Paris Café: O PT tem um projeto de governo? Qual é?

Yoani Sanchez vem aí

Por Miguel do Rosário

27 de janeiro de 2012 : 14h59

A queda do diretor do DNOcs (Departamento Nacional de Obras contra as Secas), Elias Fernandes, nos dá mostras de como funciona a estratégia de Dilma para lidar com as crises políticas geradas por denúncias na imprensa, as quais, por sua vez, são deflagradas por relatórios negativos da Controladoria Geral da União.

Na verdade, temos uma realidade nova no Brasil, a transparência dos gastos públicos e dos relatórios. Quando se implantaram os sistemas de transparência, ninguém alertou para suas consequências: um enorme e estridente golpe no fisiologismo e na corrupção.

Como os sistemas foram implantados em meados do governo Lula, estão amadurecendo só agora, na gestão Dilma. É uma realidade diferente, e da qual a mídia se aproveita para produzir denúncias verdadeiras, ilações exageradas e, sobretudo, crise política.

A presidente tem de saber lidar com a nova realidade, usando a mídia a seu favor. Mesmo sendo uma mídia basicamente de oposição.

Tudo que ela tem a fazer é separar o joio do trigo, ou seja, a denúncia verdadeira da falsa, estabelecendo parâmetros racionais e dando condições para que os acusados se defendam. Uma coisa, porém, é uma denúncia absolutamente vazia, sem nenhuma base concreta, formada apenas por ilações absurdas ou exageradas; outra coisa são denúncias baseadas em relatórios da Controladoria Geral da União, como é o caso do escândalo envolvendo o Dnocs.

Neste caso, o correto é afastar o agente envolvido não apenas para que ele não atrapalhe as investigações, como para dar uma resposta política positiva à sociedade. Os parâmetros, portanto, começam a ser delineados.

Não é o caso de transformar a CGU num órgão mais poderoso que a presidência da república. Há denúncias e denúncias da CGU. É preciso criar limites para que o CGU se limite à denúncias de desvios de verba, sem se imiscuir em decisões políticas de caráter estratégico ou administrativo, como foi o caso das obras em Cuiabá, quando a CGU insinuou ser melhor construir uma linha de ônibus do que um trem de superfície. Isso foi erro da CGU. Trem de superfície pode ser mais caro, mas implica num custo-benefício muito superior ao de ônibus convencionais. A CGU não entende nada de transporte público, então deve se limitar a analisar as contas das instituições públicas e verificar se está tudo direito.

O Globo fala em crise entre o Planalto e o PMDB. Não sei até onde a mídia exagera essa crise, que ela aliás tenta provocar há anos, com vistas a enfraquecer a base aliada e levar seus dissidentes para a oposição, e até onde a crise é verdadeira. Teremos que fazer uma análise muito criteriosa. De qualquer forma, desde que não implique num rompimento com toda a estrutura do PMDB, é bem saudável que Dilma consiga se impor com independência perante os segmentos mais fisiologistas do partido de Sarney e Renan Calheiros. Claro que há um risco, mas quero crer que seja um risco calculado por Dilma. Apoio popular ela tem.

O Globo tentou exagerar a reação de alas do PT à nomeação do novo ministro de Ciência e Tecnologia, Marco Antonio Raupp, um grande nome para a pasta. Não sei bem como foi essa reação, e até que ponto ela foi verdadeira. Sei apenas que Raupp foi indicado por Mercadante, senador petista, então creio que a insatisfação tenha sido apenas localizada, segmentada, e não do partido como um todo.

Por fim, temos outro assunto candente: a concessão de visto para a blogueira Yoani Sanchez. Os jornais dizem que o Itamaraty negociou com o governo cubano para que este autorize a sua vinda ao Brasil. Torço para que isto aconteça, para o bem de Cuba. Proibir a vinda de Yoani causaria danos à imagem do regime cubano, dificultando os esforços, que todos fazemos, para que os EUA levantem o embargo contra a ilha.

E torço para que nenhum esquerdista amalucado tente insultar ou agredi-la durante sua estadia aqui. Acho que o Brasil fez muito bem em conceder visto à blogueira, que alguns podem considerar uma odiosa traidora dos ideais socialistas ou de sua pátria, uma vendida aos serviços de inteligência americanos. Entretanto, como não há nenhuma acusação formal contra ela do governo cubano, então devemos considerá-la inocente, seguindo os princípios de nossa Constituição. E devemos tratá-la com todo respeito devido a um estrangeiro em visita ao Brasil. Se demos anistia até a ex-torturadores do regime militar, não faz sentido agredirmos (nem que seja verbalmente) uma jovem blogueira latino-americana. Posso não concordar com seus pontos-de-vista, mas acho que a troca de informações e experiências entre pessoas com visões de mundo diferentes é sempre útil à construção de um mundo mais harmônico e pacífico. Além disso, a esquerda deve tentar se livrar, de uma vez por todas, do estigma de ser favorável à censura. A luta contra esse estigma tem sido levada muito à sério por intelectuais de esquerda em todo mundo, ainda mais porque, de fato, ainda existe violação a esse direito humano básico (a liberdade de expressão) em países comunistas, como China, Coréia do Norte e Cuba. Dilma Rousseff sabe disso e não é por outra razão que tem sido extremamente cuidadosa quando aborda o tema (assim como foi Lula). Uma das razões pelas quais o debate em torno de uma nova regulamentação da mídia no Brasil não vai para frente é porque a discussão ideológica sobre o que é liberdade de expressão e qual o seu significado numa democracia ainda não está madura. Há grupos (sempre bem intencionados) que defendem sistematicamente a censura, usando ora argumentos de ordem política, ora de ordem moral.

Sendo assim, a presença de Yoani Sanchez será um teste importante. Seja bem vinda, Yoani.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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13 comentários

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Marta

05 de fevereiro de 2012 às 22h29

Giovani eu ficaria muito grata se você informasse dados sobre a frase supostamente dita pela presidenta Dilma.

"A oposição não tem projeto, discurso nem base de apoio social. O que eles têm é o alinhamento com grande parte da imprensa, substituindo o debate político por uma oposição midiática" – Dilma Rousseff

Eu gostaria de informações sobre quando ela falou isso. (dia / mês / ano)
Eu que ocasião (nome do evento)
Em qual cidade e Estado.
Quanto mais informações melhor. Se você tiver também o link do vídeo ou áudio de quando a frase foi dita eu agradeço.

Marta

Responder

    Giovani

    07 de fevereiro de 2012 às 12h09

    Prezada Marta,

    É só você procurar na internet minha querida !!!

    Segue um link, por exemplo: http://gazetaweb.globo.com/v2/noticias/texto_comp

    No meu comentário, o mais importante não é o que a Dilma falou….e sim o comportamente fisiológico do PMDB. Isso é o que existe de mais danoso para a política brasileira.

    Enquanto PT e PSDB se engualfinham… O PMDB vive nas sombras e multiplica-se….

    Responder

Giovani

04 de fevereiro de 2012 às 09h21

Nenhum governo, depois da Ditadura, governou sem o PMDB (fato)

E o PMDB, nunca deixou ninguém governar sozinho.(afirmação)

Aliás, qualquer governo eleito só faz alianças com os politicos que se elegem. Assim é a democracia!!!

Por melhor que sejam as nossas intenções, a pessoa que for eleita presidente, governador ou prefeito, não virá nos consultar ou pedir apoios.

Alinaças são feitas com quem foi eleito!!! Com quem vota no congresso e é votado!!!

O PMDB é o maior partido do Brasil e I-N-F-E-L-I-Z-M-E-N-T-E, ainda o será por um bom tempo. Veja porque:

Governo Sarney, PMDB puro…

O ministério Sarney, organizado por Tancredo Neves, de maneira a garantir a transição pacífica, tinha feição fortemente conservadora.

Nele estavam cinco políticos que até meses atrás estavam dentro do governo militar:

PFL (DEM)

Aureliano (Minas e Energia),

Olavo Setúbal (Relações Exteriores),

Maciel (Educação)

Paulo Lustosa (Desburocratização),

PDS

Antônio Carlos Magalhães (Comunicações),

PMDB

Afonso Camargo (Transportes),

Almir Pazzianotto (Trabalho),

Aluísio Alves (Administração),

Carlos Santana (Saúde),

Fernando Lira (Justiça),

Flávio Peixoto (Desenvolvimento Urbano),

Francisco Dornelles (Fazenda),

João Sayad (Planejamento),

José Aparecido de Oliveira (Cultura),

Nélson Ribeiro (Reforma e Desenvolvimento Agrário),

Pedro Simon (Agricultura),

Renato Archer (Ciência e Tecnologia),

Roberto Gusmão (Indústria e Comércio),

Ronaldo Costa Couto (Interior),

Valdir Pires (Previdência),

José Hugo Castelo Branco (Casa Civil),

Militares ligados ao PMDB

General Rubens Bayma Denis (Casa Militar),

General Leônidas Pires Gonçalves (Exército),

Brigadeiro Otávio Júlio Moreira Lima (Aeronáutica),

Almirante Henrique Sabóia (Marinha),

General Ivan de Sousa Mendes (Serviço Nacional de Informações)

General José Maria do Amaral (Estado-Maior das Forças Armadas).

Ao final do governo Sarney, o PMDB venceu as eleições para os governos de 22 dos 23 estados existentes à época.

Quem sucedeu o Sarney na Presidencia ?

Collor!

Que tinha sido Governador de Alagoas por qual partido?

PMDB!

Quem sucedeu o Collor na presidencia?

Itamar Franco!

Que era Senador, por Minas Gerais, por qual partido?

PMDB!

Quem sucedeu Itamar na presidência?

FHC!

Que havia sido Senador, por São Paulo pelo PMDB e saiu anos depois, para fundar o PSDB.

Quem sucedeu FHC na presidência?

Lula!

Que é do PT e tentou, heroicamente, quebrar o circulo vicioso da política brasileira.

Aí vc dirá: Como? Se a vaga de vice-presidente da Dilma foi dada ao Michel Temer, do PMDB.

A questão é simples:

Veja os exemplos dos estados de MG e MA.

O PT teve que “rifar” estes dois estados ao PMDB, para garantir deste o apoio na coligação, porque?

Porque o PT precisava de tempo de tv para mostrar tudo de bom que fez durante o governo Lula.

A culpa é do PT ? Não.

Olha que engraçado…

Se a midia, cobrisse com isenção, os erros e acertos do governo Lula, o PT não precisaria aliar-se ao PMDB para ter tempo de tv para mostrar, naturalmente, aquilo que a midia já deveria ter mostrado.

Se essa aliança não fosse necessária, o PMDB começaria a diminuir de tamanho muito mais rapidamente, pois não teria a cadeira de vice e nem o apoio nos estados.

(Você tem alguma dúvida que Patrus ou Pimentel venceriam em MG com um pé nas costas, ao contrário de um tal de Helio Costa?)

Entende como a mídia influencia diretamente no processo eleitoral ?!

Uma imprensa imparcial e democratização da midia…é isso que o Brasil precisa!!!

abs,

Giovani

“A oposição não tem projeto, discurso nem base de apoio social.

O que eles têm é o alinhamento com grande parte da imprensa, substituindo o debate político por uma oposição midiática” – Dilma Rousseff

Responder

Francisco

02 de fevereiro de 2012 às 21h02

Cuba é uma prisão.
Você pode ter saúde, educação e moradia grátis, mas é presidiário.
Os presidiários no Brasil tem moradia, alimentação e em alguns casos educação grátis.
Em Cuba não se pode pensar, não se pode deixar o país se você quiser.
Recentemente foi permitido que se venda um carro sem a interferencia do governo. Sim, pasmem, antes tinha que pedir autorização do governo para vender um carro entre particulares.
Acho um absurdo a Dilma ir confraternizar com um ditador, sendo que ela mesma comeu o pão-que-o-diabo-amassou na mão da ditadura.

Responder

Jose Olavo

02 de fevereiro de 2012 às 14h51

http://www.blogcidadania.com.br/2012/02/a-ditabra

Aqui o endereço da entrevista.
Vcs vão poder ver quem é esta bloqueira…
Ganhou o premio: A MAIOR MENTIROSA …

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José Olavo

02 de fevereiro de 2012 às 11h54

Recomendo a leitura da entrevista que a bloqueira deu ao jornalista frances Salim Lanranium e que saiu publicada hoje (2/2/2012) no site do Eduardo Guimarãeas. É longa e é imperdivel.

Entrevista com Yoany Sanches

Por Salim Lamranium, no Rebelión

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Paulo

28 de janeiro de 2012 às 22h58

Miguel, moradia grátis como tem em Cuba eu não quero mesmo. São cortiços já centenários sem manutenção e com problemas de infiltração e cupins. São casas prestes a ruir.
Lá em Cuba a população não tem nem papel higiênico prá limpar a bunda, tem que usar jornal.
Jornal esse, governamental, com provável distribuição gratuita. Fica até justo e irônico o destino que é dado para o texto escrito nele.

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    Miguel do Rosário

    28 de janeiro de 2012 às 23h50

    pois é, Cuba tem problemas gravíssimos, concordo. Pelo menos não tem crianças na rua passando fome e fumando crack.

    Responder

Zuleica Jorgensen

28 de janeiro de 2012 às 18h31

Há pessoas de esquerda que ainda ignoram o que governos que se diziam socialistas faziam com quem ousasse discordar. Faziam e fazem (veja-se Cuba, coreia do Norte, etc, etc). O fato de terem conseguido resolver problemas sérios de suas populações – Cuba tEm invejáveis níveis de saùde, educação e moradia! – a democracia política foi abolida destes países.
Este o grande desafio que se coloca para todos nós: chegar a uma situação de bem estar social, com saúde, educação, moradia, emprego, etc, para todos, conjugada com democracia plena, ou seja liberdade política, de expressão, de reunião, de locomoção, etc, também para todos.

Responder

Paulo

27 de janeiro de 2012 às 19h54

Yoani denuncia barbáries como a que aconteceu em Pinheirinho.
Barbáries de um governo ditatorial em que é perigoso falar, pensar e escrever.
Ela é uma heroína.

Responder

    Miguel do Rosário

    27 de janeiro de 2012 às 19h56

    tá de ironia, né. em cuba, tem moradia grátis pra todo mundo. em sp, destroem sua casa.

    Responder

    Roberto

    06 de fevereiro de 2012 às 01h06

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Responder

Eduardo Lima

27 de janeiro de 2012 às 16h09

Também acho que é melhor criticar a blogueira cubana aqui do que impedir sua entrada. Daria armas à mídia.

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