também, claro, ao Paraguai, onde foi lançada a pedra fundamental do novo modelo de golpe de Estado latino-americano, agora jurídico, midiático e policial, com a deposição controversa do ex-presidente Eduardo Lago. “O bom desempenho econômico do Paraguai, em contraste com vizinhos, foi outro destaque” de Davos, diz o Estadão na capa, sem nada dizer, também, sobre a ficha corrida do presidente paraguaio, Horácio Cartes.

“Um dos homens mais ricos do Paraguai, filiado ao conservador Partido Colorado, Cartes é presidente de um conglomerado que produz bebidas, cigarros, charutos, roupas e carnes, além de gerenciar centros médicos”, informa Kiko Nogueira, no Diário do Centro do Mundo (DCM). “Em 2000, a polícia encontrou um avião com registro brasileiro em sua fazenda, levando um carregamento de cocaína e maconha. A presidente de seu partido, Lilian Samaniego, sugeriu que ele tinha vínculos com o narcotráfico”. completa o jornalista.

O presidente do Paraguai “é suspeito também de lavagem de dinheiro através de operações em seu banco, conforme vazamentos do Wikileaks”, continua Kiko Nogueira, que cita ainda reportagem assinada por Clóvis Rossi na Folha, na qual “o Fórum ‘abraçou’ a Lava Jato” e “o abraço foi tão apertado que o chanceler paraguaio Eladio Loizaga fez questão de puxar o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para uma ‘selfie’ com seu chefe, o presidente Horácio Cartes”.

Reforçando o tom de otimismo, despreocupado com a desigualdade social e coisas do tipo, Míriam Leitão afirma na primeira página do Globo que o desemprego aumentará no curto prazo, mas cairá ainda em 2017″, segundo a Fundação Getulio Vargas (FGV). Enquanto isso, na Folha, em seu artigo, “Bem estar social ou barbárie”, Laura Carvalho trata da violência nos presídios para vaticinar que a “proteção ao mais vulnerável sempre pode caber no Orçamento, mas o genocídio jamais caberá na civilização”.

“Retirada de presos em Natal foi negociada com facção”, diz a manchete do Globo. Os subtítulos contam que “governo do Rio Grande do Norte admite conversa com PCC” e que “tropa de choque entra no presídio e transfere 220 detentos, sem resistência”. O problema foi depois, o caos nas ruas de Natal provocado pela reação de mulheres e parentes de presos transferidos na tal guerra das facções que, para a grande mídia, é o grande problema dos presídios.

O governo reage chamando as Forças Armadas e a medida é criticada nos editoriais da Folha (“Intervenção e desespero”) e do Estado de São Paulo (“Grave equívoco”). A primeira diz que “num quadro de emergência, militares são autorizados a agir nos presídios brasileiros, mas iniciativa passa longe de ser solução para a crise”. Já o Estadão simplifica tudo e, já na primeira página, afirma que “a crise do sistema penitenciário é um tema de segurança pública, ponto final”.

“Se o sistema carcerário é incapaz de manter ordem nas prisões – deficiência que ficou escancarada depois dos massacres promovidos pelas facções criminosas –, cabe ao aparato de segurança estadual restabelecer a ordem.” Essa é a conclusão do Estadão no dia em que, a julgar pelo que informa Ilimar Franco na coluna Panorama político, do Globo, caiu por terra uma das medidas alternativas para desafogar as prisões, defendida recentemente na Folha e até por Merval Pereira, no Globo, com base no que também vem defendendo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

“Após ter considerado a descriminalização das drogas como uma alternativa para combater a crise penitenciária, o Planalto resolveu se manter distante do tema”, informa Ilimar, que completa dizendo que “Michel Temer está sendo aconselhado a não entrar no assunto, que divide a sociedade”. Menos de dois depois após ser sugerida nas páginas da grande imprensa, a descriminalização das drogas mostra que não passou de balão de ensaio, o que foi confirmado pelo ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, em entrevista a Tales Faria no Poder 360.

Segundo o ministro, “Congresso não aprova descriminalização do uso de drogas”. Ficamos então com o Exército e com os policiais militares da Força Nacional pra resolver a crise. E pra encerrar, a coluna pega emprestado a conclusão da professora da USP Laura Carvalho, no fim de seu artigo: “enquanto a insustentabilidade do sistema previdenciário em meio à elevação da expectativa de vida for vista pela maioria como mais dramática do que a insustentabilidade de um sistema penitenciário em meio à produção de um número cada vez maior de excluídos, estaremos condenados à barbárie”.

Aviso aos leitores: por motivos particulares, a próxima coluna será publicada no domingo, e não no sábado.

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