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quarta-feira

14

junho 2017

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Não é só no Brasil: a vitória de Corbyn contra a mídia

Escrito por , Postado em Mariana T Noviello, Redação



Foto: reprodução/Twitter

A capa do jornal “Sun” dizia tudo: um desenho de Jeremy Corbyn dentro de uma lata de lixo (‘bin’ no inglês quer dizer lixo) com a manchete: Não joguem o Reino Unido no “Cor-Bin” (no lixo de Corbyn).

Ao lado da imagem, 10 motivos para não votar no Trabalhista, entre eles:
• Amigo de terroristas;
• Não saberá negociar o Brexit;
• Destruidor de empregos;
• Inimigo das empresas;
• Impostos absurdos;
• Marionete dos sindicatos;
• Marxista extremista.

O “Sun”, jornal popular e sensacionalista, tem o maior número de leitores no país, se não levarmos em conta o “Daily Mail”, que ganha em popularidade online.

E a cobertura do “Daily Mail” não foi mais simpática a Corbyn, que o descreveu como ‘perigoso’ por suas ideias ‘comunistas’ e sua afinidade com ‘terroristas’.

Pacifista notório, Corbyn sempre buscou a negociação como forma válida para a resolução de conflitos, mantendo contatos com chamados extremistas, como os líderes do partido republicano da Irlanda do Norte, Sinn Fein, ligado ao antigo IRA, e vários grupos e governos do Oriente Médio, como o Irã, malvistos no Reino Unido.

A mídia usou seu pacifismo, algo que muitos poderiam considerar louvável, para criar polêmica. Entrevistadores passaram horas tentando fazer Corbyn confessar que ele jamais seria capaz de apertar o botão que lançaria um míssil nuclear contra um inimigo britânico.

Assim sendo, ele seria um ‘risco’, caso fosse eleito primeiro-ministro. Ninguém, nem a BBC, questionou uma única vez se atitudes pacíficas e negociadoras, como as de Corbyn, pudessem ser uma maneira eficaz e duradoura para garantir a paz mundial.

O Reino Unido e o Brasil são países um tanto diferentes. Porém, se uma coisa os une, é a falta de diversidade da imprensa. Com exceção talvez do Guardian, ela é propriedade de uns poucos magnatas, Rupert Murdoch (dono do The Times e do Sun, acionista da Sky e dono da Fox nos Estados Unidos), talvez o mais conhecido.

O ex-líder trabalhista, Neil Kinnock, sentiu na pele o que é não ter a imprensa do seu lado. A manchete do Sun no dia antes das eleições gerais de 1992 dizia: “O último a sair (do país), apague as luzes”, dando aos Conservadores a vitória mais uma vez. No dia seguinte ainda salientou “Foi o Sun que ganhou as eleições” (It was the Sun wot won it).

Tony Blair, não teve dúvidas, passou toda a carreira política tentando agradar os donos e editores destes jornais.
Rupert Murdoch deu seu aval a Blair, mas mudou de lado, preferindo David Cameron (Conservative) a Gordon Brown (Labour), apesar dos rumores de que Brown também tentasse seduzir o magnata.

Assim, surgiu o consenso: “Só é possível ganhar as eleições pelo centro, nunca pela esquerda”.

Em contrapartida, Corbyn, não conseguia esconder seu desgosto pela mídia. Nas primeiras entrevistas que deu como líder já entrava na defensiva, chegando até a passar a ideia de mal-humorado e antipático.

Corbyn tinha o apoio das bases do partido, mas contrariava muitos dos grandes nomes e parlamentares Trabalhistas.

Seu desempenho midiático inicial era tão ruim que o partido usava outros porta-vozes para falar com a mídia, enquanto Corbyn era escalado para os comícios políticos.

Da base, Corbyn recebeu o endosso do recém-formado movimento ‘Momentum’, que, além de estar presente nos comícios, levava a mensagem do partido para as redes sociais.

Quando May anunciou as eleições, esperava-se que Corbyn seria rejeitado pelo eleitorado em geral. Era dado como certo a vitória da Conservadora, que estava 20 pontos na frente nas pesquisas.

Só as bocas de urna puderam prever que May não teria a maioria necessária no Parlamento, apesar do detectável crescimento de Corbyn.

O que aconteceu? Como é que Corbyn se transformou de sapo em príncipe da política britânica? O que levou a vitória contra a mídia tradicional?
Há várias explicações:

O Fator Jovem

O Partido Trabalhista ganhou em cidades e distritos com maior concentração de jovens, principalmente, nas cidades universitárias.

No Reino Unido, onde o voto é facultativo, parece que os jovens finalmente resolveram participar da política.

Os Conservadores sempre souberam que seu eleitorado, além de mais tradicional e ‘conservador’, é também mais velho, focando-se, portanto, em políticas para esta faixa etária. Até esta eleição, apesar de promoverem cortes generalizados, eles preservaram as aposentadorias da população idosa.

No Reino Unido de hoje, os jovens têm uma rede muito menor de segurança social; entram num mercado de trabalho mais precário, terceirizado e sem proteções; não serão mais ricos que seus pais; pagam pelo ensino superior, coisa que seus pais não fizeram, e têm menos possibilidade de comprar uma casa própria ou até de pagar um aluguel decente.

Isto é, eles sentem os efeitos da transformação que reduziu um estado de bem-estar social sofisticado em um regime neoliberal.

Os jovens também serão lesados pelo Brexit, não poderão usufruir dos benefícios que a UE traz, como viver e trabalhar em outros países, trocas culturais, educacionais, produtos mais baratos, além da proteção do meio ambiente e direitos humanos e trabalhistas que estão em risco sob um governo Conservador.

O Fator Brexit

O Brexit dividiu o país entre jovens e velhos, ricos e pobres, norte e sul, níveis de escolaridade e classe. Gráficos mostram claramente que maior o nível de escolaridade, mais alta a classe e mais jovem, mais o eleitor é a favor de ficar na União Europeia.

Uma vez ganho o referendo, o partido UKIP, cujo principal objetivo era o Brexit, se tornou irrelevante. Esperava-se que os seus votos iriam para os Conservadores. Isso não aconteceu.

May fez uma grande campanha a favor do chamado “Hard Brexit”, clamando a saída do Reino Unido não só da EU, mas também do Mercado Comum e da União Aduaneira, escolhendo restringir a imigração em detrimento da economia do país, alienando seus eleitores tradicionais.

Isso favoreceu os Trabalhistas. Para não perder eleitores, o partido aceitou o Brexit, na sua versão ‘soft’ (conciliadora). Com isso, conseguiram tanto manter o eleitorado de classe trabalhadora, como atrair os “anti-Brexit” metropolitanos.

Os votos oscilaram 8% contra os Conservadores nos distritos onde o sentimento anti-Brexit é alto.

Voto Estratégico

Há muito se fala em voto estratégico – contra os Conservadores que nas últimas eleições só ganharam 37% do total de votos, mas mesmo assim ganharam a maioria dos assentos no Parlamento, formando o Governo.

Durante as eleições, algumas organizações anti-Brexit aconselharam os eleitores a votar estrategicamente, informando em qual partido votar em que distritos.

Com o maior número de eleitores jovens, parece que pela primeira vez o voto estratégico deu certo. Os Conservadores perderam assentos em distritos tradicionalmente seus, em Londres, nas grandes metrópoles e nas cidades universitárias. Todas as grandes cidades inglesas ficaram nas mãos Trabalhistas.

Desta maneira, tanto os Liberais Democratas (apesar de aumentar o número de assentos) como os Verdes viram a proporção de votos reduzir, já que parte deste eleitorado preferiu derrotar os Conservadores sem dividir os votos da oposição. O maior ganhador desta estratégia foi, sem dúvida, o Partido Trabalhista.

Fator Independência na Escócia:

Fator a favor dos Conservadores. A Escócia tinha votado majoritariamente contra o Brexit. E em 2014, no referendo sobre a independência da Escócia do Reino Unido, os “unionistas” ganharam por pouco (55%). Nas eleições gerais de 2015, os Nacionalistas Escoceses (SNP) foram eleitos na maioria dos distritos escoceses, consolidando sua posição e acabando com a primazia dos Trabalhistas na Escócia.

Durante as eleições deste ano (2017) a presidente do SNP, Nicola Sturgeon, resolveu apostar alto, reivindicando novo referendo de independência para manter a Escócia na UE. Os escoceses unionistas apostaram no Partido Conservador e sua líder carismática, Ruth Davidson, para ficar no Reino Unido. Assim, o partido ganhou 13 assentos, enquanto Labour e os LibDems também conseguiram retomar alguns distritos do SNP.

Foram justamente estes assentos escoceses que ‘salvaram’ o Partido Conservador de uma derrota maior nestas eleições.

Fator JAM e Programas de Governo

Não há dúvida que o programa de governo dos Trabalhistas se revelou atrativo.

O Brexit abalou o cenário político Britânico. Começou-se a falar dos ‘left behind’ (deixados de lado), pessoas que claramente não se beneficiaram da prosperidade que o país experimentou com o neoliberalismo, confundido também com o período de pertencimento a (e crescimento da) União Europeia (ironicamente mais neoliberal, em grande parte pela influência britânica).

Teria sido irônico se o nordeste britânico e outras velhas áreas industriais, vítimas de continuadas políticas neoliberais, tivessem votado em May, quando pela primeira vez em anos o Partido Trabalhista claramente trazia políticas para lidar com a desigualdade em suas várias formas.

Entre elas:
• aumento de impostos para os indivíduos mais ricos e grandes empresas, incluindo serviços financeiros;
• nacionalização dos serviços públicos como água e transportes;
• valorização dos serviços públicos (saúde, educação, sistema social) com mais investimentos e aumento de salário para os servidores públicos;
universidade e creche grátis;
• criação de um banco de investimento (não há um equivalente ao BNDES aqui) e uma política industrial; e
• construção de pelo menos 100,000 moradias sociais por ano.

Mas não só os Trabalhistas visavam este eleitorado.

O maior erro de May talvez tenha sido querer atrair os ‘left behind’, economicamente de esquerda, mas socialmente conservadores, com o ‘hard Brexit’ (já que a grande preocupação deste eleitorado é o trabalho ‘roubado’ pelos imigrantes europeus). May renomeou este grupo de ‘JAM’ – Just About Managing (apenas sobrevivendo).

O programa de Governo de May resolveu atrair os JAM, tirando de outros grupos. Propôs a diluição da política de proteção da aposentadoria, que não afetava os chamados ‘JAM’, mas a classe média, mais abastada.

Pegou muito mal. May começou a ser vista como ‘maldosa’ – cortando os direitos dos mais velhos, além dos benefícios dos mais jovens.

Já, para Corbyn, não poderia ter sido melhor. Defendia um programa de governo no qual acreditava, diferentemente do referendo (era notória sua posição contra a União Europeia). Sua paixão e sinceridade transpareceram e, apesar das críticas ferrenhas que recebia da mídia tradicional, começou a ser bem recebido.

Claro está que o grande exército de militantes (Momentum conta com 24,000 ativistas e o Labour Party é hoje o maior partido de esquerda da Europa com mais de meio milhão de membros) ajudou, principalmente nas redes sociais, onde o maior número de compartilhamentos e tweets foi a favor dos Trabalhistas.

O “Daily Mail” até reclamou da ‘cobertura enviesada da BBC’ pelos aplausos que Corbyn recebia da plateia e pela ‘dureza’ de seus entrevistadores. Fato é que Corbyn passava impressão de confiança.

Talvez tudo isso tenha acontecido tarde demais. Com algumas semanas a mais, quem sabe, Corbyn poderia ter ganho as eleições.

Porém, depois da ‘guerra civil’ os Trabalhistas se uniram e são os Conservadores que estão em apuros. May teve que postergar o anúncio da Rainha, que reabre o novo governo.

Estão já proclamando a morte política de May. Os Conservadores terão que recuar em relação ao ‘hard brexit’ e ensaiam o ‘fim da austeridade’.

É também irônico que a mídia tenha passado toda a campanha dizendo que Corbyn era ‘amigo dos terroristas’, quando é May que fará aliança com o DUP (Democratic Unionist Party) – partido ligado aos movimentos armados protestantes da Irlanda do Norte.

John Major, o ex-Premier Conservador que ajudou a acabar com o conflito que durou 30 anos, advertiu que uma aliança com o DUP poderia abalar a paz na Irlanda do Norte.

Mas a mídia não se deu por vencida e continuará atacando e é importante lembrar também que apesar de ter ganho nos distritos industriais, o voto Trabalhista caiu nestas regiões.

Com as eleições, Corbyn ganhou a confiança do partido inteiro. Neste momento de incerteza política, a boa atuação de Corbyn e da esquerda poderá trazer resultados. Ele já conseguiu mudar os termos do debate. Esperemos que a boa performance de Corbyn se traduza também para o Parlamento.

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5 Comentários em "Não é só no Brasil: a vitória de Corbyn contra a mídia"

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… A esquerda está sendo rechaçada no mundo inteiro. Já mostraram o que são, o que fazem e como fazem. São ineptos, corruptos e entregam seus países aos estrangeiros, em especial os muçulmanos. A esquerda tem de ser combatida.

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Sun e’ a propria lata de lixo.

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Corbyn é o máximo.

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Aki no Brasil a rede golpista não citava o nome de Jeremy Corbyn de jeito nenhum , dizem sempre ” o candidato do partido trabalhista ” … grata O Cafézinho ☕ por nos atualizar e contextualizar os acontecimentos na terra da rainha , neste mundo globalizado saber o que anda rolando pelo mundo faz toda diferença

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Lula elogiou Hitler?! 😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂😂! Como vocês Bolsominios são Zumbis! Tatua na testa: “Sou um Zumbi Violento cuidado que eu Mordo!”

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