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sexta-feira

3

março 2017

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Que o grito deste carnaval não deixe mais de ecoar

Escrito por , Postado em Redação

O relato abaixo vem de dentro do embrião dos gritos de Fora Temer! que ecoaram em milhares de blocos por todo o País. Tudo começou em Belo Horizonte, como mostra o texto abaixo, um exemplo de luta que gera a esperança de que os gritos, de agora em diante, só aumentem. Se a hora não for essa, é porque já passamos dela há algum tempo…

Quem vê a foto acima imagina se tratar do carnaval de Salvador, mas, para surpresa de muitos, esta multidão de 500 mil pessoas desfilou pelas ruas do centro de uma cidade com pouca tradição carnavalesca: Belo Horizonte. E esta não é a única surpresa. Os foliões não têm que comprar abadá,  não há cordão de isolamento, a não ser aquele exigido pelo Corpo de Bombeiros, e o trio elétrico não é um trio elétrico (ele é na verdade um singelo caminhão reboque com as caixas de som em cima da carroceria e que não pode demorar porque vai fazer o mesmo trabalho para outros grupos – que ratearem o seu aluguel – ao longo do dia). E a grande e deliciosa surpresa: o bloco responsável por este feito, chamado Então Brilha, desfilou com todos os seus integrantes com adesivos FORA TEMER pregados no corpo ou na roupa e com uma faixa/estandarte de 10 metros escrita com os mesmos dizeres, aberta durante todo o percurso dentro do cordão de proteção dos músicos. E estes, para delírio da multidão, tocaram diversas vezes uma antiga música do grupo As Meninas cujo refrão Bom Xibom Bombombom, era acompanhado por um gigantesco FORA TEMER gritado a plenos pulmões pelos foliões. E, assim, às 08:00 da manhã de sábado, sacramentou-se o que seria o mote do carnaval belo-horizontino (e brasileiro).

Na verdade, o primeiro FORA TEMER foi gritado pela multidão na quarta-feira anterior ao carnaval, no desfile de outro bloco tradicional – o Chama o Sindico – que arrastou mais de 200 mil pessoas pela avenida Afonso Pena. Nesta oportunidade, ao se desfraldar uma faixa em homenagem ao presidente usurpador em cima do carro de som, toda a multidão acompanhou os músicos num estrondoso FORA TEMER .

Na verdade mesmo, o primeiro FORA TEMER momesco foi gestado (e gritado) ao longo dos últimos anos por movimentos de resistência política como a Praia da Estação e o Fora Lacerda (ex prefeito da cidade). Foram estes movimentos, que tinham na folia sua principal forma de expressão, que inspiraram, segundo Talles Lopes, da Midia Ninja, o reflorescimento do carnaval na cidade, que se forjou essencialmente como um carnaval de luta. Por isso, para quem acompanha esta cena belo-horizontina, não é surpresa alguma que um grupo que arraste 500 mil pessoas tenha um carro de som modesto e não se preocupe em esconder suas predileções politicas.

Ainda segundo Talles Lopes, esta efervescência cultural moldada na luta política resultou não apenas na constituição de diversos e variados blocos de carnaval, como também numa rica produção musical, que teve no concurso de marchinhas Mestre Jonas o espaço que se consolidou como referência para esta relação entre arte e politica. Desde a Coxinha da Madastra, vencedora do primeiro concurso em 2012, passando pelos sucessos como Imagina na Copa e o impagável Baile do Pó Royal, até o ganhador deste ano, o Baile do Cidadão de Bem, foram inúmeras as músicas criadas e executadas pelos blocos não apenas no carnaval, mas na folia de luta ao longo do ano.

Se por um lado o grito FORA TEMER já era uma realidade no meio carnavalesco de Belo Horizonte, por outro, as faixas amarelas FORA TEMER e os adesivos de lapela já estampavam respectivamente os viadutos e os corpos da cidade desde, pelo menos, o dia 14 de abril do ano passado, o dia da vergonha no Congresso Nacional. Este material era feito por amigos, inicialmente através de um coletivo chamado Alvorada, que se cotizavam e que vendiam camisetas e panos de chão para ajudar no custeio. Os adesivos foram feitos aos milhares, com diversos modelos feitos por artistas gráficos da cidade. Como estes adesivos eram muito bonitos e variados e distribuídos gratuitamente nas manifestações politicas e festas da cidade, eles se tornaram uma presença marcante e simpática na cena cultural belo-horizontina.

Se já tinham sido feitos adesivos para a Parada LGBT, para a Festa Junina e para a Virada Cultural, por que não fazer uma leva especifica de adesivos para o carnaval, relembra Du, um dos integrantes do grupo responsável pela criação e confecção deste material. “O movimento FORA TEMER já era muito forte nos blocos de carnaval de BH, mas sentíamos que faltava decorar, paramentar a galera. Pois havia muito adereço FORA TEMER isolado, mas sem uma presença física mais forte. Resolvemos então fazer uma leva específica de Carnaval dos nossos adesivos, que já eram muito conhecidos e queridos pela moçada em BH. Além disso, fizemos abadás, camisetas e panos de chão para divulgar o FORA TEMER e ajudar a pagar as despesas com os outros materiais. Foram feitos 220 mil adesivos para espalhar para os foliões e, dentro destes, pelo menos 1000 adesivos exclusivos para os blocos com os quais tínhamos maior proximidade. Com estes, combinamos de, ao final do carnaval, fazermos uma festa para arrecadar fundos, caso as vendas dos outros produtos não fosse suficiente para arcar com os gastos totais”.

A forma de distribuição do material era feita da seguinte forma: avisava-se nas redes sociais que haveria um plantão para distribuir material na Casa do Jornalista – o QG da luta FORA TEMER em BH-, e as pessoas iam lá e pegavam adesivos, carimbo (um outro sucesso no carnaval) e faixas pra levarem para os blocos onde iriam desfilar, além de comprar os abadás de pano de chão. Dessa forma se conseguiu que, em praticamente todos os blocos, houvesse algum material da campanha Carnaval BH FORA TEMER.

A aceitação dos adesivos foi total, sendo que o que fez mais sucesso foi o submote do carnaval: ME BEIJA QUE EU NÃO SOU GOLPISTA. Esta frase ilustrou não apenas o adesivo de maior saída como diversas faixas pregadas em pontos variados da cidade. Não obstante o tom provocador da frase e da absoluta prevalência dos signos FORA TEMER, o clima, segundo Du, foi bastante amistoso entre pessoas ideologicamente distintas. As pessoas mais conservadoras, muito mais agressivas ao longo dos últimos meses, no carnaval, aparentemente se viram em número muito menor ou sentiram que o clima não lhes era favorável e preferiram não se manifestar.

“O que ficou claro foi que o espírito FORA TEMER, independentemente do material distribuído ou de um eventual chamamento de um bloco, era uma realidade no meio dos foliões. Quando nós íamos carimbar as pessoas, descobríamos deliciados que havia diversos outros modelos de carimbos rodando na festa, produzidos por pessoas sem nenhum vínculo com os blocos. O clima já estava criado antes mesmo de começar o carnaval., e o mesmo que foi vivenciada aqui também foi vivenciado nas outras cidades do pais. Em BH isto pode ter sido mais forte pela especificidade da forma como este movimento de carnaval foi criado, um carnaval de luta. Mas o espirito era o mesmo em todo o pais. Se existe a expressão microclima, deve existir também microzeitgeist. E o microzeitgeist momesco foi totalmente FORA TEMER. Espero que ele perdure no dia da mulher, na inconfidência, nas festas juninas e finalmente deixe de ser micro”.

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