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Dias cabeludos e outros desmatamentos

Por Miguel do Rosário

27 de abril de 2012 : 18h00

(Ilustração capa: pintura de Leonilson, em exposição na Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre.)

Mário Quintana dizia que a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer. Poderíamos atualizar o verso do poeta para: “que esqueceu de ser publicada”. E por falar em mentira, o título da coluna do Nelson Motta é bem sugestivo. “Minto, logo existo”. Isso mesmo, Nelson. Dessa vez, você acertou na mosca.

Os jornais de hoje vem repletos de novos escândalos cabeludos. Os principais envolvem os governadores do DF e de Goiás:

Descansemos, porém, um pouco de CPI, e vamos dar uma olhada no seguinte gráfico:

 

É por isso que sou otimista. Ver a mortalidade infantil cair de mais de 80 crianças mortas a cada grupo de 1000 nos anos 80 para 15,6 em 2010, é uma prova incontestável do desenvolvimento do país e da melhora da qualidade de vida da população. Quero crer ainda que os terríveis vícios e defeitos da sociedade brasileira tinham a ver com esse quadro trágico, que não facilitava muito a proposição de valores e virtudes.

*

Outro assunto que ganhou destaque na mídia hoje foi a decisão da presidenta Dilma de vetar os artigos do novo Código Florestal, aprovado esta semana no Congresso Nacional, considerados mais “agressivos” em relação ao meio ambiente. E o melhor, segundo cálculos do Ministério do Meio Ambiente (ver nota publicada no Panorama do Globo, abaixo), os ruralistas não tem votos para derrubar o veto.

Eu já andei escrevendo sobre o Código Florestal, e sou a favor, mas não esse aprovado pelo Congresso, e sim aquele outro do Senado, mais rigoroso em relação ao meio ambiente.  Acho também que o termo “ruralistas” deve ser usado sem preconceito, porque representa uma das classes mais importantes para a economia brasileira. Eles são retrógrados ideologicamente, na sua maioria, mas o seu dinheiro sustenta o Brasil, paga o Bolsa Família  e a educação pública dos brasileiros. Devemos respeitá-los. É engraçado ver a turma da esquerda defendendo os industriais da Fiesp, que tem uma vida muito mais mansa, e querendo sempre morder os fazendeiros, que ganham muito menos dinheiro, trabalham muito mais, respondem por uma atividade terrivelmente arriscada e geram duzentas vezes mais empregos do que as indústrias. Só uma fazenda de café, gera mais emprego do que umas vinte fábricas de autopeças juntas. Claro, o setor de autopeças tem importância estratégica para o desenvolvimento de um eixo industrial. Eu sei, naturalmente, da importância da indústria, mas também entendo que jamais devemos menosprezar a agricultura brasileira, composta em sua grande maioria por pequenos e médios proprietários.  E os grandes proprietários, desde que ajam conforme as leis (ambientais e sociais), paguem seus impostos e usem adequadamente terra que possuem, são tão importantes para a economia nacional como as indústrias, que são paparicadas pelas centrais sindicais.

A economia de um país é um complexo interdependente, e o agronegócio brasileiro articula-se organicamente com a indústria. O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de tratores e máquinas agrícolas em geral, por exemplo.

De qualquer forma, acho que devemos igualmente respeitar o trabalho dos ambientalistas, mesmo que os achemos “chatos” ou “radicais”. Mesmo que haja interesses internacionais por trás de suas atitudes, há também uma boa dose daquela utopia ambiental autêntica, sincera e necessária, que é um contraponto às forças que, não fossem contidas por esta utopia (que é amparada, em boa parte, pela ciência), teriam hoje destruído bem mais do que já o fizeram.

Conciliar o agronegócio necessário para alimentar 7 bilhões de seres humanos cada vez mais vorazes (e com direito a sê-lo, como diria Fernando Pessoa, com todo direito a sê-lo!) e a harmonia entre o homem e o meio ambiente pode parecer uma utopia impossível, inatingível. Para isso, todavia, retornamos ao poeta gaúcho citado no início do post:

Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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5 comentários

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André Albuquerque

01 de maio de 2012 às 17h42

"Só uma fazenda de café, gera mais emprego do que umas vinte fábricas de autopeças juntas". Sei não. Além do mais, que tipo de empregos? Subempregos mal remunerados seria uma denominação bem mais precisa. O agronegócio produz. Ok. É importante na balança comercial. Contudo, produz mercadorias de baixo valor agregado, e poderia render bem mais sem precisar expandir a área de cultivo se houvesse indústria alimentícia no Brasil. E outra: a maior parte das propriedades a serem beneficiadas pela anistia desse Novo Código são ineficientes, grandes áreas desmatadas para exploração da pecuária em plena Amazônia. A floresta vale muito mais se preservada, e não transformada em pasto. Esse novo Código não favorece em nada o desenvolvimento sustentável tampouco significa novas oportunidades na agricultura, favorece apenas quem se beneficia da ilegalidade, não pequenos produtores, conforme a chantagem sustentada pelos ruralistas.

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    Miguel do Rosário

    01 de maio de 2012 às 22h21

    Eu exagerei André, e de fato os empregos numa indústria são melhores. Mas emprego numa fazenda não são subempregos. Um agrônomo ganha bem a beça, muito mais que um operário. E um operador de máquina ganha tão bem como um operário especializado.

    Responder

Adriano Matos

29 de abril de 2012 às 22h28

Sinceramente, Miguel, minha opinião é que esse projeto poderia ter barganhado e ainda assim favorecer o agronegócio sendo ecologicamente progressista ao mesmo tempo.

O trunfo que o governo detinha era o perdão fiscal pelo desmatamento – que é válido na minha opinião -, em troca da obrigação do produtor realizar o reflorestamento principalmente dos topos de morro e margens de rio.

Espero que a Dilma vete esse ponto e o da redução da reserva legal nas margens de rio que foram reduzidas com esse projeto.

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Araquem

27 de abril de 2012 às 18h18

"Conciliar o agronegócio necessário para alimentar 7 bilhões de seres humanos…"

O agronegócio brasileiro não produz alimentos. Produz commodities, escravidão, concentração de renda, desmatamento, miséria.
Produz ração para porcos na China, alcool para a Europa, papel para os EEUU.

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    Miguel do Rosário

    27 de abril de 2012 às 18h25

    Nunca ouvi tamanha besteira. Commodities são alimentos. Ração para porcos na China significa alimentos. Alcool para Europa, necessário para substituir petróleo, muito mais poluente. Papel para os EUA? Papel para o Brasil também. Você come? Então você depende do agronegócio. Ponto.

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