Mais de 70% dos eleitores já estão decididos sobre o voto presidencial, diz DataFolha

A classe média e “a boa moral” segundo FHC

Por Miguel do Rosário

02 de julho de 2012 : 20h04

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Mais uma fissura na mídia. Em sua coluna de hoje no jornal O Globo, Noblat qualifica editorial da Folha de ridículo e opina que o impeachment relâmpago de Fernando Lugo foi um golpe sim, e que a sua legalidade é bastante questionável, visto que não foi concedido pleno direito de defesa ao ex-presidente.

No blog, ele mudou o adjetivo “ridículo” para “piada”.

Um editorial da Folha de São Paulo concluiu na semana passada: “Apesar de cercear direito de defesa, impeachment de Lugo foi constitucional”.

Parece piada da Folha ou não parece? Deve ser piada. Como pode estar de acordo com a Constituição um processo de impeachment que cerceia o direito de defesa?

Com isso, trinca-se a estratégia do Globo de colar no Itamaraty a pecha de “incompetente”, ou melhor, “decadente”, para usar um dos pesados adjetivos presentes no editorial do Globo deste domingo. O Globo argumenta que o Itamaraty, que era tão bom na época do Império, e tão “indepependente” no auge dos anos de “chumbo” (a ponto de aceitar o novo governo comunista de Angola, no paroxismo da guerra fria), agora está descendo a ladeira:

Nove anos de subordinação do Itamaraty a um projeto político-partidário já tornam visíveis amplas fissuras nos alicerces de uma das mais refinadas expertises da secular burocracia pública do país.

O irônico é pensar que tanto nos tempos do Barão do Rio Branco, como sobretudo durante o regime militar, a imprensa não podia criticar o Itamaraty. Não tinha sequer acesso ás decisões, visto que a censura e o totalitarismo impediam que a sociedade conhecesse, sequer se inteirasse acerca das intenções e projetos da nossa política externa. Ademais, o Globo demonstra um saudosismo positivamente idiota, visto o Itamaraty de hoje é infinitamente mais técnico, rigoroso e ao mesmo tempo democrático em seu processo de seleção pública. Na época do Barão, apenas os afilhados dos poderosos, rapazes brancos, ricos de boas famílias, tinham oportunidade em nossa chancelaria.

Nos tempos dos milicos, havia outro tanto de entraves ao livre debate de ideias no interior da corporação, pois não havia democracia no país e a divergência era criminalizada.

Criticar o Itamaraty é sempre válido, mas usar como modelo de excelência as diplomacias do Império e da ditadura me parece forçar a barra.

*

Fernando Henrique Cardoso publicou um artigo no Globo e no Estadão onde faz louvaminhas à “classe média”, que eleva à uma espécie de segmento ideologicamente superior, por suas virtudes no campo da “ética”, “honestidade”, “estudo” e “trabalho”. É uma xaropada descolada de qualquer bom senso sociológico, acadêmico ou político. Oferece apenas a batida fórmula, tão usada no passado, de insuflar o egoísmo e a vaidade de setores historicamente privilegiados (não apenas em termos de renda, mas sobretudo no campo da formação intelectual) para criar um estamento aliado ao conservadorismo. Como FHC é, de facto, o príncipe do pensamento conservador-midiático, analisar seu texto equivale à uma análise da mídia, então façamos isso.

O texto de FHC segue em negrito, o meu em fonte normal:

As classes médias na berlinda, por Fernando Henrique Cardoso

É hora de reforçar valores desses segmentos, como a honestidade

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Observem bem, com um microscópio moral, o significado da frase acima, usada como subtítulo. Não há nenhuma prova sociológica de que as classes médias sejam mais “honestas” do que o resto da pirâmide social. Ao contrário, a corrupção braba vista nas corporações públicas, em municípios, estados e União, são protagonizadas por funcionários de classe média. FHC se refere, naturalmente, a uma visão idílica, simbólica, que a classe média tem de si mesmo, tratada aqui como uma espécie de ordem de “cavalheiros” da idade média.

Desde abril até agora viajei bastante, saindo e voltando ao Brasil. Fui aos Emirados Árabes, ao México, ao Japão, à China e, na semana passada, ainda fui a Buenos Aires. Sempre articipando de seminários ou fazendo conferências. Lia, naturalmente, os jornais locais que tinham edição em inglês.

Por toda parte, um assunto dominante: a crise econômica. Em alguns países, mesmo com regimes políticos muito diferentes, como China e Brasil ou Argentina, alguma preocupação com a corrupção.

Nessa mesmice, li com prazer em Buenos Aires, no “La Nación”, um artigo de Marcos Aguines, “O orgulho da classe média”, reproduzido no dia seguinte no GLOBO.

Saltemos as frases ególatras, visto que a informação acerca das viagens de FHC não tem relação nenhuma com o artigo em si. Vamos diretamente aos comentários de FHC sobre o artigo que lhe chamou a atenção. O título original é “Elogio à classe média” e pode ser lido neste link.

Trata-se uma argumentação astuta, melosa, mas sofrível do ponto-de-vista científico, sem outro objetivo que atacar o “populismo”, ou seja, atacar Cristina Kirchnner e a esquerda em geral. Com esse intento, Aguines cria uma “classe média” histórica, fantasiosa, para a Argentina, mas confunde totalmente as bolas. Ele se refere, na verdade, aos milhões de imigrantes, que invadiram a Argentina, trazendo valores culturais sólidos, baseados sobretudo na cultura do trabalho, como aliás é praxe em quase todo grupo imigrante. Não é cultura de classe média. É cultura do imigrante. Estes não chegavam ao país como “classe média”, mas como pobres mesmos, e o próprio Aguines o admite ao dizer que eles vinham agoniados de fome. Novamente, não falamos de uma cultura de classe média, que na América Latina, infelizmente, associou-se à cultura do parasitismo dos recursos naturais, da escravidão e do fisiologismo político. Aguines se confundiu de país e jornal: seu texto talvez caísse bem nos EUA e no Washington Post.

Não estou dizendo que a classe média argentina ou brasileira sejam malvadas. Ao contrário, têm grandes qualidades, como qualquer outra classe. Mas atribuí-las uma superioridade moral que não possuem e, pior, roubar essas virtudes de seus verdadeiros donos, os imigrantes pobres, me parece uma usurpação moral torpe.

Aguines desacredita da visão, que predominava nos círculos de esquerda, de que a classe média — a pequena burguesia, como era chamada — seria a Geni da História. Fascinados pelo papel revolucionário e liberador da revolução proletária e, mais tarde, pelo ímpeto das massas ascendentes, os ideólogos de esquerda — e não só eles, pois a moda pegou — não viam mais do que atraso e mesquinhez na classe média, os “desvios” pequeno-burgueses e a tibiez que lhe tirava o ímpeto para transformar a sociedade.

FHC consegue piorar um artigo originalmente ruim. A obsessão tucana de atacar a esquerda é cada vez mais evidente, e FHC usa a estratégia menos nobre, que é a simplificação grosseira, o que em ciência política flerta abertamente com a mentira e a manipulação. FHC fala em “círculos de esquerda” de maneira genérica. Pode-se atribuir qualquer absurdo aos “círculos da esquerda”. Pode-se afirmar, por exemplo, que os “círculos de esquerda” propunham que mulheres não raspassem as axilas. Não seria um absurdo. Decerto haviam personalidades que defendiam isso. Mas são coisas marginais, polêmicas, debates de botequim.

De qualquer maneira, o artigo esquece que a própria ideologia de esquerda é um fenômeno eminentemente burguês, sobretudo pequeno-burguês, visto que são as classes burguesas, proletarizadas ou não por crises econômicas, que fornecem os quadros intelectuais que formarão os “círculos de esquerda”. Dito isto, é natural que estes círculos, formados por jovens em conflito com sua geração anterior, seja crítico aos valores de sua própria classe.

Agora, é imbecilidade dizer que o jovem de esquerda, esse elemento fundamental na construção da democracia em qualquer país ocidental, seja o antípoda dos valores de classe média, como “honestidade”, “trabalho” e “estudo”. É uma infame agressão histórica. A juventude idealista que tanto marcou a história da América Latina, desde Simon Bolivar ajoelhado perante as ruínas de Atenas, até Castro Alves recitando versos abolicionistas no Teatro Municipial do Rio de Janeiro para uma platéia atônita de aristocratas, sempre se caracterizou pelo estudo, pelo empenho às suas causas (portanto, ao trabalho) e pela virtude ética com que defenderam seus ideais (honestidade).

Aguines e FHC, em verdade, não falam das famílias reais de classe média. Eles antes criam meio que uma caricatura sisuda e conservadora da classe média. Algo assim como a família do Conselheiro Acácio.

Eu respeito profundamente a ciência política, a antropologia e as ciências sociais, mas nenhum cientista ou pensador que se preze poderia levar à sério uma esquematização simplória como a que FHC e Aguines tentam fazer.

Provavelmente, em certas conjunturas históricas, especialmente na velha Europa, era assim que as classes médias agiam. Basta ler os romances de Balzac como “Eugénie Grandet” ou “O Pai Goriot” para sentir que essas camadas ficavam apequenadas, mesquinhas, diante da burguesia vitoriosa ou da nobreza decadente aliada à mesma.

Entretanto, terá sido essa a posição das classes médias nas Américas e nos países de imigração?

Que melancolia! Usar o grande Balzac, com suas magistrais descrições da vileza huamana, para fazer um proselitismo ideológico tão medíocre! A arte, senhor FHC, denuncia a mesquinhez de todos, não só dos burgueses Eugenie Gradet ou Pai Goriot, mas também da aristocracia, do povo, dos pseudo-intelectuais… Ninguém escapa da mordacidade implacável com que a literatura humanizou a todos.

Dou a palavra a Aguines: na Argentina, tanto no campo como nas cidades, as classes médias se expandiram e começaram a construir valores que deram suporte para três culturas, “a cultura do trabalho, a cultura do esforço e a cultura da honestidade”. O mesmo, acrescento, terá ocorrido na Austrália ou no Canadá e, de outra maneira, nos Estados Unidos.

Simplismo chucro. Os valores do trabalho foram consolidados, obviamente, em primeiro lugar, pelas classes trabalhadoras. Aguines rouba as virtudes da classe trabalhadora imigrante e às confere a uma ainda inexistente classe média, que só iria se formar mais tarde. As virtudes do trabalho, porém, foram forjadas no tempo em que os imigrantes eram pobres e precisavam trabalhar. Quando ascendem a classe média, tem início a decadência moral; mas não porque ser classe média é ruim, mas porque é um processo natural. As famílias ascendem socialmente e decaem moralmente. A maioria das empresas familiares vão â falência nas segunda ou terceira geração, assim que surgem os famigerados “playboys” que não experimentaram na carne as vicissitudes da vida.

Por outro lado, esses mesmos impulsos que levam à decadência, também levam à arte. Um jovem de boa família usará o tempo livre para se tornar um vagabundo, outro para se tornar um grande escritor. A história de uma sociedade moderna, complexa, como a da Argentina, não segue o moralismo simplista, tacanho e irreal que Aguines e FHC inventam para dar conteúdo a um artigo de teor partidário.

E, no caso brasileiro, terá sido distinto? Esmagadas entre a escravidão e o senhorio rural, agraciadas aqui e ali com algum título não hereditário durante o Império, as classes médias urbanas, compostas por profissionais liberais, funcionários públicos, militares, professores e poucas categorias urbanas mais, no que iriam se apoiar para manter as distinções e realizar algo na vida?

Basicamente na escola e nos valores familiares que levam ao trabalho.

Tudo com muito esforço.

Ahaha, é muito ridículo a tentativa de FHC de “santificar” uma classe inteira, mormente uma classe que positivamente mal existia no Brasil. A quem FHC se refere? No Rio de Janeiro, a classe média era constituída por um bando de barnabés vagabundos que não se dispunham sequer a buscar uma vasilha de água na fonte. Tinham escravos para fazer tudo que desejavam. Não há nenhuma aura de santidade na classe média brasileira no tempo da escravidão. Quanto ao funcionalismo público, não estou tão certo que eram esses “Catões” que FHC agora tenta nos vender. Quer dizer que o funcionário público de hoje, segundo FHC, é um burocrata vagabundo e petista, mas no tempo do império era um abdicado e honesto trabalhador em prol da causa do Estado?

Com a chegada dos imigrantes, à medida que esses, motivados pelas necessidades de trabalhar, “faziam a América”, do mesmo modo se incorporaram às classes médias trilhando os caminhos do estudo e buscando ostentar a “boa moral”.

Quase me recuso a comentar essa parolagem hariovaldiana sobre a “boa moral”. Quer dizer que os brasileiros (ou argentinos), antes da chegada dos imigrantes, não conheciam a “boa moral”? A viralatice de setores do conservadorismo latino-americano atingiu níveis estratosféricos. A chegada dos imigrantes foi importante para as nações latinas, mas falar em “boa moral” é positivamente ridículo. Junto com imigrantes, vieram malandros de toda espécie: bêbados, prostitutas, estelionatários, assassinos, ladrões, dedo-duros. Não faz sentido ver nos imigrantes qualquer elevação espiritual acima ou abaixo da média da humanidade. FHC podia lembrar, além disso, que foram os imigrantes que trouxeram o socialismo, o comunismo, sindicalismo e o anarquismo para as Américas, e com isso produzindo revoluções, greves, rebeliões, em larga escala em todos os países, que estremeceram sociedades arcaicas e obrigaram-nas a evoluir.

No percurso dessa camada de imigrantes viu-se a formação de algo que poderia se aproximar de uma “burguesia pequena”, ou pequena burguesia: sua base econômica, em maior número do que no caso das populações brasileiras mais antigas, provinha de um pequeno negócio.

Ah, tá bom. FHC agora quer nos fazer provar que o “crème de la crème” do Brasil antigo, os fundadores da honestidade e da moral, eram os portugas donos de botequim. Nada contra os portugas, mas não creio que seja verossímil atribuir-lhes tanta responsabilidade…

Ainda assim, sua inserção na sociedade e sua gradação social eram dadas pelas mesmas virtudes das antigas classes médias, a valorização do trabalho, o estudo “para subir na vida”, a honestidade.

Quem, os “portugas”? Estudando? Aí FHC se perde completamente em sua fantasia. Ele nem sabe mais do que está falando. A classe média urbana, naturalmente, quer ver seus filhos estudando e subindo na vida. É um anseio natural, ancorado na mais antiga lei da sobrevivência. A troco de quê dar a um sentimento tão prosaico essa transcendência moral? O pobre também sonha em ver seu filho estudando, e se tal não acontece não é porque o pobre é malvado e a classe média é representante da “boa moral”, mas porque é muito mais difícil para um jovem pobre estudar do que para um jovem de classe média, seja lá o que FHC entende por “classe média”.

A própria base operária brasileira, a camada dos trabalhadores, usando outros instrumentos de ascensão social, como os sindicatos, e mantendo o ideal de trabalhar por conta própria, não fugiu deste padrão: escola-trabalho-decência.

Pois é, todo mundo está correndo atrás, então porque essa história de classe média? O artigo se enrola em suas próprias contradições. O uso do termo “decência” revela, contudo, que objetivo do autor é, na verdade, mostrar que este é o ponto de apoio ideológico de uma direita em processo de vertiginoso declínio político: o discurso da decência. De fato, o PSDB é muito decente, como se pode constatar lendo Privataria Tucana. Jamais cometem a indecência de encher suas cuecas de dólares; o desvio de recursos públicos via mecanismos do mercado financeiro é uma forma muito mais limpa e “decente” de resolver as coisas…

Obviamente quando a sociedade se massifica, quando os meios de comunicação, TV à frente e agora a internet, dão os compassos da dança, o quadro é menos nítido. Já não se vê com clareza que valores guiam as chamadas classes médias emergentes.

Hum, “valores que guiam as chamadas classes médias emergentes”… “Quadro menos nítido”… A maconha começa a fazer efeito na pena de nosso querido FHC.

Mesmo que haja exagero na insistência com que se repete que milhões e milhões de brasileiros estão ingressando nas “novas classes médias”, pois por enquanto se trata de novas categorias de renda mais do que propriamente de uma nova “classe social”, a transformação da renda em classe é questão de tempo: esta vai se formando.

Ok, tem razão nosso esforçado discípulo do doutor Hariovaldo. Esses emergentes ainda não tem “classe”. Ainda não lêem o Globo nem votam no PSDB, então ainda não conformam uma nova classe média.

Seus membros pouco a pouco irão frequentar escolas razoáveis, criar uma teia de relações com acesso aos mesmos clubes e a gozar das mesmas facilidades de recreação, trajar-se mais ou menos de modo igual (o que já ocorre), desenvolver uma cultura de trabalho qualificado e, de novo, comportar-se valorizando a decência e a honestidade.

Senti um frisson ao ouvir que “seus membros” terão acesso aos “mesmos clubes”. FHC ainda está no tempo do Rotary.

Como se comportarão essas classes emergentes na política quando se transformarem em uma categoria social com características, anseios e valores próprios? É provável que se juntem, nas formas de comportamento e nos valores, às classes médias preexistentes. Estas, no momento, sentem-se um tanto desconectadas da instituição que, sem ser a única, as abrigou e deu influência: o governo, o Estado.

Ou seja, FHC prevê que a nova classe média se juntará aos 4% que odeiam Lula. Bem, não é isso que as recentes pesquisas de popularidade da nova presidenta estão dizendo. A nova classe média está gostando da Dilma, cujo governo tem sabido se comunicar muito bem com essas camadas.

Justamente porque a política vem sendo percebida cada vez mais como um jogo de vale-tudo, em que a moral conta menos do que o resultado. É hora, por isso mesmo, de reforçar e não de menosprezar os valores fundamentais ditos “de classe média” — estudo, trabalho, honestidade.

Aí FHC faz a dobradinha com a mídia corporativa. Esta demoniza a política, aí chega FHC com seu discurso salvador. Sua debilidade reside no simplismo irritante. O que é moral, segundo FHC? É proibir distribuição de sopão na cidade? É fechar abrigos para moradores de rua? É aumentar juros e provocar recessão econômica, causando desemprego e aumento dos índices de violência urbana? É desmantelar a Polícia Federal e com isso, beneficiar as grandes máfias que infestam a República? A moral, para FHC, é sempre um discurso vago, fácil, uma teoria sonolenta, estática e hipócrita, ao invés de uma virtude positiva, ligada à ação política concreta.

Valores culturais não se impõem por lei, são modelos de conduta aos quais se juntam sentimentos positivos. Só a exemplaridade e a repetição enaltecida deles (na escola, na família, na mídia e na vida pública) vão aos poucos inculcando na mentalidade geral as formas que definem o que é bom, o que é ruim.

Valores culturais não se impõem por lei, mas são influenciados, sim, pelas leis. Dizer o contrário é esnobar o impacto de reformas legislativas na sociedade. Se o Brasil não tivesse vivido o trauma da ditadura e ao invés disso tivesse experimentado uma profunda reforma agrária, com certeza veríamos o florescer de novos valores culturais. Há uma relação dialética entre valores culturais e valores políticos, que intercambiam influência.

Minha aposta é a de acreditar, como crê Aguines, que a velha e boa classe média, que já contribuiu para a formação da nação, ainda pode ter papel relevante e será capaz de contagiar com seus valores as camadas emergentes, pois estas a eles já são predispostas: melhoraram a renda com esforço e trabalho.

FHC, depois de expor argumentos falhos, arrisca uma conclusão sofrível. A referência à “velha e boa classe média” como esteio moral do continente me parece, mais uma vez, uma exaltação tola, quase pervertida. Se as emergentes já melhoraram renda com “esforço” e “trabalho”, de que fala FHC? De decência? Estudo? Ou se refere ao conservadorismo anti-política e anti-governo que seu partido defende e gostaria de ver mais disseminados?

É certo que o descaso em nossa vida pública pelos valores básicos das classes médias diminui as chances de que eles venham a prevalecer. Há oportunidades, entretanto, para reforçá-los. O julgamento do mensalão é uma delas. Seja qual for o resultado, se o STF se comportar institucionalmente, sem medo de condenar ou de absolver, desde que explicando o porquê e sendo transparente, pode ajudar a demarcar os limites do inaceitável.

Ah, bom, que alívio. FHC encerra seu texto de maneira criativa e surpreendente. O julgamento do mensalão nos redimirá! Ele ajudará a reforçar os “valores básicos das classes médias”. FHC poderia acrescentar o mensalão tucano e o mensalão do DEM à historinha, só para evitar que alguns rancorosos o acusem de “partidário”.

Nem só de pão vive o homem. A decência e a honestidade são partes da vida. Convém reforçar os comportamentos que se inspiram nelas.

“Nem só de pão vive o homem”. Cara, que citação porreta! Com um pouco mais de esforço, FHC podia citar Titãs (a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte) e tirar 10 na prova de redação do colégio! Pena que ele estraga tudo depois com essa frase: “Decência e honestidade são partes da vida”, não porque esteja errado, mas porque fica parecendo que está sacaneando o nosso querido professor Hariovaldo.

No entanto, aprendam essa lição, pervertidos, sacanas, pinguços e blogueiros de toda espécie: “A decência e a honestidade são partes da vida”. Bem, partes de um automóvel é que não podia ser, né.

Fernando Henrique Cardoso é ex-presidente da República

Nunca um prefixo tão pequeno como esse “ex” me pareceu mais belo!

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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11 comentários

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Sérgio

29 de junho de 2015 às 18h46

Ele quer os votos da classe média, mas para mim a classe que ele admira e respeita está muito acima da média. Lembremos que quando presidiu,
a classe média se ferrou tanto ou mais que o povão, enquanto o 0,01% se
deu muitíssimo bem.

Responder

oliveira

04 de julho de 2012 às 10h25

Que texto terrível de FHC! Enquanto lia sentia, ora ria, ora me indignava. É tão estranho ler tanta mentira e manipulação. A classe média não é mais honesta e trabalhadora que as outras classes. Se brincar é mais desonesta, só que embalada na fantasia que a imprensa constrói em torno dela para transformá-la em massa de manobra para os mais diversos fins: desde rebanho eleitoral, passando por manifestações nas ruas e conspirações políticas até golpes de estado. Pobre classe despolitizada e tola.

Responder

FranciscoD.A.

03 de julho de 2012 às 12h48

Enquanto isso, fora do Mundinho mágico do “Brasil maravilha” dos PTralhas:
.
http://www1.folha.uol.com.br/poder/1114269-producao-industrial-recua-43-e-tem-nona-queda-consecutiva-diz-ibge.shtml

Responder

FranciscoD.A.

03 de julho de 2012 às 12h25

Incrível como palavras como “Honestidade”, “Ética”, “Retidão” e “Moral” ferem de forma cortante o ego do povinho de Luís Ináçu….

Principalmente sabendo que a Privataria PTralha dos Aeroportos e da Petrobrás suplantam em Milhoes e Milhoes a privatizaçao da Vale….

Responder

    admin

    03 de julho de 2012 às 16h39

    Pô, que viagem, hein. Nos aeroportos, houve concessão, e aeroporto é serviços. A Vale foi vendida por 3 bilhões e hoje vale 500 bilhões. Podridão maior ainda ocorreu no mundinho da telefonia…

    Responder

      FranciscoD.A.

      03 de julho de 2012 às 19h53

      Tem razao, Miguelito:

      Podridao Maior ocorreu no Mundo da Telefonia, pois foi la que Lulinha, Ex catador de cocô de Elefantes do Zoo de SP, vendeu uma empresinha mixuruca por 5 Milhoes a Telemar, “casualmente” no meio do Leilao do 3G, em que LULA achou um meio de pegar sua comissao da TELEMAR….

      Responder

Elson

03 de julho de 2012 às 05h59

Quer dizer então que a antiga classe média é formada por gente honrada, decente, trabalhadora, ao passo que o proletariado é feito por preguiçosos e imorais, gente que quer tudo na mão e vive de trambiques? Esse FHC, por falta do que fazer vive falando abobrinhas, oque esse sujeito entende de nova classe média? A depender dele e das idéias de seus partidários, seríamos um gigante adormecido eternamente, uma democracia de 20 milhões de pessoas.
Eu discordo que o conceito de honestidade , moral e trabalho tenha sido trazido para as Américas pelos colonos europeus, pois antes de Colombo ou Cabral aqui pisarem, os nativos viviam bem, e ninguém via eles se matando para escravizar seus semelhantes, ou para acumular bens.

Responder

Elson

03 de julho de 2012 às 05h22

Esses caras querem a volta daquele Itamaraty, aquele um que se curvava ante ao imperialismo yanke, onde se dizia amem para tudo oque Washington dizia, eles ainda não perderam seu complexo de vira-latas, por isso criticam pesadamente nossa chancelaria.

Responder

Ulisses

02 de julho de 2012 às 23h21

Na verdade, apenas mandou mais uma mensagem ao supremo! Condenem o Mensalão do PT! Mais claro impossível. E ainda ficam falando do Lula? Com uma pressão destas, acho que este julgamento vai ser um linchamento da mídia. Olha o golpe a Paraguaia aí!

Responder

RONALDO BRAGA

02 de julho de 2012 às 22h20

Este senhor (FHC) é totalmente desprovido de conteúdo.
Seus escritos têm a consistência de um pudim de claras em neve.

Responder

Yacov

02 de julho de 2012 às 20h22

A tua batata está assando FDP, digo, fhc. Velho libertino e sem-noção, que patrocinou o saque às riquezas brasileiras. Fariseu, corrupto, vendilhão e duas-caras!! Tua hora há de chegar, canalha…

“O BRASIL PARA TODOS não passa na gloBO – O que passa na glObo é um braZil para TOLOS”

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