Mais de 70% dos eleitores já estão decididos sobre o voto presidencial, diz DataFolha

A festa dos urubus

Por Miguel do Rosário

16 de julho de 2012 : 12h28

(Foto capa: Anna Karina, musa da Nouvelle Vague, homenageada do Festival Internacional de Cinema de Brasília)

Amigos, preparem-se que a mídia agora vai tocar o bumbo do apocalipse até meados de agosto ou setembro. A recuperação econômica do Brasil deverá se dar somente no segundo semestre, e os dados referentes à junho, julho e agosto, só serão divulgados, é claro, a partir daí pra frente.

Eu não quero ficar culpando a mídia por tudo. Sei que há dificuldades reais na economia mundial, que afetam o Brasil. Isso é óbvio, já que não somos uma ilha isolada. E concordo que o governo é ineficiente. A estrutura do Estado brasileiro ainda é precária. Temos eventualmente administradores ou dirigentes talentosos, bem intencionados. Há dinheiro para investimento. Mas tudo acaba sempre esbarrando nos gargalos da burocracia burra, despreparada, com formação ruim e, sobretudo, dona de uma cultura viciada.

Soma-se a isso o pânico geral no funcionalismo público com as novas leis de transparência, de um lado, e com a disposição guerreira de promotores públicos e agentes federais de mostrarem serviço. Ninguém quer assinar nada. Ninguém quer liberar nada. As obras ficaram paradas meses, anos, todo mundo empurrando um para outro a responsabilidade de fazer uma nova estrada, uma nova barragem, um novo trilho férreo.

É positivamente ridículo que o Brasil esteja há quase 30 anos tentando fazer a ferrovia norte-sul, enquanto a China acaba de concluir uma obra similar em dois anos.

Mas é melhor que os funcionários estejam com medo de assinar, e haja transparência pública, do que vivermos num regime totalitário. Aliás, é infinitamente engraçado que analistas econômicos ultraneoliberais festejem tanto o desempenho da China sem fazerem a necessária ressalva democrática.

Enfim, admitimos que há problemas. Mas os empresários tem que botar a mão na massa. A Dilma não vai conseguir mudar a cabeça de 600 mil funcionários públicos em 1 ou 2 anos. Lula escolheu ela justamente porque entendeu que a maior dificuldade do Brasil hoje é aprimorar a gestão do Estado brasileiro, e ao mesmo tempo não fazer disso um pretexto para desmantelar programas sociais.

O Banco Central divulgou hoje o seu relatório semanal Focus, onde reúne as previsões do setor privado para a economia nacional. As notícias não são boas. Os executivos estimaram que o crescimento econômico em 2012 será de 1,90%; na semana anterior, achavam que seria de 2%.

Apesar de eu ser um otimista quase bitolado, eu prezo o conservardorismo em termos de previsão econômica. É sempre melhor esperar o pior, porque se as coisas melhorarem, teremos uma surpresa agradável. Se o pior se confirmar, já estamos conformados e com um plano.

Na verdade, os agentes públicos e mesmo os privados já entenderam que a economia brasileira passou por uma retração a partir de meados do segundo semestre do ano passado, estimulada inclusive pelo próprio governo, que aumentou juros e reduziu gastos públicos. O conservadorismo da política econômica em 2011, aparentemente, foi um pouco maior do que o necessário, tanto que ele compensou à larga este ano, com redução forte não só de juros como do spread bancário, concessão de financiamentos a juros quase subsidiados, desoneração tributária e uma série de medidas para alavancar a economia.

Os mesmos agentes vêem que há, claramente, uma recuperação, já a partir de maio e sobretudo junho. As vendas de veículos explodiram em junho, e os juros baixos seguramente vão fazer a diferença nos próximos meses. Lembrando: juro baixo desestimula o capitalista a guardar dinheiro no banco e o incentiva a aplicar seus recursos em investimentos produtivos.

A conjuntura econômica, mesmo com o PIB crescendo menos do que gostaríamos, é boa. Juros baixos, crédito alto, desoneração tributária, desemprego em declínio. Os dados sociais também são positivos. Quando o ano de 2012 terminar, provavelmente teremos bons números sobre a queda da miséria, do analfabetismo. Dilma mandou ampliar fortemente os programas sociais, ofereceu crédito subsidiado para aquisição de casa própria, e implantou alguns programas de saúde bem sucedidos, sobretudo os que se referem ao tratamento de grávidas e crianças.

Minha maior angústia agora é que o governo e os sindicatos de servidores consigam se entender. Sempre defendi a valorização do serviço público, mas é evidente que há um ponto de equilíbrio delicado. Torço para que o governo seja generoso mas que os servidores também sejam responsáveis e pragmáticos em suas reinvidicações, sem apelar para um radicalismo que, prejudicando a economia brasileira, acabaria por jogar a água e o bebê pela janela.

O blogueiro está em Brasília, trabalhando no Festival Internacional de Cinema (Biffe, ver programação). Como já lhes contei, tenho uma firma que presta serviços de tradução e legendagem eletrônica. O blog ficará então um pouquinho menos intenso até o dia 23. Estou aproveitando a experiência para ter longas conversas com gente articulada na capital federal, conhecendo histórias de bastidores de partidos e personalidades da política e da mídia.

Abaixo o quadro do Focus (clique na imagem para ampliar):

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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9 comentários

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Luciano Prado

18 de julho de 2012 às 23h00

O problema é que o governo espaçou demasiadamente o tempo para reajuste dos funcionários públicos. Há categoria que está a mais de seis anos sem reajuste. O salário está defasado e a água batendo no pescoço.
Não dá para contemporizar com isso.
E a greve é a única linguagem que os governos (de plantão) conhecem.

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wepiana@gmail.com

17 de julho de 2012 às 21h12

o terrorismo economico já está em alta rotação nos meios de comunicação via radio tv jornais/revistas – todos os brasileiros estão cientes da gravissima crise que o (des)governo petista enfiou o Brasil…

só não vê quem não quer…
as hordas de desempregados
o povo faminto en desespero pelas ruas
o caos energetico
a desesperança nos olhos opacos da população ativa…

é isso que “vemos” através dos olhos da nossa “valorosa” Midia.

Ufa!

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Jose Mario HRP

17 de julho de 2012 às 10h55

Aquela velha ladainha “economocatastrófica” vai sair de todas as radios , tvs e jornais….e blogs, por meses até a eleição passar e se tudo der certo, a maré vermelha ter varrido a oposição para seu devido e ínfimo lugar!
KKKKKKK…..

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Elson

17 de julho de 2012 às 06h42

É certo que não somos uma ilha, e, que tudo oque ocorre no mundo pode nos afetar, porém em vista da Grécia, Espanha , Portugal e Irlanda, nós vamos bem obrigado. O desemprego ainda continua baixo, as dívidas do governo estão controladas, há dinheiro para se investir, bancos públicos estimular a economia e a concorrência saudável, portanto, assim que a economia mundial melhorar, nós sairemos na frente.

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Carlos Lenin Dias

16 de julho de 2012 às 20h57

Esclareço q n tenho lá muita simpatia pelo funcionalismo publico -n q os considere o mal de todos males…a herança n pode ser imputada à,digamos,herdeiros…Só uma pergunta:as pessoas vão p/ o funcionalismo publico p q gostam,ou p q da estabilidade?…O mundo mineral sabe da necessidade do funcionalismo,mas será q o formato q temos “produz” o q precisamos?…Sim;a ‘máquina’ é uma droga;e o material humano,tbém se empenha p/ esse novo país?É simpático à políticas sociais?

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Marcelo Rodrigues

16 de julho de 2012 às 13h24

Caro Miguel,

Gostaria de lembrar que o salário dos funcionários públicos, como todo salário, tem um efeito multiplicador respeitável, fazendo a economia girar e provocando aumento de arrecadação, de forma que ao final das contas o custo para o governo é menor do que o percentual bruto que for concedido. Além disso, em algumas regiões mais pobres são os servidores o principal sustentáculo da economia local.

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    Leonardo

    16 de julho de 2012 às 15h01

    Se o governo fosse malandro pouquinha coisa a mais aumentava os salários e aposentadorias do funcionalismo que ganha no limite de isenção do IRPF, aumentando brutalmente a arrecadação. Lol… É melhor não dar idéias…

    Quanto ao problema das greves, um conhecido meu que trabalha no IBGE (onde os – poucos – funcionários efetivos estão em greve)diz coisas grotescas sobre como aquele órgão é administrado… Excesso de funcionários temporários (isso atrasa um monte as pesquisas e a coleta de dados, pois a cada 2 anos, sendo muito otimista – poucos permanecem todo esse tempo no trabalho – o IBGE precisa treinar nova batelada de funcionários temporários), desperdícios com materiais, pesquisas lotadas de erros (treinamento mal feito), programas (daqueles que tem no tal PDA deles) cheios de bugs, muita perda de dados gerando retrabalho, os carros das agências só podem ser abastecidos a etanol, obrigando as agências a fazerem falcatruas nas notas de combustível em estados onde não é eficiente o abastecimento com etanol. Não sei se é só má gestão localizada, mas vale a pena investigar. O IBGE gera informações estratégicas para o Governo Federal, não é possível que seja tão vilipendiado.

    Com tudo isso, é necessário refletir que talvez parte do movimento grevista não reivindica apenas salários maiores, mas também melhores condições de trabalho.

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      Yacov

      16 de julho de 2012 às 15h26

      Engraçado… É igualzinho o funcionalismo público de SÂO PAULO, onde os ‘funças’ passam os dias na internet. A cultura do barnabé que não faz nada, e da ineficiência do serviço pùblico, vem de longe e precisa acabar. Não creio que a DILMA possa fazer muito em ‘8’ anos de governo, mas no acumulado , LULA (8), DILMA (8) e a volta de LULA (8), tenho expectativas de que, pelo menos em nível Federal, essa cultura sofra mudanças significativas e o servidor passe a ver o serviço público menos como ‘emprego’ e mais com o seu ‘trabalho’.

      “O BRASIL PARA TODOS não passa na gloBo – O que passa na glOBo é um braZil para TOLOS”

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        Maria Olimpia

        16 de julho de 2012 às 18h20

        Yacov,
        Não seja injusto. O governo do estado de São Paulo literalmente “desmontou” a máquina estatal em todos os níveis possíveis.Extinguiu secretarias, “criou” empresas mistas para “empregar” apaniguados, enfim, desestimulou ao máximo o funcionalismo. Sei disso por que fui funcionária da extinta Secretaria de Obras e aposentei-me, com prejuízo, para não ter que conviver com tanta falcatrua.(Obs. Era CLT, portanto, minha aposentadoria, embora tenha trabalhado e contribuído por mais de 30 anos, não atingiu o máximo, por causa do fator). Excelente artigo do Miguel.

        Responder

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