Ato em defesa da imprensa

Reflexões de um novo tempo

Por Miguel do Rosário

22 de junho de 2013 : 15h05

Junto aos destroços nas ruas, vê-se também os sustos amainados, as paranóias arrefecidas. Uma sensação de ressaca junto ao gosto doce-amargo de lembranças estranhas. Transformações importantes aconteceram no imaginário popular. A classe política amanheceu com um baita olho roxo e os músculos doloridos das pancadas que levou das multidões.

É hora de elaborarmos alguns exercícios teóricos para explicar o que aconteceu. Um monstro despertou, cheio de fúria e contradições. De repente nos vimos diante do anjo da História, e ele não tinha nada a ver com o ente assustadiço de Walter Benjamin. É antes um gigante desajeitado, valente e soberbo, como costumam ser crianças fortes. A história de manifestações pacíficas me parece balela. Elas apenas começavam tranquilas, mas invariavelmente terminaram com quebra-quebra. Raras vezes vimos protestos tão violentos, e a “pequena minoria” era incentivada por grupos maiores com olhos injetados com ânsias de destruição. O refrão: “sem violência, sem violência” era da boca pra fora. E isso desde as primeiras manifestações. A violência, todavia, não desautoriza os protestos. Antes lhes conferem um caráter tragicamente histórico, como se o nascimento de uma nova consciência política precisasse de gritos e dor para ser autêntico.

Tudo que é novo e grande traz medo e riscos. O monstro tem várias cabeças, e algumas delas são medonhas, flertam com o autoritarismo, com aquele odioso fascismo de classe média, voluntarista, arrogante, sectário, rancoroso. A truculência, inclusive ideológica, sempre vence as primeiras batalhas. Os espíritos não acossados por dúvidas levam vantagem. Aqueles que duvidam de tudo, que ruminam suas revoltas em silêncio modesto, ficam para trás. Como na parábola da lebre e da tartaruga, porém, os apressados se cansam rapidamente e os persistentes ganham no final.

Muito se fala na falta de lideranças. Mas se esquece da liderança invisível da história, guiando os manifestantes por esta ou aquela rua, sussurrando-lhes refrões de protesto e frases para os cartazes. A história não é um fantasma, tampouco um espírito místico. Ela é uma força social concreta. A história existe, disso agora temos certeza. Explode torres, deflagra guerras e mobiliza multidões.

O governo federal tem ao menos um mérito. Não incentivou nenhuma repressão. O mundo assistiu uma coisa rara. Milhões saírem as ruas, inclusive quebrando e depredando patrimônio público e privado, e enfrentarem uma repressão apenas pontual. No Rio, houve excessos lamentáveis das forças públicas. Um caveirão passou na Lapa espancando gente que sequer estava nas manifestações. Mas, no saldo geral, é um alívio saber que na maior manifestação já vista na cidade do Rio, não houve mortes, nem sequer casos mais graves de brutalidade policial. O Brasil passou no teste da democracia.

Quanto à presidente, reagiu desde o início com uma magnanimidade quase exagerada, e vazia. O seu discurso ontem teve pontos positivos, sobretudo a estética e postura rejuvenescida, levemente informal, com o símbolo do Brasil por trás. Começou burocrático e sem emoção, mas depois melhorou. Foi longo demais e teve um erro inacreditável: em resposta ao movimento onde uma das canções mais comuns era “sou brasileiro, com muito orgulho”, a presidente anunciou médicos “estrangeiros” como solução para a saúde pública nacional. Outro erro foi fazer o jogo da mídia ao focar na bandeira da corrupção. Dilma tinha que fazer um discurso sintético, fortemente emocional, ancorado em medidas concretas de ação política.

Entretanto, apenas o fato dela se pronunciar, com todos os erros no discurso, produz tranquilidade. Porque a mensagem transmitida por Dilma, sobretudo pelo olhar e gestos, é de compreensão. Tem-se a impressão de que Dilma é uma boa pessoa, mas com uma péssima assessoria.

Para o governo, e para a classe política em geral, a principal lição é que não dá mais deixar o sistema de comunicação em mãos dos mesmos grupos, que vem instilando em nossa juventude o veneno da antipolítica, do antipartidarismo, do sectarismo conservador, do udenismo alienado. Parte da nossa juventude está amadurecendo com ódio das instituições democráticas: partidos, congresso, presidência. Isso sim é terrivelmente perigoso.

O fato de Joaquim Barbosa ser o candidato preferido dos manifestantes, por sua vez, mostra o quanto o presidente do STF ajudou a criar esse clima de indignação, com suas declarações grosseiras sobre a classe política e sobre o país. Barbosa se tornou o líder do udenismo reacionário. Aliás, interessante observar que quando vínhamos desconstruindo, letra a letra, as mentiras da Ação Penal 470, e as desonestidades do ministro Joaquim Barbosa, eis que as ruas se enchem de pessoas defendendo a prisão imediata dos “mensaleiros”, e dizem votar em Barbosa para presidente. Ou seja, a justiça mais uma vez é rasgada em nome do linchamento popular, que por sua vez é resultado de uma campanha sistemática, massiva, dos meios de comunicação para influenciar um julgamento político de interesse estratégico para mídia e oposição.

Seja como for, a mídia amanheceu hoje também um pouco assustada, pois notou, em meio ao caráter positivamente anárquico da manifestação, algumas bandeiras genuinamente de esquerda, como a luta contra o latifúndio urbano, de fato um dos problemas graves das metrópoles. Merval Pereira gostou apenas do lado reacionário das passeatas, como a truculência contra os partidos, mas agora os colunistas voltaram a temer que haja outra reviravolta e os protestos pendam para o lado esquerdo da balança social.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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