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Globo inventa desemprego que não existe

Por Miguel do Rosário

21 de dezembro de 2011 : 13h14

Pela enésima vez subestimei a criatividade da mídia brasileira para inventar fatos negativos. O Globo e uma das versões da Folha vieram hoje com manchetes apocalípticas.  Reproduzo apenas o Globo:

A culpa não é só do Globo, mas de uma espécie de apagão lógico que parece acometer analistas que se debruçam sobre o mercado de trabalho no país. A geração de emprego não é um número que se pode pensar abstratamente, sem ligá-lo à população economicamente ativa. Digamos que, no Brasil, tivéssemos 10 milhões de desempregados ao fim de 2007. De lá para cá, geramos de 2 a 3 milhões de novos empregos por ano.

Façamos um exercício:

Base: Fim de 2007 – 10 milhões de desempregados.
2008: Geração de 2 milhões de empregos. Subtotal: 8 milhões de desempregados.
2009: Geração de 2 milhões de empregos. Subtotal: 6 milhões de desempregados.
2010: Geração de 3 milhões de empregos. Subtotal: 3 milhões de desempregadso.
2011:

Observe que, se 2011 repetisse o desempenho de 2010, teríamos virtualmente 0% de desempregados no país, o que é algo impossível, até porque temos um percentual da população ainda incapaz de se adequar às necessidades do mercado de trabalho. A tendência nos saldos de emprego é cair em proporção ao número de mão-de-obra disponível.

Saldos de mão-de-obra não são como números do PIB, que podem se manter altos por longos períodos. Eles só são altos se partem de uma base com grande número de desempregados. Com essa base diminuindo, os saldos necessariamente vão declinando também. Se eu tenho 10 milhões de desempregados num país, é factível gerar um saldo de 3 milhões de empregos; se eu tenho 2,5 milhões, é impossível – matematicamente falando – gerar um saldo semelhante.

Novembro foi um mês realmente mais fraco que outros meses para o mercado de trabalho, mas precisamos ponderar os seguintes fatores. Preparei algumas tabelas e gráficos para tentamos compreender melhor a situação.

 

Os saldos de emprego são um cálculo em que se subtrarem o total de demissões ao total de admissões num determinado período.

Observe que as admissões em 2011 foram maiores, em todos os períodos, inclusive em novembro, do que em 2010. Em novembro, admitiram-se 1,62 milhão de trabalhadores, contra  1,57 milhão em novembro de 2010. A diferença é que também se demitiu mais este ano do que no ano anterior. O alto volume de admissões, contudo, revela dinamismo econômico, sem esquecer que houve saldo positivo. Em meio a uma crise financeira global, as admissões foram superiores às demissões. Em novembro de 2008, houve saldo negativo de 41 mil postos de trabalhos.

É preciso ver, além disso, que os meses de novembro a janeiro são os mais fracos para o mercado de trabalho, porque, além de serem a entressafra dos produtos agrícolas, eles também correspondem, por assim dizer, a “entressafra” da produção industrial.

Para se ter uma ideia, em novembro de 2008, o saldo negativo somente na indústria foi de 81 mil postos de trabalho; em novembro deste ano, o déficit no emprego industrial ficou em 54 mil empregos.

Ou seja, sempre há déficit no saldo de empregos da indústria em novembro. Mesmo em 2010, um ano de excepcional crescimento econômico, o saldo na indústria ficou negativo em 9 mil postos de trabalho em novembro.

Repare, contudo, que o setor industrial produziu, no acumulado de 12 meses até novembro último, um total de 4,09 milhões de postos de trabalho, contra 3,89 milhões nos 12 meses findos em novembro de 2010. Ou seja, as indústrias produziram mais empregos este ano do que no ano anterior, a diferença é que também demitiram mais. Observar a produção de empregos, porém, é importante para checar seu dinamismo.

O importante, reitero mais uma vez, é acompanhar a evolução da taxa de desemprego.

Não vou negar as dificuldades da economia mundial, apenas enfatizo que a mídia brasileira faz uma leitura enviezada de todos os índices sócio-econômicos.

A mesma coisa vale para o déficit externo. O Globo de hoje vem com outro terrorismo, o de que estamos com o maior déficit externo de nossa história. Ora, o Brasil está recebendo R$ 121 bilhões em investimentos estrangeiros produtivos em 2011, o que dá e sobra para cobrir o déficit de cerca de R$ 12 bilhões nas chamadas transações correntes.

Além disso, uma coisa se liga à outra. Como está entrando uma quantidade gigantesca de recursos estrangeiros, é normal que também cresça a quantidade de dinheiro que sai do país. Os estrangeiros não são malucos. Eles investem no Brasil, mas precisam pagar esse investimento, não?

O cálculo do Globo, de que temos o maior déficit em transações correntes desde 1947, é absolutamente esquizóide. Ora, também temos a maior população desde 1500, e o PIB brasileiro hoje é vinte vezes maior que o de 1947. Os valores entrando e saindo são evidentemente maiores do que os registrados em épocas anteriores.

Os números do Cadastro Geral de Empregos podem ser consultados no portal do Ministério do Trabalho.

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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