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New Yorker: A Ungida – Parte 1

Por Miguel do Rosário

29 de novembro de 2011 : 23h25

(O desenho acima ilustra o artigo traduzido)

Prezados, esta é a primeira parte da tradução do artigo da revista norte-americana New Yorker sobre Dilma, Lula e a política brasileira. É um texto enorme, então tenham paciência porque vou demorar talvez mais de uma semana para traduzir tudo. Peço-lhes também que procurem ler sem preconceito. Os escritores da New Yorker tem aquele mesmo estilo almofadinha-pedante-aristocrático que vemos em publicações como a Piauí, que aliás tenta imitar a famosa revista americana. Nós, brasileiros, com nossa autoestima frágil, temos enorme dificuldade em ler qualquer mínima crítica vinda do estrangeiro, embora nós mesmos tenhamos um prazer mórbido em nos depreciar. O autor, porém, é um autêntico intelectual cosmopolita norte-americano, um sujeito sério, sensível, e acho que podemos aprender bastante com a sua opinião sobre nós, o Brasil, a nossa política e suas lideranças.

Segue a primeira parte.

 

A Ungida – Parte 1/13

Por Nicholas Lemann, da New Yorker. Tradução: Miguel do Rosário.

Perto do final de “Viagens de Gulliver”, Lemuel Gulliver passa alguns anos agradáveis na terra dos Houyhnhnms antes de retornar para a Inglaterra. Houyhnhnms são, vocês se lembram, essencialmente cavalos, que são servidos por criaturas semelhantes aos humanos, chamados Yahoos. Gulliver descreve para seus incrédulos anfitriões a situação em sua terra natal, onde os Yahoos governam sobre os Houyhnhnms. Como pode ser isso, eles querem saber, se os Yahoos caminham sem estabilidade sobre dois pés ao invés de firmemente em quatro, tem os dois olhos na frente da cabeça, de maneira que não podem ver o que há em cada lado sem precisar se virar, e precisam vestir roupas, porque seus pés não suportam o chão duro e sua pele não os protege do frio?

Se você está visitando o Brasil vindo dos Estados Unidos ou da Europa Ocidental, é difícil evitar o sentimento de ser um Yahoo na terra dos Houyhnhnms. Até recentemente, o Brasil tem sido um dos países mais rudes (em termos de educação) e economicamente instáveis do mundo. Agora sua economia cresce mais rapidamente que a dos Estados Unidos, e não foi atingido duramente pela Grande Recessão. O intervalo entre ricos e pobres nos EUA vem crescendo alarmantemente, enquanto no Brasil começa a diminuir. Vinte e oito milhões de brasileiros saíram da pobreza extrema na última década, ao mesmo tempo em que a pobreza nos EUA atinge seu maior percentual em anos O Brasil está em paz. Baniu qualquer tentativa de obter armas nucleares. Tem um orçamento equilibrado, dívida pública baixa, nível de emprego quase pleno, e inflação baixa. É, caoticamente, democrático. A imprensa é livre. O Brasil tem um quarto da terra agricultável no mundo. E há cinco anos o que parece ser um dos maiores campos de petróleo do mundo foi descoberto em suas águas. Brasileiros usualmente posicionam-se no topo dos indicadores de otimismo de seus cidadãos quanto ao futuro de seu país.

Segundo as rígidas regras de americanos e europeus desde o colapso do comunismo, nada disso deveria estar acontecendo. E isso não apenas porque o Brasil tem sido comandado por ex-revolucionários que nunca se arrependeram de suas ações, muitos dos quais – a presidente entre eles – ficaram presos durante anos por serem terroristas. O Brasil seguiu caminhos que fomos condicionados a pensar que são imcompatíveis com uma sociedade livre. Assim como os Houyhnhnms governam sobre os Yahoos, no Brasil o Estado controla o mercado. Ninguém fala de oportunidades individuais como o mais sagrado valor de uma sociedade. O governo central é muito mais poderoso e intrusivo do que é nos Estados Unidos; gasta pesadamente num programa extremamente popular que dá dinheiro aos muito pobres – a versão brasileira do programa que o Bill Clinton eliminou em 1996, quanto ele concorreu à eleição. O governo é bem mais corrupto. No Brasil, a criminalidade é alta, as escolas são fracas, as estradas são ruins e os portos mal funcionam. E mesmo assim, situado entre as grandes potências, conseguiu uma tripla proeza: alto crescimento econômico (diferentemente dos EUA e Europa), liberdade política (diferentemente da China) e queda na desigualdade (diferentemente de quase toda parte). Como isso pode acontecer?

Em Brasília, que eu visitei no verão passado, há dois palácios presidenciais, ambos projetados pelo arquiteto modernista Oscar Niemeyer. Em virtude da Casa Branca ter sido projetada principalmente como uma residência, o espaço dos escritórios na Ala Oeste parece um viveiro de coelhos. No Brasil, a presidente, Dilma Rousseff, vive com sua mãe e sua tia no Palácio da Alvorada, situado à margem de um pequeno lago, e trabalha no Planalto, no coração do bairro governamental. O Planalto é grandioso, com escritórios amplos e vastos espaços interiores com piso de pedra polida. Rousseff é uma presença vigorosa. Da mesma forma que a maioria das lideranças políticas do país, ela cresceu durante a ditadura que assumiu o poder com o golpe em 1964 e governou por vinte e um anos. Como integrante da organização VAR-Palmares, ela passou anos numa prisão e foi submetida a tortura. Hoje ela desenvolveu uma maneira eficaz de lidar com seu passado: ela é cândida e não se arrepende do que fez, mas vaga e lacônica.

No início da minha visita, Rousseff apresentou sua segunda principal iniciativa presidencial. A sua primeira iniciativa, o Brasil sem Miséria, anunciado em junho, era um programa de erradicação da miséria. Rousseff estabeleceu uma linha de pobreza, assim como fazem os EUA, e prometeu trazer todos que estão abaixo dela – dezesseis milhões de pessoas – para o outro lado até o fim de seu mandato, em 2014. Essa é uma promessa bem mais ambiciosa que a declaração de guerra de Lyndon Johnson contra a pobreza, em 1964, que muitos políticos americanosa consideravam inalcançável. Sob Rousseff, o objetivo principal do governo é reduzir a pobreza, e ela entende a promoção de um ambiente de prosperidade econômica como a melhor forma de fazer isso. Como Rousseff respondeu via email, a uma sequência de perguntas que eu lhe fiz através de seus assistentes, “O principal objetivo do desenvolvimento econômico deve ser sempre a melhora das condições de vida. Você não pode separar os dois conceitos. A criação e distribuição de riqueza eleva os padrões de vida; da mesma forma, a melhora das condições de vida leva à prosperidade econômica.”

A segunda iniciativa foi o que os americanos chamariam, com desprezo, de política industrial: o governo como orientador da economia de uma forma que os EUA, mesmo no auge do desespero de uma crise financeira, jamais considerariam.

(continua…)

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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2 comentários

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Elson

01 de dezembro de 2011 às 07h09

Quer dizer que no Brasil os quadrúpedes governam sobre os bípedes ? Eu acho que ele quis dizer que no Brasil é o poder eleito que governa o mercado .

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    Miguel do Rosário

    01 de dezembro de 2011 às 07h37

    Hehe, eu disse que ele é um almofadinha, Elson. Não concordo com quase nada do que está dizendo. Por exemplo, ele fala que nos EUA o Estado não interfere. Duvido. Interfere sim na economia, tanto é que injetou 2 trilhões de dólares em bancos e empresas para salva-los em 2008 e 2009. E interfere na vida de outros países, tanto que faz guerra. Quer interferência maior?

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