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Gurgel usa mensalão para se blindar

Por Miguel do Rosário

11 de maio de 2012 : 16h29

Uma coisa que os últimos anos têm ensinado à sociedade brasileira é que, numa democracia, não existem cidadãos acima da lei. Eliana Calmon, corregedora do Conselho Nacional de Justiça, surpreendeu o país pela dureza com a qual denunciou “os bandidos de toga”, referindo-se à corrupção no judiciário. Bem, procuradores também usam toga. Operações da Polícia Federal vem desbaratando quadrilhas onde operavam as mais graduadas autoridades do Estado: desembargadores, promotores, juízes, governadores, senadores, delegados, deputados. Todos aqueles cargos pomposos a quem o imaginário popular atribuía quase mítica invulnerabilidade, apareceram na imprensa como acusados por graves crimes de corrupção, foram presos, condenados ou estão vias de sê-lo.

A nossa Justiça, de fato, ainda é muito lenta e tolerante quando se trata de manter criminosos do colarinho branco atrás das grades, mas neste primeiro momento de nossa história é importante comemorarmos o fato de que eles, ao menos, estão sendo devidamente processados, seus bens têm sido bloqueados, perdem suas funções públicas e, entre os políticos, ficam desmoralizados perante seus eleitores.

Aliás, uma das consequências positivas da CPI do Cachoeira poderia ser o encaminhamento de mudanças na lei para endurecer as penas de condenados por corrupção, em especial políticos com mandato popular. Por trás do esquema Cachoeira, onde o tráfico de influência figurava como seu maior capital, há um perigosíssimo atentado à democracia.

Digo isso para avaliar a polêmica envolvendo o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, acusado de engavetar, juntamente com sua esposa (sub-procuradora da República), o relatório da Operação Las Vegas, onde apareciam vários indícios importantes de envolvimento do senador Demóstenes Torres com o crime organizado. Eu escrevi aqui que era importante ouvir Gurgel, para que ele pudesse se explicar, visto que a sua argumentação, de que preferiu esperar a conclusão da operação Monte Carlo, desencadeada em seguida, tinha uma lógica, embora eu estranhasse o poder visionário do procurador, de saber, de antemão, que haveriam novas provas contra o senador antes mesmo de iniciada a investigação.

A sua reação descontrolada, no entanto, depõe contra ele. Gurgel jogou pra platéia, ou melhor, pra mídia, ao atribuir a “mensaleiros e protetores de mensaleiros” o esforço para trazê-lo à CPI. Gurgel agiu como o bate-carteira barato que grita “pega ladrão” no meio da muvuca justamente para poder fugir de fininho.

Ora, se Gurgel não tem culpa no cartório, que se defenda com galhardia e firmeza, mas sem perder a postura de imparcialidade que ele tem obrigação de manter. Entrar no jogo político-partidário, como ele fez, constitui uma grave infração ética de sua função. A CPI do Cachoeira produziu tensionamento; os ânimos estão exaltados; Gurgel demonstra portanto uma notável incompetência para os aspectos políticos de seu cargo ao não perceber isso e contribuir para botar fogo na fogueira. Sua estratégia, além disso, é contraproducente, gera ainda mais desconfiança sobre sua idoneidade.

Gurgel deveria entender que é perfeitamente compreensível, dentro da lógica dos trabalhos da CPI, que parlamentares quisessem ouvi-lo, após a acusação, por parte do delegado que chefiou a operação Las Vegas, de que engavetou o inquérito que lhe foi enviado. Ele pode até negar-se a ir, ou negar-se a falar, alegando restrições de ordem constitucional. Quando ele falou que não podia depor, porque isso infringiria o estatuto do MP, eu compreendi perfeitamente. Mas ele não tem o direito de produzir factóides partidários que apenas desviam, como desviaram, o foco da CPI.

Seu proselitismo oportunista, além disso, é mentiroso, visto que até parlamentares da oposição, críticos ferozes do PT, como o Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) e Onyx Lorenzoni (DEM-RS) passaram a defender sua convocação. Não são apenas os “protetores de mensaleiros”.

*

A CPI do Cachoeira se tornou uma espécie de Caixa de Pandora, de onde saem todos os males que já acossaram a política brasileira. É um desafio acompanhar a produção industrial de novas denúncias verdadeiras, falsas, factóides, manipulações, contra-informação, cortinas de fumaça, distorções, mentiras, revelações bombásticas. A imprensa “tradicional” não é mais um filtro confiável. Ao contrário, contribui para alimentar a sensação de entropia.

*

A defesa da Veja praticada pelos jornalões se dá porque todos estão envolvidos com o esquema Cachoeira, visto que todos foram pautados por reportagens publicadas na revista cuja fonte era a máfia goiana. Nem todos são criminosos, mas ajudaram a alimentar um esquema criminoso.

Pensando bem, a estratégia de Gurgel é a mesma usada ao longo dos anos por Carlinhos Cachoeira. Quer usar a mídia? Use a palavra mensalão, ou mensaleiro, faça qualquer acusação às forças governistas, mesmo que ancorada em escutas ilegais, denúncias falsas e ilações absurdas: você terá a mídia a seus pés, fotos na capa, será louvado em editoriais, e a revista Veja o transformará em paladino da ética (como fez com Demóstenes).

Como sempre haverá denúncias e casos de corrupção num aparelho estatal enorme como é o da União (enorme não por se inchado, mas porque precisa administrar um país de 8 milhões de quilômetros quadrados e 200 milhões de habitantes), basta montar – como fez Cachoeira – um aparelho de investigação paralela, que pratica grampo clandestino e manipula jornalistas e prepara armadilhas para funcionários públicos, para ter a mídia na mão. É como se um traficante da Rocinha montasse um esquema para denunciar, sistematicamente, a venda de drogas no morro do Vidigal. A polícia apareceria todo dia na mídia prendendo um bandido diferente, posando de herói, mas na verdade estaria a serviço de uma gangue rival, que cresceria na esteira do enfraquecimento do adversário.

O problema maior da máfia Cachoeira é justamente esse envolvimento com a alta política e com a mídia. Um grupo de bandidos atuava em favor da oposição, com auxílio consciente e despudorado da revista Veja. Essas alianças entre corrupção, política e mídia, na verdade, é coisa antiga. Nos EUA, há toda uma literatura sobre o tema. Eu mesmo, por coincidência, estou lendo Washington, de Gore Vidal, cujo personagem principal é um senador acossado por um mafioso, que por sua vez é aliado de um poderoso dono de jornais.

Tão ou mais importante do que responsabilizar criminalmente a revista Veja por associar-se ao crime organizado, é desvendar a trama de interesses que liga empresas de mídia, partidos políticos e uma máfia especializada em desviar dinheiro público. É justamente isso o que está acontecendo. Estamos sendo esclarecidos. A trama está sendo dia a dia desvendada. Cachoeira grampeava políticos ou funcionários públicos, às vezes até lhes preparava armadilhas, e depois chantageava autoridades exigindo-lhes que aceitassem pagar adicionais milionários de obras. Devia fazer isso também com juízes, armando flagrantes comprometedores, para lhes obrigar a emitir esta ou aquela liminar, como foi o caso da que forçou o governo do Distrito Federal a aceitar a Delta como responsável pelo serviço de lixo na região.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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9 comentários

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Guilherme Scalzilli

12 de maio de 2012 às 17h38

A face obscura do mensalão

É divertido acompanhar o teatro de hipocrisias que envolve o noticiário sobre as relações tortuosas entre a revista Veja, o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres. Analistas sagazes, cheios de fontes sigilosas para diversos fins, agora se fazem surpresos diante de obviedades que a blogosfera repete há anos. Quem eles pensam que enganam, afinal?

Mas não se trata apenas de uma chance para repensar a prática jornalística, pois a falência de credibilidade da imprensa corporativa tem raízes muito mais profundas e insanáveis. Tampouco a “descoberta” das práticas antiéticas de líderes demo-tucanos pode servir para limitar o caso à crônica da putrefação institucional brasileira. Todos aqui sabemos o que significa para qualquer partido político ter um governador de Estado ou um senador da República ligados a um empresário do jogo.

O que o escândalo de fato sugere é uma conspiração criminosa que serviu, direta ou indiretamente, para a tentativa de desestabilizar o primeiro governo Lula. Trata-se dos bastidores da campanha midiática notabilizada pela enganadora alcunha de “mensalão”. E não custa lembrar que as investigações da época chegavam ao cerne da privataria tucana e desembocaram em acusações de grampos ilegais contra o presidente do Supremo Tribunal Federal.

O esclarecimento minucioso dos papéis desempenhados por Veja, Cachoeira e Torres nas origens desses episódios seria capaz de, no mínimo, construir um painel histórico digno do período. Na melhor das hipóteses, contudo, influenciaria o julgamento dos “mensaleiros” a cargo do STF. Caso o silêncio das redações não funcione, talvez surja uma nova remessa de “surpreendentes descobertas” sobre os ministros da corte, para ajudá-lo a, digamos, corrigir o rumo de suas prioridades.

http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/

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Elson

12 de maio de 2012 às 04h48

Tem uma coisa que ainda não é possível engolir . Por quê membros do judiciário quando são pegos em corrupção são premiados com aposentadoria compulsória ? Isso é uma afronta ao contribuinte , que , além de ser lesado por um mau magistrado , ainda vê o criminoso usufruindo das benesses à que moralmente não teria direito .
Nosso Senado Federal deu um bom exemplo , aprovou uma lei extinguindo o 14° e 15° salários , enfim algo bom a se comemorar em matéria de política parlamentar .

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    Lyndy Luca

    12 de maio de 2012 às 08h38

    O problema está nas leis que temos, feitas por “criminosos para criminosos”. Aí está a prova maior disso. Ao invés de punição, ele recebe gratificação.

    E o problema maior é que, mesmo sabendo que tem grande poder nas mãos, o povo nada faz, apenas abaixa a cabeça e reclama. Essa passividade, resignação em aceitar seu cabresto é irritante. Essa conivência do povo é deprimente.

    Porque ao invés de vermos a população buscando por informações, por instruir-se sobre seus direitos e deveres, a vemos sentada diante da TV de uma mídia manipuladora que se defende com um argumento extensa e fartamente aplaudido pelas massas: a poética “liberdade de expressão”, munindo-se da falácia de que o PT quer censurar os meios de comunicação, e blá, blá, blá… E a massa sempre cai nessa historinha, porque não se deixa pensar com seus próprios cérebros. Preguiça mental, de buscar, se informar, para então, compreender e exigir.

    Sim, amigos, falta a peça mais importante. Sem ela, o caminho continuará mais difícil e tortuoso para os que realmente estão despertos quanto ao que se passa e quanto ao que podemos, de fato, fazer.

    Em tempo: parabéns pelo blog! Suas palavras não poderiam estar mais corretas, pautadas por uma lógica indiscutível!

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Sergio

12 de maio de 2012 às 02h51

Miguel

Nesses dias tão agitados tenho simplismente “devorado” tudo a respeito do escânda-lo Cachoeira. Baixei escutas, inquéritos,naveguei pelos mais diversos sites…até mesmo a Veja, rsrsrs. Dentre os inúmeros excelentes artigos que tenho lido os seus estão, certamente, entre os melhores. Simples, direto e com uma análise precisa, quase cirúrgica. De fato, uma inspiração! Meus Parabéns! És um grande escriba!

Ah! E o visual do seu blog também é “show”, “clean”!

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Maria Tereza

12 de maio de 2012 às 00h14

Muito bom adorei a analise! Miguel e o que você achou da resposta do Mino ao globo? E a veja dessa semana eles vão mesmo tentar se segurar nessa de que a liberdade de imprensa esta sendo atacada por mais absurda que seja o Sr. Civita e o seu Diretor PJ devem sim explicação a sociedade brasileira porque os indícios contra eles são mínimo constrangedores então nada mais democrático e justo eles irem prestar esclarecimento a CPMI o mesmo vale para o Sr. Gurgel com o agravante de ele ser um agente público dos mais relevantes na defesa de um estado democrático de direito

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Elson

11 de maio de 2012 às 19h22

Ainda não acabei de ler seu post . Más acho que você matou á pau .

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Paulo Cezar Soares

11 de maio de 2012 às 19h07

Das duas,uma. Ou essa CPI investiga a questão da mídia com o bando do bicheiro Cachoeira, ou então tem que ter uma outra CPI, cujo nome poderia ser – a CPI da Imprensa.
A grande imprensa – com as exceções de praxe, como a revista Carta Capital, por exemplo – abdicou de fazer jornalismo. Seu interesse – obsessivo- tem sido, desde 2003, derrubar um governo democraticamente constituído.
Para isso, todos os valores éticos foram deixados de lado.
Em tempo: parabéns pelo seu artigo.

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Vania Cury

11 de maio de 2012 às 17h18

Análise muito lúcida. Concordo plenamente com você. Hoje, é nos “blogs sujos” (perdoe-me por incluir o seu entre eles) que podemos nos informar de fato e participar de um debate em alto nível sobre os principais assuntos do momento. Na “imprensa” nativa, de modo geral, só há manipulação e desinformação. Que coisa! A que ponto chegamos no Brasil. Ainda bem que existem alternativas.

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    admin

    11 de maio de 2012 às 17h37

    Obrigado por me incluir entre os blogs sujos, Vania. É uma honra. Abraço!

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