Ato público pela valorização do serviço público

O humor de hiena do jornalismo brasileiro

Por Miguel do Rosário

06 de junho de 2013 : 05h30

Wanderley Guilherme faz uma crítica duríssima ao jornalismo de catástrofe conduzido pela principal empresa de mídia no país, um jornalismo que não esconde a satisfação com cada fato negativo que encontra, mesmo que para isso tenha que distorcer a realidade para pintá-los, aos fatos, como piores que são.

A imprensa atravessando o samba

Por Wanderley Guilherme dos Santos*

Em 1963, a Acadêmicos do Salgueiro adentrou a avenida Presidente Vargas para ganhar o carnaval e revolucionar o desfile das escolas. Seu samba-enredo narrava a história de uma escrava e, para espanto de todos, começava assim: “Apesar de não ter grande beleza”. Como? Onde já se viu um samba começar com “apesar”? Bem, tratava-se da famosa Chica da Silva que, mesmo sem dispor de excelência física, “encantou a mais alta nobreza”. O samba? Maravilhoso.

Os autores da ousadia, Anescarzinho e Noel Rosa de Oliveira, transgrediram criativamente a rotina das letras e utilizaram com perfeição um recurso estilístico. Lamentaram o que seria de lamentar – a ausência de perfeição estética da mulher – para melhor exaltar um grande feito: a conquista do coração do contratador João Francisco de Oliveira, “que a tomou para ser a sua companheira”.

Pois 50 depois, o jornal O Globo estampou em sua primeira página de domingo, 2/6/13, matéria sobre trabalho infantil que começava assim: “Apesar dos avanços no combate ao trabalho infantil desde os anos 90…” ao que se seguia informação sobre o possível número de crianças e adolescentes ainda trabalhando em atividades perigosas, e terminando com o registro de que “Para os especialistas, o país não deve cumprir a meta de erradicar esse tipo de trabalho até 2015”. A Organização Internacional do Trabalho acabava de publicar relatório sobre eliminação do trabalho infantil apontando que o programa bolsa família foi responsável por parte da significativa redução de 13,4% no contingente de trabalho infantil no Brasil, entre 2000 e 2010. Especificamente, segundo o IBGE, o número de crianças e adolescentes trabalhadores decresceu de 5,3 para 4,3 milhões, entre 2004 e 2009. Um milhão a menos em cinco anos. O jornal O Globo, ao contrário dos criativos compositores do Salgueiro, transformou uma comemoração em velório, apresentou pêsames aos resgatados de um desastre e exaltou um evento que, segundo especialistas, não acontecerá daqui a dois anos. Tudo em primeira página garrafal. Que jornalismo é esse?

Mais do que engajado partidariamente, trata-se de um jornalismo de péssima qualidade profissional, não bastasse o estilo chulamente cafajeste de seus colunistas. Os redatores são incompetentes ou corrompidos. Inúteis até para formar a opinião dos leitores de oposição ao atual governo, pois a que serve a disseminação da idéia de que, não importando o esforço da sociedade brasileira, ela não será capaz de superar seus problemas? Instilando desalento e baixa estima no segmento que o lê, o jornal busca a erosão das expectativas positivas sobre o futuro de bem sucedido projeto de transformação econômica e social, em curso desde 2003. Derrotismo de derrotados faz mal a seus seguidores.

E a confusa manipulação estatística na apresentação dos resultados da pesquisa do IBGE sobre desempenho industrial no primeiro trimestre de 2013, divulgados terça-feira, dia 4/6, reitera o padrão negativista do jornalão carioca, que leva seus profissionais a atingirem o orgasmo ao anunciar alguma catástrofe, mesmo quando o anunciado não o é. Em relação a abril de 2012, a indústria cresceu 8,4%, com indicadores positivos em 23 das 27 atividades, 58 dos 76 subsetores e 63,4% dos produtos pesquisados. Obscurecendo o disseminado impulso positivo da indústria, em texto ininteligível, o jornal ressaltou o hiato que resta recuperar em relação aos níveis de 2011 (O Globo, 5/6/13, p.19). Humor de hiena.

Já em início de campanha eleitoral, o momento é oportuno para balanços críticos do governo e de suas políticas – e aqui faremos alguns. Faltam jornais capazes de identificar, divulgar e analisar os problemas reais, pois contam com recursos materiais para percorrer estados e municípios, registrando negligências e omissões. Postular dogmaticamente que o feito poderia ser feito melhor, é a forma mais leviana de um jornalão confessar que, apesar do que foi ou venha a ser feito, continuará contra, atravessando, além do samba, a caminhada.

* WG assina, às quinta-feiras, a coluna Cafezinho com Wanderley.

(Desenho de Juliano Guilherme n.5. As entranhas de César. Coleção Cadernos)

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

1 comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Messias Franca de Macedo

08 de junho de 2013 às 09h15

Denúncias
Bonifa: Globo enfia inflação onde não havia inflação
publicado em http://www.viomundo.com.br/denuncias/bonifa-globo-enfia-inflacao-onde-nao-havia-inflacao.html

7 de junho de 2013 às 10:18

NOTA FÚNEBRE(!): o texto é acompanhado por uma fotografia histórica da Ana Maria Braga “da ‘grobo'” usando como adorno de luxo (sic) ‘um colar de tomates’ – e madurinhos da Silva, capazes de agradar a pobres e a troianos!

LÁ VEM O MATUTO VAGANDO COM ‘O [indefectível!] DIÁRIO DO MENTIRÃO &$ DE OUTRAS TANTAS MENTIRAS’ NAS MÃOS [‘SUJAS’]!

… Esse colar da madame “cheirosa” deve estar custando algo em torno de *R$2,00 o quilo! [RISOS ESTONTEANTES!] E com tendência de queda, depreciação, desvalorização, “baixa rentabilidade”!… Para o bem do Brasil – e do verdadeiro, honesto, sapiente e trabalhador povo brasileiro!…
*considerando que “as cheirosas do ‘Cansei’” “solicitam compras” ‘na Rede Pão de Açúcar para cima’!” O que inclui a taxa *’delivery’ e “a gorjeta gorda” do motoboy do ‘Cansei’!… As compras sendo, prevalentemente, pagas em dólar!…
*entrega em domicílio, no jargão britânico(!) do ‘Joaquim Pernóstico Coitado do Ruy Barbosa’!

… Assim eu choro: de rir!…

. É A OPOSIÇÃO ‘toMATADA’, ESTÚPIDO!…

(‘Nois’ sofre, mas ‘nois’ goza’! Por Macaco Simão, ‘uma das caras do Brasil’!)

… E que país é esse?!… República Desses Bananas Aloprados! “As elites são tão estúpidas que desprezam as próprias ignorâncias!”
Emérito escritor uruguaio Eduardo Galeano!
Bahia, Feira de Santana
Messias Franca de Macedo – ‘mais feliz do que pinto no lixo’! Por causa “da quebradeira na ‘veja’” e, concomitantemente(!), baixa da inflação… Relação de causa e efeito?! Será?!… E viva o verdadeiro Brasil!…

Responder

Deixe uma resposta