FHC cospe na memória de Itamar Franco - O Cafezinho

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segunda-feira

27

março 2017

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FHC cospe na memória de Itamar Franco

Escrito por , Postado em Denise Assis, Redação




Nota publicada na coluna de Ancelmo Goes, Jornal O Globo, no dia 24 de março de 2017

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Nossa colunista, Denise Assis, durante o escândalo Lilian Ramos, era repórter da revista Manchete, uma das principais publicações da época. Em virtude de seu reconhecido profissionalismo, e por ser de Juiz de Fora (lugar de origem de Itamar), tinha frequente acesso ao Palácio do Planalto. Assis obteve sete entrevistas exclusivas com Itamar Franco. Ela contesta a versão de FHC, descrita na nota acima de Ancelmo Goes, que atribui à notória ingratidão do tucano e a seu vício de se apropriar de trunfos alheios.

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Pelas lentes da Ingratidão

Por Denise Assis, colunista do Cafezinho

Confesso que levei dois dias para me animar a escrever sobre o tema. A nota publicada na coluna do Ancelmo Gois, na sexta-feira, 24/03, tinha um “quê” de maldade. Não por parte do colunista, que se limitou a reproduzir a informação do ex-presidente. O veneno vinha de FHC. Reproduzia a coluna: “O tucano desabafa dizendo que, com Itamar na presidência, ele foi uma espécie de ama-seca do mineiro – impedindo mil crises, inclusive com os militares.”

Alguma surpresa? Não. Afinal, ele costuma fazer este número, o de querer sempre mais um pedaço da história. Da sua e a dos outros. Age como não se vê agindo os ex-presidentes americanos – apenas para falar dos seus ídolos – se imiscuindo na vida política do país. Mas a sua nostalgia do poder o faz um queixoso de que não o chamam “para opinar”, “para conversar”, para “governar”, em última instância… Talvez, em sua cabeça, aquela máxima: “quem foi rei nunca perde a majestade”, seja o seu norte de vida.

E foi assim, sem a menor cerimônia, que dentre vários fatos que compõem a sua interminável biografia, o “príncipe” foi buscar justo um dos episódios mais constrangedores da história recente, tendo como epicentro o seu padrinho, Itamar Franco, para dar publicidade ao seu novo tomo. Sim, é importante relembrar. Foi com a chancela de Itamar que Fernando Henrique chegou lá.
Na nota, FHC faz crer que a ausência de uma calcinha tenha posto o governo em risco, a ponto de apelarem para ele para a manutenção da governabilidade. É possível. Talvez tudo tenha se passado assim. Mas o que a nota não conta – e como acredito na generosidade das pessoas e na capacidade delas de serem gratas, creio que o livro revela -, é como este mesmo episódio fez com que o seu nome fosse anunciado, prematuramente, numa terça-feira de carnaval, em Juiz de Fora.

A folia se avizinhava e, como é de praxe, o governador Leonel Brizola fez o convite para que Itamar viesse para os festejos. Em geral, caso o convite seja aceito, o presidente é recepcionado no camarote do governador. Não naquele ano. Por ter assessores animados, amantes da Cultura (não vamos esquecer que o ex-ministro da Casa Civil, Mauro Durante, em sua juventude organizava os festivais da Canção, em Juiz de Fora), eles queriam vir em grande número e, para isto, solicitaram um camarote só para a turma do pão de queijo. Logo não faltou alguém da “banca da fauna”, para oferecer um espaço, vizinho ao camarote oficial.

Na redação, recebi um telefonema de Oswaldo Manescky, que acompanhava o meu trabalho como enviada a Brasília para fazer a cobertura do governo de Itamar. O assessor do governador Leonel Brizola estava preocupado com a vinda do presidente para um camarote “estranho” ao da oficialidade. Pedia que eu alertasse a turma de Juiz de Fora, pois ele sentia que algo estava sendo “preparado” para o presidente. Diante do exposto, vindo a informação de onde veio, liguei para o palácio e alertei sobre o perigo. A então chefe de gabinete e amiga de Itamar, Ruth Hargreaves, confidenciou que o meu telefonema havia gerado uma reunião de quase três horas, para que os riscos fossem todos avaliados. Inclusive pelo pessoal da segurança. Por fim, os mais afoitos: José Aparecido e Mauro Durante, amantes de reuniões e eventos, saíram felizes. O presidente viria.

Ficamos, eu e Manescky, numa expectativa ruim de que algo poderia acontecer. Pensávamos em agressões, qualquer coisa nesta linha, mas nada tão surpreendente como o que os jornais do dia seguinte estamparam. O presidente ao lado de uma “celebridade” com a “genitália desnuda”, expressão comedida usada na época, pela mídia.

A esta altura eu me encontrava curtindo uma praia na Região dos Lagos. Lá, sentada na areia (ainda bem), via perplexa a foto, quando o celular (sim, tínhamos um tijolão), tocou. Era a Ruth, me dizendo que o presidente estava constrangido, me pedia desculpas por não ter levado em conta o meu alerta, mas que me ligaria mais tarde.

Itamar ligou. Acometido de dor de garganta, como lhe acontecia sempre que estava aborrecido, com baixa de defesas imunológicas, ele reiterou as desculpas, e me pediu que o aconselhasse sobre o que poderia ser feito para remediar o escândalo. Ainda sob o impacto das notícias e charges que pipocavam de todos os lados, eu respondi que apenas um fato maior do que aquele poderia mudar a pauta. E sugeri: por que o senhor não antecipa o nome do seu sucessor? Ele então me contou por alto que estava discutindo exatamente isto com o senador Pedro Simon, seu amigo, e que tinham chegado a dois nomes: Antônio Brito e Fernando Henrique.

Eu então insisti. Defina e anuncie logo. Isto vai mudar radicalmente o noticiário. À noite, ele que havia se refugiado em Juiz de Fora, onde costumava buscar o apoio dos amigos e conterrâneos, declarou que estava cogitando o nome do ministro da Fazenda para a sua sucessão, em pleno desfile de blocos, na Av. Rio Branco. Como previa, o noticiário passou a perseguir a definição.

FHC relutou até março, quando uma charge do cartunista Chico Caruso, em que ele era reproduzido de camiseta, com ares tímidos diante de Itamar, parece ter mexido com os seus brios. Ademais, a revolução da troca do dinheiro pela Unidade Real de Valor (URV) animava o país, que ensaiava a troca definitiva da moeda pelo Real, levada a termo em julho daquele ano. Fernando Henrique era, enfim, o candidato. Itamar Franco não mediu esforços na campanha, fazendo o seu sucessor ainda no primeiro turno, em 3 de outubro de 1994.

É lamentável que, estando o padrinho morto, sem direito, portanto, de defesa, o afilhado olhe pelo retrovisor usando óculos de grau vencido, negando-lhe o reconhecimento devido, e colocando-o alguns níveis abaixo do que a história já registrou. A despeito do seu jeito, muito próprio, Itamar Franco fez do país uma república estável, levando o Brasil a retomar o rumo da democracia, que nos foi novamente surrupiada, com a ajuda de FHC, é bom que se registre.

 

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário

Editor em Cafezinho
Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
Miguel do Rosário

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Favor seja cuidadoso com as palavras. Em alguns casos, haverá moderação. Seja paciente.

37 Comentários em "FHC cospe na memória de Itamar Franco"

Avise-me quando
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sergio antonio de paula costa
Visitante
* Parabéns!! Primeiramente, estou em dúvidas sobre quem redigiu a matéria. Foi o Miguel do Rosário ? Se foi a ele minha salva de palmas. Se não foi, também outra salva, não importando o quem e sim o conteúdo do escrito. Como faz falta nos dias de hoje, dias “das redes sociais” que estão aí para imbecilizar a todos, fazendo com que as pessoas não leiam mais nada. Sobre o passado e sua história, então nem se fala. Tem tempos que me recuso a falar sobre políticos e sua classe. Então, sobre FHC e outros… E, me vem à memória… Read more »
Jose Roberto
Visitante

É muito triste ler que o sucessor, que foi eleito pelo grande resultado do real, querer se adotar do programa de governo do Itamar Franco. O real foi implantado em 1994, pelo presidente Itamar e ponto.

Cleide Martins
Visitante

Escreve e nos manda esquecer o que escreveu, inventa passados, destrói o futuro. Assim é FHC.

Visitante

A minha memória do Itamar se resume a modelo sem calcinha q o acompanhava

Marcos Neves
Visitante

Junto com seu amigo Nareba de Minas, arquitetou esse golpe levando o país ao caos em que se encontra. Um lobo travestido de cordeiro, hipócrita, cínico um verdadeiro títere dos EUA. Sorte teve foi a Ruth que se separou (de corpos) desse traste. Deveria ser fuzilado por crime de lesa-pátria.

Visitante

Fofoqueiros!!!
HAJA TRABALHADOR!!!

tita lage
Visitante

cara denise, sou de esquerda, não votaria no presidente itamar franco. mas não se pode negar a importância do governo dele; itamar conduziu a presidência sem usurpar a constituição, manteve as instituições sem abalos; é o pai do real e não tem pra fhc. como esta camarilha só tem “um pé na cozinha”, não respeita ninguém, nem nada; é hostilizadora; no caso do “príncipe” da privataria, a nota dá a impressão de fofoquinha de salão, hostilizante. é a suruba geral!
eu saúdo o presidente itamar!

Schell
Visitante

Quanto mais esmiuçam, pior fica: entre brito e fhc, quem seria o pior? Quanto à genitália, faltou dizer sobre o acompanhante da beladona: o doleiro youssef de sempre. Pobre país de merrecas.

Visitante

FHC, safado, traidor e demagogo !!!

Visitante

Verdade.

C.Poivre
Visitante

Sem Itamar, fhc jamais teria sido presidente e o Brasil certamente estaria melhor hoje.

Visitante

E vcs na do Brasil decente e honesto. Viva FHC!!!

Zenio Silva
Visitante

Esse fhc é um pústula, não vale nada! Seu único mérito será exatamente esse de deixar para a posteridade, nesses diários, as provas dá sua desfaçatez e vilania…

Luiz Carlos P. Oliveira
Visitante

FHC surrupiou o titulo de pai do plano real. O verdadeiro pai é o ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero. O velho gagá gosta de ser o pai de tudo. No máximo ele é pai da privataria.

Zenio Silva
Visitante

Ele, fhc, diz que foi o serra!!!
Esse cretino nem do filho da miriam Dutra é pai! Passaram a maior manda no metido a bom de sela…

Assis H Sousa
Visitante

Como sempre, é cada um puxando brasa para sua sardinha, inclusive a colunista!

Visitante

FHC tucano golpista safado.

marco
Visitante

Desse,eu nunca tive qualquer ilusão,desde que lendo sua tese de doutorado,com foco no NEGRO NO SUL DO BRASIL, e deparei na obra,uma semelhança muito grande,com as opiniões que August de Sant Hilaire tinha, sobre o assunto.Confesso que não li muito ao respeito do francês,mas sempre achei que o tal fidalgo ,no mínimo copiou algo.

Visitante

revoltante

Celso N
Visitante

Excelente artigo…O caráter é uma qualidade que vem de berço, pelo menos foi assim que aprendi com o meu saudoso PAI.

Visitante

Pelos atos se conhece o cabra é bastante dois para definir FHC, sentar na cadeira de prefeito, aí o Jânio teve que mandar desinfetar, e usurpar a autoria do Real, que foi de Itamar e do ministro Ciro Gomes.

Antonio Bernardes
Visitante

Muito bom!

JoãoP
Visitante

Como é bom ler um texto de uma Jornalista verdadeira, além de ficar bem informado, temos um grande prazer. Quanto ao entreguista, metido a rei da cocada preta, nem vou perder meu tempo. Ele sempre esteve do lado dos vira latas que sabotam a luta de muitos para transformar o Brasil em um país mais justo e mais humano.

Visitante

Não! Quem criou o plano real foi o Lula…

antonio
Visitante

òtimo artigo. Concordo com a colunista: qualquer desvaneio vindo de FHC não é mais surpresa. É da sua natureza.

Visitante

DESSE SR. FERNANDO BEIRA MAR OU DESCULPEM-ME HENRIQUE PODE-SE ESPERAR TUDO INCLUSIVE INGRATIDÃO…

Sergio
Visitante

Esse FHC é mesmo um canalha.
Se diz intelectual, mas não passa de um metecapto vaidoso

Visitante

Eles são especialistas em se adonar das obras dos outros. Com fhc ou sem ele o Real ia ser lançado em 1994. Agora a mesma trupe quer se adonar da transposição.

Maria Aparecida Lacerda Jubé
Visitante

FHC o ser humano mais asqueroso que existe.

eunice
Visitante

FHC em seu devido lugar. Usurpador.
Belo Texto. As perninhas cruzadas dele nunca me enganaram. Por cima Ui por baixo Fuiiii.!

Visitante

O príncipe da privataria odeia o Itamar por causa desta entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=uZjIoaWfU1I

Visitante

FHC criado pela mídia golpista

Luiz Hespanha
Visitante

Poucas vezes li um texto que demonstrasse tão claramente a estatura política e humana de FHC.

Visitante

Pode estar certa, o Itamar passou sim pela história, principalmente nós mineiros sabemos disso, agora o queridinho dá mídia podre esses arremedos de gente estão no esgoto.FHC, não passa de um decrépito, fanfarrão, ladrão é imoral, esgoto para ele é por demais, já que o mesmo, tem função, ele não tem nenhuma.

Visitante

Criador do Vale Gás.
Único mérito social

Visitante

ITAMAR O CRIADOR DO PLANO REAL. E SEUS MINISTROS CIRO GOMES E RUBENS RICUPERO .!!

Visitante

QUANTO MAIS VIVO ,NESTA NEO COLÔNIA , MAIS ELITES POLÍTICAS POLÍTICOS IDIOTAS VEM NA MEMÓRIA PASSADAS E NO PRESENTE E FUTURO, . UM PAÍS, NEO COLÔNIA DOS FUTUROS DOS POLÍTICOS DE COR BRANCAS E ARIANOS, DOS 1% DA POPULAÇÃO ,QUE TEM DINHEIRO, PODER ECONÔMICO, E APLICAM EM PARAÍSOS FISCAIS ,PRA O BEM DO PAÍS?/

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