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segunda-feira

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janeiro 2017

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A coluna se despede nestes tempos difíceis

Escrito por , Postado em Análise de Mídia, Assinante, Luis Edmundo Araujo

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Espiando o poder: análise quase diária da grande imprensa

Foto: Fabio Motta/Estadão

Por Luis Edmundo Araujo, colunista do Cafezinho

Foram quatro meses enfronhado quase diariamente na produção da chamada grande mídia, também conhecida como familiar ou corporativa. Quatro meses e a distância de seis dias entre a penúltima coluna e esta, que como o título já diz, é a última. É preciso desanuviar, por isso o leitor, caso apareça por aqui, há de perdoar, por obséquio, que a coluna de hoje seja calcada muito mais na edição de domingo, como na foto acima, da primeira página do Estado de São Paulo, que remete ao início aqui no valioso espaço do Cafezinho, há pouco mais de oito meses, quando o colunista escrevia sobre esportes.

O Maracanã padrão Fifa, de cadeiras dobráveis de cinema, acolchoadas, com tudo de moderno, de bonito e abandonado, com a grama rachada é o retrato de onde o Brasil já chegou, rápido, neste mandato presidencial exercido pelo mercado. O mercado que catapultou à fama, à admiração nacional consagrada pela mídia familiar, aquele que até outro dia era o “homem do ano” das maiores revistas, e hoje volta às capas dos jornais prestes a ser preso.

Eike Batista e o Maracanã caríssimo, abandonado, têm tudo a ver, mas claro que isso só é lembrado na capa do Estadão talvez até sem querer, pela posição bem embaixo da foto do que já foi um estádio, na qual foi colocada a chamada para Eliane Cantanhêde contando que “bandido ricaço da Operação Eficiência, Eike Batista foge e os mocinhos devem montes de explicações”. O Maracanã está na primeira página apenas e tão somente como um dos “elefantes que a Copa do Mundo deixou”. E a Copa, como sabe o leitor da grande mídia, ainda que tenha dado certo, ao menos fora de campo, “foi culpa do Lula e da Dilma”.

No mais, está tudo até muito bem por aqui na opinião do Estadão, a julgar pela manchete dominical na qual “Safra recorde injetará mais de R$200 bi na economia”. “Produção de grãos no Centro-Sul do País deve superar 210 milhões de toneladas e reduzir preço de alimentos”, completa o subtítulo embaixo, anunciando a boa nova. Após a destruição sistemática da indústria nacional, gerada e alimentada pela perseguição medieval da Lava Jato, talvez seja este o futuro que nos resta, o de um país de novo agrário, onde o povo trabalhe de sol a sol sem direito a quase nada, muito menos proteção.

É o que se pode vislumbrar, por exemplo, da chamada na capa do mesmo Estadão para a série com o sugestivo nome de “Reconstrução do Brasil”. “A modernização dos sindicatos” é o capítulo deste domingo, no qual um professor é recrutado pra dizer na capa que “reforma trabalhista exige reforma sindical”. Se a CLT vai para o espaço, pra que sindicatos, não é mesmo? Sai a Consolidação das Leis do Trabalho, promulgada por Getulio Vargas e até hoje o maior instrumento de redução, ainda que mínima, da desigualdade gritante na distribuição da renda brasileira. Entra a negociação direta entre empregado e empregador, nestes tempos de desemprego recorde.

Mas o trabalhador pode ficar tranquilo, insinua a manchete de hoje do Estadão, porque para ajudar em tudo, até salvando empregos sem direito a nada, férias, décimo-terceiro, nada, sempre estarão ali, a postos, os bancos. “Bancos criam equipes para evitar quebra de empresas”, diz a notícia principal do diário paulista de hoje. Trata-se, informa o texto da chamada, de uma iniciativa dos “três maiores bancos privados do País – Itaú, Bradesco e Santander”, que criaram departamentos específicos para ajudar na reestruturação de empresas com dívidas bilionárias.

O mercado passará a controlar mais diretamente ainda o emprego, pode-se presumir disso, e pode-se imaginar também que tipo de “pacote de ajuda”, pra ficar na expressão entre aspas da matéria, poderá ser oferecido por tais departamentos específicos dos bondosos bancos. Investimento em mais contratações ou demissão em massa? Valorização ou precarização da força de trabalho? A conferir.

E se o Globo mostrou no domingo uma preocupação a la Trump, na manchete onde “apenas 4% das fronteiras do Brasil são monitoradas”, o Estadão lembra na capa da edição do mesmo dia qual é uma das melhores opções para o jovem brasileiro em tempos de crise. “Vida militar vira opção anticrise” é o título ao lado da imagem de um jovem de azul, negro, batendo continência em frente à réplica de um caça da Aeronáutica, que “vê na carreira militar um caminho na crise”.

A imagem remete à propaganda fascista, nazista, também stalinista, pra não ficar num lado só, e sempre ajuda se a necessidade for de garantir a ordem, de manter o povo quieto, desempregado, com fome e calado, com fé em Deus e na colheita. E se houver quem proteste, se algo ameaçar a platitude com a qual o povo assiste a tudo isso, em cena entrará o batalhão do ódio criado e alimentado pelo noticiário da grande mídia, gente como as duas “senhoras de bem” que protestavam de amarelo, sem o menor receio do ridículo, em frente ao hospital onde estava internada, em estado grave, a ex-primeira-dama Marisa Letícia.

Vivemos hoje no país onde Eduardo Cunha jantava tranquilamente num restaurante dito de alta categoria do Rio de Janeiro prestes a ser preso, como Eike Batista, e como ele sem ser molestado. Enquanto Chico Buarque, se tentar fazer isso no mesmo lugar, provavelmente será insultado aos gritos por representantes da dita elite nacional, tida como refinada. É disso que trata o link desta última coluna, não tão do dia assim, mas cuja leitura, nos dias de hoje, é por demais necessária.

Enquanto isso a Folha de São Paulo noticia e o Diário do Centro do Mundo (DCM) reproduz a informação de que “o pagamento de benefícios e verbas indenizatórias a magistrados e servidores do Judiciário subiu 30% de 2014 para 2015, ano em que a crise econômica no país se agravou”. O índice saiu do “’Justiça em Números’”, relatório divulgado anualmente pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça)”.

O texto informa ainda que “os chamados ‘penduricalhos’ subiram de R$ 5,5 bilhões para R$ 7,2 bilhões”, e que “fazem parte deste tipo de gasto diferentes ajudas de custo, tais como auxílio-moradia, auxílio-educação, diárias, passagens, entre outros” benefícios a que tem direito, também, o juiz federal Mário de Paula Franco. Dando como justificativa a “demonstração de atitudes concretas e a postura cooperativa das partes, do MPF e das instituições envolvidas, em buscarem a solução da presente lide”, Mário de Paulo Franco suspendeu por tempo indeterminado a decisão que obrigava a mineradora Samarco e suas acionistas Vale e BHP Billiton a depositarem R$ 1,2 bilhão como garantia de futuras ações de recuperação e reparação dos danos socioambientais decorrentes da tragédia de Mariana (MG).

A notícia da Agência Brasil é do sábado, dia 28, e hoje a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, homologou as delações da Odebrecht, mas tudo, claro, ainda dentro do mais absoluto sigilo, talvez para garantir o cronograma dos futuros vazamentos. E com isso a coluna vai ficando por aqui, podendo anunciar, sem faltar com a verdade, que o motivo do fim se deve também à crise que vem dificultando a vida de todo mundo. Fica o agradecimento ao Miguel pelo espaço, pela chance de participar de alguma forma do que vem sendo feito nesta brava mídia alternativa, absolutamente fundamental, nesses tempos difíceis, em contraponto à chamada grande mídia, ou imprensa familiar, ou corporativa.

 

luis.edmundo@terra.com.br

Luis Edmundo

editor associado em O Cafezinho
Luis Edmundo Araujo é jornalista e mora no Rio de Janeiro desde que nasceu, em 1972. Foi repórter do jornal O Fluminense, do Jornal do Brasil e das finadas revistas Incrível e Istoé Gente. No Jornal do Commercio, foi editor por 11 anos, até o fim do jornal, em maio de 2016.

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  1. Marcelo Batista
  2. jesuita sousa
    • Alcino Roegrs
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  5. Claudio Anael