Vale pode ser eleita a pior empresa do mundo

É uma empresa brasileira, então eu não deveria ter prazer em divulgar uma notícia dessas. Mas não sou santo. Tenho também meu lado mau. Não resisti a um sorriso de malícia ao ler que a Vale está prestes a ser eleita a pior empresa do mundo. O engraçado é que eu jamais li uma notícia negativa sobre a Vale na grande mídia.

Sou uma pessoa tão ruim, que vou torcer para a Vale ganhar o prêmio. Aliás, vou até votar e fazer campanha contra ela.  Daí vou imaginar o seguinte: que eu consigo uma cópia do troféu, e o mando por sedex para Miriam Leitão, juntamente com um buquê de flores. Por que Miriam Leitão? Por que ela foi uma das maiores defensores da privatização, frequentemente faz elogios à gestão da empresa, jamais a criticou.

Minha malignidade tem uma origem racional, naturalmente. Quando a Vale pertencia ao Estado, a cotação do minério estava em menos de 20 dólares a tonelada. Logo depois de privatizada, houve a entrada da China com muita força no mercado mundial de ferro, pressionando os preços da commodity. Hoje está a mais de 150 dólares. Ou seja, a empresa foi privatizada a toque de caixa porque os analistas sabiam que o mercado internacional do ferro estava prestes a viver um choque. Se esperassem mais um ano, o preço da Vale seria decuplicado, e seria muito mais difícil vendê-la.

Por outro lado, o Brasil poderia ter arrecadado muito mais dinheiro, e sem usar moedas podres (títulos públicos brasileiros sem valor), nem financiar os compradores com recursos do BNDES, apenas abrindo o capital da empresa, sem perder porém o controle acionário. Com isso, poderia modernizá-la e transferir tecnologia do exterior. Ou talvez nem precisasse abrir o capital nada. Bastava acreditar na empresa e investir nela. Teríamos uma estatal de grande porte que poderia ajudar o governo em seu esforço para ajudar as indústrias nacionais. 

Além disso, guardo ressentimento contra a Vale, porque ela deu uma facada nas costas do país em 2009. Foi a primeira grande empresa brasileira a realizar uma demissão em massa justamente no auge do nervosismo em relação à crise financeira mundial. Com isso, disseminou uma mensagem extremamente negativa, quase terrorista, que poderia ter provocado uma onda de demissões e desemprego no Brasil. Felizmente, poucas empresas seguiram a Vale, e o Brasil enfrentou a crise com altivez e soberania. A Vale jogou contra o país. É uma empresa privada e pode demitir quem quiser. Mas naquele momento delicado, foi um cachorrada.  A Miriam Leitão, mesmo assim, defendeu a decisão da Vale com unhas e dentes…

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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