Comentários sobre o áudio vazado de André Esteves (BTG Pactual)

CPI deve pedir fim de publicidade estatal na Veja

Por Miguel do Rosário

29 de abril de 2012 : 18h36

Ilustração capa: Nilton Pinho.

Quando fico por baixo, eu fico doidão, seria a tradução, meio vulgar, para When I get low, I get high. A música, famosa na voz de Ella Fitzgerald, me veio à mente como defesa instintiva contra a tsunami de denúncias que eu li ontem e hoje, nos jornais e na blogosfera. Tanta sujeira que a alegria algo maligna que eu vinha sentindo por assistir, no conforto do meu apartamento, à derrocada de todo um grupo de mafiosos, levando de roldão um senador hipócrita e uma publicação protofascista, foi substituída por tédio e melancolia. Vontade de ouvir música, bebericar um uísque e esquecer tanta podridão.

Os jornais televisivos trouxeram áudios que mostram Cachoeira mencionando valores que totalizam R$ 3,1 milhões destinados ao senador bandido. Outras notas falam de mais presentes do bicheiro ao senador, como vinhos cujo valor no Brasil chegaria a R$ 30 mil a garrafa.

Lembrei da música de Ella porque ela mostra a diferença incrível entre o mundo dos “grandes” e as vicissitudes dos simples mortais. Uns recebem 3,1 milhões de “gorjeta”, vinhos de 30 mil, viagens pré-pagas a Las Vegas, outros sofrem porque o bolso da calça lhes parece, subitamente, grande demais, experimentaram um baque amoroso, ou a temperatura ambiente cai abaixo de nove graus negativos num momento inoportuno.

De repente sentimos, dolorosamente, nossa condição de plebeus.  

Deixemos a viadagem poética de lado, porém, e nos concentremos na lama.  A blogosfera progressista mostra a que veio e com dentes afiados, aplica mordidas cada vez mais profundas nos fariseus da imprensa.  O grupo de Cachoeira se utilizava da Veja para promover seus interesses econômicos. É um escândalo pior do que vimos na Inglaterra, com Rupert Murdoch. Lá, os jornais, mal ou bem, visavam apenas vender mais exemplares, utilizando-se, para isso, de grampos clandestinos. Aqui, além de usar espionagem ilegal, a revista de Civita beneficiava, conscientemente, um esquema mafioso, e usava as informações dadas por este mesmo grupo, que tinha conexões políticas poderosas, para tentar derrubar um governo democrático.  

A balança usada para determinar a gravidade de tais crimes ainda é nova demais. A cultura brasileira ainda não se preparou para ver a mídia como uma força política cuja liberdade deve ser defendida na mesma proporção com que se deve puni-la por abusar desta liberdade, sobretudo se os abusos têm como objetivo promover interesses criminosos, desestabilizar a república e fortalecer o poder de políticos corruptos. 

Ainda na blogosfera, alguém lembrou de uma coisa que me causou calafrios. 

Lembram-se da campanha contra Sarney? Mobilizou a mídia, astros do mundo pop (Marcelo Tas tornou-se uma espécie de guru político da garotada no Twitter), e a oposição. Demóstenes Torres era o verdugo mais implacável do velho oligarca do Maranhão. 

Entretanto, alguns blogueiros (eu, por exemplo) lembravam que o substituto de Sarney era justamente… Marconi Perillo. Quem acompanha de perto a política, sabia que o então senador, caso feito presidente do Congresso, representava um grande perigo para a estabilidade da República. Com as informações que temos hoje, vemos que este perigo foi  subestimado.  

Todos aqueles inocentes úteis, inclusive a ultra-esquerda em peso, que tanto atacou Lula porque o presidente defendeu Sarney com unhas e dentes, deveriam refletir profundamente sobre o que aconteceria caso um destacado membro do “Clube Nextel” assumisse o segundo cargo mais importante da República.

Outra denúncia bastante perturbadora (e também não vista por Merval Pereira, quando defende a Veja em sua coluna deste domingo) é a participação do trio Cachoeira, Demóstenes e “Poli” na espionagem ilegal do escritório de José Dirceu no hotel Nahoum.  Um bicheiro, um senador e uma revista conspiraram novamente contra o governo, usando ferramentas criminosas, e efetivamente conseguiram produzir um escândalo, que só não foi maior porque a blogosfera conseguiu valer sua posição de que era absurdo dar crédito a uma matéria amparada na mais odiosa espionagem clandestina, e que, além disso, não mostrava efetivamente nenhum ilícito além de reuniões entre membros de um mesmo partido político. 

Sempre soubemos que a Veja havia se tornado uma revista sem caráter, mas não tínhamos provas de que ela se articulava com bandidos como Cachoeira e Demóstenes. Aliás, a Veja, pelo jeito, sempre soube que Demóstenes era um crápula. 

Uma das consequências mais positivas, diria até revolucionária, da CPI do Cachoeira, poderia ser considerar “inidônea” a revista de Roberto Civita, retirando-lhe o direito de receber publicidade estatal. Não é razoável que a sociedade brasileira financie uma publicação que conspira com bandidos para derrubar governos democráticos, eleitos, sempre com muita luta, pela mesma sociedade.  Seria um exemplo, e faria outros órgãos de mídia pensarem duas vezes antes de se acumpliciarem a corruptos e corruptores com vistas a  promover interesses financeiros escusos. 

Pelo amor de Deus! Tantas revistas, jornais e blogs por aí precisando de publicidade para conseguirem se afirmar, não é possível que o Estado continue ajudando a promover a concentração da mídia sem sequer atentar para a questão da ética jornalística, para usar uma linguagem leve, ou da bandidagem midiática, para sermos mais claros. 

*

Abaixo, vídeo de um grupo de jazz que canta e dança nas ruas de New Orleans, que publico aqui apenas para alegrar um post triste e irritado.

 

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

12 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Antônio

11 de maio de 2012 às 18h30

Mas é um absurdo sem tamanho que publicidade oficial seja veiculada nas revistas da Abril. E também é um absurdo o governo federal gastar milhões de reais anualmente comprando livros dessa editora, quando tantas editoras pequenas e honestas são preteridas ano a ano. PELO FIM DA VEICULAÇÃO DE PROPAGANDA OFICIAL NAS REVISTAS DA EDITORA ABRIL. É o mínimo que se pode esperar e exigir!

Responder

Paulo

06 de maio de 2012 às 10h52

A confissão do publicitário Duda Mendonça, que admitiu em depoimento à CPI dos Correios ter recebido dinheiro do empresário Marcos Valério através de uma conta clandestina em paraíso fiscal, pode lhe render até 11 anos de cadeia. A avaliação é de tributaristas especialistas em Direito Tributário Internacional. Duda Mendonça cometeu pelo menos três crimes: sonegação fiscal, formação de quadrilha e evasão de divisas.

Também esteve envolvido em outro crime. Rinhas de galo.
O publicitário Duda Mendonça e o vereador Jorge Babu (PT) foram indiciados junto com mais quatro pessoas por crime ambiental, formação de quadrilha e apologia ao crime.
Eles e outras 200 pessoas foram presos pela Polícia Federal num clube de rinha de galos em Jacarepaguá, na zona oeste do Rio de Janeiro.
Esse crimes têm penas de três meses a um ano de prisão, no caso de maus-tratos aos animais, de um a três anos de reclusão, por formação de quadrilha, e por apologia ao crime, de três a seis meses de detenção.

Isso tudo você esqueceu, ignora ou não sabia?

Responder

    Miguel do Rosário

    06 de maio de 2012 às 12h55

    Fala sério, vai comparar envolvimento em rinha de galo com ser o maior mafioso de goias, como carlinhos cachoeira. quanto ao esquema do mensalao, duda mendonca recebeu no exterior por sugestao do pt. a culpa é do pt, nao do duda mendonça, que certamente nao eh nenhum santo, mas tb nao eh um bandidao como carlinhos cachoeira, nem eh um politico safado, como demostenes torres.

    Responder

Paulo

05 de maio de 2012 às 14h17

Miguel, suas análises políticas me enjoam.
Você é um "dois pesos duas medidas". Quando o escândalo de corrupção envolve pessoas ligadas ao PT, no seu ver não existiu ou é invenção da mídia.
Quando o escândalo é com pessoas de partidos da oposição é o maior mal do mundo.
Duda Mendonça é um marketeiro bem sucedido porque é BANDIDO e corrupto.
Mas como o vinho caríssimo que ele deu de presente foi para o LULA você não tá nem aí para a origem do dinheiro que pagou esse vinho. Já no caso do Demósteles e Cachoeira aí sim você se preocupa com a origem do dinheiro. "DOIS PESOS DUAS MEDIDAS".

Responder

    Miguel do Rosário

    05 de maio de 2012 às 15h23

    Não viaja. Petista bandido para mim tem que estar na cadeia. Comprar vinho caro não é crime, seu prego. O problema é que Demóstenes comprou com o cartão de Cachoeira, e dentro de um contexto de cumplicidade criminosa. Duda Mendonça é bandido porque? Qual acusação contra ele? Bota o pé na realidade, meu chapa. Duda Mendonça fez campanhas políticas para Deus e o mundo, do PT ao PSDB, no Brasil e no estrangeiro, é um profissional respeitado do marketing político, aqui e lá fora.

    Responder

Paulo

04 de maio de 2012 às 23h24

Lendo esse post e refletindo sobre vinhos, presentes e canalhas eu me lembrei que o Duda Mendonça (personagem central do maior escândalo de corrupção desse país) presenteou na época o então recém-eleito presidente Lula com uma garrafa de Romanée Conti (vinho frances dos mais nobres) que uma garrafa varia (dependendo da safra) de US$ 5.000 até US$ 15.000. Sim dólares.

Responder

    Miguel do Rosário

    05 de maio de 2012 às 01h07

    na época falaram em 2 mil reais. e era um presente dado pelo marketeiro mais bem sucedido do país, não um bandidão como Cachoeira, que tentava corromper meia república. Sem esquecer que os vinhos são o de menos, e os 3 milhões de reais?

    Responder

Monte Alverne

01 de maio de 2012 às 18h48

Abreu, voce disse tudo….na verdade so acreditava no DEMOstenes e na TURMA DELE quem nunca leu a historia critica do Brasil ou entao, acrditava de faz de conta ou, ainda, os correligionarios e admiradores dele tipo o presidente da OAB o Ofir – que so quer ser o TERMO DE REFERENCIA de tudo o que polemica no Brasil. A deblaque é geral. Abreu permita dizer-lhe, voce é excelente como artista e melhora ainda como articulista politico consciente.

Responder

Adriano Matos

29 de abril de 2012 às 22h03

Muita gente caiu no conto do Demóstenes àquela época, inclusive o Senador Mercadante. No blog que tinha, fiz um post como espécie de carta aberta ao Senador, conjugado com um rol não exaustivo das armações da oposição: http://essesoueutambem.blogspot.com.br/2009/08/se

Como o Leonardo comenta acima, a democracia brasileira cresce entre dores – em Inglês, acho que a frase 'grow in pains' tem esse significado, de amadurecimento pra dureza da vida. A blogosfera desempenha um papel importantíssimo, e mais que nunca é nosso papel cidadão não esmorecer e estarmos atentos.

Obrigado pelo serviço que você presta mantendo o blog.

Responder

    Miguel do Rosário

    30 de abril de 2012 às 14h36

    Obrigado a você também, Adriano, pelas participações sempre inteligentes. Abraço.

    Responder

Leonardo

29 de abril de 2012 às 20h58

Como dizia aquele filósofo, a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena…

Tudo isso é culpa nossa, podíamos muito bem ter tomado a pílula "errada" e voltar para a Matrix, assistindo BBB, vendo novela, achando que a Veja é o supra-sumo do extrato de pó de traque, que o JN só diz a verdade… Mas não! Escolhemos sofrer, por nossa própria vontade… Quando vejo certos canalhas dando-se bem, fico com vontade de chorar, mas não desanimo e sigo em frente, Nós vimos a transformação que a Internet ocasionou aqui – na época que prestei vestibular, os professores diziam: "leiam a Veja". Hoje, sendo eu professor, digo aos meus alunos: "fiquem longe da Veja, drogas fazem mal à saúde". Eu ganho pouco, mas me divirto ;) .

Responder

Fernando Rojas

29 de abril de 2012 às 19h26

Realmente, é estarrecedor. Mas será positiva se servir como causa enfim para mudar as políticas de comunicação no Brasil.

Responder

Deixe um comentário para Monte Alverne

Parlamentarismo x Semipresidencialismo: Qual a Diferença? Fernanda Montenegro e Gilberto Gil são Imortais na ABL: Diversidade Auxilio Brasil x Bolsa Família: O que mudou? As Refinarias da Petrobras À Venda pelo Governo Bolsonaro O Brasileiro se acha Rico ou Pobre?