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Um faxinal no céu e o desmonte da escola pública no Paraná

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Protesto e repressão aos professores do Paraná no dia 29/04/2015

Foto: Orlando Kissner/Fotos Públicas

Por Luiz Francisco Guil, escritor e jornalista

Sob o aspecto estético, o pior da política de direita não é a corrupção, o acúmulo de fortunas e o entreguismo das riquezas nacionais a grupos estrangeiros. Nem mesmo são os sprays de pimenta, as balas de borracha, os incêndios na Cracolândia e nos prédios ociosos ocupados por famílias carentes. O que conta aqui é a previsibilidade de uma obra kitsch! Ainda que se esforcem, eles não conseguem nos surpreender! O que vem ocorrendo no Paraná é exemplo.

Voltemos ao tempo em que este Estado era governado pelo arquiteto Jaime Lerner (DEM). Em 1994 ele levantou sua plataforma de campanha circulando pelas universidades, arrebanhando o apoio de professores e estudantes. Era comemorado como candidato progressista, que traria ao Paraná os padrões europeus de ensino e a alta tecnologia.

Após eleito, uma das primeiras iniciativas de Lerner foi anular o que poderia ser o maior problema de seu governo. Sabia da dificuldade que um certo Álvaro Dias encontrara para eleger-se senador após, no papel de governador, jogar os cavalos sobre os professores. Lerner instalou um prodígio da modernidade nos sertões de Guarapuava, com o portentoso título de “Faxinal do Céu – Universidade do Professor”. E um slogan ainda mais requintado: “Centro de Estudos Avançados”.

Toda semana ônibus lotados de professores de todos os cantos do Paraná dirigiam-se àquele local e permaneciam uma semana assistindo a palestras, shows musicais e filmes.

Era nesse paraíso bucólico que Lerner juntava as laranjas e espremia-as todas de uma vez, para que nenhuma delas o incomodasse.

— Como assim? — dirão meus amigos professores. — Aquilo era uma maravilha!

— Sim, uma maravilha! — responderei. — Estive lá e vi a maravilha que era!

Em 1997 recebi um telefonema de Renato França, coordenador do projeto Faxinal do Céu.

— Quero falar com o Luiz Francisco — disse.

— É ele.

— Ah, meu amigo! — sussurrou Renato, todo contente. — Eu tinha certeza de que a gente ainda ia fazer alguma coisa juntos.

Imaginei que o sujeito me conhecia pelos torpedos que vez por outra eu disparava nos jornais de Guarapuava contra a aborrecida gestão pública municipal.

— Pois não! E o que seria?

— Nós somos muito parecidos — continuou meu interlocutor, passando a um comovente relato sobre os homens que cultivam a liberdade acima de todas as coisas. — Também sou um homem livre, como você — disse, e repetiu a frase seguidas vezes.

Era estranho, mas admirei a atitude, pois chamava-me “amigo” sem nunca ter-me visto. E convidou-me a visitar o Faxinal do Céu, onde me seria feita uma oferta de emprego.

Curioso que sou, e desempregado que estava, aceitei.

RETRATOS DA VIDA

Fiz uma viagem tranqüila até a cidade de Pinhão, distante 50 km de Guarapuava. A estrada seguiu pelo meio de uma floresta, num trecho de 20 quilômetros. Viva alma, só a dos pássaros que sobrevoavam a rodovia. Tufos de hortênsias e azaléias margeavam a alameda que dava entrada a uma grande clareira incrustada no meio da floresta. Alguns hectares de grama, cortados por um córrego de água cristalina. Também participavam da cena vários edifícios baixos e casas coloridas.

Havia marcado o encontro com França na entrada do anfiteatro, um edifício amplo no centro da clareira. Estava uma hora adiantado para o encontro, e ao ouvir o barulho que saía de lá dentro decidi entrar.

Enquanto um carioca boa prosa deslocava-se no corredor central do salão, microfone em punho, citando conceitos deslumbrantes para uma enorme platéia, um telão instalado no palco mostrava cenas silenciosas da obra-prima de Claude Lelouch. Sobre o tablado redondo um bailarino russo dançava aquele velho Bolero de Ravel.

Ao final do discurso, entre palmas e assobios que não se acabavam, o telão passou a apresentar o final do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, cena em que os alunos sobem nas carteiras para homenagear o professor injustiçado. No momento em que este saía da sala, sua imagem foi congelada e o carioca, estrategicamente localizado no meio da platéia, subiu numa cadeira e proclamou:

— Agora eu quero subir na carteira, meus amigos professores, em homenagem a vocês.

Levantou os braços e, sob suspiros dos ouvintes, proclamou mais uma dúzia de frases importadas da nova enciclopédia filosófica européia. Os professores deliravam. O anfiteatro quase ruiu com palmas, assobios e gritos. Diante daquela cena não restava aos professores senão ficar em pé, aplaudir e assobiar, como adolescentes num show de rock. Enquanto, do alto da sua cadeira, lenço na mão, o palestrante desfazia-se em lágrimas!

A ONDA

Ainda com a fome da viagem querendo sair pela boca do estômago, fui a uma lanchonete a cem metros dali. Sentados ao balcão havia meia dúzia de homens com aspecto de lavradores. Bebericavam, já com os olhos nublados pela cachaça. As máquinas de tosar grama encostadas na parede da lanchonete indicavam a função daqueles homens. Perguntei a um deles o que havia antes no local. Informou que vigorava um faxinal. A companhia de energia elétrica (Copel) comprara o terreno e construíra o casario, destinado aos operários construtores da hidrelétrica de Foz do Areia, no rio Iguaçu.

— Você sabe o que todo esse pessoal vem fazer aí? — indaguei, apontando o anfiteatro.

— Não faço idéia.

Com a barriga cheia de x-salada e refrigerante, retornei à entrada do anfiteatro, onde encontrei meu livre amigo. Era um homem de setenta anos, que viajara mundo como eu!

Ele não sabia que minha única viagem internacional fora poucos metros além da Ponte da Amizade em busca de um vídeo-cassete japonês. Em compensação, França sabia o nome da minha esposa, o nome e a idade da minha filha e o nome da minha mãe! Sabia que minha mãe havia sido operada da vesícula naqueles dias!

— Você deve ser da CIA — falei. Ele riu miúdo, como querendo dizer, “nós somos mesmo poderosos!”.

— Puxa vida — pensei. — Cá está um homem bem informado. Com certeza conhece também a cor do meu sangue e o valor da minha alma. Nada mais necessito dizer, pois ele sabe o que sou capaz de fazer.

Em seguida me falou das maravilhas do Faxinal do Céu, das atividades que desenvolviam. Num dado momento perguntei se ele sabia o que era o sistema faxinal (1).

Confessou que não sabia! Eu devia ter desconfiado. Um homem que coordena o Faxinal do Céu e não sabe o que é o sistema faxinal, não pode ser confiável! Mas ele estava tão animado em me provar o quanto era saudável o que faziam ali, enquanto reafirmava que era parecido comigo, e que era livre, e etc, que sequer lembrei de inverter o raciocínio para ver o que existia de real em suas palavras.

Depois de me passar sua doutrina solene, começou a falar da minha tarefa. Surpreendente, sedutora. Eu deveria circular pelo Faxinal, me enfronhar nos diálogos, observar os fatos e relatar tudo que fosse captado. Analisaria as reações dos visitantes durante as atividades, comentaria suas manifestações. Esses dados seriam escritos em forma de relatórios diários e entregues a França.

— As coisas aqui acontecem em ondas — explicou, compondo com os braços um grande gesto ondulante. — Toda semana é uma onda. Não sei se você me entende… eu quero descobrir como é que essas ondas começam. Onde elas começam. Quem dá o impulso inicial. Entende?

— Entendo…

— Você tem que ter muita sensibilidade para perceber isso. É um trabalho difícil. Não estou dando conta sozinho, por isso chamei você.

Nesse momento notei que seus olhos eram fundos, com olheiras. Estava mesmo cansado. Comecei a pensar que era realmente difícil buscar a verdade. E quem a encontrava, como ela o maltratava!

Para certificar-se de que eu estava preparado para aquele trabalho difícil, entregou-me papel e caneta e sugeriu que assistisse ao restante das palestras daquela tarde.

— Escreva tudo que você observar — instruiu. — Tente captar cada movimento.

Depois dessas palavras, minha curiosidade e vontade em colaborar estavam acesas. Encontrei uma carteira vaga no meio da platéia, sentei, observei e escrevi. Cada palestrante deixava transparecer seu bocado de dúvidas. Escrevi sobre as maneiras como seus medos se manifestavam. Cada integrante da platéia tinha uma reação diferente diante de cada conceito emitido pelos palestrantes. Descrevi essas imagens, exatamente como as via: pessoas em busca do céu, e isso nem sempre é coisa boa de se ver.

Já era noitinha quando uma música final de filme começou a tocar alto, enquanto o próprio França terminava um discurso inflamado. Depois da última palavra os professores aplaudiram de pé, ovacionando o orador.

Durante a saída dos professores vi centenas de rostos iluminados. Grandes eram as perspectivas da nova era que se iniciava. O mundo era bom. A vida era nova. Admirável Mundo Novo!

— Que sentirão eles quando colocarem novamente os pés no chão? — comentei ao final do meu relatório.

Entreguei-o a França e falei que eles não deveriam provocar aquelas manifestações de fanatismo.

— Se não tomarem cuidado, vão transformar isto daqui numa igreja — disse, e ele, sensato, concordou.

França nunca mais me telefonou. E Jaime Lerner gastou seus 8 anos de mandato (1995 – 2002) levando os professores ao Céu do Faxinal e negando-lhes sumariamente a reposição salarial. Foi a maior perda de salário real da história recente do Estado do Paraná.

Ver o circo armado naquele falso Faxinal seria possível para quem estivesse mais ou menos despregado das regras, ou livre o bastante para analisar sem susto novidades daquela espécie. Mas os professores pareciam ter poucas referências para visualizar a fronteira entre o real e o teatro. Plenos de boa vontade, sedentos de conhecimento, pareciam não perceber essa condição complexa, que alguns jovens denominam “cabeça feita”. Numa rápida passada de olhos, o que vi foi um processo de doutrinação ideológica das mais incisivas: o espetáculo que preenche vazios e cancela a necessidade de ação. Abrandados com aquelas e outras ainda mais espetaculares atividades lúdicas (shows de artistas renomados, por exemplo), gratuitamente oferecidas, que outro impulso levaria os mestres a expor suas reivindicações, a lutar por seus direitos? Os professores estão em busca de sonhos, obviamente. Mas fragilizados por múltiplas inseguranças, principalmente pelo pé de apoio econômico, que se encontra quebrado, tornava-se fácil vender-lhes sonhos grandiosos e vazios. Se a intenção daquele Centro de Estudos Avançados era boa, seria correto compensar o tesão do espetáculo com a apresentação de ferramentas adequadas para a concretização do gozo!

US$ MILHÕES ANUAIS

Após o término do contrato com a equipe de Renato França, outra empresa ganhou um processo de licitação, com o objetivo de dar prosseguimento ao projeto do Faxinal do Céu. Da mesma forma que a equipe de França, esta também era especializada em desenvolver o dinamismo de líderes empresariais, preparando-os para navegar no barco da globalização — esta nova religião, que colocou definitivamente os ricos no céu, os remediados no purgatório e os pobres no inferno. Não soa estranho que esse tipo de empresa tenha sido contratada para ditar as novas regras do mundo, justamente para aqueles que estavam encarregados de ensinar crianças e adolescentes? Os investimentos do projeto, anualmente, ultrapassavam os quatro milhões de dólares. Ao pesquisar esses valores, lembrei-me de França dizendo, na animação da nossa conversa, que estava “construindo um sobrado em Fortaleza”.

O projeto teve continuidade no Governo Requião (PMDB), mas foi desativado no governo Beto Richa (PSDB), em 2011. Nos 8 anos do governo Requião houve algumas queixas dos professores, mas nada comparado aos horrores promovidos por Dias, Lerner e Richa. O massacre registrado no trágico 29 de abril de 2015 é somente a ponta de um imenso iceberg chamado “desmonte das escolas públicas do Paraná”. Nossos professores vivem em constante estado de ameaças e terror, concretizado por práticas ditatoriais — avalizadas por uma Assembleia absolutamente omissa — que a cada semana retiram mais direitos. Beto Richa gasta fortunas divulgando belíssimas peças publicitárias na TV, elogiosas a um governo feito de números e livre de projetos sociais. Numa das últimas ele mostra uma flagrante tentativa de doutrinar pais de alunos contra a classe docente. Essa propaganda massiva já vem provocando histeria coletiva do empresariado a favor do governador.

Numa pequena metrópole do Oeste do Paraná, a Associação Comercial local enviou recentemente uma carta solicitando ao governo estadual que não reajuste o salário dos professores. Esses empresários parecem ignorar que o salário docente deságua mensalmente em suas lojas!

Lembremos sempre do DEM e do PSDB, partidos que humilharam, maltrataram e empobreceram os professores do Parará. Uma análise dos números do governo Richa aponta para a retirada progressiva dos direitos dos professores e a precarização de suas vidas. Álvaro Dias, Jaime Lerner e Beto Richa são os carrascos dos professores paranaenses. Isso deve ser bem lembrado nas urnas em 2018!

Também lembremos que Dias encontra-se hoje bem refugiado no PV, que tempos atrás fingia ser um partido de esquerda! Quanto a Requião, permanece à esquerda do PMDB, porém jamais cederá à tentação de filiar-se num verdadeiro partido de esquerda.

Tem muitos compadres e parceiros na ala direita de todas as cidades paranaenses.

(1) O verdadeiro faxinal

O sistema faxinal foi trazido ao Sul do Brasil pelos imigrantes europeus. Trata-se de um modo de vivência e de produção singular, existente ainda em algumas localidades da Suíça. No Paraná, encontra-se em plena degradação por falta de apoio econômico e político. O usufruto da terra dentro do faxinal é direito de todos. Trata-se, portanto, de um discreto e eficiente sistema socialista. Mesmo o indivíduo “sem terra” continua exercendo sua cidadania dentro dessas comunidades. Vai à igreja, participa de eventos sociais, visita os amigos, continua sendo gente! Mantém seu status dentro da comunidade e é igualmente considerado por todos. Essas pessoas vivem em reservas ecológicas que elas próprias preservam. Criaram um sistema auto-sustentado, que, por ser baseado no costume, na lealdade e nas transações à base do fio de bigode, acabou sendo abalado pela incompetência da Lei Brasileira. Com a degradação do sistema, patrocinada pela política agrícola nacional, tem sobrado àquelas pessoas a alternativa de migrar para as periferias da cidade. Onde floresciam comunidades felizes, povos repletos de uma alegria contagiante, com suas tradições em festas, danças e artesanato, agora tem lavouras de soja. Os fazendeiros passam montados em 4 x 4 para ver suas extensas fazendas, onde não vinga nenhuma árvore. Nenhum bicho! Os poucos faxinais remanescentes sobrevivem graças ao trabalho heroico de pequenos agricultores.

Luis Edmundo

editor associado em O Cafezinho
Luis Edmundo Araujo é jornalista e mora no Rio de Janeiro desde que nasceu, em 1972. Foi repórter do jornal O Fluminense, do Jornal do Brasil e das finadas revistas Incrível e Istoé Gente. No Jornal do Commercio, foi editor por 11 anos, até o fim do jornal, em maio de 2016.

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