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Escondendo recordes

Por Miguel do Rosário

03 de janeiro de 2012 : 07h31

Nesta segunda-feira, dia 2 de janeiro, o governo divulgou os números do comércio exterior referentes a 2011. O sistema brasileiro de apuração estatística de comércio exterior é, sem exagero, o mais transparente e dinâmico do mundo. Em nenhum outro lugar, divulgam-se resultados de comércio exterior do mês anterior no primeiro dia útil do mês seguinte.

Não é ufanismo barato. Sou jornalista especializado em comércio exterior (mais especificamente em café) há quinze anos e monitoro a divulgação de estatísticas online em todo planeta. O Brasil é o que divulga mais rápido, e da maneira mais completa.

Digo isso porque me parece incrível que, diante de uma riqueza tão grande de números, nenhum dos três principais jornais brasileiros deu qualquer destaque na primeira página.

É uma coisa até meio doentia. Folha e Estadão não deram sequer uma notinha na capa e olha que os números foram divulgados ontem à tarde, às 15:30, o que lhes daria tempo de sobra para fazer até um caderno especial sobre o assunto, se quisessem.

Repare nas manchetes de hoje:

Não consigo entender o que leva um editor de capa do Globo, um jornal que circula em todo país, a pensar que a redução dos “gatos” de luz em meia dúzia de favelas cariocas é uma manchete melhor do que uma sobre o desempenho recorde do comércio exterior.

As matérias nos cadernos internos foram acanhadas, pequenas, tímidas. No Globo, o tema mereceu a capa do caderno de economia, mas num texto resumido e fraco, entrevistando junto ao setor privado apenas uma fonte, o presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior, José Augusto de Castro.

Eu entendo – e acho saudável – que a mídia queira se distanciar do ufanismo natural do governo. É importante que a imprensa destaque os pontos negativos, que sempre haverão, em nosso comércio exterior. Mas abafar o assunto, como se viu, ao ignorá-lo na primeira página, não me parece nada profissional. Enfim, os jornais são privados e eles fazem o que lhes dá na telha. Deixa pra lá.

Encontrei, ao menos, alguns infográficos bonitinhos. Os de baixo estão no Globo:

 

 

A tabela abaixo, por sua vez, eu catei no site do Ministério de Desenvolvimento. Ela traz números sobre a exportação de manufaturados, que comento abaixo.

O que vai render assunto para o Cafezinho de hoje e nos próximos dias, no entanto, é a manipulação da notícia. Por exemplo, na matéria sobre comércio exterior, o Globo dá destaque à queda na exportação de automóveis. De fato, a exportação de automóveis de passageiros caiu 1,2% em 2011; mas seria honesto informar também, na mesma matéria, que as vendas externas de autopeças cresceram 15%; a de motores, 26%; a de veículos de carga, 30%. O setor automotivo deve ser visto como um todo, e no conjunto, o ano de 2011 foi bem melhor do que se esperava, tanto no comércio exterior quanto no mercado doméstico, onde, aliás, registrou venda recorde (o que inclusive explica em parte o não crescimento da exportação de carros de passageiros: o mercado interno absorveu a produção).

Repare ainda que a exportação de manufaturados cresceu 16% em 2011, atingindo 92,30 bilhões de dólares. O Globo simplesmente omitiu esse número, preferindo dar destaque à queda de 13% na exportação de calçados, item que corresponde a 0,5% do total exportado pelo país.

Talvez a razão para a mídia esconder os números de comércio exterior tenha motivos políticos, temendo que a exposição de uma conjuntura econômica positiva possa ampliar ainda mais a popularidade do governo. A obsessão oposicionista da imprensa brasileira está produzindo um jornalismo esquizofrênico.

O saldo comercial brasileiro subiu 48% no ano passado, em plena crise financeira mundial, atingindo quase 30 bilhões de dólares. Neste ponto, é positivamente ridículo o viés negativo que a mídia procura dar ao aumento das importações, reflexo de ideias vira-latas (que infelizmente já ditaram políticas públicas) segundo as quais deveríamos obter saldos comerciais através de medidas recessivas que reduzem as importações através do empobrecimento do cidadão. Não é ruim importar mais. Quanto mais rico se torna o país, mais importa. É uma lei econômica. Seria ruim se tivéssemos grande déficit cambial. Temos o contrário, um saldo positivo crescente e batendo recordes. As importações geram impostos, que são aplicados (em tese, ao menos) em educação e saúde, e permitem às indústrias renovarem seus maquinários, já que grande parte das importações brasileiras são de bens de capital – ou seja, máquinas industriais que permitirão a modernização do parque fabril nacional.

O problema da concorrência chinesa, que é real e grave, afeta indústrias do mundo inteiro. Nem sei se aprovo a onda protecionista que vem ganhando força no governo; mas enfim, ela é feita com boas intenções e, caso seja acompanhada de incentivo à renovação tecnológica, pode dar certo. O que importa é ver que as exportações de manufaturados estão subindo, mesmo que num ritmo inferior ao desempenho das commodities.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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8 comentários

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Fred

04 de janeiro de 2012 às 16h13

Olá Miguel, está faltando agora, para nosso deleite, uma análise dos dados das exportações brasileiras dos últimos anos, principais blocos comerciais, situação das exportações para África, América Latina e Caribe e Oriente Médio.

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    Miguel do Rosário

    04 de janeiro de 2012 às 16h29

    Vai ter, Fred. Estou esperando o Sistema Alice atualizar os dados de dezembro, o que deve acontecer a qualquer minuto. Abs.

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elson

03 de janeiro de 2012 às 12h40

Nossa grande mídia não quer mostrar o sucesso do governo na área de comécio externo , pois duarante o ano passado eles sempre bateram duro nas políticas econômicas adotadas pelo governo Dilma .A tão criticada redução da taxa selic foi contestada por todos os economistas do mercado , esta semana ouví um economista na Globo News admitir que estava enganada quanto as medidas adotadas pelo BC .
Após o silencio do PIG e sua defesa dos citados na Privataria Tucana , tudo aquilo que eles publicarem será visto com reticencias .

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Daniel

03 de janeiro de 2012 às 12h33

Para entender como a mídia pensa basta lembrar que eles acreditam que o Brasil continua sendo uma colônia, Miguel.

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érico cordeiro

03 de janeiro de 2012 às 12h03

Grande Miguel,
Bem vindo ao batente!
Como diria Gertrude Stein: "Um PIG é um PIG, é um PIG, é um PIG"!

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Leonardo

03 de janeiro de 2012 às 11h14

Foi só pra não fazer feio com a Miriam Leitão, que disse há 1 ano atrás que o saldo comercial ficaria em 3 bi, e foi de 30… Deve ter aprendido matemática com o Serra…

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    érico cordeiro

    03 de janeiro de 2012 às 12h05

    Ou com o Marco Antônio Villa, que disse que a ditadura militar (quase que ele fala "A redentora" ou "A gloriosa") só durou de 1964 a 1978…

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Otto

03 de janeiro de 2012 às 09h12

Miguel, a lei do PIG é esta; o que é bom a gente esconde.

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