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Opinião: Maconha, USP e Royalties

Por Miguel do Rosário

12 de novembro de 2011 : 17h09

Três assuntos que apareceram muito na midia nos últimos dias mas não mereceram comentários por aqui. Tentarei suprir a lacuna agora. Só para variar, vou escrever em itens numerados.

  1. Pré-sal: bem, sou carioca e então para mim quanto mais royalties pro Rio, melhor. Ao mesmo tempo estou despreocupado, porque o Rio vai se dar bem de qualquer jeito. Um montão de indústria importante está se instalando aqui. A Comperj (maior refinaria da América Latina) está em construção e vai ser um gigantesco gerador de empregos. Mas tem também muitas outras, ligadas a siderurgia, refinaria, tecnologia, química e autopeças. Sem contar que o Rio tem sempre aquele grande destino turístico que nunca se realiza por completo. Quando o turismo começa a aumentar, estoura um bueiro na cara de um gringo, esfaqueiam outro,  e as agências rebaixam a nota da cidade.
  2. Não se impressionem demais, porém, com a manifestação realizada no Rio. Com o aparato que o Cabral e o Paes usaram para organizá-la, ela foi até pequena. Primeiro, deram férias a todo funcionalismo. Segundo, fecharam a Rio Branco, principal artéria do centro do Rio. Botaram todo efetivo policial para organizar e proteger os manifestantes. As forças políticas e partidárias compareceram em peso, com suas bandeiras, militantes, cabos eleitorais e exércitos de propaganda. Carro de som, locutores treinados, telões, milhões de bandeiras do estado distribuídas gratuitamente. Assim até eu boto 150 mil na rua.
  3. A meu ver, deviam botar o dinheiro dos royalties inteirinho num fundo especial, a ser aplicado exclusivamente em ciência e tecnologia. Usar dinheiro do petróleo para aumentar despesas fixas do Estado só vai resultar em roubalheira e disperdício, como aliás é o que vem acontecendo com os municípios petroleiros do norte fluminense.
  4. Confusão na USP: o tema ficou intoxicado pelo debate ideológico e perdeu muito do sentido. Eu li vários artigos sobre o tema, mas acho que só quem está por dentro da dinâmica interna da USP pode ter uma posição mais consistente sobre os fatos. Mesmo assim, arrisco um pitacos. Desculpem se falarei besteira.
  5. Maconha: deviam legalizar urgentemente a maconha no Brasil. Uma parcela enorme da juventude fuma maconha e está sendo criminalizada. Além disso, legalizada, a maconha geraria impostos para o Estado, permitiria o controle de qualidade, e renderia divisas para o país através da exportação. O Brasil tem condições de se tornar (acho até que já é, mas ilegalmente) o maior exportador mundial de maconha, e faturar dezenas de bilhões de dólares por ano. Não interessa ao Brasil proibir a maconha.
  6. Fumar maconha, entre a juventude universitária, não tem nada a ver com ideologia. Na verdade é o contrário. Pode ser que existam radicais que fumam a erva, mas a maioria são apenas boêmios querendo relaxar um pouco. Se os maconheiros da USP são de esquerda é porque a maioria dos estudantes de universidades públicas são de esquerda.
  7. Por outro lado, há o fenômeno do filhinho de papai que não respeita a autoridade, ou que se acha no direito de humilhar uma autoridade policial. Já cansei de ver isso. Prenderam os três maconheiros? Ok, acompanhem-nos à delegacia, façam um protesto formal, etc, mas daí a agredir os policiais, jogando até cadeira neles (se é que fizeram isso mesmo),  é uma atitude de playboy mimado. É apelar desnecessariamente para a violência. Deve-se respeitar a polícia, porque são trabalhadores que ganham péssimos salários e correm grave risco de vida para dar segurança aos cidadãos.
  8. PM prendeu seu amigo fumando maconha? Mantenha a calma, não piore mais as coisas. O cara vai apenas preencher um formulário, ser entrevistado e voltar para casa. Meses depois, terá que comparecer a juiz, que irá lhe dar uns conselhos. Só isso. Nem fichado é mais, na maioria das vezes. Continua réu primário.
  9. Não faz sentido também ficar lembrando a ditadura. A mesma já terminou há mais de vinte anos.
  10. Eu já vi com meus próprios olhos, aqui na Lapa, numa dessas sexta-feiras com multidão na rua, policiais serem quase linchados porque prenderam uma moça que fumava ostensivamente na calçada.  Me deu raiva. Nessa brincadeira, um PM se descontrola, dá uns tiros e daí temos uma tragédia.
  11. A PM estava lá na USP por convite da própria universidade. Então não se culpe a PM, e sim a USP, a sua reitoria e toda a comunidade acadêmica que pediu a presença da polícia militar ou aceitou isso, e não deu orientação aos policiais (como também deveriam ter feito) para pegar leve com a garotada.
  12. Acho ridículo a PM perseguir os estudantes, conforme o relato de um professor, que falou até em invasão e revista dos centros acadêmicos. Mais ridículo ainda prender três alunos por fumarem maconha.  Mesmo assim, hoje ninguém é condenado ou fica na cadeia por fumar maconha, então não há razão para tanta revolta.
  13. Eu acredito na política e na democracia, e por isso mesmo não aprovo voluntarismos golpistas. Os estudantes têm que se organizar pacificamente. É errado pretender ganhar no grito, ou fazendo invasões de reitoria, sobretudo na contra-mão de uma decisão da coletividade.
  14. Entendo que o atual reitor da USP não é popular, porque não foi o primeiro indicado pela comunidade, como era de praxe há décadas. Mas é o reitor e deve ser respeitado pelos alunos. Eu só acredito em política quando há respeito de parte a parte.
  15. O governo de SP reagiu de maneira imbecil e truculenta. Não houve tentativa de diálogo. Ou pelo menos, essa tentativa não foi ostensiva e pública, como deveria ser. Os estudantes podem ter cometido vários erros, mas são alunos concursados, a universidade pertence a eles, foi construída para eles, e o governo perdeu uma boa oportunidade de se mostrar magnânimo, inteligente e, sobretudo, adulto.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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8 comentários

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Guilherme Scalzilli

15 de novembro de 2011 às 21h02

As abordagens negativas que a imprensa dedica ao protesto na USP tentam ocultar os debates que permeiam suas causas diretas. Na prisão dos estudantes que fumavam maconha, a estupidez repressiva contra a erva demoníaca. No assassinato do aluno, os desserviços terceirizados no campus. Nos rostos encapuzados, o clima de repressão e vingança que borbulha sob a imagem bondosa das autoridades. No teatro ineficaz do policiamento ostensivo, o colapso da segurança pública demotucana. Nas ações truculentas da Polícia Militar (“vocês não queriam segurança?”), a criminalização da discórdia.
Mas o que amedronta realmente a intelectualidade conservadora paulista é a mensagem política oferecida pelo episódio. A ocupação de prédios administrativos precisa ser vilanizada antes que se transforme em gesto desesperado para vencer a obstrução do diálogo e em resposta razoável para a arrogância despótica de funcionários públicos. … (continua: http://guilhermescalzilli.blogspot.com/ )

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zequinha

14 de novembro de 2011 às 22h38

Quando uma polícia política tem que mostrar mais força que uma polícia de pacificação:
Em São Paulo, um efetivo de quatrocentos homens da Força Tática, Cavalaria (RPMon), dois helicopteros e COE – Comando de Operações Especiais (os de boinas verdes)Trata-se de um grupo da polícia criado como contra-guerrilheiro, de origem fortemente ideológica durante a ditadura, hoje utilizado em operações de "alto-risco" , além de de 50 carros e uso de bombas de efeito moral no CRUSP. Tudo isso para prender e algemar 72 dorminhocos – (24 mulheres e 46 homens estudantes), que pixaram o interior da reitoria e ainda portavam uma caixa de rojões, já que os coquetéis molotov foram "plantados" pela PM .(segundo os ocupantes).
No Rio, Cerca de 3 mil homens dos Batalhões de Operações Policiais Especiais (Bope) e de Choque, de agentes da Polícia Civil, da Polícia Rodoviária e efetivos da Polícia Federal, participam da Operação Choque de Paz, que começou às 4h e contou com o apoio de 7 helicópteros das polícias Civil e Militar, de 18 veículos blindados dos Fuzileiros Navais e 6 do Bope. Duzentos destes homens , ou seja a metade do que foi usado na USP foram deslocados para ocupar a favela do Vidigal e Chácara do Ceu. Não soltaram um tiro.
Na noite de domingo 13/11/11, o saldo da operação eram quatro prisões, 15 fuzis apreendidos, além de 20 pistolas, uma submetralhadora, duas espingardas, 20 rojões, três granadas, aproximadamente 16 mil munições para diversos calibres, sete lunetas, 158 carregadores de armas e fuzis. Foram apreendidos ainda 112 kg de maconha, 80 tabletes e 145 trouxinhas da mesma droga, 60 kg de pasta base de cocaína e 14 tabletes de cocaína refinada. (R7).
Em tempo : Rocinha: 72 mil habitantes; Vidigal e Chacara do Céu: 20 mil habitantes.

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Thiago

13 de novembro de 2011 às 11h53

Não pago imposta pra esta cambada de nazarento ficar fumanto maconha no campus … Vai fumar em casa porr….!!! Eu como a maioria da população brasileiro estamos torcendo pra PM descer o cacete nestes maconheiro de merda, patricias e filhinhos de papai … PAU NELES !!!

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    Miguel do Rosário

    13 de novembro de 2011 às 12h43

    Você está errado, muito errado. A PM não tem que descer o cacete em ninguém. Isso é hábito de país atrasado. País moderno tem que tratar seus cidadãos com máximo respeito. Fumar maconha não é mais crime e em breve será totalmente descriminalizada em todo mundo. A PM tem mais o que fazer do que pegar maconheiro. Tem que pegar assaltante, assassino, dar segurança. Nas melhores universidades dos EUA e Europa se fuma muito mais maconha que na USP, e não tem nenhuma PM agindo com truculência. É irracional pregar violência contra jovens estudantes. No máximo, precisam conversar com os alunos, e se for o caso de um estudante realmente problemático, que não queira colaborar, aplique-se uma suspensão ou mesmo uma expulsão. Sem violência! Sobretudo por parte do Estado, que está aqui para nos proteger, não para violentar a juventude.

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      Jorge

      18 de janeiro de 2012 às 00h53

      Ótima resposta!

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baixadacarioca

12 de novembro de 2011 às 18h33

Pois é, faltou juízo em quem liderava. Sobre os Royalties eu também penso que quanto mais dinheiro pro RJ melhor, mas não participei da manifestação e nem participaria. Penso num desenvolvimento mais horizontal entre todos os Estados, embora reconheça que os produtores merecem uma fatia ligeiramente maior; nada que esgarce as desigualdades como tem historicamente acontecido.

Eu queria ver manifestações assim, com a polícia protegendo os manifestantes, transportes em quantidade, desvios de tráfego etc. quando fosse manifestação em defesa da educação e da valorização do educador; dos policiais ou dos bombeiros, e não como tem ocorrido sempre com a polícia dando cacetadas ou jogando bombas de efeito moral em trabalhadores que reivindicam melhores condições.

Quanto a maconha já cheguei a sonhar (literalmente) que era vendida nas farmácias e drogarias. Isso seria um golpe no tráfico e maior ainda naqueles que deveriam combater o tráfico, mas dele se enriquece tal como os traficantes. A questão ainda não discutida são as indústrias que fariam da Canabis sativa produto tão sujo e tão nocivo quanto os cigarros de hoje.

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Débora Antunes

12 de novembro de 2011 às 17h48

falou tudo

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reginaldo

12 de novembro de 2011 às 17h35

Miguel seu blog é uma terapia para mim , pois eu sou radical demais e o seu blog me deixa mais calmo. As vezes acho que voce é um direitista nojento, mas seu blog coloca meus pensamentos no eixo.

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