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Levante da juventude virou rebelião fascista?

Por Miguel do Rosário

20 de junho de 2013 : 22h34

Agora o estrago está feito. Minhas paranóias iniciais, de que a coisa poderia degenerar numa espécie de rebelião descontrolada tipo Líbia, com infiltração de todo tipo de oportunistas, tornaram-se realidade. Ainda tentei sufocar minhas paranóias e acreditar um pouco no bom senso dos jovens. “Eles querem ser politizados. Tudo vai dar certo”, pensei. É legal ver os jovens indo às ruas protestar por um Brasil melhor. É a primavera da juventude. Quebrei a cara. Não apenas eu. Até a presidenta fez elogios às manifestações. Mas todas as ressalvas que fiz acabaram se tornando o ponto principal. A coisa toda virou um pesadelo golpista. Sem foco, o movimento degringolou numa revolta fascista, com jovens camisas negras espancando militantes de partidos de esquerda e gritando “ditadura já”, conforme relatos que li do que aconteceu em São Paulo.

A sede dos Correios no Rio foi depredada. A fachada do lindo prédio do Itamaraty, em Brasília, foi destruída e o interior quase incendiado, com coquetéis molotov e pedras.

Eu estive no protesto de Brasília hoje, mas saí antes do quebra-quebra. Notei o elemento difuso. Muitas placas diziam: “é tanta coisa para protestar que não cabe numa placa”. Havia cantorias anti-mídia, contra a Globo, muitas pessoas com placas com dizeres: O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo. E uma bandeira gigante com a logomarca da emissora cruzada com um X. Só que o principal alvo é a política e os políticos. Havia placas pedindo redução dos impostos, ao lado de outras pedindo mais investimentos em saúde e educação. Vi apenas um cara de uns cinquenta anos, estranhíssimo, segurando uma plaquinha Fora Dilma.

As pessoas chegaram ao espaço aberto em frente ao Congresso e notava-se uma ansiedade para ver alguma coisa acontecer.

O professor Wanderley Guilherme, mais uma vez, detectou o cheiro de golpe. Não é hora sequer mais de criticar o governo por ter se permitido ficar numa situação tão frágil. O Brasil não pode ficar na mão de baderneiros fascistas. Mas a Dilma deveria se pronunciar. Já deveria tê-lo feito!

Jovens bem intencionados tornaram-se massa de manobra. Eu estava lá, caminhando ao lado deles, em direção ao Congresso. A maioria dos manifestantes era realmente pacífica, com olhos brilhando com desejos de mudança. Mas fascistas também querem mudanças. Fascistas também são ingênuos. Não tínhamos idéia da corrupção moral da juventude até este momento. Eles falam em corrupção, sem noção todavia de que este não é um problema que se combate com palavras de ordem, mas através da implementação de programas de transparência pública e fortalecimento das instituições de controle. Não se vence corrupção com gritos de guerra, até porque todos os corruptos costumam engrossar os protestos. O verdadeiro corrupto é aquele que também discursa contra a corrupção.

O Brasil acordará amanhã com uma ressaca terrível. Rezo para que a nossa “juventude” não esteja totalmente desmiolada, e possa refletir melhor.

Entendo que há problemas terríveis que ainda faltam serem solucionados. Mas a caixa de pandora da insatisfação humana tem uma quantidade infinita de demônios. Eu assisti parentes morrerem tristemente em hospitais públicos ou serem mal atendidos. Eu também tenho muito o que protestar, mas jamais corroborarei a depredação de patrimônio público, porque evidentemente isso não contribui em nada para reduzir as agruras sociais do povo. Não se pode jamais vender às pessoas a falsa ilusão de que a democracia pode ser um mar de rosas. A democracia não elimina a podridão humana, nem os sofrimentos da vida, nem a eventual incompetência de funcionários públicos e privados. Os mesmos jovens que pedem mais educação muitas vezes são os mesmos que se recusam a estudar, mesmo estando em bons colégios. A transformação da vida não depende apenas de governos, mas também do esforço individual. Essa é uma verdade partilhada por comunistas e capitalistas, mas não por fascistas. Os jovens pobres, sim, merecem receber ajuda do governo. Os jovens de classe média podem mudar o Brasil se tornando cientistas e engenheiros (assim como os pobres também podem sê-lo), ajudando o Brasil a vencer seus desafios tecnológicos, não depredando monumentos nacionais e produzindo instabilidade no país.

Por outro lado, temos de fazer a auto-crítica. Onde falhamos? Não politizamos nossa juventude. Deixamo-la abandonada a um consumismo desenfreado, sob influência de um sistema de comunicação positivamente golpista. Na manifestação em Brasília, cantava-se repetidamente o refrão nacionalista: sou brasileiro, com muito orgulho. Agora que novamente estou paranóico, até isso me soa como um hino integralista e fascista. Afinal, o que significa, nesse momento, ter “orgulho de ser brasileiro” e ao mesmo tempo desprezar tão profundamente os símbolos nacionais: Correios, Itamaraty, Congresso, prefeituras. Até o terreirão do samba, lugar de diversão popular, foi destruído! Que merda de orgulho é esse?

O que significa ter orgulho de ser brasileiro e querer melar a Copa do Mundo? Depois de toda gastança construindo os estádios, na hora em que poderíamos ter o retorno a estes investimentos, com geração de milhares de empregos, impostos e promoção de imagem do país no mundo, a gente destrói tudo? Que palhaçada! Se houve superfaturamento, que se investigue os culpados e prenda-os, mas a Copa continua!

Enfim, tá tudo muito estranho, muito perigoso. A esperança agora é que a presidenta Dilma seja líder e encontre a melhor maneira de restabelecer a ordem pública.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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3 comentários

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Justo

01 de julho de 2013 às 07h31

O petismo coaptou praticamente do do movimento caras pintadas para si e fez disto polítocos zilões de vezes mais corruptos que a turma collorida. Nada mais justo que agora seja a vez dos outros.

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Anão Corcunda

21 de junho de 2013 às 12h49

Oi Miguel,

Sempre que há alguma discussão ou episódio histórico envolvendo a chamada “juventude”, eu me lembro da sugestão a eles feita pelo “reacionário” Nelson Rodrigues: “envelheçam!”.

O conservadorismo juvenil é um dos maiores tabus das ciências sociais. Afinal de contas, nenhum professor universitário ousa enfrentar a contrariedade da seu grêmio de estudantes. Ele, professor, na imensa maioria das vezes, é movido por um “culto ao público” de tendências insidiosamente fascistas.

A estrutura universitária está cada vez mais aprimorada para emburrecer, reduzir, restringir o pensamento e a livre pesquisa. E produzir indignação seletiva de acordo com a ideologia de seus dirigentes. Parece que as universidades públicas e particulares muito pouco diferem nisso.

É triste, mas, quando combinadas, ignorância e indignação, quem prevalece é sempre a primeira.

Isso tudo me parece ainda pior no Rio de Janeiro, onde o clima de balneário e show de mulatas é um violento agravante. Somos uma plantation metida à besta.

Quanto à paranóia, acho sempre muito saudável desconfiar de um movimento onde grande parte dos manifestantes são fãs xiitas de Caetano Veloso…

Abraço. E viva o Óleo do Diabo.

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EdiSilva

21 de junho de 2013 às 10h58

Do que tenho lido ultimamente, Miguel o seu post é o que melhor descreve o momento. O problema é que este discurso, por mais correto que esteja, é usado contra quem o faz.
Mesmo os blogueiros “sujos” estão divididos entre os que estão maravilhados com o momento e os que aproveitam para derramar o recalque sobre o governo, que tem culpa pela despolitização, mas não é o momento.
Eu não tenho medo de me expressar e o tenho feito no meu blog e “face”, mas o povo que pensa assim está acuado, pois os lobos estão atacando.
A Dilma precisa dar uma resposta, mas tem que ser pensada para não se tornar o que Collor deflagrou com o chamamento dele aos apoiadores no processo de impeachment. Criou os “caras pintadas” e as manifestações nas ruas. No caso presente, que elas já estão nas ruas, tem que se pensar em não piorar as coisas.
Acho que falta uma freada de arrumação no movimento e quem ainda tem algum discernimento e liderança, recolher os seus e deixar só os lobos soltos. Sem a multidão para os esconder, não sei se serão tão ousados.

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