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O Globo, a Saúde e a empulhação

Por Miguel do Rosário

28 de novembro de 2011 : 20h40

(Chamada na capa do Globo desta segunda-feira)

O Globo hoje publica uma matéria bem espertinha. Os repórteres verificaram que a aplicação de recursos para a saúde, pelo governo federal, correspondeu a 1,66% do PIB, e que isso representava uma queda de 0,1% sobre o percentual registrado em 2000, quando a Saúde consumiu 1,76% do PIB, e não perdeu tempo. Lascou a manchete na área mais nobre do jornal, a página 3.

Sempre é bom vermos o governo sendo pressionado a gastar mais com Saúde pública, que definitivamente ainda está muito longe de alcançar a qualidade que o nosso povo merece. O problema aqui é a empulhação. O Globo distorce tudo.

A maior enganação consiste em lastrear toda a matéria no percentual do PIB, e usar variações insignificantes como prova de que os gastos em Saúde estão em queda. E ainda usar somente essa variável para chegar a essa conclusão. O cálculo do PIB é sempre uma estimativa, e de 2000 até hoje o IBGE já mudou algumas vezes a maneira como calcula o Produto Interno Bruto. Para cúmulo da confusão, o Globo trabalha com dados não corrigidos pela inflação, de maneira que os números finais consistem numa inteira ficção estatística.

Se é para calcular o gasto com Saúde no Brasil, muito mais lógico é pegar os valores efetivamente gastos, corrigi-los pela inflação e fazer a comparação. Então eu fui na mesma fonte consultada pelo Globo, o Siafi e baixei a tabela com os gastos por função.

Observem. Os gastos com Saúde em 2000, em valores atualizados, corresponderam a R$ 45,55 bilhões. Hoje estão em R$ 57,2 bilhões. A diferença mais brutal, porém, ocorre quando somamos as quatros grande funções sociais da União: assistência social, educação, saneamento e saúde. Em 2000, essas funções somaram (em valores atualizados!) R$ 79,75 bilhões. Em 2010, saltam para R$ 138,58 bilhões.  Só a Assistência Social, cuja natureza se entrelaça com a da Saúde, registrou uma alta de R$ 9,98 bilhões em 2000 para R$ 40,67 bilhões.

Outra maneira inteligente de tentar entender a questão é calculando o gasto com Saúde per capita. Em 2000, a população brasileira era de 169,59 milhões de habitantes. Em 2010, era de 192 milhões de pessoas. Então vamos lá. O gasto com Saúde per capita em 2000, em valores corrigidos, foi de R$ 268,58 por pessoa. Hoje estão em R$ 297,91 por pessoa. Um aumento real de 11%. Não parece grande coisa, mas devemos nos lembrar que no ano 2000 tinha CPMF; em 2010, não. Aliás, essa é outra empulhação revoltante. No ano 2000, a CPMF arrecadou, em valores atualizados (segundo a Calculadora do Cidadão, do Banco Central), o equivalente a R$ 35,22 bilhões! No ano 2010, zero de CPMF. E se calcularmos o gastos das quatro principais funções sociais do governo, a despesa per capita fica em R$ 471,8 por habitante no ano 2000, contra R$ 721,8 este ano! Em valores atualizados, sempre.

O Globo publica alguns infográficos bonitos, mas com números deficientes. Vamos analisá-los.

 

 

Esse infográfico tem uma deficiência fundamental, que atrapalha inclusive o Globo a vender a sua tese de que os gastos com Saúde estão em queda. Ele não corrige os gastos do ano 2000 pela inflação. Daí que o leitor verá que os gastos com a Saúde pularam de 20 para 61 bilhões de reais, e depois olhará o título da matéria “gastos em queda” e terá um curto-circuito mental. Em segundo lugar, o Globo pega os valores empenhados e subtrai pelos valores gastos e obtêm uma diferença de 46 bilhões, e daí conclui que o Estado malvado deixou de gastar essa quantia em Saúde. Ora, isso é uma leviandade. Pode até ser que uma parcela do que foi empenhado e não gasto decorra de algum tipo de estupidez burocrática, mas provavelmente a maior parte dessa diferença advém de obstáculos realmente sérios para repassar o dinheiro aos destinatários, entre eles a reprovação em tribunais de conta, irregularidades latentes, mudança de planos, enfim há uma série de razões legais que impedem o governo de gastar efetivamente a totalidade da verba empenhada.

O Globo publica ainda outro infográfico, mas não o usa para mudar o sentido geral de sua matéria. Confira que, mesmo usando percentual do PIB, os gastos ditos sociais aumentaram sensivelmente de 2000 para 2010.

Concluindo, quero dizer que eu e a maioria do povo brasileiro consideramos a Saúde pública o principal problema nacional. Devemos cobrar o governo federal para que esteja sempre aprimorando os serviços de saúde oferecidos aos cidadãos. Não podemos fazê-lo, porém, através de artifícios escusos, manipulando as informações.

A editoria do Globo em relação ao tema saúde é esquizofrênica, porque o jornal está sempre criticando o aumento do número de servidores contratados pelo governo, sem nunca especificar quantos desses servidores são médicos. Critica a suposta redução de gastos com a Saúde, mas foi o Globo o principal patrocinador do fim da CPMF, que a esta altura já deve ter representado a perda de centenas de bilhões de reais que poderiam estar agora sendo aplicados na Saúde pública brasileira.

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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2 comentários

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Elson

29 de novembro de 2011 às 00h31

Tá certo que nossa saúde está aquém do que é nescessário , más é melhor ter um serviço universal e gratuito ineficiente do que nenhum . Os EUA país que nossas elites idolatram e a quem o Globo presta inestimável subserviencia não possui um sistema assim , lá se o sujeito não pode pagar ele morre ou faz como aquele homem que entrou num banco e roubou $1,00 só para ir preso e ter seu tratamento custeado pelo estado .

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rildoferreiradossantos@gmail.com

28 de novembro de 2011 às 21h38

Fico imaginando como seria trabalhar como jornalista numa organização assim, sobretudo se os ensinamentos da academia tivessem sido absorvidos e estivesse louco para praticá-los!…

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