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Bonjour, Clermont-Ferrand!

Por Miguel do Rosário

02 de março de 2012 : 14h42

Lembrete: Sexta-feira é dia de crônica de cultura no Cafezinho.

Os homens são tão necessariamente loucos, que seria ser louco (outro tipo de loucura) não ser louco. A frase é de Pascal, filosófo nascido na fria e severa cidade de Clermont-Ferrand, encravada no centro montanhoso da França, entre queijos e vinhos. Não se trata de um simples chiste. Pascal referia-se a ausência de certezas e referências seguras no destino do homem, de maneira que este segue por um caminho sempre na dúvida se não teria sido melhor seguir por outro. Pascal é um ótimo fornecedor de citações, porque falava sobre tudo, de maneira sucinta e irônica. Ele se daria muito bem com o Twitter. Eu puxei o livro de Pascal na estante justamente à cata de uma citação adequada para iniciar uma crônica sobre cultura, e que ao mesmo tempo ensejasse a menção da cidade natal do filósofo, pois eu estive em Clermont-Ferrand há poucas semanas e preciso escrever alguma coisa sobre o que vi por lá.

A gente está sempre atrás de um sentido ou coerência: assim se fazem crônicas, citações, filósofos e cidades. No entanto, a frase de Pascal foi encontrada através de um processo aleatório, folheando rapidamente o livro. Assim também se fazem crônicas, etc. Do caos.

Outra frase de Pascal me permitirá sair de Clermont-Ferrand e falar da França:

“O homem sabe que é miserável. Ele é, pois, miserável, de vez que o é; mas é bem grande, de vez que o sabe.”

Este é um pensamento genuinamente francês: pessimista, autocrítico, severo, irônico. Passei 20 dias na França em fevereiro, a maior parte do tempo sofrendo com uma tendinite aguda (o que não vem ao caso agora), e o que ouvia dos franceses era sempre um discurso semi-apocalíptico. “La France? C’est finit!”, afirmavam, antes de tecer loas ao Brasil. Quando eu falava que morava no Rio, fuzilavam-me com um olhar fascinado e invejoso, como eu olharia, talvez, um homem que dividisse com a Scarlett Johansson um apartamento à margem do Sena.

Olhando a limpeza das ruas, em Clermont e em toda França, e lembrando da minha querida rua do Rezende, na Lapa, com seus montões de lixo fedorento espalhados democraticamente em cada esquina, eu escutava essas loas com um certo tédio. De fato, o Brasil está crescendo, etc, e eu alimento e propago um otimismo panglossiano em meus escritos, mas as glândulas instaladas no interior de minhas narinas permanecem bastante críticas aos bueiros das adjacências do meu bairro, sempre babando um líquido espesso e marrom, cujo aroma vigoroso me remete a versos de Dante.

Em Clermont-Ferrand participei, na condição de jornalista convidado, do 34º Festival Internacional de Curta-Metragem, evento anual que mobiliza a cidade inteira. Além de assistir a centenas de curta-metragens, comer em quase todos os restaurantes da cidade (que é um pólo gastronômico importante na França), eu entrevistei o idealizador e organizador do festival, um simpático e tranquilo francês de quarenta e poucos anos. Eu perguntei se a crise econômica na França e na Europa não haviam dificultado a organização do evento.

E aí novamente eu vi o caráter francês. O francês não é ambicioso e empreendedor como o americano, nem criativo e improvisador como o brasileiro, nem obcecado por produtividade e custo baixo como o asiático, mas é perfeccionista e pragmático como um inglês ou alemão. E com uma diferença básica: é afetuoso e solidário, valores profundamente arraigados no espírito francês, e que perpassam os mais insignificantes escaninhos de suas instituições públicas ou privadas. É uma qualidade que eu acho que o francês sequer sabe que possui, de tão natural que se tornou.Claro que nenhum francês dirá isso, pois ele, como Pascal dizia, sabe que é, no fundo, um miserável, sua grandeza sendo, no entanto, justamente ter consciência disso. Independente de seu criticismo amargo, ou da opinião de Pascal (e botando de lado as recentes políticas de imigração do governo Sarkozy), o francês tem um talento e uma sensibilidade incríveis para pensar em detalhes que melhorarão o conforto e a acessibilidade de um evento. A cultura da gratuidade, que hoje virou moda por causa da internet, sempre prevaleceu na França.

Quem participa do Festival de Curta Metragens de Clermont-Ferrand espanta-se com a maravilhosa organização do evento, que utiliza, em grande parte, estudantes locais trabalhando em regime de voluntariado. O ingresso para as sessões são bastante acessíveis (dois euros), e os convidados internacionais recebem crachá para assistir gratuitamente os filmes e dezenas de tickets para comer em restaurantes da cidade (não é a tôa que teço elogios tão entusiasmados; blogueiros, assim como senadores e magistrados, também gostam de mordomia).

Volto à entrevista com o organizador do evento, cujo nome é Jacques Curtil. Perguntado sobre a crise, ele disfarçou bem, mas acabou admitindo que teve de cortar algumas gorduras (a festa de encerramento, um jornalzinho do evento, etc), e as conversas com as instituições públicas – que são os principais patrocinadores – tornaram-se bem mais trabalhosas. “Tivemos que ser muito mais persuasivos, para explicar a importância do evento para a economia da cidade”. Os patrocinadores privados praticamente desapareceram.

(Paixão pelo sétima arte: Jacques Curtil idealizou, com amigos, o Festival, há mais de 30 anos, depois de entrar para um cineclube.)

Alguns dados sobre o Festival. A verba para produzir o Festival foi de 2,5 milhões de euros, sendo que aproximadamente 45% desses recursos são obtidos com a venda de 100 a 140 mil bilhetes. O resto são subvenções públicas, da prefeitura, da província, agências públicas locais. O catálogo do evento traz um prefácio assinado pelo Ministro da Cultura.

A organização responsável pelo Festival conta com 17 pessoas trabalhando o ano inteiro, não apenas neste evento, mas numa série de atividades ligadas à educação e cultura na cidade e região.

Outro fator que impacta o visitante é que todas as sessões lotam. Curtil explica que após quase 40 anos de evento, eles conseguiram criar um público cativo de curta-metragem. É muito emocionante, para quem trabalha com cinema e sabe como o curta-metragem tem dificuldade de encontrar público, ver o interesse de pessoas de todas as idades pela produção internacional do gênero. O Festival recebe, todos os anos, cerca de 7 mil curtas, dos quais seleciona uns dois mil. Há 26 pessoas trabalhando na curadoria, sendo 13 pessoas só para escolher curtas franceses, 8 pessoas na escolha das obras internacionais e mais 5 só para filmes experimentais.

Neste link, você pode ver alguns curtas exibidos no Festival deste ano.

Encerro a crônica de hoje com mais um pensamento pirrônico de Pascal:

“É perigoso fazer ver demais ao homem quanto ele é igual aos animais, sem lhe mostrar a sua grandeza. É ainda perigoso fazer-lhe ver demais a sua grandeza sem a sua baixeza. É ainda mais perigoso deixá-lo ignorar uma e outra. Mas é muito mais vantajoso representar-lhe ambas.”

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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elson

03 de março de 2012 às 07h10

Pelo menos os franceses olham os brasileiros com a certeza que o dinheiro que trazemos nas algibeiras é bem vindo , diferente dos espanhóis que estão atolados em uma crise brava e ainda tem a pachorra de deportar nossos turistas como se fossemos portadores de uma doença infecciosa .
Tá certo que nosso país não é uma maravilha , más chegaremos lá , dá até uma pontinha de satisfação saber que somos invejados pelos europeus que criaram o liberalismo e hoje colhem seus frutos amargos .

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