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Globo elogia o sindicalismo nacional

Por Miguel do Rosário

05 de novembro de 2011 : 19h46

O título é uma ironia. Mas se abstrairmos o ódio classista e o reacionarismo mal disfarçado da reportagem publicada no jornal O Globo, em sua edição de quinta-feira dia 3 de novembro, veremos que o pasquim mais anti-sindicalista da história mundial teceu merecidos elogios às instituições que representam os trabalhadores no Brasil.

Li a matéria na noite de quinta-feira, na mesa de um bar na Gomes Freire, Lapa, e imediatamente pensei que ele era o caso exemplar de um trabalho jornalístico que merecia ser atentamente examinado e explicado por um analista de mídia.

Em primeiro lugar, vejamos os pontos positivos:

  • A matéria traz estatísticas atualizadas sobre o número de sindicatos, de trabalhadores sindicalizados, de recursos recebidos, do percentual distribuído para cada instância sindical. Isso é muito importante e raras matérias na imprensa trazem essa riqueza de dados. Se tivermos fígado para espremermos o ódio anti-sindical da matéria, portanto, sobrarão muitas informações pertinentes.
  • Os sindicatos estão se proliferando e se capilarizando, e os recursos sindicais estão crescendo e ajudando a fortalecer essas instituições.

Há um outro também que poderíamos classificar como positivo, mas sob um ângulo distinto. Confira a afirmação abaixo, que o jornal publicou com destaque na página:

Francamente, eu acho que o Globo foi até ingênuo desta vez. Ele chamou apenas acadêmicos anti-sindicais, que deram declarações anti-sindicais e um deles defendeu o fim da contribuição compulsória com o argumento de que… 80% dos sindicatos deixarão de existir. Não creio que foi uma linha muito boa para quem gostaria que o imposto sindical fosse extinto. Com permissão do exagero, o Globo associou o fim do imposto ao fim (ou pelo menos, a um golpe terrível) do próprio sindicalismo.

Esse é um debate importante, porque a CUT, por exemplo, principal central sindical do país, era uma defensora do fim da contribuição compulsória, usando os mesmos argumentos dos especialistas consultados pelo Globo: irá obrigar os sindicatos a darem duro para convencerem os trabalhadores a aceitarem a mordidinha anual em seus salários.

Ocorre, porém, que esse benefício dar-se-á, seguramente, em paralelo com um gigantesco desmonte da estrutura sindical. A própria CUT parece agora ter mudado de ideia. Grande pensador da história política brasileira, Wanderley Guilherme dos Santos, também é crítico do fim da compulsoriedade do imposto sindical.

A corrupção sindical é um problema lendário, e o seu combate envolve vários dilemas. Os sindicatos tem que ser independentes, e por isso o Estado brasileiro entende que as suas contas não devem ser fiscalizadas pelos tribunais de contas.  Mas um problema maior ainda é não existir sindicato. O capitalismo só avançou nos países desenvolvidos após a formação de sindicatos fortes, que permitiram uma relação entre capital e trabalho mais qualificada.

O sindicalismo, todavia, carrega uma doença genética extremamente perigosa: para si mesmo e para o país: o corporativismo.

Na verdade, o sindicalismo tem mil defeitos e vícios, mas todos eles são compensados por uma virtude transcental: ele é o único meio pelo qual um trabalhador tem acesso à política. Não fossem os sindicatos, teríamos um congresso ocupado apenas por industriais e fazendeiros.

O Globo condena a proliferação de sindicatos. Um dos especialistas consultados afirma:

Certo. Mas a unificação é um segundo passo. A reportagem do Globo identificou que pipocam pequenos sindicatos em lugares isolados do Brasil. A tendência é que esses pequenos sindicatos se filiem, posteriormente, a alguma central. Aliás, é para isso que existem as centrais.

Há um trecho da reportagem que parece até uma peça de humor. Tentando desqualificar o sindicalismo, O Globo diz que teve dificuldades de achar o endereço de vários e que alguns são desconhecidos até para trabalhadores da categoria. E aí dá um exemplo de um sindicato criado este ano em… Trizidela do Vale, Maranhão. Realmente, imagino que pouca gente conhece esta renomada instituição.

Concluindo, acho que a matéria traz alertas importantes:

  • É preciso, de fato, encontrar uma maneira de combater a corrupção sindical e  criar instrumentos que obriguem os novos sindicatos a prestarem serviços relevantes às categorias.
  • O fim do imposto sindical é um risco grande demais para ser enfrentado neste momento pelo sindicalismo brasileiro e, consequentemente, pelas forças políticas ligadas ao trabalho. Nesse ponto, vale ressaltar o cinismo da mídia conservadora: suas campanhas antissindicais fatalmente persuadiriam os trabalhadores a não contribuir, mesmo que voluntariamente, para seus respectivos sindicatos.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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