O Cafezinho http://www.ocafezinho.com Análise Política por Miguel do Rosário Wed, 19 Jun 2013 22:12:22 +0000 pt-BR hourly 1 http://wordpress.org/?v=3.5.1 Um discurso para Dilma http://www.ocafezinho.com/2013/06/19/um-discurso-para-dilma/ http://www.ocafezinho.com/2013/06/19/um-discurso-para-dilma/#comments Wed, 19 Jun 2013 22:12:22 +0000 Miguel do Rosário http://www.ocafezinho.com/?p=11896 Nilson Rodrigues, um amigo de Brasília, sugere que Dilma Rousseff faça o seguinte discurso à nação.]]> Nilson Rodrigues, um amigo de Brasília, sugere que Dilma Rousseff faça o seguinte discurso à nação:

“Querido povo brasileiro, comecei minha militância política aos 16 anos de idade, lutando contra a ditadura militar e pelas reformas de base no Brasil nos anos de 1960.

Enfrentei a ditadura com todas as forças e paguei um preço elevado, o cerceamento da minha liberdade em anos de prisão nos cárceres da ditadura, e sessões de tortura física e psicológica.

Sei bem as motivações que levam os jovens indignados com as desigualdades às ruas para pressionar os poderes públicos, exigindo melhores condições de vida para os brasileiros e transformações nas instituições públicas e privadas. Os mesmos anseios me levaram à militância política em minha juventude, e a minha trajetória, somada aos compromissos que assumi com o povo brasileiro, me tornaram presidenta da república.

Jamais me esquecerei dos princípios que nortearam a minha militância. As reinvidicações apresentadas pelos centenas de milhares de manifestantes, Brasil à fora, são justas e merecem de todos os governantes e dos poderes executivos, judiciário e legislativo, não só a compreensão do direito dos brasileiros de se manifestar, mas muito mais que isso. Merecem ações dos três poderes para responder às justas demandas que vem das ruas. Muitas vezes, os poderes se distanciam do povo e são essas manifestações que fazem com que os dirigentes, aqueles que tem sensibilidade e audição para os gritos das ruas, tomarem as decisões de interesse maior do seu povo.

Portanto, emocionada com as enormes manifestações que ocupam ruas e praças no Brasil, dirijo-me ao povo brasileiro, para expressar a minha alegria e ao mesmo tempo comunicar as decisões que tomei:

1 – Convoco imediatamente todos os prefeitos de capitais e cidades acima de 200 mil habitantes para uma reunião emergencial no palácio do planalto, onde apresentarei o Projeto de Lei que enviarei ao Congresso Nacional para criação de uma Agência Nacional de Mobilidade Urbana, que deverá elaborar um plano estratégico para uniformizar o atendimento de transporte coletivo em todo país, buscando baratear os preços das passagens e dar qualidade aos serviços prestados aos usuários deste transporte. Mesmo sabendo que o transporte coletivo é gerido pelas prefeituras e também pelos governos estaduais, como presidenta deste país e responsável maior pelo bem estar do nosso povo, não posso me furtar à responsabilidade de apresentar propostas urgentes à esta justa reinvidicação. Percebo agora com clareza, que de fato são inaceitáveis as condições a que são submetidos os brasileiros das grandes cidades no uso do transporte urbano, seja metrô, ônibus e trens. As passagens são caras, consumindo boa parte da renda desses trabalhadores. E são desrespeitados, quer seja pela má qualidade dos equipamentos, quer seja pela insalubridade, falta de pontualidade, desconforto. Muitos gastam horas e horas para chegar a seu local de trabalho.

2 – Darei um prazo de seis meses, tratando o tema como prioridade absoluta, para que tenhamos um preço de passagem que não ultrapasse mais de 3% da renda mínima do povo brasileiro, e que se inicie, em todo país, novas licitações, em moldes mais republicanos, para que a política de transportes atenda principalmente os usuários e não os empresários do setor.

3 – Todos os impostos federais que incidem sobre o transporte urbano coletivo estão zerados a partir de hoje e peço que prefeitos e governadores façam o mesmo, ação que poderá reduzir já em 30% o preço das passagens. Sabemos que o transporte coletivo é altamente lucrativo, pois do contrário empresários do ramo, a partir da exploração deste setor, não teriam montado empresas aéreas. O problema da cartelização também é muito grave, sobretudo porque essas organizações agem associadas a dirigentes governamentais.

4 – Entre as várias reinvidicações estampadas nos cartazes, duas me chamaram a atenção: uma é “desculpe o transtorno, estamos mudando o Brasil”; outra é “queremos hospitais públicos padrão Fifa”. É verdade que muitas mudanças se processaram nestes 12 anos à frente do governo federal, mas o povo brasileiro, com razão, diz que ainda é pouco. Que precisamos avançar mais. Que estão cansados dos políticos, dos partidos, e da falta de prioridades para os temas que mais afetam a vida do brasileiro, como saúde pública.
Observando as demandas principais nestas manifestações, refleti e tomei a decisão de convocar imediatamente o ministro da saúde e os secretários de saúde das capitais e dos grandes municípios para estabelecer o seguinte: em 1 ano teremos que ter funcionando, no Brasil, 100 hospitais públicos padrão Fifa, até chegarmos em 5 anos a 500 hospitais públicos de excelência e qualidade nos padrões mínimos de dignidade e respeito ao cidadão.

5 – Combate incansável à corrupção. É endêmica a corrupção no Brasil. Apesar de todo o esforço das instituições de controle, como Polícia Federal, polícias estaduais, ministério público, CGU, a corrupção espalha-se como praga em todos os estados, municípios e instituições. Lembro porém que a responsabilidade é dos poderes públicos E privados, porque só há corrupção porque há empresários que corrompem e se beneficiam da corrupção. O povo nas ruas percebeu e eu sou solidária a este sentimento de que os instrumentos que temos são insuficientes para combater a praga da corrupção. Convoco todos os dirigentes do poder judiciário, ministério público e legislativo, para apresentar um projeto de lei que apresentarei ao Congresso, instituindo o Conselho Nacional de Combate a Corrupção, onde será criada uma central para receber denúncias via redes sociais. Todos os orçamentos de prefeituras e estados tem que estar na internet em seis meses. No mesmo projeto de lei constará o dever constitucional de governos em todos os níveis de publicarem o orçamento público na internet, atualizado diariamente. E instalar um telão em pelo menos uma praça p[ublica, mostrando os gastos do governo e a relação das empresas ganhadoras das licitações.

6 – Os problemas da educação pública me levam a concluir que os esforços que foram feitos até o momento, de ampliação e democratização das universidades federais, entre outras reformas que fizemos, ainda são insuficientes. Por conta disso, enviarei Projeto de Lei ao Congresso Nacional para federalizar o ensino básico e secundário. As escolas terão padrões de qualidade similares às agências do Banco do brasil espalhadas pelo país. Se temos condições de ter boas agências bancárias públicas, teremos condições de ter boas escolas públicas federais.

7 – A educação pública, porém, não se faz apenas nas escolas. É preciso levá-la para as concessões públicas de rádio e tv. Os meio de comunicação podem ser servir apenas para estimular o consumismo, mas devem ajudar a formar o caráter ético e moral da nação. Por isso, enviarei projeto de lei segundo o qual a publicidade de todos os órgãos de governo apenas serão feitas em programas com finalidade cultural ou educativa. 50% da programação dos canais de TV terão ser programas culturais ou educativos.

8 – Sobre a violência que assombra as cidades, seguiremos aperfeiçoando as nossas políticas de segurança pública, investindo na Polícia Federal, na Força Nacional e no sistema único de segurança. Mas acredito que as medidas sociais e educativas adotadas acima terão um impacto fortemente positivo na segurança pública.

Concluindo: assumo o compromisso com o povo brasileiro que nenhuma dessas ações impedirá o andamento dos programas em curso no país. São ações complementares para darmos um grande salto. Peço a todo povo brasileiro, que continue mobilizado, nas ruas, nas redes sociais, até o momento de implementarmos estas mudanças. Não aceitem as provocações dos vândalos, não aceitem os velhos direitistas, que desejam fazer o Brasil retroceder. Sinto, com alegria profunda no coração, que o apoio de todos vocês permitirá que realizemos ações concretas muito mais ousadas para melhorar a vida de todo o povo brasileiro.

Com amor e esperança, sua presidenta,
Dilma Rousseff, by Nilson Rodrigues, produtor cultural”

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A onça bebeu água http://www.ocafezinho.com/2013/06/18/a-onca-bebeu-agua/ http://www.ocafezinho.com/2013/06/18/a-onca-bebeu-agua/#comments Tue, 18 Jun 2013 15:29:44 +0000 Miguel do Rosário http://www.ocafezinho.com/?p=11885 Foi maior do que todo mundo esperava. ]]> Foi maior do que todo mundo esperava. As manifestações de ontem deixaram a classe política perplexa, a mídia em estado de choque e a sociedade em geral com um brilho nos olhos. Nenhum partido, sindicato ou movimento social saiu lucrando. Testemunhamos aqui um grandioso ensaio do que vimos na Espanha, com os “indignados”, ou talvez algo ainda maior.

Estou em Brasília e abordei alguns jovens, que voltavam do Congresso. Eles disseram que as demandas eram várias. São contra o Estatuto do Nascituro e contra as PECs 33 e 37. Informaram que o movimento era apartidário e que houve vaias sempre que alguém levantava uma bandeira. Neste momento, os próprios jovens se dividiram e dois deles disseram, citando São Paulo, que não viam nada de mais em haver participação de militantes partidários com suas bandeiras.

Acompanhei as manifestações no Rio, através dos relatos de amigos e pela TV. De noite, discuti com meus amigos de Brasília sobre o significado de tudo isso. A gente chegou a um consenso que o dia representou um momento de ruptura histórica. Para o bem ou para o mal. A presidente Dilma e o governo federal agora terão de se mexer.

Parte do que aconteceu é o roteiro de uma crônica anunciada. Antes mesmo da presidenta assumir, alguns cientistas políticos alertavam: as demandas agora serão outras, muito mais complexas, e mais difíceis de serem atendidas.

Outra conclusão nossa é que, se há, de fato, uma despolitização na juventude, este é um vazio que eles mesmos agora estão querendo preencher. A falta de foco das manifestações revela que o jovem quer ser politizado. Ele quer participar.

Alguns erros do governo agora ficaram evidentes. O governo Dilma se acomodou com uma política de comunicação ultraconservadora. As estatísticas de popularidade foram supervalorizadas. As manifestações de ontem bateram pesado também no PT e na presidenta. E como dizíamos no post anterior, não tinha como ser de outra maneira. A espiral do silêncio se ergueu. Trata-se de um fenômeno capaz de engolir as lideranças mais populares. Num momento, elas são aprovadas por um grande número de pessoas, e esse fato faz com que ninguém tenha coragem de expor sua divergência. Mas quando há uma fissura no sistema, quando alguém dá um passo à frente, todos os outros o seguem, e a liderança que pontificava no alto de um pico de aprovação se torna a mais rejeitada de todas.

O que o governo tem a oferecer à juventude? Nada. Não construiu canais de comunicação modernos. A imprensa alternativa, blogs e sites, todos aqueles que sempre defenderam a presidente por ideologia, por convicção política, conscientes dos defeitos terríveis do governo e do PT, mas temerosos da volta de um setor muito mais nocivo ao campo popular, estão debilitados. Até mesmo desgastados, por defender um governo e partidos que se acomodaram. Enquanto isso, a mídia reinou sozinha, difundindo desgraças, potencializando uma insatisfação natural num país ainda cheio de problemas estruturais.

Há um lado negativo em tudo isso: boa parte da indignação difusa da juventude nasce da hegemonia da mídia no debate nacional. Os jovens podem não ler jornais impressos, mas lêem notícias divulgadas pelo Facebook, onde o que predomina, ainda, é o discurso apocalíptico, udenista e antipolítica. Qual a fonte primária de informações  da juventude? Ainda é a velha mídia.

Governos e autoridades sempre tiveram medo da característica anárquica, volúvel e fluida da juventude. Eles querem protestar, mas tem de buscar os slogans de seus gritos de guerra em alguma parte.

Agora a onça bebeu água. O levante da juventude produz uma atmosfera inflamável que pode gerar – gratuitamente – uma crise política, social e econômica.

Os jovens que protestaram não querem ver a sua presidente fazendo propaganda gratuita para a TV Globo, como fez recentemente, ao elogiar o programa Sai de Baixo numa entrevista para Jorge Bastos Moreno, publicada em página inteira no jornal dos Marinho.

Os jovens querem ser seduzidos, conquistados, politizados.

O problema maior de manifestações difusas é que elas degeneram, quase sempre, num discurso udenista, beneficiando o conservadorismo. Mas mesmo isso tem de ser assimilado com inteligência pelo campo popular. O governo federal precisa encampar também o discurso anti-corrupção, criando uma estratégia nacional para ajudar estados e municípios a combaterem essa praga.

Enfim, sei que é fácil falar. Mas essa é a importância das sacudidelas a que manifestações de rua submetem os governantes. Eles têm de trabalhar mais.

Analisando os acontecimentos, Dilma até que deu sorte. Os manifestantes tentaram invadir o Congresso e a sede do governo paulista, mas se mantiveram longe do Palácio do Planalto, por enquanto. Houve palavras de ordem contra o PT e a presidente, mas diluídas em meio à protestos mais gerais, contra tudo e todos.

Sobre o transporte público, eu me lembro de um “escândalo” de um ou dois anos atrás, porque um servidor de um ministério havia dado um parecer desfavorável ao uso de trens de superfície (os VLT) em Cuiabá, e favorecia linhas de ônibus. O ministro, por sua vez, insistiu nos VLTs, conforme orientação do Planalto. A mídia ficou ao lado do lobby dos ônibus. E o governo, sem política de comunicação, jamais entrou nesse debate. Cadê os projetos de VLTs para as grandes cidades?

O jovem tem mais é que ir pra rua mesmo! A política de transporte público nas cidades brasileiras é ridícula. Enquanto a China está sendo cruzada por trens de alta velocidade, e construindo metrôs e VLTs em suas cidades, o Brasil não consegue nem realizar o edital do Trem-Bala. Trem-bala que conta a oposição da mídia, diga-se de passagem, num debate que o governo só perde, sistematicamente, porque a SECOM é aliada da Rede Globo.

Não me espantaria ver manifestações contra o Trem-Bala por causa do uso de “dinheiro público”, e tudo porque não há política de comunicação. Os grandes debates nacionais são pautados pelo sacripanta do Ali Kamel, enquanto a presidenta faz omeletes no programa da Ana Maria Braga.

O projeto do Trem-Bala implicará em transferência de tecnologia e instalação de indústrias de construção de trens, trilhos e equipamentos, a qual será a base para dar suporte aos VLTs (trens de superfície) das cidades brasileiras.

Por outro lado, o jovem precisa entender que manifestações produzem um clima propício para mudanças, mas para que estas se dêem para melhor, o mais importante é o trabalho, o estudo e a criatividade. E tomar decisões. De nada adiantará desqualificar a classe política se não elegermos pessoas melhores, e para isso o manifestante terá que pôr de lado o seu preconceito “anti-partido”. Tenho pra mim que este preconceito beneficia o capital, porque fragiliza a classe política, tornando-a ainda mais dependente do que já é dos grandes empresários. Se já tínhamos uma classe política corrupta, passamos a ter uma também debilitada. Resultado: vitória da direita. Foi o que aconteceu na Espanha. A Itália, o domínio de Berlusconi, nasce exatamente no bojo de uma longa campanha de desqualificação da classe política, aliada ao avanço de Il Cavalieriere sobre os principais canais de TV, rádios e jornais do país.

Em suma, as manifestações de rua que testemunhamos nos fazem descortinar um amplo horizonte de mudanças. Mas se não lutarmos para politizar a juventude, se não combatermos para extirpar o udenismo midiático que ainda grassa em seus espíritos, perderemos uma oportunidade histórica. Para isso, precisamos de uma política de comunicação muito mais agressiva, que reflita a disposição do governo de lutar, efetivamente, por reformas mais profundas e mais aceleradas, no transporte público, na saúde e na educação. Lideranças políticas agora terão de provar que são, de fato, lideranças, e não apenas gestores acostumados com a vidinha medíocre e confortável de burocratas eleitos.

Sabemos que mudanças mais complexas são difícieis e tomam tempo, e que há forças do atraso no caminho, mas a juventude está mostrando que deseja ajudar a acelerá-las.

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Viva a primavera da juventude brasileira! http://www.ocafezinho.com/2013/06/16/viva-primavera-da-juventude-brasileira/ http://www.ocafezinho.com/2013/06/16/viva-primavera-da-juventude-brasileira/#comments Sun, 16 Jun 2013 22:56:47 +0000 Miguel do Rosário http://www.ocafezinho.com/?p=11868 Que venham os protestos! Quem os jovens tomem as ruas e exijam mudanças. Que xinguem os governantes, mesmo aqueles que nós, os mais velhos, tanto lutamos para eleger. Que façam loucuras! Que sonhem!]]> Há tempos eu não encontrava um assunto tão desafiador como esses levantes da juventude. De início, fiquei chocado, negativamente, com algumas cenas: jovens queimando a bandeira do Brasil; um outro vestido com as cores dos EUA exibindo uma bandeira do Brasil pichada com a palavra Lixo; depredação da sede de um partido político; destruição de patrimônico público, ônibus, agências…

Depois a coisa se complicou na minha cabeça. Não era bem assim. Os vândalos eram uma minoria, infiltrados? Há relatos  de policiais a paisana promovendo depredações, para desqualificar os protestos. Em seguida, a repressão brutal mudou completamente a balança. O vandalismo é lamentável, mas é uma coisa da qual a gente pode se defender com certa facilidade. Basta identificar e prender os responsáveis. O vandalismo ataca objetos inanimados. A brutalidade policial ataca seres humanos, e vem justamente daqueles que pagamos com nossos impostos para zelarem por nossa proteção.

Seria vulgar e óbvio criticar o governador Geraldo Alckmin. Sua irresponsabilidade é gritante. Sua truculência, um fato lamentável que, espero, o povo saiba castigar no seu devido momento, assim como fizeram com aquele prefeito de São José dos Campos, rechaçado pelas urnas por causa da brutalidade que patrocinou, juntamente com o governo do estado, contra os moradores de Pinheirinho.

Eu quero entender é o movimento em si. Estou lendo tudo há dias, freneticamente. O Nassif tornou-se um entusiasta dos levantes. A esquerda tradicional olha com desconfiança e mesmo com medo para um movimento ideologicamente obscuro. Os movimentos da direita virtual, que tentam há anos, em vão, fazer mobilizações similares, observam os acontecimentos com brilho maligno nos olhos, e tratam de se unir aos jovens e tentar influir em seu estado de espírito, envenenando-os com rancor antipolítica e falso moralismo.

A grande mídia, por sua vez, também parece perdida. Esses jovens não lêem jornais e a maioria alimenta ideologias francamente esquerdistas. Jabor, Villa, editoriais dos jornalões, reagiram com uma brutalidade verbal correspondente a da polícia. Aliás, a polícia provavelmente agiu com a truculência que se viu por causa justamente da pressão midiática.

Um amigo me ligou dizendo que as manifestações no Rio e Niterói estavam assumindo aquele lamentável viés antipolítica que procuramos combater. E se negaram a se encontrar com os prefeitos. No Correio Braziliense, há matérias falando num movimento orquestrado nos protestos de Brasília, esses mais voltados contra o governo federal. O serviço secreto da PM paulista acusa “militantes do PSOL” de contratarem punks para protagonizarem os atos mais violentos.

Mas eu não posso acreditar no Correio Braziliense nem na PM paulista.

Então prefiro acreditar que são levantes genuínos.

Mas protestos com depredação de patrimônio público, por sua vez, não são uma tradição brasileira, nem podemos permitir que se tornem. Seriam válidos se vivêssemos numa ditadura, o que não é o caso. Os políticos que nos governam podem ser um bando de sacripantas, mas foram devidamente eleitos por uma maioria. Devem ser respeitados não por si mesmos, mas porque representam a vontade soberana de milhões.

O patrimônio público nacional, por sua vez,  que já é precário, tem de ser protegido, jamais destruído.

Lembrem da praça Tahir!

O levante da praça Tahir emocionou o mundo porque era radicalmente pacífico, voltado para a reconstrução da democracia e recuperação do patrimônio público. Os manifestantes varriam as ruas! Por algumas semanas, parte de uma cidade famosa pela sujeira, manteve-se impecavelmente limpa! O Museu Histórico do Cairo foi protegido por uma cerca humana contra os vândalos, num gesto que tocou profundamente arqueólogos e historiadores do mundo inteiro, pois seria uma tragédia indescritível para a humanidade se os tesouros do Egito Antigo fossem destruídos e roubados.

O que me preocupa mais, no entanto, é que o vazio e a confusão ideológica da maioria dos jovens, podem ser facilmente instrumentalizados por interesses políticos mal intencionados. Mesmo não lendo jornais, os jovens são influenciados por um ambiente político envenenado. E aí poderíamos testemunhar o que vimos na Líbia: um levante da juventude, calcado em demandas belas e justas, sequestrado pelo que há de mais sórdido: oportunistas, golpistas, cobiça imperialista.

Por outro lado, não há sentido em temer o esforço da juventude em romper o silêncio e ir às ruas protestar por melhoras sociais. É divertido, por isso mesmo, ver esquerda e direita observarem o movimento com um misto de fascínio e perplexidade. Para onde isso vai? Quem herdará os votos da juventude indignada?

Uma das maiores prejudicadas, a meu ver, é a presidente Dilma, que encerra a semana com uma pontuação péssima. Alckmin se queimou definitivamente com a juventude paulista, ou mesmo brasileira, mas provavelmente ganhou votos junto ao numeroso eleitorado conservador de seu estado. Dilma parece ter perdido apoio de ambos os lados.

E ainda levou uma sonora vaia no jogo do Brasil e Japão! Eu assisti à vaia e o que mais me impressionou não foi nem a vaia em si, mas a tromba da presidente. Ela tinha as sombrancelhas arqueadas, aparentando um desconforto terrível, e tive a impressão que as pessoas a vaiaram ainda mais ao se deparar com uma face tão severamente mau humorada num ambiente tão cheio de alegria. Parecia que Dilma iria anunciar que os EUA haviam declarado guerra ao Brasil e estávamos prestes a receber um ataque nuclear!

Mas o Brasil não é Líbia, e a nossa imaturidade democrática ainda se ressente com a falta de participação popular. O governo do PT terá de aprender a conviver com a rebeldia da juventude. Terá que responder a ela não apenas com “gabinetes de crise” mas disposto a ouvir suas demandas.

Por outro lado, não podemos nos deixar levar por um oba-oba leviano. Os jovens têm de ser respeitados, mas sem deslumbramentos. O jovem tem uma energia especial que deve ser estimulada. Ele é aberto ao novo e guarda ás vezes uma capacidade ilimitada para sonhos e ideais. A ideia do passe livre, por exemplo, é interessante, se for viável. Celso Furtado dizia que a liberdade do homem reside na possibilidade de agir conforme as circunstâncias do momento. Mas o jovem não deve ser mitificado ou endeusado. Vivemos uma era extraordinária em termos de acesso à informação e possibilidades de interação social, onde a maturidade e mesmo a velhice, em função disso, não podem mais ser discriminados.

Na vida real, o novo jamais se impõe através da negação total do velho, e sim mediante sua atualização dialética. O novo engole o velho e, por sua vez, também envelhece um pouco, tanto que será, mais na frente, incorporado por outro novo. Os jovens de hoje em breve serão velhos. Digo mais, os levantes da juventude, pela dialética inevitável do corpo social, serão sucedidos por uma reação conservadora. A sociedade brasileira tornou-se complexa, hierarquizada, dividida, como toda sociedade moderna e democrática. Quando um lado resolve puxar mais forte a corda, obriga o outro a reagir com a mesma força.

Por isso mesmo, qualquer movimento social deve estar, permanentemente, se preparando para o embate de ideias. Em algum momento, haverá pressão sobre a juventude que se rebela: e aí, o que vocês pensam, realmente? Quais são suas propostas? Quando chegar esse momento, quem defenderá os jovens e suas ideias? Quem terá o sangue frio e a experiência para enfrentar a reação do conservadorismo e defender mais ousadia governamental e políticas públicas mais progressistas? Nós, os adultos e velhos.

Haverá um momento em que esses jovens chegarão ao poder. Tornar-se-ão políticos, empresários, advogados, servidores públicos, professores universitários. Também eles enfrentarão os terríveis dilemas da vida e da política.

A independência maravilhosa da juventude nasce de sua pobreza, que às vezes beira a indigência. O jovem é a camada financeiramente mais frágil da sociedade, porque ainda não tem especialização, ainda não tem um emprego decente, ainda não tem patrimônio, e à parte isso guarda, como dizia Fernando Pessoa, todos os sonhos do mundo!

Ah, os sonhos da juventude! É o tempo em que acreditamos chegar ao topo do mundo. Ganharemos o prêmio Nobel, seremos felizes e realizados profissionalmente! Tempo de poesia, música, paixões fulminantes e sonhos de revolução!

Devemos incentivar os jovens a serem livres, a pensarem com sua própria cabeça, a sonharem, a irem às ruas protestar por um mundo melhor, mas também é dever dos mais velhos ensiná-los! Os mais velhos não podem fugir a essa responsabilidade, não podem se eximir da tarefa de transmitir aos jovens tudo que aprenderam. Os jovens têm o direito de errar, mas os adultos têm o dever de lhes contar sobre seus próprios erros. Só assim as gerações evoluem.

E o que devemos ensinar aos jovens? Que o mundo não pode mudar? Que revoluções não são mais possíveis? Claro que não! Até porque não é verdade. O mundo tem mudado, o nosso país tem passado por profundas transformações, muitas das quais os jovens não percebem porque não viveram o momento anterior. Mas talvez, de fato, estejamos nos acomodando. Talvez o país precise, de vez em quando, sofrer uma sacudidela, só para lembrar que o ritmo das mudanças tem se ser constantemente acelerado.

Quem pode julgar a paixão da juventude? Não é ela que move o mundo? E não é nosso objetivo maior, justamente, manter ao menos uma parte dessa paixão acesa em nossos espíritos? Que espécie de infeliz quer ser velho? Todos queremos ser jovens!

Que venham, portanto, os protestos! Que os jovens tomem as ruas e exijam mudanças! Que xinguem os governantes, mesmo aqueles que nós, os mais velhos, tanto lutamos para eleger, e pelas mesmas razões que os movem: vida melhor para todos!

Que façam loucuras! Que sonhem!

Só não se esqueçam que vocês não estão sozinhos. Nem ousem pensar isso. Nós, os adultos pacatos, os velhos esquerdistas ranzinzas, nunca deixamos de lutar! Combatemos, diariamente, a dura lida da sobrevivência! E travamos hora a hora a terrível luta da comunicação! À nosso modo também lutamos por um custo de vida menor para trabalhadores e estudantes. Afinal, o aumento dos salários não significa a redução do valor proporcional das passagens? O aumento do salário mínimo e a queda no desemprego não significam que a passagem de ônibus pesará menos no bolso do trabalhador? Uma luta complementa a outra e agradecemos que vocês nos ajudem com protestos de rua. Só que não concordaremos em tudo. Não concordaremos, por exemplo, se vocês abraçarem o discurso da antipolítica ou flertarem com a hipocrisia udenista. Não concordaremos se vocês aceitarem, em suas fileiras, a direita esquálida, decadente e antibrasileira.

Somos todos gladiadores na vida e na política, e continuamos lutando. E não vejo outra frase melhor, portanto, para encerrar o post, que a proferida por soldados de Roma antes de iniciarem um exercício de guerra: Morituri te salutant. Saudações, combativos jovens, nós que vamos morrer vos desejamos sorte!

 

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O que vem a ser direita ou esquerda no direito autoral? http://www.ocafezinho.com/2013/06/16/o-que-vem-a-ser-direita-ou-esquerda-no-direito-autoral/ http://www.ocafezinho.com/2013/06/16/o-que-vem-a-ser-direita-ou-esquerda-no-direito-autoral/#comments Sun, 16 Jun 2013 13:54:01 +0000 Miguel do Rosário http://www.ocafezinho.com/?p=11862 Por Ana de Hollanda, ex-ministra da Cultura Seria inevitável que eu abordasse, em algum momento, um tema extremamente polêmico, que vem provocando discussões mais passionais do que seria desejável, levando-se em conta sua complexidade e todos ...]]> Por Ana de Hollanda, ex-ministra da Cultura

Seria inevitável que eu abordasse, em algum momento, um tema extremamente polêmico, que vem provocando discussões mais passionais do que seria desejável, levando-se em conta sua complexidade e todos os elementos a ele ligados.

Participei nos dia quatro e cinco deste mês de junho, em Washington, do World Creators Summit, evento que se desenrolou em dezenas de mesas de debates, tratando questões voltadas para o direito intelectual sob as mais variadas óticas e tendências.

Promovido pela CISAC – Confederação Internacional de Autores e Compositores, o encontro abordou não só assuntos relacionados à música, mas também à literatura, ao audiovisual, às artes visuais e discutiu amplamente formas de como todas essas áreas podem se desenvolver no mundo contemporâneo, com apoio dos meios digitais.

Acolhendo um público de cerca de setecentas pessoas, o Creators Summit contou, em suas variadas mesas, com a participação de músicos, compositores, artistas plásticos, fotógrafos, cineastas, atores, escritores, jornalistas, blogueiros, professores, diretores de TV, parlamentares, representantes governamentais, dirigentes de associações e até representantes de sites de busca.

As discussões foram riquíssimas ao provocar reflexões sobre as diversas leis de proteção à propriedade intelectual, num momento em que a internet e uma possível pirataria exigem revisão dessas leis.

Praticamente todos os países participantes promoveram ou estão promovendo uma reforma em suas leis. Os Estados Unidos, que hospedaram o encontro e ocuparam grande parte das mesas, estão se preparando para revisar sua lei de Copyright. A cobrança por uma maior proteção ao direito do autor foi tema recorrente em quase todas as mesas de norte-americanos. Do outro lado do planeta o Parlamento da Índia, país que adotava o Copyright, aprovou no ano passado a mudança para a Lei dos Direitos de Autor, nos moldes da nossa.

Apesar das duas leis defenderem a propriedade intelectual, há uma diferença considerável entre o Copyright (direito de cópia) e a lei de direitos autorais conforme a conhecemos. Na primeira os direitos pertencem a quem registra a obra, seja ele autor, empresa produtora, editorial, fonográfica, cinematográfica, televisiva, ou outro que adquira a obra e passe a ser o detentor de seus direitos para exploração. Nas leis de direito autoral, além do direito conexo, o criador da obra é o detentor do direito. Seu direito moral é inalienável. O artigo 5º da Constituição Brasileira, parágrafo XXVII, prevê que “aos autores pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar”.

Na Inglaterra, a lei do copyright foi criada pela Rainha Ana no início do século XVIII para proteger as casas editoriais de obras literárias. A lei do direito autoral que, além do direito patrimonial, protege também o direito moral, foi criada na França (Droit d’Auteur) no século XIX. Pesquisando o assunto, tomei conhecimento de que ainda no espírito dos ideários da Revolução Francesa, escritores, em especial de Victor Hugo, encabeçaram uma forte campanha pelo reconhecimento do direito do autor. Essa origem é reconhecível no perfil adotado pela lei. A partir daí os dois modelos de leis que protegem a propriedade intelectual foram adotados pelos outros países. Os anglo-saxônicos, Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Austrália, com adesão do Japão e alguns outros mais que, em geral, adotam uma política e um sistema jurídico voltados prioritariamente para os aspectos econômicos, seguem Copyright. Outros países, a exemplo da França, como a maioria dos europeus e latino americanos, de tradição mais humanista, adotaram o modelo de lei do direito de autor.

Simplificando o quadro, o que pode ser constatado é que uma lei prioriza o produto e a outra, a nossa, o autor do produto. Ao assistir no Brasil atual um movimento rancoroso contra o direito do autor, partindo de algumas pessoas que se intitulam “de esquerda”, não posso deixar de indagar: que esquerda seria essa que se empenha radicalmente a favor das grandes corporações econômicas da indústria e da internet, contra o criador, profissional que vive de sua própria criação?

Ana de Hollanda assina a coluna quinzenal Grão-Fino, no blog O cafezinho.

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http://www.ocafezinho.com/2013/06/16/o-que-vem-a-ser-direita-ou-esquerda-no-direito-autoral/feed/ 0
Sobre as manifestações contra o aumento das passagens http://www.ocafezinho.com/2013/06/14/sobre-as-manifestacoes-contra-o-aumento-das-passagens/ http://www.ocafezinho.com/2013/06/14/sobre-as-manifestacoes-contra-o-aumento-das-passagens/#comments Fri, 14 Jun 2013 23:20:16 +0000 Miguel do Rosário http://www.ocafezinho.com/?p=11854 Peço desculpas aos leitores por não ter feito, até agora, nenhum comentário sobre as ruidosas manifestações ocorridas em várias capitais, em protesto contra o aumento das passagens de ônibus, e a brutal repressão que se seguiu]]> Primeiramente, peço desculpas aos leitores por não ter feito, até agora, nenhum comentário sobre as ruidosas manifestações ocorridas em várias capitais, em protesto contra o aumento das passagens de ônibus, e a brutal repressão que se seguiu, sobretudo em São Paulo. Manifestações políticas são sempre explosivas, mas esta parece ser particularmente polêmica.

Estou em Brasília, envolvido no meu segundo trabalho, no ramo de cinema, mais especificamente legendas eletrônicas. Desta vez, trouxe uma equipe e pensei que poderia ficar trabalhando no blog tranquilamente. Consegui ler todos os jornais e blogs, mas na hora de escrever, tive que resolver pepinos tamanho família. Deu tudo certo, mas estou arrasado psicologicamente. Amanhã as coisas se normalizam aqui. Minha equipe prometeu não me dar mais sustos, então poderei voltar a escrever.

Para não deixar passar o dia sem ao menos uma atualização no blog, eu sugiro aos leitores alguns textos que me chamaram a atenção pela argúcia, sensibilidade e espírito cívico com que encararam a polêmica. São opiniões de esquerda, francas e corajosas.

O primeiro é um artigo do Len, no blog Ponto e Contraponto, que faz uma abordagem bem consequente. Clique aqui para ler.

Depois temos um artigo, como sempre direto ao ponto, do Fernando Brito, no Tijolaço. Clique aqui para ler.

A Carta Capital está cheia de artigos interessantes para se entender as repercussões políticas do episódio. Vale a pena dar uma espiada por lá.

O blogueiro Eduardo Guimarães, que havia feito duras críticas ao viés violento das manifestações, agora aborda o assunto por um ângulo oposto. A entrevista que ele faz com uma jornalista da Rede Brasil Atual traz um relato muito chocante da violência policial em São Paulo. Leia aqui.

Bem, vou tentar dar minha opinião em poucas palavras. Estou chocado. Com a violência da polícia. Com a possibilidade de uma manifestação ter sido “infiltrada” com provocadores. Esta última hipótese me fez inclusive ficar meio paranóico. As manifestações na Líbia, por exemplo, começaram justas, mas foram infiltradas por interesses obscuros, externos, imperialistas. Mas por enquanto é só paranóia de um blogueiro cansado.

A paranóia nasceu de reportagens do Globo, citando o Wall Street Journal, onde se fala que as manifestações eram contra o “desemprego”. Estão usando as manifestações para fazer ataques especulativos contra o país!

Enfim, amanhã eu volto aqui com mais calma. Espero que livre de paranóias e com uma visão mais objetiva sobre o que aconteceu, suas repercussões e significados políticos.

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