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Reflexões anti-linchamento

Por Miguel do Rosário

05 de agosto de 2013 : 17h07

Muito instrutiva a última coluna do José Roberto Toledo, no site do Estadão, apontando a queda no prestígio das instituições tradicionais e o aumento da importância das “redes” pessoais: conhecidos, amigos de facebook, seguidores do twitter, familiares e… blogueiros.

“Telejornais, jornais, revistas e suas respectivas plataformas na internet (…) perderam seu monopólio. Competem pela atenção do público não mais entre si, mas com Google, Facebook, Twitter e o blog da esquina.”

Faltou apenas lembrar a Toledo que o “blog da esquina” pode ter milhões de acessos, e certamente não apenas na “esquina”, que é aliás uma expressão tolamente depreciativa. Um blog nos EUA, o Huffington Post, tem mais acessos que o New York Times…

Segundo o Índice de Confiança Social do Ibope (íntegra aqui), a mídia perdeu 15 pontos no índice de confiança, passando de 71 para 56. Ainda está positiva e é bem superior ao registrado para governos e partidos políticos. Mas perdeu pontos no mesmo momento que passa por uma forte crise de autosustentabilidade. Governos perdem prestígio, mas nunca deixarão de existir, pois alguém tem de governar. Meios de comunicação, por sua vez, podem deixar de existir sem que ninguém sinta falta deles. Os poucos empregos que geram serão absorvidos rapidamente por outros meios. A mídia em si sempre existirá.

 

 

 

Toledo observa que a maior confiança no círculo pessoal é um prato cheio para difusão de boatos. Concordo. Isso pode explicar em parte a boataria sobre o fim do Bolsa Família. o boato não apareceu em nenhum jornal ou canal de TV. As pessoas acreditaram umas nas outras. Isso é um perigo numa eleição presidencial. Ainda mais quando se sabe que o controle das informações, inclusive as íntimas, é vulnerável à influência estrangeira.

De toda forma, o maior poder das redes obrigará os indivíduos a serem mais responsáveis sobre aquilo que dizem. E forçará as instituições políticas a desenvolverem laços mais humanos e constantes com os indíviduos, ao invés de se aproximarem apenas em momento eleitoral.  Acho que se trata de um processo evolutivo natural. A crise dos “protestos” apenas o acelerou. Por isso é tão estúpido que a presidenta Dilma não desenvolva, desde já, uma estratégia de comunicação voltada exclusivamente para as redes sociais.

Para os blogs, é o melhor dos mundos. A nossa relação com os leitores é quase de amizade. Eles conhecem nossa trajetória e acompanham nossas dificuldades. Estamos montados numa onda que cresce.

O poder da velha mídia é ligado à influência ainda hegemônica que exerce na alta burocracia do Estado. O Ministério Público, a Procuradoria Geral da República, o STF, por exemplo, dão muito mais importância à velha mídia do que o resto da sociedade.

Há, inclusive, uma diferença de tratamento gritante. Uma reportagem do Jornal da Record ainda não é suficiente para convencer o Ministério Público a abrir uma investigação, nem “pressiona” ministros do STF a julgarem desta ou daquela maneira. A Globo e seus satélites (Folha, Estadão e Veja) ainda detêm a hegemonia dessa pressão midiática, que eles não se cansam de usar.

Daqui a alguns dias, o STF julgará os embargos dos réus na Ação Penal 470. A pressão agora é para que os ministros sequer considerem os embargos, que são a última chance dos réus obterem redução ou mudança nas penas.  A estratégia é a mesma: linchamento. Não há sequer a tentativa de disfarçar a intenção de usar os protestos populares como instrumento de pressão para prender os réus imediatamente.  A seção de Cartas do Globo de hoje, por exemplo, dá destaque justamente a isso:

Ora, os protestos de rua mencionaram muito marginalmente o mensalão. Somente na segunda etapa das manifestações, quando as forças da direita tentaram instrumentalizá-las, se viram faixas citando o processo. Um tema muito mais importante nos protestos, que permeiou todas as manifestações, foi a questão da mídia. Mas isso não aparece nas cartinhas dos jornais e, portanto, não chega aos ouvidos do STF.

O STF vai fazer novamente o jogo da mesma mídia que foi alvo de protestos de rua. E o fará achando que está cumprindo a “voz das ruas”. Não está. Estará obedecendo o que há de mais decadente, reacionário e velho na sociedade brasileira, a hegemonia de grupos de mídia consolidados no regime militar.

Não são apenas os réus que constam nos autos que estarão sendo julgados na Ação Penal 470. Dois outros réus ainda mais importantes ocuparão o lugar principal nesse processo. O próprio STF é um deles. A mídia, outro.

A promiscuidade entre STF e a grande mídia está comprovada por fatos. Não precisamos usar ilações ou indícios. O ex-presidente do STF, Ayres Britto, não esperou sequer terminar sua gestão para assinar um prefácio no libelo antipetista de Merval Pereira. Ou seja, o juiz se aliou a um dos jornalistas mais tendenciosos e mais reacionários da mídia brasileira.

Seu sucessor, Joaquim Barbosa, mergulhou sem medo de ser feliz na piscina platinada: usou dinheiro público para pagar passagem de uma repórter da Globo; recebeu prêmio Faz Diferença, da Globo; assistiu jogo do Brasil no camarote do Luciano Huck; arrumou um emprego para seu filho na… Globo. Em troca, a Globo blinda totalmente Barbosa. Até hoje não saiu nenhuma notícia sobre o apartamento que Barbosa comprou em Miami, cometendo dois crimes graves para isso: abriu uma “corporação”, da qual é dono solitário e usou como endereço um imóvel funcional.  Barbosa, mais que nunca, depende da Globo para sobreviver. À Globo, é interessante que os ministros sejam pessoas fragilizadas, o que lhes permite ampliar o grau de chantagem e pressão para que condenem ou absolvam em acordo com seus interesses.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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