Análise da reunião ministerial de Bolsonaro

A obsessão da mídia

Por Miguel do Rosário

31 de julho de 2012 : 15h57

O Globo estreou o seu novo design com um “especial mensalão”. Seus leitores foram brindados, pela bilionésima vez, com infográficos trazendo as carinhas de todos os acusados, resumos do processo, etc. Na segunda-feira, mais mensalão. E na terça-feira, a página 3 inteira do Globo é dedicada à Simone Vasconcelos, ex-secretária de Marcos Valério. Os repórteres do Globo vasculharam a vida da mulher, divulgando minunciosamente todos os detalhes de sua rotina atual: onde trabalha, em que escritório, nome de sócios, que tipo de trabalho faz, o nome dos clientes, o quanto cada um paga.

Enfim, o mensalão fez o Globo pirar novamente. Hoje três páginas inteiras sobre o “mensalão”. Na Folha, situação parecida, sem esse lado meio infantil do Globo. Merval Pereira, claro, fala de mensalão.

Eu fiquei divagando o que aconteceria se todo esse aparato midiático fosse usado para pressionar o Ministério Público a investigar os desvios detectados no processo de privatização.

O negócio é que o mensalão é uma obsessão da mídia. Ela também estará no banco dos réus. E ela está preocupada sobretudo com uma possível absolvição de José Dirceu e Genoíno, dois intelectuais importantes do Partido dos Trabalhadores, que hoje tem atuação discreta justamente porque aguardam uma decisão definitiva da justiça.

Absolvido, Dirceu poderá à vida política e partidária com muita força. Poderá voltar a presidir o seu partido, assumir um ministério e mesmo sonhar com uma eventual candidatura à presidência da república, em 2018.

O interessante em toda a cobertura da mídia é que ela age como se nada tivesse acontecido de 2005 até hoje. Como se não tivesse havido a prisão de Daniel Dantas, em primeiro lugar, e de Carlos Cachoeira, os dois principais quadros do crime organizado que estavam por trás de muitas das tramóias políticas armadas contra o governo durante aquela crise.

Daniel Dantas foi o principal fiador de Marcos Valério. Através de Dantas, que tinha o controle de algumas das principais empresas do país, Valério tinha acesso a crédito farto nos bancos, que usou para emprestar dinheiro para o PT. Com isso, Valério e Dantas aproximavam-se do poder. Quando Lula cortou as asas de Dantas, porém, iniciando um processo que culminaria com seu afastamento da presidência da Telemar, primeiro, e com sua prisão, mais tarde. o banqueiro se vingou patrocinando esquemas de ataque político ao governo federal, conforme se viu em algumas gravações.

Com Cachoeira, houve situação parecida. Os bicheiro irritou-se com as dificuldades que enfrentava para ter acesso aos esquemas de Brasília e deflagrou uma guerra, usando seu braço armado no Congresso, Demóstenes torres, e na mídia, a Veja. Boa parte dos escândalos do mensalão, inclusive aquele que o inaugurou, o flagra de Maurício Marinho recebendo uma bolada de 2 mil numa sala da sede dos Correios, foi armada pelo bando de Cachoeira e divulgada no pasquim do Civita.

O mensalão virou sim uma espécie de caso Dreyfus, porque o que interessa deixou de ser a verdade. Tornou-se antes uma guerra entre os barões da mídia e o PT. Entretanto, sabe o que é mais curioso? É que o escândalo acabou forçando o PT, a partir de 2005, a dar uma guinada à esquerda, para não perder o apoio popular. Essas dialéticas da política são lindas. A mesma coisa aconteceu em relação ao golpe do Paraguai. As lideranças do Mercosul, indignadas com o golpe branco no Paraguai, mas impotentes diante da astúcia da direita local, que conseguiu fazer tudo “dentro da lei”, deu o troco trazendo a Venezuela para dentro do Mercosul. Ou seja, a esquerda tomou um gol perdendo o Paraguai, mas marcou dois ou três incluindo Chávez no bloco.

Por isso aquele velho ditado ainda vale, e possivelmente valerá também para os setores que olham o mensalão como uma chance de resgatar eleitoralmente a direita: ri melhor quem ri por último.

Que o STF condene ou absolva quem for culpado ou inocente, mas que o faça sem ceder às chantagens da mídia. Que seja rigoroso, enfim, em todos os sentidos.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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9 comentários

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Amilcar Faria

01 de agosto de 2012 às 21h07

Eu penso que se o debate é sobre a mídia o mesmo deveria ser conduzido com imparcialidade, sob pena de estar cometendo a mesma atrocidade que se imputa ao “famigerado” e “execrável” “aparato midiático” (adoro como essa palavra caiu no senso comum, reduzindo até a ideia do que seria senso comum).

Quem se arvora em fazer Análise Diária da Mídia precisa se imbuir da imparcialidade que aponta faltar nessa mídia (e olha que não sou da mídia e sequer a defendo, como se pode verificar no link abaixo), ou estará apenas dando mais um viés ao já enviesado olhar “MIDIÁTICO” (senso comum: onde o fundo desse poço).

Para se julgar qualquer coisa, pessoa ou instituição é preciso se fazer melhor que a coisa julgada, não usar os mesmos vícios que ora se esteja julgando!

Como percebo e julgo a atitude irresponsável da mídia:
http://amilcarfaria.blogspot.com.br/2012/07/o-poder-e-responsabilidade-da-midia-e.html

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Todos

01 de agosto de 2012 às 10h59

Hahahahaha mais um textinho sorrateiramente petista.

Responder

    Maria Olimpia

    01 de agosto de 2012 às 18h19

    Oh Todos, nem ler você sabe…..

    Responder

Todos

01 de agosto de 2012 às 10h59

Hahaha mais um textinho sorrateiramente petista.

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Elson

01 de agosto de 2012 às 09h08

A mídia está usando o método Goebels de praticar jornalismo, afinal segundo a cartilha deste notório nazista: “Uma mentira repetida mil vezes acaba virando uma verdade”. Dizer que o escândalo do mensalão é o maior de todos os tempos é chamar todos os brasileiros de idiotas.
O mensalão em relação a privataria tucana movimentou uma merreca em valores e agora se sabe que não foi usado dinheiro público, ao contrário das privatizações, onde bilhões de reais em patrimônio público foi vendido a preço de banana e milhões de dólares engordaram contas em paraísos fiscais na forma de comissões.
Quando a mídia esconde do povo as patifarias dos amigos e transforma os desafetos em inimigos número um ela está mostrando que tem lado e, esse lado não é o do maioria.
Qualquer que seja o resultado deste julgamento já sabemos que quem saiu perdendo foi a democracia, o direito a informação imparcial e a credibilidade de certos veículos de comunicação.

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Paulo Silva

01 de agosto de 2012 às 08h46

A midia fez um gol quando cassou o Dirceu mas levou três com a eleição de Dilma.

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Antonio Lyra Filho

01 de agosto de 2012 às 08h32

Concordo com tudo que escreveu.

Só acho que nós que fazemos parte da esquerda social deste pais, temos de reagir. Não podemos ficar submissos as famílias mediática
deste pais.
Pelo jeito como caminham as coisas, o Brasil passará a ser dirigido
pela mídia.

Não podemos nos acomodar. Temos de nos juntar a mostrar insatisfação.

Acorda PT!

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Francisco de Alcântara

31 de julho de 2012 às 18h06

TROLL

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Verinha

31 de julho de 2012 às 17h31

Concordo com você. Fico só imaginando o que acontecerá com a “mídia” nativa após o final do julgamento do mensalão. O que restará? Quem viver, verá.

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