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Instalação de Anna Opperman

O ódio contra a democracia

Por Miguel do Rosário

28 de agosto de 2012 : 20h25

Instalação de Anna Opperman

Segundo Luiz Garcia, colunista do Globo, o julgamento do mensalão é um “programão”. O texto de Garcia, admitindo a torcida midiática pela condenação, chega a ser naïf. O jornalista conclui, por fim:

Por enquanto, a plateia parece ter feito do relator o seu herói, e do revisor, o vilão da novela. Há exagero nisso, mas não me parece que ela tenha errado: como todo mudo sabe, a plateia costuma ter razão. E, pela televisão, com todo o respeito, o relator tem mais cara de mocinho do que o revisor.

No Segundo Caderno (e no Estadão), Jabor despeja todo seu preconceito contra a democracia:

Já começou o circo da propaganda eleitoral, o desfile de horrores da política brasileira. Será um trem fantasma de caras e bocas e bochechas que traçam um quadro sinistro do Brasil, fragmentado em mil pedaços – o despreparo, a comédia das frases, dos gestos, da juras de amor ao povo, da ostentação de dignidades mancas.

Os candidatos equilibram bolas no nariz como focas amestradas, dão “puns” de talco, dão cambalhotas no ar como babuínos de bunda vermelha, voando em trapézios para a macacada se impressionar e votar neles. Os candidatos têm de comer pastéis de vento, de carne, de palmito, buchada de bode e dizer que gostou, têm de beber cerveja com bicheiros e vagabundos, têm de abraçar gordos fedorentos e aguentar velhinhas sem dente, beijar criancinhas mijadas, têm de ostentar atenção forçada aos papos com idiotas, têm de gargalhar e dar passinhos de “rebolation” quando gostariam de chorar no meio-fio – palhaços de um teatrinho absurdo num país virtual, num grande pagode onde a verdade é mentira e vice versa.

Pois é, Jabor. Políticos tem de se misturar ao povo. Beber cerveja com vagabundos, abraçar gordos fedorentos e velhinhas sem dentes. Assim é o povo brasileiro.

Na ditadura, os políticos viviam situação bem mais confortável. Não tinham que fazer campanha, nem na TV nem na rua. Reuniam-se no apartamento de algum general e, entre um uisquinho e outro, decidiam quem seriam os manda-chuvas em cada cidade, estado e região brasileira.

Outro trecho do Jabor que merece alguns comentários:

Durante o mandato, o próprio governo FHC cometeu seu erro máximo que até hoje repercute – não explicou didaticamente para a população a revolução estrutural que realizava: estabilização da economia, lei de responsabilidade fiscal, privatizações essenciais, consolidação da dívida interna, saneamento bancário que nos salvou da crise de hoje, telefonia, tudo aquilo que, depois, Lula surripiou como obra sua. Foi arrepiante ver a mentira com 80 por cento de Ibope.

Não é verdade, Jabor. A mídia em peso explicava diuturnamente ao povo o mérito dessas políticas. Tanto é que FHC se reelegeu em 1998. O problema é que foi ficando difícil ao povo continuar confiando no governo enquanto o desemprego disparava, a miséria aumentava, os custos de vida (por causa da privatização) explodiam, e os juros inviabilizavam a economia brasileira. Fui micro-empresário na era tucana, caro Jabor, e lhe digo: foi barra. O cheque especial do Itaú comia o dinheiro da empresa, e não havia ninguém no governo ou na mídia para protestar contra o spread bancário. No máximo, justificavam os juros altos. A desregulamentação dos Correios fez o custo desse subir 2.000% em pouco tempo, o que prejudicou severamente empresas que usavam o serviço. O custo de telefonia explodiu também. O Brasil, de uma hora para outra, passou a ser um dos país mais caros em custos de telefone e internet.

*

Enquanto isso, vemos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), no afã de condenar os réus do mensalão, flexibilizarem a presunção da inocência. Os argumentos de Rosa Weber para condenar João Paulo Cunha são estarrecedores. Seguindo Gurgel, ela também alega que a própria ausência de provas condenatórias seria um sinal do crime.

Luiz Fux vai mais fundo, e diz que ônus da prova vai para quem é acusado.

Como não há “ato de ofício”, que seria a ação pela qual se suborna um servidor público, os ministros então decidiram inovar e inventam a tese de que crimes de corrupção passiva independem de ato de ofício.

A inovação é absurda e produzirá uma instabilidade tremenda na justiça brasileira. Um político desonesto manda um laranja seu depositar R$ 10 mil na conta de seu adversário, e pronto, o sujeito está condenado.

Os ministros estão esquecendo que a democracia brasileira inscreve-se num regime capitalista e o nosso sistema eleitoral é fortemente competitivo e concorrencial.

Ou seja, todo mundo tece grandes elogios à democracia, a seus valores, etc, mas quando seus mecanismos internos são desvelados, todo mundo vira o rosto e começa a xingar? É incoerência. O amor pela democracia deve se estender às suas facetas mais complexas. Os partidos precisam de recursos para fazer campanhas políticas. Não entender isso, e ao mesmo tempo se autodenominar um defensor dos valores democráticos, é ser hipócrita.  Num cidadão comum, isso é pernicioso, triste. Num juiz, é uma tragédia republicana. É contaminar o judiciário com o vírus do lacerdismo.

Segundo Rosa Weber, o simples fato de “poder praticar atos de ofício” já seria uma prova de culpabilidade. Isso é evidentemente um monstro jurídico, uma peça quase fascista. Ela criminaliza o poder, o qual, numa democracia, emana do povo. Ela criminaliza, portanto, a democracia, a política e o povo.

Luiz Fux afirma que “a verdade é uma quimera, é o que se infere. Se trabalha com a verdade suficiente”. Ou seja, o ministro instaura um novo procedimento: como não se pode provar o crime de um réu, e como a pressão midiática é muito forte, então deve-se condená-lo apenas em função da “verdade suficiente”, ou seja, de uma tese.

Daí a ministra junta três notas, vê que números de série são seguidos e interpreta aquilo como “estranho”. Não importa que este fato sequer tenha sido mencionado pelo Ministério Público. Weber, no desespero de trazer algum resquício de argumento para condenar, assume o papel de um investigador meia tigela.

Para condenar um político inimigo da “opinião publicada” não é necessário mais provas, nem atos de ofício, nem testemunhas, nada. Basta coletar alguns artigos de jornais  e decretar a sentença. No dia seguinte, os jornais virão com aplausos e o ministro será festejado quando for visto caminhando em Ipanema.

De fato, existem algumas regras constitucionais que são realmente enfadonhas. É chato, né, ter que arrumar provas para condenar um réu. Bom mesmo era na ditadura, onde um inimigo político era condenado sem que se precisasse reunir documentos, testemunhas, contra a sua pessoa.

O ódio contra a democracia na mídia é cada vez latente e perturbador.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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24 comentários

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LeandroS

01 de outubro de 2012 às 09h17

Para lá de excelente este artigo, parabéns. Disse tudo e com consistência. Tem mesmo muito me preocupado os rumos que o julgamento do dito mensalão está tomando. Ouvir um ministro do STF dizer que a verdade é uma quimera, é o que se infere é de doer a alma, nem os ouvidos. Me dá medo!

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paulo@yaaho.com

01 de setembro de 2012 às 10h22

Já está na hora desse blog tratar bandido como bandido.

O STF, a mais alta instância jurídica do país, julgou e baseado em leis, condenou bandidos.

Os ministros do STF não devem favores ou satisfações à mídia. Eles tem que ser basear em leis e provas para julgar e condenar.

Todos os 12 ministros são nomeados pela Presidência da República.
Se eles tem algum apadrinhamento político, esse é com o PT.

Se os “super-advogados” tão idolatrados por esse blog não conseguiram reunir provas para inoncentar seus clientes é por que não há como inocentá-los.

E pensar que os vários milhões pagos pelos honorários advocatícios foram roubados dos nossos bolsos.

Quero ver esses BANDIDOS CANALHAS na cadeia e que o dinheiro roubado seja devolvido aos cofres públicos.

Já passou da hora do nosso país ter um belo exemplo desses, para ver se a política começa a ser moralizada.

POLÍTICO BANDIDO NA CADEIA – JÁ.

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Giuliano D.

31 de agosto de 2012 às 20h14

O que é democracia?

É “difícil” esclarecer pois, até mesmo Marilena Chauí se confundiu; ela dispensou a metodologia cientifica de sua obra (Convite à Filosofia) para se auto-desvalorizar induzindo o leitor (obviamente jovem e “ingênuo à matéria exposta”) para acreditar na força suprema da ideologia na política, se esquecendo de que não é o único ponto de influencia ativa no governo. Se continuar a argumentação (opinião), chegaríamos à conclusão de que o governo deveria ser unipartidário pois os problemas sócio-economicos são facilmente detectados pelo mesmo porém o multipartidarismo entra em conflito de resolução prioritária dessas questões (se referindo a “agenda”). Mas isso seria a democracia? Estaria sendo uma pouco tirânica…

Mas onde estaria o povo nesse contexto? Bem, pela falta de exposição, cabe a deduzir que não seja importante e/ou as massas ainda seriam muito “manipuláveis”. Ora, então para “quem” escreveu o livro?

Hoje, um país democrático?

É bem provável que não, apenas dizê-lo “ser” não significa que “é”. Talvez me questionem sobre essa situação, me dizendo como foi difícil a ditadura mas como poderíamos carregar armas e lutar a favor da democracia? Gandhi e sua forma não-violenta não se adequaria aqui? Bem, hoje então aqueles que sobreviveram a era anterior, querem justiça mas em troca(venda) pedem indenização?

A publicidade governamental se não me engano compra os meios, ou seja; por que falar mal do governo se ganho verba deles(portanto, alguns meios estão de joelhos, sinta-se feliz porque eles existem)? Lula não escapa, quando a barba ainda era negra, dizia não concordar com vários tópicos neoliberais de FHC, entrou na presidência e? Não modificou nada, deixou como estava, má vontade? Pelo contrário mas espero que não se choquem mas quem controla o governo são as grandes corporações(e poucas mídias pertencem a esse patamar)!

Alienação

É uma pena que ainda se acredita que a população seja uma massa maleável, se esqueceram das novas mídias? Hoje ela pensa, fala, e age… Onde justifico a alienação? Poderíamos dizer com tanta certeza onde está o “manipulador” mas nós seriamos capazes de nos tornamos um carro blindado contra a alienação? Não, infelizmente não é tão fácil assim, não posso dizer simplesmente isso… Como Maquiavel dizia: “o homem não está atrás da verdade e sim de vantagem”, nem preciso exemplificar pois a frase é autoexplicativa.

Jabor

Sobre o 1º trecho florido o que acredito que ele tentou dizer é a questão de que o “ator político” nas eleições é muito amigável, disposto a estar em situações “inferiores” e que após a eleição, se “esquece” das necessidades da população. Não é um preconceito à democracia, é a realidade que os políticos proporcionam que se parece até uma sátira…

Os políticos estão confortáveis hoje também…

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@rafael_UNE

31 de agosto de 2012 às 00h01

O ódio contra a democracia – http://t.co/NQynZc0n

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@gustavonasa

30 de agosto de 2012 às 01h41

O Cafezinho » O ódio contra a democracia http://t.co/ksY56mmH

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@__Miguelito_

30 de agosto de 2012 às 00h49

O ódio contra a democracia – http://t.co/SGp5rFxV

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@dilsonruas

30 de agosto de 2012 às 00h37

O ódio contra a democracia http://t.co/OJzzKzIu

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@LuizAlaca

29 de agosto de 2012 às 11h39

O ódio contra a democracia – http://t.co/MUQ8QjAN

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Miguel do Rosário

29 de agosto de 2012 às 09h02

Prezados, obrigado pelos comentários.

Agrego duas imagens que corroboram minha tese de que a mídia odeia a democracia, e faz campanha sistemática contra esta.

Confiram esta charge. É engraçada, concordo, mas é um clichê antidemocrático.

[img]https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2012/08/ScreenHunter_1146-Aug.-29-08.58.jpg[/img]

Agora confiram notinha de ontem no Gois:

[img]https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2012/08/ScreenHunter_1145-Aug.-29-08.52.jpg[/img]

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@Adir00

29 de agosto de 2012 às 08h44

O ódio contra a democracia na mídia é cada vez latente e perturbador.

http://t.co/EZDiOLCb

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oliveira

29 de agosto de 2012 às 07h24

Migué, não sei compartilhar seus textos no Face.

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    oliveira

    29 de agosto de 2012 às 08h12

    Descobri

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@FABIANO_66

29 de agosto de 2012 às 07h11

O ódio contra a democracia – http://t.co/MAQn59Zl

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Elson

29 de agosto de 2012 às 06h34

Esse ódio do Jabor contra o PT é patético, suas lorotas só convencem os leitores de O Globo. Se sua argumentação fizesse algum sentido, José Serra teria sido eleito em 2002, más não, além de não ser eleito, ainda escondeu FHC, mostrando o quanto seu governo foi nefasto para o País e sua população.

Quanto ao STF, o julgamento da AP 470 será histórico, nunca se viu tantas aberrações, a começar pelo não desmembramento do processo, quando em processo semelhante e mais antigo esse recurso foi aceito, os ministro podem ficar bem na foto quanto a opinião publicada, más para quem entende do assunto, eles estão se mostrando uns deslumbrados, que na ânsia de parecer bem na foto, passam por cima de direitos fundamentais dos réus. Esse caso ainda vai parar na Corte Interamericana de Direito, entrando para os anais da justiça como uma ignomínia.

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oliveira

29 de agosto de 2012 às 03h14

Pois é, MIguel, os juízes estão julgando conforme os ditames do PIG. Estão procurando um jeito para condenar os réus como forma de se defenderem de acusações da imprensa. Não há mais dúvida disso. Com esse judiciário, a justiça é que é uma quimera, trabalha-se com os juízes possíveis de se encontrar na lata do lixo. Será que algum dia terão clareza do que estão fazendo hoje? Será um STF de triste memória, sem dúvida.

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Marcelo Rodrigues

29 de agosto de 2012 às 01h42

Um fiscal que lança um auto de infração sem provas, corre risco de ser preso pelo crime de excesso de exação. No máximo, se admite que ele interprete errado uma prova, mas ela tem de estar lá no processo e tem de estar perfeitamente explicado porque o fiscal acha aquilo matéria tributável.

Qualquer fiscal sabe disso.

Voltando ao ponto, voto processual é a integração lógica que o juiz faz do pedido feito em juízo (no criminal, pelo promotor ou procurador)com as provas constantes dos autos. Se uma prova “A” pode significar duas coisas diferentes, o juiz só pode se inclinar por um dos significados se tiver apoio insofismável de um outra prova “B” que traga um só significado, não pode ficar viajando na maionese nem brincando de pimponeta.

Qualquer juiz sabe disso. Menos os do STF, que acham que voto processual é a idiotice com que cismarem.

Estou estarrecido pois não estou vendo um trabalho sério de VALORAÇÃO das provas, de mostrar porque um determinado documento tem um significado importante e único, não, nada disso, os malucos parecem tomados de delirium probandi coletivo. À exceção do Lewandowski, ninguém está falando coisa com coisa, o que estamos vendo são exposições de certezas que não foram explicadas de onde surgiram. Pelo jeito, as certezas chegaram de Marte por cortesia dos EUA, o maior interessado em acabar com a festa de governo que pensa primeiro nos trabalhadores.

Só temos a lamentar que o Lula tenha deixado escapar a oportunidade de oxigenar o supremo nomeando este tipo de gente. Uma pena, o país merecia um judiciário melhor.

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Ninguém

29 de agosto de 2012 às 00h48

Miguel, como sempre, o seu texto acerta o alvo na mosca. Pobre democracia brasileira.

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Ruy Acquaviva

29 de agosto de 2012 às 00h21

Utilizando essas teses o Serra deveria ser condenado utilizando-se como base as escutas do Cachoeira que apareceram citando seu nome.

Mas tenho certeza que surgirão teses mirabolantes na imprensa e no judiciário para dizer que o ônus das provas só cabe aos petistas.

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@LAMARQUES10

29 de agosto de 2012 às 00h13

@migueldorosario O ódio contra a democracia MIGUEL DO ROSÁRIO define com maestria esse momento do STF http://t.co/273lLnUA

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Maumauquirino

29 de agosto de 2012 às 00h01

Como sempre um exelente texto,mostra cabalmente o risco que a nossa jovem democracia corre.

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@EngCas

28 de agosto de 2012 às 23h24

Brilhante Miguel: O Cafezinho » O ódio contra a democracia http://t.co/1S5wmo21

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@ricocordeiro

28 de agosto de 2012 às 21h13

O ódio contra a democracia – http://t.co/xIncPHcP

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@jprcampos

28 de agosto de 2012 às 20h30

“@migueldorosario: O ódio contra a democracia http://t.co/e0fH23Ej /” #midiavenal @jornal_cultura @folha_poder @estadao @VEJA @rede_globo

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@migueldorosario

28 de agosto de 2012 às 20h25

O ódio contra a democracia http://t.co/0UoLWZut

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