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Por uma Comissão da Verdade sobre a privatização

Por Miguel do Rosário

11 de dezembro de 2011 : 09h33

Neste final de semana, a opinião pública especializada em política, pela primeira vez na história recente, não foi pautada por um escândalo da Veja ou dos jornalões tradicionais. O fato político que dominou corações e mentes foi o livro A Privataria Tucana, de Amaury Ribeiro Jr, que traz uma vasta documentação onde são exibidas as vísceras do processo de privatização no primeiro mandato do governo Fernando Henrique Cardoso.

Este é um assunto que gostaria de tratar com o máximo de cuidado e isenção, até porque jornalistas da imprensa tradicional, alguns pessoas inteligentes, começaram a desmerecer o autor, sem ao menos ler o livro. Um deles começou a desqualificar Amaury simplesmente por causa do seu jeitão. Amaury participou de uma coletiva na sexta-feira, onde chegou visivelmente tenso, e tratou de desabafar. Ele pesquisa esse livro há vinte anos, e já foi terrivelmente atacado e ridicularizado pela grande mídia por causa disso. Grandes jornais fecharam-lhe as portas apenas em virtude de sua disposiçao de investigar as denúncias de lavagem de dinheiro, que é sua especialidade, de integrantes do governo Fernando Henrique.

Em 2010, durante a campanha, o livro de Amaury, que estava quase pronto, veio à tôna. Havia interesse do PT, naturalmente, que ele fosse divulgado, já que traz documentos que punha o candidato adversário em dificuldade. A mídia fez um grande estardalhaço para abafar o conteúdo da obra, e apareceu até um rapaz em Santos, um despachante simplório, acusando Amaury de lhe dar dinheiro para subornar fiscais de uma repartição, para obter um documento sigiloso e falsificá-lo.

São coisas de campanha; e a mídia participou ativamente da campanha serrista.

O livro de Amaury tem um capítulo dedicado apenas aos bastidores da campanha de 2010, onde não perdoa inclusive o PT. Aliás, o livro de Amaury também acusa o PT de ter participado de uma operação abafa por conta da enorme lavanderia de dinheiro sujo descoberta com a CPI do Banestado. Ou seja, é um livro impiedoso com todos, embora o foco principal seja a corrupção desenfreada que aconteceu nos bastidores da privatização dos anos 90.

Na coletiva de sexta-feira, um dos integrantes aventou a possibilidade da blogosfera criar uma espécie de Comissão da Verdade, tendo como base os documentos revelados por Amaury. Neste sábado, Eduardo Guimarães, teve a ideia de pressionar o Ministério Público Federal, através do envio, por Sedex, do livro de Amaury ao chefe do MPF, o senhor Roberto Gurgel.

Antes de continuar gostaria de rebater algumas críticas que ouvi por aí ao livro:

  • Um jornalista ( o mesmo que cismou com o jeitão de delegado do Mato Grosso do Sul, que Amaury realmente tem) ficou no Twitter só desqualificando algumas declarações de Amaury. Sobre isso, quero dizer o seguinte: Amaury Ribeiro não é o Oráculo de Delphos. É um repórter investigativo, com especialização em lavagem de dinheiro, com mais de 50 prêmios em sua área (veja aqui um dos 3 prêmios Esso que ganhou). Já trabalhou nos maiores jornais e revistas do país. A questão não é saber se 100% das denúncias ou conclusões de Amaury são verdadeiras. A questão é analisar, objetivamente, quais são verdadeiras, e qual a sua gravidade. Não podemos jogar a obra completa de Nietzsche o lixo só porque ao final da vida ele beijou um cavalo e disse que o animal era a reencarnação de Cristo.
  • Um comentarista escreveu que não se interessa por crimes que “já prescreveram”. Isso é uma tremenda besteira, fruto apenas do desespero de ver seus ídolos na cadeia. Essa não é uma questão partidária. É uma questão nacional, de trazer a verdade à tôna. Não importa se FHC ou Serra serão presos. Por isso foi tão feliz a comparação com a Comissão da Verdade. É fundamental que o Brasil conheça o que aconteceu durante o processo de privatização. É um esclarecimento. Para que isso não se repita, e para avaliarmos com mais conhecimento de causa os acontecimentos de um momento histórico importante do nosso período de redemocratização. Arqueólogos arriscam a vida para conhecer fatos que ocorreram há milhares de anos. Por quê? Porque tudo serve à ciência; em nosso caso, conhecer os bastidores da privatização, serve à ciência histórica, à ciência política, à história da economia, além da questão propriamente ética. Vamos ver agora se esses movimentos todos anticorrupção são autênticos e irão participar de uma campanha para que os crimes denunciados por Amaury, que envolvem bilhões de dólares, e transformam qualquer “mensalão” recente em roubo de galinha, sejam investigados.
  • Tentam desqualificar Amaury pelo fato dele ter sido indiciado pela Polícia Federal em 2010, o auge da campanha, na onda da histeria midiática sobre a quebra de sigilo de alguns tucanos de alta plumagem. Essa é uma grande ironia. A mídia jamais fez escândalo com a quebra de sigilo dos negócios do Palocci, do Pimentel; os únicos sigilos que realmente são intocáveis, ao que parece, são de tucanos. De qualquer forma, essa é uma discussão de baixo nível, porque hoje em dia há uma tendência pelo fim do sigilo para políticos. O próprio Amaury tem uma posição firme sobre isso: lembrou-nos, durante a entrevista, que há no Senado americano um debate requerendo o fim dos sigilos fiscais e bancários para qualquer um envolvido em atividade pública, sendo essa a única maneira de vencermos, definitivamente, o crime organizado. Entretanto, o Amaury afirmou que sua  investigação é toda baseada em documentos que não são sigilosos, ou que pelo menos foram obtidos de maneira pública, simplesmente consultando cartórios no Brasil e no exterior.
Infelizmente, não li o livro, e terei que esperar até segunda-feira para comprar uma versão virtual e lê-lo pela internet. Mas assisti atentamente a entrevista com Amaury na sexta-feira, e posso adiantar algumas denúncias, todas baseadas em documentos obtidos, segundo o repórter, legalmente:
  • Amaury  começou a entrevista com uma conclusão, a que chegara após a descoberta de tanta roubalheira: a privatização foi um processo onde o interesse principal era a corrupão, e não a ideologia neoliberal.
  • As figuras centrais nos esquemas de lavagem de dinheiro e corrupção, por trás da privatização, foram Ricardo Sérgio, Gregório Marin Preciado, Daniel Dantas e José Serra.
  • Amaury descobriu, fundamentalmente, um esquema de lavagem de dinheiro, que consistia no seguinte: empresas de fachada investiam em empresas brasileiras, com isso justificavam, junto ao Banco Central, a entrada de grande quantidade de recursos; depois, essas empresas brasileiras não davam certo, ou seja, davam prejuízo, justificando o sumiço do dinheiro e o não-pagamento de impostos.
  • Preciado, cujas ligações com Serra são infinitas,  obteve empréstimos de milhões de reais junto ao Banco do Brasil, mesmo possuindo inúmeros títulos protestados na praça. Amaury demonstrou enorme revolta com esse fato, pois contou que é dono de uma pequena pizzaria em Campo Grande, que herdou do pai, e o BB vetava-lhe qualquer financiamento ao mesmo tempo em que  liberava milhões para um pilantra conhecido.
  • Ricardo Sérgio era o mentor de todo o processo, o homem que dominava a tecnologia financeira necessária para realizar as operações de lavagem de dinheiro, pelas quais o dinheiro da corrupção era internalizado “legalmente” no país.
  • Amaury demonstrou que Serra usou a sua filha, Verônica, e seu genro, como seus próprios laranjas. Verônica usou uma empresa, a Decidir.com, um site supostamente milionário, onde tinha sociedade com Daniel Dantas, para justificar a entrada de milhões de dólares no Brasil.
É muito importante que o Brasil conheça a fundo essa história, até para sabermos o perigo que passamos em 2010, quando vivemos uma campanha incrivelmente suja. Teve um momento, em que os candidatos da oposição eram Serra, na cabeça da chapa, e José Roberto Arruda, como vice. Por aí, vocês podem imaginar o que seria do Brasil.

Também se entende porque o vale-tudo. Para Serra era fundamental ganhar as eleições, para ter mais ferramentas para evitar qualquer investigação sobre si mesmo e sua família.

Segue uma orientação de como adquirir o livro, que eu catei num comentário do blog Cidadania:

Listas das livrarias, onde o livro está disponível: http://www.geracaoeditorial.com.br/pontos_venda/brasil.php

1- Se não encontrar o livro, na livraria, encomende-o ao gerente;
2- Deixe o seu telefone e email para contato;
3- Volte na data marcada para retirar o livro e solicite que o mesmo esteja disponível, também, nas prateleiras da livraria.

Como comprar direto da editora:

1- Envie um email para comercial@geracaoeditorial.com.br ;
2- Cite o nome do livro e autor;
3- Informe os dados do comprador: Nome, CPF e endereço com o CEP para o devido cálculo do frete;
4- Informar a modalidade da entrega (Sedex ou outra).

*

Um colega de twitter, @alexeisantana, transferiu o vídeo com a coletiva do Amaury aos blogueiros para o youtube:

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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13 comentários

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@josecarloslima

12 de dezembro de 2011 às 05h29

Só estou testando como é comentar logado no twitter, vc precisa explicar isso para seus leitores, vi agora, por acaso, ao clicar no link @bicicreta
Ah, também a opção twittar este comentário, que bacxana, mas muita gente não sabe que há esta ferramenta
O Elson nos chama a atenção para as cifras astronômicas da roubalheira: mais de 1 trilhão de reais, diante disso o valor pelo qual a Vale foi colocada nas mãos da máfica tucana: 3 bi

Mais uma vêz nossa mídia mostra sua seletividade ao tratar o caso de Fernando Pimentel como crime e dá contorno de formação de quadrilha a relações comerciais legais e declaradas enquanto esconde o escandalo das privatizações que em valores atuais significam um prejuizo de mais trilhão de reais ao povo brasileiro .

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_spin

12 de dezembro de 2011 às 04h47

O livro de Amaury tem um capítulo dedicado apenas aos bastidores da campanha de 2010, onde não perdoa inclusive o PT
Como o livro cita o PT o pig vai ficar lambendo os beiços com vontade de citar esta parte mas, como citar estra parte sem citar o nome do livro…rrsss
Segundo o site Vermelho o livro do Amaury está vendendo feito água, mais de 15 mil exemplares em 48 horas, já deveria estar naquela lista de Best Sellers, que sai, que sai em tudo quanto é jornal e revista
Será que a imprensa nacional vai fraudar a lista de Best Seller
Meus botões me dizem que vão fraudar a Best Seller
Queria tanto assistir ao discurso completo de Cristina, ela foi bem didática ao citar o monopólio da informação, a importancia de se abrir o setor

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@bicicreta

12 de dezembro de 2011 às 02h02

Miguel, só uma correção: nós sul mato grossenses nos inflamamos quando trocam o nome do estado, o Amaury é de Campo Grande MS, e não do Mato Grosso :)

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ana

11 de dezembro de 2011 às 23h29

A midia se beneficiou das falcatruas. Portanto, não esperem por parte da grande midia divulgação do crime de lesa patria que foi a privataria. Estão envolvidos até o pescoço com a quadrilha que lesou o país. As denuncias contra os Ministros de Dilma jamais teve como motivação a guerra a corrupção. Sempre visou o desgaste e a paralização do governo. O objetivo é fazer o governo Dilma sangrar para que em 2014 fragilizado perca a eleição. Disputa pelo poder. A midia age como um partido de oposição. E usará todos os meios imorais e ilicitos para atingir seu objetivo: o poder.

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    _spin

    12 de dezembro de 2011 às 04h53

    Ana, um amigo me fez um comentário interessante, que a intenção deste esquema da mídia são as eleições sim, produzir material para a campanha, claro, terão bastante capa de jornal para mostrar no Horário Eleitoral. A esquerda tem que começar a pensar nisso, se bem que os jornais boicotam notícias sobre a corrupção tucana, exceto quando a policia desbarata alguma quadrilha, como ocorreu com a Controlar, Metrô, Paulo Preto, e agora o livro do Amaury

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Gilson Raslan

11 de dezembro de 2011 às 22h44

Miguel, o Amauri, em sua entrevista aos blogueiros sujos, afirma que o segundo homem da hierarquia da Polícia Federal é pessoa ligada ao Zé Serra. Diante desse fato, ele (Amauri) afirma que não entende como isso acontece no Gorerno Dilma.

Eu acho que tenho a resposta para o Amauri. O Ministro da Justiça, chefe maior da Polícia Federal, já trabalhou para o Daniel Dantas, que é ligado ao Zé Serra. Portanto, é sob a influência do Daniel Dantas que o Zé Serra consegue esta façanha. A afirmação pode até não ser verdadeira, mas o raciocínio é coerente.

Miguel, se eu estiver equivocado, pode me corrigir.

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baixadacarioca

11 de dezembro de 2011 às 17h47

Estou com puta dúvida sobre o processo político no Planalto: o governo não é maioria no Congresso? Essa maioria aprovaria uma CPI? Não há um Ministério da Justiça com gente capacitada por lá pra defender os interesses da sociedade? Qual que é a sua cara Congresso Nacional?…

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lilana lima

11 de dezembro de 2011 às 15h38

Nossa, Tô chocada! Sabia que era grave mas não tinha idéia do tamanho da gravidade. E o safado do Serra tirando onda de bom moço heIn? Sem palavras. Valeu e vou ler o livro, com certeza.

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    _spin

    12 de dezembro de 2011 às 04h50

    Lilana, lembro do coiso em cima de um carro cercado de padres com batina, padres bem raivosos, de uma congregação de Anápolis, conversei com um deles para gravar um video, o cara já veio me perguntando de qual jornal eu era, e passou a atacar Dilma, eta zé povinho safado

    Responder

simonebh

11 de dezembro de 2011 às 10h51

Sou especialista em cafezinho e aprovei e gostei deste.
Como mineira que acompanhou o processo de privatização da Cemig e da Vale, senti todos estes anos um nó na garganta pela pilantragem do governo FHC e toda a sugeira acobertada pela mídia. Felizmente, esse sofrimento foi minorado pelo livro do Amaury e sua repercussão nos blogues. Já encomendei os meus exemplares e não me canso de ler os comentários dos blogues mais lúcidos. Obrigada ao Amaury e a você por este gostoso cafezinho!

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Elson

11 de dezembro de 2011 às 10h22

Onde andaam os indignados e os cansados de plantão , cadê a OAB ? Se não fosse a blogosfera esta obra que pode ser considerada uma peça de inquérito jamais sairia do prelo .

Mais uma vêz nossa mídia mostra sua seletividade ao tratar o caso de Fernando Pimentel como crime e dá contorno de formação de quadrilha a relações comerciais legais e declaradas enquanto esconde o escandalo das privatizações que em valores atuais significam um prejuizo de mais trilhão de reais ao povo brasileiro .

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