Mais de 70% dos eleitores já estão decididos sobre o voto presidencial, diz DataFolha

O Brasil na curva da estrada

Por Miguel do Rosário

18 de março de 2013 : 20h31

Inicio a semana indicando uma magnífica reportagem de Natalia Viana, da Agência Pública, que desmascara as imorais, ilegais e engordativas intromissões do governo americano no cenário político da América Latina. Sempre contra a esquerda, naturalmente. Viana conta a história de um argentino-americano chamado Eduardo Fernandez, e me fez lembrar do filme O Alfaiate do Panamá, do diretor John Boorman, inspirado no romance de Grahan Greene, Nosso homem em Havana.

O imperialismo americano produziu uma infinita rede de parasitas que ganham a vida exagerando um suposto “perigo vermelho” nas repúblicas tropicais. Se até os anos 70, esses pretensos espiões eram perigosos, hoje se tornaram verdadeiros palhaços de si mesmos, remanescentes corruptos dos “gloriosos tempos” da luta anti-comunista.  Não quer dizer que ainda não representem um risco à estabilidade democrática no continente. Dinheiro em grande escala faz a diferença em qualquer parte. A reportagem revela, por exemplo, um aumento extraordinário de recursos para determinada agência americana pouco antes do impeachment relâmpago de Fernando Lugo. Mas o golpe contra Lugo foi dado pelo próprio Congresso paraguaio. A nossa sorte é que esses caras devem embolsar a maior parte dos recursos, antes de doar para grupos de oposição.

Se uma coisa aprendemos revisitando a história da América Latina, é que embora admitindo que os americanos sempre estiveram ao lado dos golpistas, a maior culpa pelos golpes é mesmo nossa, de nossas elites, nossa mídia, nossa despolitização e nossa covardia. Se o Brasil tivesse escutado Brizola e reagido, teríamos outra história, outra auto-estima, ao invés de estarmos, até hoje, discutindo política a reboque da mesma mídia que produziu o estado de espírito que tornou possível a ditadura.

*

O Brasil hoje está na curva da estrada que leva a seu desenvolvimento. Há, de fato, uma tremenda ansiedade no ar. Cresceu exponencialmente a quantidade de recursos alocados para as grandes obras de infra-estrutura, investimentos em educação, e houve deslocamento tectônico das classes sociais, todas empurradas para cima em termos de poder aquisitivo e perspectiva de vida. Se a roda econômica passa a girar muito mais rápido, também cresce o número de erros.

Talvez seja um erro colossal, por exemplo, entregar os portos à iniciativa privada, através dos programas de concessão que o governo vem realizando. Talvez na curva da estrada, na qual entramos acelerando a uma velocidade cada vez maior, topemos com um caminhão vindo no sentido contrário.

Eu sou partidário do modelo europeu de fortalecimento do Estado e das estatais. A Europa vem apresentando problemas financeiros, mas não por causa de seus portos públicos.

Roberto Requião, ex-governador do Paraná e senador pelo PMDB, e José Valente, um especialista em infra-estrutura ligado ao PT, fazem uma oposição dura à MP dos Portos, justamente por entregar portos públicos à sanha privada.  Esse tipo de decisão, contudo, não mobiliza a sociedade, e os políticos terão que arcar com as consequências de seus atos. O governo é soberano para tomar decisões importantes, e também há gente muito capaz defendendo a MP dos Portos. O empresariado defende com unhas e dentes, o que não é necessariamente um mal sinal, visto que será ele que irá pagar pelos serviços.

Esse tipo de concessão privada apenas poderia funcionar se o governo garantisse uma regulamentação democrática e severa, fortalecendo os órgãos de controle, para que a medida não represente uma perda de soberania, nem um desastre em termos de custos e corrupção.

O Brasil tem tudo para dar certo, e qualquer medida pode ser bem sucedida, desde que o Estado jamais deixe de investir na capacitação de seus funcionários e no aprimoramento dos órgãos supervisores.

O enorme volume de ações, obras e investimentos do governo implicará, como já disse, em aumento de erros, algumas vezes por culpa de incompetência da máquina burocrática, outras por ingerência política, além dos inevitáveis acidentes de percurso. Eu suponho que o povo brasileiro seja até relativamente tolerante com os erros, desde que não os interpretem como má fé, ou não vejam o governo ter a humildade fundamental de corrigir os desvios.

As pessoas votam em seus representantes políticos para que tomem decisões, mesmo que arriscadas. A gestão petista na Petrobrás cometeu erros? Possivelmente, mas é risível achar que essa constatação nos levaria a entregá-la de novo ao controle tucano.

Não dá, a esta altura do campeonato, para ter medo e desacelerar. O Brasil precisa desesperadamente aumentar seu crescimento econômico, para melhorar serviços públicos e infra-estrutura, elevar a auto-estima de seu povo e dar-lhe condições de se aprimorar intelectual e espiritualmente. Esta urgência explica porque a sociedade, por mais que alguns setores critiquem a presidenta (como eu critico, por exemplo, a sua política de comunicação), tem lhe conferido uma espécie de cheque em branco em termos de popularidade.

Mas de uma coisa podemos estar certos. Se na virada da curva, o Brasil topar com um caminhão em sentido contrário, este virá, seguramente, com um logotipo da Globo no parachoque. Por isso, vale o alerta para o governo. Ele nadará em águas tranquilas enquanto não cometer um erro. O dia em que este acontecer, entenderá porque havia tanto receio, em suas bases sociais, com a concentração absurda e medieval da nossa mídia.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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6 comentários

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Daniel

20 de março de 2013 às 09h11

O problema ao meu ver não é privatizar portos, mas privatizar entregando-os para os “empresários” tupininquins acostumados à um capitalismo “para inglês ver”. Pois, supondo que a razão de privatizar um porto seja a “corrupção e incompetência” estatal, de que adianta então entregar para um empresário corrupto e incompetente?

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spin

20 de março de 2013 às 06h19

Falas de ministro do STF são apagadas das notas orais do STF

Quem diria! Os próprios ministros com vergonha do que afirmaram durante o julgamento farsesco do “mensalão”. Agora não só negam como estão destruindo as provas do que afirmaram em alto e bom som, como faria um criminoso que apaga as provas do crime. Como eles podem fazer isso se o Brasil inteiro acompanhou aquele circo de horror. Que tal uma Comissão da Verdade para colocar tudo isso em pratos limpos, Ao contrário do que tem afirmado Barbosa, o STF não está acima de tudo e de todos. Quando me lembro daqueles juízes ensandecidos e ávidos e apressados a condenar a qualquer custo, vêem a mente um bando de embriados, que nada tem a ver com a Suprema Corte de um país civilizado. Depois da lambança feita, agora apagam as provas do que fizeram, dá prá escrever um longo anedotário não fosse trágico, afinal de contas, quem pode achar graça nessa história de pessoas inocentes terem que cumprir anos e anos na cadeia, em regime fechado. Vejam só essa do Barbosa apagando os registros do seu esdrúxulo que ele(Barbosa) fez da tese do domínio de fato(sem provas) para atender aos anseios da Casa Grande e sua mídia venal. Nada será feito contra estes larápios togados?

STF MAQUIA O MENSALÃO.
“DOMÍNIO DO FATO” VAI SUMIR
Os advogados e os historiadores devem requisitar, imediatamente, as gravações da TV Justiça dos votos do mensalão. O processo de maquiagem está em curso.Imprimir

Saiu no “Painel” da Folha (*):
ESQUEÇAM…

O ministro Luiz Fux mandou apagar suas intervenções das notas orais do STF (Supremo Tribunal Federal) contendo todo o debate em plenário durante o julgamento do mensalão.

… o que eu disse

Entre as falas agora apagadas estava uma que contrariou os advogados, por sugerir que caberia à defesa provar a inocência dos réus. Os ministros estão liberando aos poucos suas notas orais para o sistema de informática da corte.

Veja bem

A assessoria do ministro afirma que tudo que ele disse durante o julgamento constará no voto, e que foram excluídas as declarações para evitar um documento muito longo. Além disso, justifica que outros ministros fizeram o mesmo.

O Conversa Afiada tem a informação de que o emprego da teoria do “domínio do fato”, aquele turbante da Carmen Miranda em que o STF transformou uma tese original alemã, vai desaparecer na hora em que os votos escritos estiverem publicados.
Foram essa e outras barbaridades que levaram a Hildegarde Angel a chamar a condenação sem provas do Dirceu e do Genoíno em“Mentirão”.
Quanto ao Ministro Fux, marcha a passos acelerados para um processo inexorável de impeachment.
A revelação da conversa com o Ministro Gilberto Carvalho é estarrecedora.
Sem falar que confessou não saber que havia 3.200 vetos na frente da MP dos royalties do petróleo.
E parou o Brasil, até que o Supremo, constrangido, revisse seu erro.
Os advogados e os historiadores devem requisitar, imediatamente, as gravações da TV Justiça dos votos do mensalão.
O processo de maquiagem está em curso.
Viva o Brasil !

Paulo Henrique Amorim

(*) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que matou o Tuma e depois o ressuscitou; e que é o que é, porque o dono é o que é; nos anos militares, a Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.

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a chegada de Fux ao STF
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COMENTÁRIOS
106 Comentários para “STF maquia o mensalão.
“Domínio do fato” vai sumir”
19 de março de 2013 às 19:42

RicardoJ.
É inacreditável que eles queiram apagar estas gravações assistidas ao vivo, a cores, para distorcer a história… É o fim, o STF não assumir suas decisões… =^\

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Érico Cordeiro (@ricocordeiro)

19 de março de 2013 às 09h58

Artigo do Miguel do Rosário: http://t.co/yZohqGyn5N

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Adir Tavares (@Adir00)

19 de março de 2013 às 09h46

O Brasil na curva da estrada http://t.co/judyvLzff3

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Vera Borda

18 de março de 2013 às 20h48

Confesso que em momentos de semi-vigília, após uma noite de insônia, me passa pela cabeça a ideia de que termos chegado até aqui só pode ser assim um “milagre”, tantos são os problemas, por todos os lados. E qualquer vacilo pode ser fatal. Credo!

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migueldorosario (@migueldorosario)

18 de março de 2013 às 20h31

O Brasil na curva da estrada http://t.co/wXj5qXUei4

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