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As críticas fáceis à CPI

Por Miguel do Rosário

28 de maio de 2012 : 09h07

(Ilustração capa: pintura a seis mãos, de Warhol, Basquiat e Clemente).

João Ubaldo, o previsível chapa-branca da mídia

Toda essa confusão mostra bem que a CPI do Cachoeira está estremecendo, de fato, os alicerces da República, deixando os ratos agitadíssimos. E ainda tem gente que afirma que ela é operante, desorientada, sem rumo. Neste domingo, João Ubaldo, que se tornou um monótono cronista chapa-branca da mídia, repete a estratégia de desqualificar a CPI:

Acho que ninguém acredita que essa CPI vá dar em alguma coisa, talvez nem sequer pizza. Não sei se as normas aplicáveis permitem isso, mas a impressão que se tem é de que, se fosse possível, os responsáveis por sua criação a dissolveriam e sairiam disfarçadamente do Congresso, assobiando com a mão no bolso e olhando para o ar como quem não quer nada – CPI, que CPI é essa, não sei de CPI nenhuma, é tudo invenção da imprensa, tirem esse bicho daí.

Ora, vou repetir pela enésima vez. A CPI do Cachoeira foi a CPI com o maior número de adesões de deputados e senadores. Como é possível que alguém queira chamar os parlamentares de safados, de bandidos, de espertos, e ao mesmo tempo de ingênuos? Eles são espertos, por estarem envolvidos em tramóias e tentarem abafar tudo; ou são ingênuos, por terem criado a CPI? Não dá para entender. E não dá para entender porque é uma tese contraditória, absurda.

Frei Betto, o ingênuo

E por falar em críticos da CPI, permitam-me uma palavrinha ainda sobre artigo de Frei Betto, intitulado CPI do Escárnio, publicado hoje no Globo. Sei que Frei Betto é uma pessoa muito boa, um homem probo e bem intencionado, de esquerda, etc, mas francamente eu nunca tive o privilégio de ler um artigo inteligente seu. Tenho a suspeita de que é justamente por isso que a mídia lhe franqueia tão facilmente espaço para seus textos, sempre repleto de clichês moralistas, lugares comuns, e reflexões mal fundamentadas, como é o caso. Além de uma ingenuidade de fazer corar não a velhinha de taubaté, mas a sua netinha de oito anos.

Frei Betto não apenas se baseia exclusivamente em informações colhidas superficialmente na mídia, como repercute aquele sentimento vulgar, antipolítico, que perdoamos no populacho, não num intelectual com acesso à imprensa.

Não estou dizendo que a CPI provocará uma revolução nos costumes éticos do Brasil, nem que seus membros são todos guerreiros probos, ou que os partidos que a compõem não tenham interesses ou receios. Agora, qualquer analista minimamente antenado sabe que está em jogo uma poderosa guerra de pressões, de um lado para calar e desqualificar a CPI; de outro para apoiá-la a seguir adiante, fazendo o que tem de fazer, sem pressa.

A CPI tem 180 dias para funcionar, podendo ser prorrogada por mais 180. Não tem sentido agir com açodamento. Não pode condenar ninguém injustamente, nem fazer uma devassa indiscriminada. Sem contar que os parlamentares têm uma justa preocupação: não paralisar os trabalhos do Congresso, já que eles têm outras responsabilidades que não apenas a CPI, e não provocar nenhuma instabilidade institucional, visto que sua função ali é para ajudar o país, não atrapalhar. Tem que pegar bandidos de verdade, não condenar políticos porque “festejaram em Paris”.

Betto faz uma proposta simplesmente tola, ao propor que “os governadores suspeitos deveriam se adiantar a CPI e se prontificar a abrir o sigilo de suas contas bancárias e ligações telefônicas. Esta a atitude que se espera de um estadista que zela por seu nome e reafirma sua postura ética”.

Ora, ninguém tem obrigação de ter sua vida pessoal devassada com base em suspeitas genéricas levantadas num processo político. Exigir disso de um político e afirmar que “essa é a atitude que se espera de um estadista” é vulgarizar a figura do estadista e a própria ética. Ligações telefónicas envolvem, por óbvio, a vida de todas as pessoas com quem essa pessoa se relaciona. Quebrar seu sigilo, portanto, não afeta apenas a minha privacidade, mas a de todas essas pessoas que se comunicaram comigo. Políticos, mesmo os mais honestos, têm amigos secretos, amantes, trocam palavrões, brigam com filhos, falam abrobrinhas e sacanagem com outros políticos, desancam jornalistas. E todos seus interlocutores revelam nas conversas as mesmas inconfidências. Político não é frei que passa o dia rezando e a noite escrevendo artigos pro Globo.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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1 comentário

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Adriano Matos

28 de maio de 2012 às 09h31

As conveniências dos golpistas… Se a sociedade espera isso dos politicos, que seja instituido em lei e não pelo clamor que não vêm das ruas, mas das redações dos jornais, daqueles que se intutilam “quarto poder” mas que não passam de saqueadores.

Agora mesmo, mais uma prova, como se fosse necessário: O PIG furta dos seus leitores a informação crucial que jobim desmentiu gilmar.

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