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Os três tigres tristes da semana

Por Miguel do Rosário

19 de fevereiro de 2013 : 18h02

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Não existe amor em política. É uma pergunta.

Responsabilidade, senso de proporção e – para completar o trio de Max Weber – uma pitada de paixão são seus atributos.  Ou seja, há paixão, mas não amor em política? Os marketeiros, de qualquer forma, não podem esquecer esse mistério que dá sentido à vida e coesão às famílias. Afinal, se o objetivo da política é promover a felicidade, jamais se poderá ser indiferente à flecha envenenada do garotinho pelado.

Omnia vincit Amor; et nos cedamus Amori. O amor vence tudo; submetamo-nos, nós também, ao amor! A hostilidade com que blogosfera e grande mídia receberam o lançamento da nova legenda de Marina Silva me fez meditar sobre o fator sentimento e reler poemas de Virgílio. É uma coisa terrivelmente constrangedora, quase trágica, quando a pessoa percebe que ainda gosta do outro, mas o coração parou de reagir à sua presença. Então concluí que não acredito mais em Marina Silva como um fator importante nas eleições de 2014. Parte do Brasil ainda gosta dela, mas the thrill is gone, como diria B.B.King.

Editorial de hoje no Globo, por exemplo, explica sem rodeios porque a midiazona não caiu na “Rede”:

Por mais que se esforce, a ambientalista ainda não conseguiu cortar os laços com o PT. No segundo turno, em 2010, preferiu liberar seus eleitores, na prática um sinal verde — sem trocadilho — para que votassem em Dilma Rousseff (…)

O recado, aliás, também se dirige, naturalmente, a Eduardo Campos. É bem direto: só vamos apoiar quem se alinhar, de maneira bem assertiva, à oposição. Ainda na edição de hoje, Merval Pereira reforça a mensagem ao hostilizar Cid Gomes, governador do Ceará, caracterizando-o como um dilmista infiltrado no PSB. E chega ao cúmulo do ridículo de tentar produzir uma intriga entre os dois irmãos dizendo que Ciro Gomes “pode acabar apoiando Aécio Neves”, uma tese no mínimo esdrúxula.

As pauladas em Marina vieram de todo lado, mas essas da grande mídia apenas se explicam pelo radicalismo anti-petista dos barões.  Marina tem se esforçado heroicamente para agradar a mídia: seu discurso antipolítica encaixa-se graciosamente na agenda udenista. O fato, porém, de não se posicionar, francamente, como oposição ao governo Dilma, acendeu nos grandes jornais uma luz amarela: será esta Rede um PSD verde? Representará mais uma transfusão de sangue oposicionista para veias – como diria Jabor – bolcheviques?

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Claro, tudo isso pode mudar se Marina fizer o que prometeu em seu discurso do sábado, mas não cumpriu: tomar posição. Contra o PT, claro. Aí sim, o amor, que vence tudo, voltará aos corações duros das famiglias!

*

A hostilidade à Marina pode ser comparada ao entusiasmo febril com que a nossa mídia recebeu Yoani Sanchez. Acho que em lugar nenhum do mundo, a blogueira receberá tanta atenção da midia. De qualquer forma, a polêmica sessentista produzida pelo estardalhaço dos movimentos de solidariedade à Cuba, que foram protestar no aeroporto e compareceram ao evento em Feira de Santana com a blogueira, enseja oportunidade interessante para debater, pela enésima vez, velhos dilemas políticos e ideológicos.

Mas temos que ser muito prudentes. Num primeiro momento, por exemplo, senti-me inclinado a criticar os grupos que foram lá no aeroporto. Mas aí eu pensei um pouco sobre o assunto. Tirante a parte do puxar o cabelo da Yoani, que prefiro não acreditar, até porque vimos a mesma sorrindo o tempo inteiro nas fotos, e até elogiando o lado “democrático” das manifestações, o que aconteceu? Grupos com orientação socialista, amparados em direitos expressos na Constituição, aproveitaram o espetáculo midiático em torno da blogueira para defender um país socialista, que é agredido há décadas pelos Estados Unidos. Agiram conforme suas ideias e convicçoes, o que nos leva a constatar mais uma das contradições lamentáveis do nosso tempo: as mesmas pessoas que vivem se lamuriando e acusando os partidos pela falta de consistência ideológica, fazem ataques extremamente agressivos aos manifestantes porque estes, simplesmentes, foram até lá defender sua ideologia! E não falo apenas da mídia, mas da nossa intelectualidade acadêmica, incrivelmente, sordidamente, insolentemente blasé.

Claro, são idealistas sem doutorado em universidades americanas, gente simples, que vê o mundo com simplicidade, mas por isso mesmo com uma clareza muitas vezes (diria até, na maioria das vezes) superior a dos intelectuais de facebook.

Essa mesma esquerda “mal educada”, maltrapilha, barulhenta, que não perde tempo refletindo sobre o impacto midiático de suas manifestações, movida a slogans (só) aparentemente passados, como “fora ianques”, “viva Cuba”, etc, será também aquela que estará sempre na linha de frente, expondo a própria vida, se tivermos que defender a nossa democracia.

Ah, democracia. Taí um conceito bastante dúbio. Segundo Montesquieu, “o amor à democracia é o amor à igualdade”. Não creio que esta máxima inspire muito os fãs de Yoani Sanchez…

Eu mesmo já andei estranhando esse esquerdismo rude, estridente, quase violento, como o que vimos durante a visita de Obama ao Brasil. Hoje eu vejo que a gente precisa disso, porque são forças que dão coesão, lá nas bases, às esperanças de transformação social, que produzem líderes, que geram os anticorpos para o conservadorismo entreguista que ainda é o maior adversário do nosso desenvolvimento.

Mas eu sou contra, por exemplo, acusar sem provar, ou seja, sou contra acusar Yoani de receber dinheiro da CIA. Nem me interessa quem está lhe pagando a viagem.

Lo que no le dijimos nunca a nadie fue que nosotras también hacíamos cositas debajo del camión. O que nunca dissemos a ninguém é que também fazíamos coisas debaixo do caminhão. Essa é a primeira frase de Três Tigres Tristes, a obra mais conhecida de Cabrera Infante, escritor maldito do regime castrista. Não quero saber o que Yoani faz debaixo do caminhão. Estou mais preocupado com outro tigre melancólico de nossas plagas: Marina Silva. Esta sim, pode ser que esteja apenas fingindo estar desdentada…

Na verdade, apesar de agora entender os protestos contra Yoani, penso que há um lado bem desastrado nisso tudo. A mensagem errada é transmitida. Yoani tem todo o direito de escrever o que quiser. Achar que uma blogueira pode derrubar um regime político, é a mesma coisa que achar que o tal regime é realmente muito fraco. É contraproducente. O governo cubano promoveu um inestimável avanço democrático ao facilitar a viagem de seus cidadãos ao exterior. Isso deveria ser motivo de orgulho para os defensores de Cuba e, em razão desse avanço, deveríamos receber Yoani de braços abertos. Protestando contra o bloqueio americano à Cuba, discordando dos textos da blogueira, mas recebendo-a sem hostilidade e sem fazer acusações sem prova.

*

O primeiro tigre triste da semana, portanto, foi Marina Silva. O segundo, Yoani Sanchez. O terceiro é o intelectual blasé, vaidoso, sem noção de sua incompetência no campo do debate político, que explora as contradições da esquerda apenas para afirmar a suposta “pureza” de suas convicções. Deveria reler a Política como Vocação, esta emocionantemente realista aula de democracia que Max Weber proferiu às vésperas de seu país se lançar na trevas do nazismo. É um texto atualíssimo para se entender a política brasileira de hoje e nos vacinarmos contra essa onda de sectarismo antipolítica do qual Marina Silva é apenas a ponta do iceberg.

 

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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2 comentários

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Marola

20 de fevereiro de 2013 às 10h55

Uma das consequências mais irritantes dos protestos desses idiotas baianos foi fazer com que tivéssemos que aturar a hipócrita indignação “cidadã” da Monica Waldvogel pontificando na Globo News sobre liberdade de expressão. Foi dose.

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migueldorosario (@migueldorosario)

19 de fevereiro de 2013 às 18h03

Os três tigres tristes da semana http://t.co/SgXn5D4q

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