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O paladino da verdade?

Por Miguel do Rosário

28 de novembro de 2011 : 09h05

Hoje é dia de Noblat no Globo e o blogueiro faz um ataque frontal ao governo com um texto intitulado “Um país de mentira“. Vamos analisá-lo naquele esquema de comentários intercalados.

Bem, em primeiro lugar, para entender Noblat, observemos esta pesquisa, publicada hoje no blog dele:

É para esse público, fortemente conservador, que Noblat se dirige. Essa é uma das razões pelas quais parei de julgá-lo. Se ele escrevesse qualquer coisa diferente, seria simplesmente demitido. Seu lugar no Globo é condicionado a uma determinada posição política. Não há liberdade de pensamento nessa verdadeira coréia do norte direitista que se tornou (ou melhor, que sempre foi) o departamento de jornalismo do Globo.

Vamos ao texto.

Um país de mentira

Quanto mais mentem à vontade e sem constrangimento os cínicos que nos governam ou representam, pior é a qualidade de suas mentiras. De fato, a perda de qualidade tem tudo a ver com o grau de nossa indignação diante do que Dilma chama de malfeitos. Se nos indignamos pouco ou quase nada para que sofisticar as mentiras e torná-las verossímeis?

Velha ladainha sobre indignação, posando de guru do estado emocional do brasileiro. Como se fosse muito fácil para o brasileiro identificar quem está mentindo. Se o governo mente, Noblat, a imprensa mente também, todo mundo mente, então o povo é sábio em não ter nenhum ataque apoplético a cada vez que a mídia acusa o governo de mentir. O povo sabe que paga muito caro para que as instituições façam este serviço para ele. Promotores, policiais federais, juízes, ganham altos salários para combater o malfeito e a injustiça, de maneira que o zépovinho, que ganha pouco e já tem preocupação demais na vida, apenas deseja que essas autoridades façam seu trabalho com honestidade e independência. De resto, ele curte a sua vida quando tem oportunidade, trabalha duramente a maior parte do tempo, paga seus impostos (mesmo que só através do consumo) e participa disciplinadamente do processo eleitoral. O tom de Noblat é puramente lacerdista. Ao chamar genericamente de cínicos e mentirosos a todos “que nos governam ou representam”, Noblat contribui para a disseminação de ódio abstrato e tolo por qualquer autoridade, que gera despolitização da sociedade e descrença na democracia. É uma tática manjada da oposição midiática, que visa desmoralizar as instituições políticas tradicionais para ver o seu próprio poder ampliado junto ao cidadão.

A mais recente e reles mentira oferecida ao nosso exame foi publicada na última edição da VEJA. O mecânico Irmar Silva Batista, filiado ao PT há 20 anos, tentou criar o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Reparação de Veículos e Acessórios no Estado de São Paulo. Em 2008, ele bateu à porta do Ministério do Trabalho para tratar do assunto com o então secretário de Relações do Trabalho, o ex-deputado Luiz Antonio de Medeiros. O ministro já era Carlos Lupi, presidente do PDT. Medeiros encaminhou Irmar a Eudes Carneiro, assessor de Lupi. Eudes trancou-se com Irmar em uma sala. Primeiro, pediu-lhe que desligasse o telefone celular. Em seguida cobrou R$ 1 milhão para liberar o registro do sindicato.

É uma acusação muito grave. Mas sejamos precisos aqui. Temos uma denúncia, ainda sem provas a não ser o testemunho desse elemento. Mas aceitemos que ele fala a verdade, até porque acho difícil alguém se dar tanto trabalho, se arriscar tanto, se não fala a verdade. Então teremos um caso de corrupção e uma denúncia. Até o momento nenhuma mentira.  

Irmar denunciou o caso a parlamentares do PT – entre eles, o senador Eduardo Suplicy. Sem sucesso. Então escreveu uma carta a Lula. Sem resposta. Um mês depois da posse de Dilma, Irmar enviou-lhe uma carta por e-mail contando em detalhes tudo o que se passara.

Que mentira temos aí? O sujeito mandou carta para Suplicy, Lula, Dilma. Entendo a injustiça da situação, Noblat. Estou solidário ao rapaz, mas venhamos e convenhamos. Há um ponto prático aí. Suplicy, Lula e Dilma recebem um volume gigantesco de denúncias e pedidos via carta por dia. 

Mandou cópia para Gilberto Carvalho, secretário-geral da presidência. No dia 9 de março último, o Palácio do Planalto confirmou o recebimento da carta. Na semana passada, a assessoria de imprensa da presidência informou que nenhuma providência a respeito pode ser tomada porque o trecho da carta que narrava a patifaria acabara cortado da mensagem.

Não é espantoso? Sumiu da carta justamente o trecho onde Irmar denunciava o grupo que agia no Ministério do Trabalho pedindo dinheiro para liberar registro sindical. Mas sumiu como? Não se sabe. Assim como ainda não se sabe se a carta para Gilberto apresentou a mesma falha.

Bem, aí temos talvez  a primeira mentira, Noblat. Concordo contigo. Mas não temos como provar que é verdade. Na verdade, o tal Irmar deveria ter feito uma denúncia formal protocolada em juízo, e ter ido à imprensa já na época. Ficar mandando cartinha para presidente da república não é jeito de fazer avançar uma denúncia. Somos 200 milhões de brasileiros, quase todos pobres querendo alguma coisa do presidente.

Vai ver o trecho mais explosivo dela chegou truncado aos seus destinatários. Vai ver quem digitou o e-mail pulou o trecho. Custava a quem o recebeu alertar seu autor que ficara faltando um trecho? Assim a carta poderia ter sido reenviada.

Aí virou proselitismo, ou seja, falação boba. Noblat fala da secretaria da Presidência da República como se falasse do Escritório de Guerra dos EUA em 1944, como se tivéssemos 35.000 secretárias processando e respondendo cada mensagem recebida. 

Bons tempos aqueles onde um dossiê da Casa Civil sobre despesas sigilosas do governo Fernando Henrique foi batizado por Dilma de banco de dados. Fazia até algum sentido – embora fosse mentira.

Acusação grave enfiada en passant na crônica . Não era mentira da Dilma. Na época,  a atual presidente encaminhou ao Congresso e à nação um pedido de Arthur Virgílio pedindo que fossem reunidos dados do ex-presidente. E bancos de dados eram preparados normalmente na Casa Civil. E não havia mais sigilo para FHC, porque sigilo é só para presidente em exercício, não para ex-presidentes. 

E o mensalão que Lula se empenhou para que fosse confundido com Caixa 2? Mensalão é crime. Caixa 2 também é. Mas Caixa 2 soa como um crime leve, quase inocente.

Daí voltamos ao mensalão, que pelo jeito passaremos décadas discutindo. O mensalão era a acusação de pagamento periódico aos deputados para que votassem a favor do governo. Isso nunca foi provado, Noblat. Você sabe disso. Diferentemente do escândalo da reeleição, em que dois parlamentares deram um depoimento de que receberam dinheiro para votar a favor da reeleição de FHC, no caso do mensalão não houve uma alma, dentre 513 deputados, que confirmasse a história, e olha que esse fulano seria tratado como herói da mídia se o fizesse.

O que alimentou o mensalão foi dinheiro desviado de órgãos públicos. Se preferir, “recursos não contabilizados”, como observou com deslavada hipocrisia o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares.

Assim foi o mensalão mineiro, do Eduardo Azeredo, que desvio dinheiro das estatais. O mensalão petista foi caixa 2 de doações privadas. Ao fim do escândalo, usaram a história do Visanet para encher a boca e falar que foi usado dinheiro público, mas é uma história nebulosa, e de qualquer forma, ali movimentaram-se 100 mil reais, contra um total de 20 milhões para o mensalão.

Montagem de falso papelório político para uso contra adversários é coisa de bandido nos lugares onde as palavras correspondem ao seu verdadeiro significado. Aqui foi coisa de “aloprado” – um sujeito que age por conta própria para ajudar a se reeleger quem repele ajuda desse tipo.

Novamente Noblat confunde o leitor. Os aloprados foram acusados de tentar comprar um dossiê supostamente falso, não de fazê-lo. Há uma diferença. Não é crime comprar dossiê, falso ou não. Tanto é que os aloprados não foram presos.  Crime é fazer um dossiê falso. Lula chamou-o de aloprados porque não concorda (ou pelo menos foi isso que ele afirmou) com a prática de dossiês contra adversários, mesmo que eles sejam verdadeiros.

Sobreviveu ao governo anterior e atravessará o atual uma das mais perigosas mentiras jamais produzidas. Atende pelo nome de “controle social da mídia”. Seria mais adequado referir-se a ela como “censura”. Diz-se que o controle se fará sem interferir no conteúdo. Quem acredita?

Pronto, a crônica do Noblat agora virou um samba do criolo doido. Fez um pout-pourri de todos os clichês antipetistas que pululam por aí. Que censura, Noblat! Os petistas tem ódio da mídia, nisso você tem razão, mas é porque a mídia odeia os petistas, então é uma relação de amor totalmente natural e saudável! A discussão sobre a regulamentação da mídia é algo necessário em qualquer país democrático. Eu até tenho também minhas críticas ao modo como o debate é conduzido às vezes. Mas você sabe muito bem que não há possibilidade de ser aprovada qualquer lei que constitua censura à imprensa brasileira. O Congresso não aprovaria, nem a Dilma sancionaria. Pára de contar história de fantasmas. Quem acredita em você?

A mãe de todas as mentiras é também a mais perversa. Ela atribui a bandalheira à governabilidade. Como para governar é preciso contar com maioria de votos no Congresso ou nas Assembléias, os partidos abiscoitam cargos e fazem com eles o que bem entendem. De preferência, roubam. A bandalheira não decorre da necessidade de contar com o apoio de partidos. Decorre da falta de princípios e de coragem do governante para valer-se da força do mandato obtido mediante o voto popular.

Bem, aí eu concordo e discordo de você, Noblat. Discordo, em primeiro lugar, porque você vulgariza a governabilidade. Fala dela como se fosse um capricho governamental, e não um monstrengo simplesmente invencível. Concordo contigo, porém, que ela não é origem da roubalheira; esta decorre, como você disse, da falta de princípios, mas não apenas do governante, mas de toda uma elite política. A quantidade de prefeitos, governadores, juízes, desembargadores, fiscais, parlamentares, ministros, secretários de estado, ou seja, as autoridades mais proeminentes da República, envolvidas em casos de corrupção é assustador no Brasil. É um processo que tem raízes históricas e a ditadura não ajudou muito a saná-lo. Quero acreditar, Noblat, que o ambiente democrático, de transparência, com imprensa livre, com órgãos de controle atuantes, possa mudar essa cultura. Desde uns anos para cá, temos visto pela primeira vez esses crimes de colarinho branco sendo combatidos. A Polícia Federal prende todo mundo. Os tribunais de contas passam um pente fino nos gastos públicos. Falta agora termos um Judiciário que condene, porque, de fato, temos uma cultura judiciária ainda muito permissiva em relação à corrupção na política. 

Afinal, para que servem os milhões de votos que elegem um presidente ou governador?

Pois é, Noblat. Não esqueça, porém, que um presidente, ou mesmo um governador, não pode atropelar o Judiciário. Presidente não é polícia, se o fosse, tornar-se-ia um ditador. Com seus amplos poderes, seria extremamente perigoso termos um presidente tomado de fúria policialesca, porque evidentemente tenderia a usá-la contra seus adversários, causando um grave desequilíbrio na democracia brasileira. Lula ressuscitou a Polícia Federal, que na era FHC  estava moribunda, e criou o Portal da Transparência e a Controladoria Geral da União, instituições que, isso é ponto pacífico, contribuíram grandemente para o combate à malversação do bem público na esfera federal. E Dilma tem sido bastante rigorosa em relação às denúncias de corrupção em seu governo, a ponto de demitir ministros de Estado às vezes até injustamente, apenas como forma de responder politicamente à campanhas midiáticas também políticas. Você pode espernear à vontade, mas o seu próprio colega, Merval Pereira, admite que Dilma conseguiu impor uma imagem de governante austera e honesta. 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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baixadacarioca

28 de novembro de 2011 às 21h28

Tenho três observações sobre seus comentários. A primeira quando você diz "Se ele escrevesse qualquer coisa diferente, seria simplesmente demitido…" Isso é fato! Este é o papel do Noblat e o que ele tem que fazer é mesmo confundir e não explicar ou esclarecer o leitor.

A segunda é uma contradição dialética, porque num comentário você diz: "O mensalão era a acusação de pagamento periódico aos deputados para que votassem a favor do governo. Isso nunca foi provado, Noblat" e no outro você diz "O mensalão petista foi caixa 2 de doações privadas" como se o mensalão tivesse existido de fato. Claro que entendemos no sentido que tentou nos dizer, mas saiba que o que escrevemos pode se voltar contra nós. Minha sugestão é você usar mensalão entre aspas.

A terceira você poderia lembrar ao Noblat que o jornal que ele trabalha pertence a um grupo que permitiu chegássemos ao ponto em que você s concordam ao dizer que a governabilidade "…não é origem da roubalheira; esta decorre, como você [Noblat] disse, da falta de princípios, mas não apenas do governante, mas de toda uma elite política. A quantidade de prefeitos, governadores, juízes, desembargadores, fiscais, parlamentares, ministros, secretários de estado, ou seja, as autoridades mais proeminentes da República, envolvidas em casos de corrupção é algo assustado no Brasil. É um processo que tem raízes históricas e a ditadura não ajudou muito a saná-lo". Estes não surgiram agora, mas vem ao longo dos anos desde os tempos mais violentos da história do Brasil.

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