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O tiro saiu pela culatra

Por Miguel do Rosário

03 de outubro de 2013 : 15h49

Hoje é um dia decisivo.

Há duas grandes questões que estarão definidas ao final desta quinta-feira.

O TSE julgará a causa da Rede, se aceita ou não o seu registro. A tendência é não aceitar. Mas convêm esperar uma definição antes de fazer análises mais elaboradas.

Outra questão é o troca-troca partidário. Esta se estende até o sábado, mas hoje é o dia decisivo, porque os parlamentares costumam viajar para suas bases na sexta-feira e sábado é sábado. É hoje, portanto, que a maioria das migrações serão realizadas.

Amanhã será possível, portanto, fazer uma análise mais completa da situação, mas hoje já é possível adiantar algumas observações preliminares.

E a mais importante é que o tiro saiu pela culatra.

A oposição estimulou a criação do Solidariedade, presidido pelo deputado Paulinho da Força, porque havia expectativa de que ele se uniria à campanha do PSDB em 2014. Expectativa esta criada pelo próprio Paulinho, que deu declarações agressivas contra Dilma, a quem chamou de “inimiga”.

Pois bem, alguns dias depois de criado, o Solidariedade dá um pinote e a maioria de seus novos membros rechaça aderir à oposição. Antes, tendem a apoiar Dilma.

A coluna de Merval Pereira de hoje, intitulada “A atração do poder”, expressa bem a perplexidade da oposição com esta reviravolta.

Toda aquela ladainha contra um suposto “casuísmo” do congresso, que quis vetar a transferência de tempo e dinheiro do parlamentar que migra para outro partido, agora se volta contra a oposição. PPS e PSB, que reagiram com ira à medida, perderam esta semana 2 e 6 deputados, que carregarão consigo seu tempo de tv e recursos partidários.

O outro partido novo, o Pros, já nasceu governista e assim deve ficar.

O levantamento feito até o momento pela imprensa indica que a oposição, mais uma vez, é a principal vítima da infidelidade partidária. E refiro-me não apenas à oposição partidária, mas às alas oposicionistas dentro dos partidos da base.

O quadro até o momento é este, segundo o Globo:

 

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Com Marina fora do páreo, a única terceira via com alguma chance de crescer em 2014 é o PSB.

Entretanto, o partido apostou alto e já perdeu muitas fichas. No Rio, o PSB perdeu a segunda economia do estado, com a desfiliação de Alexandre Cardoso, prefeito de Caxias. Vários deputados estaduais do PSB-RJ estão migrando para o PMDB, insatisfeitos com a decisão da Executiva Nacional de não apoiar a reeleição da presidenta. Perdeu também um governador, Cid Gomes, e um quadro estratégico, Ciro Gomes.

Apesar da alegada vontade de alçar vôo próprio, o PSB, na prática, está se alinhando à oposição, conforme revela este infográfico da Folha:

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O PSB pratica uma jogada de alto risco, porque o seu crescimento aconteceu sob os auspícios de sua aliança com o lulismo. Ao inverter sua estratégia e se aliar preferencialmente com o PSDB, os socialistas podem se tornar um novo PPS.

Na minha opinião, Eduardo Campos está cometendo um erro. Se ele apoiasse a reeleição de Dilma, poderia fazer seu partido crescer ainda mais, e vir com muito mais força em 2018, quando o PT deverá enfrentar, provavelmente, uma crise de cansaço do eleitor.

Por outro lado, eu entendo e respeito a decisão de Campos. Ele quer viver a aventura, certamente incomparável, de uma eleição presidencial, que lhe conferirá um recall importante para pleito seguinte. Ele está entrando no pleito não para ganhar, mas para acumular capital político para 2018.

A presença de Campos, de qualquer forma, enriquecerá o debate eleitoral, assim como a de Marina Silva também o faria.

Os horizontes voltaram a se azular para Dilma Rousseff, mas a presidenta terá de lembrar o verso de um poeta francês, que temia o inverno por ser a “estação do conforto”. Com a oposição enfraquecida e as ruas mais sossegadas (com exceção do Rio), o maior adversário de Dilma volta a ser o seu próprio governo.

O governo não pode dormir no ponto. Tem que oferecer à sociedade, em especial à juventude, uma plataforma política sólida, confiável e coerente, sobretudo no campo da educação. A aprovação popular ao programa Mais Médicos e à vinda de cubanos ajudou a desmascarar um mito: as ruas não são conservadoras. Nas “jornadas de junho”, houve um momento em que a direita ocupou bastante espaço, mas foi breve. A direita se empolgou com o sentimento antigovernista que aflorou nas ruas, mas logo em seguida se decepcionou ao constatar que era um antigovernismo igualmente anticonservador.

O jovem apartidário, por um momento visto como um herói pela mídia, o elemento que salvaria o país das garras do PT, revelou-se tão ou mais crítico à mídia do que ao governo.

Quem poderia imaginar que teríamos enormes e criativas manifestações contra a Globo acontecendo em todo país?

Lula já percebeu que a bandeira da democratização da mídia é a única que une todas as esquerdas, além de ligar-se umbilicalmente aos debates sobre a reforma política. Sem um sistema de jornalismo e informação mais democrático e mais plural, uma reforma política poderia degenerar em retrocesso.

A blogosfera tem conseguido algumas importantes vitórias políticas sobre a mídia corporativa, mas será um erro se o governo entender, com isso, que não precisa mais debater mudanças no marco legal das comunicações. Até porque não se trata mais somente de uma questão política. A democratização da mídia pode ser o que o Brasil precisa para acordar forças adormecidas por décadas de cultura televisiva narcotizante, liberando forças econômicas e culturais aprisionadas por muito tempo.

Dilma pode até ganhar, com relativa facilidade, as eleições de 2014. Mas uma coisa é ganhar eleições, muito mais difícil é governar. A tensão de classe promete explodir nos próximos anos, e os estratos superiores tendem a radicalizar. Os pobres vão querer mais serviços e os ricos, menos impostos. A única maneira de lidar com isso é oferecendo ao país uma plataforma de debate mais democrática e plural, porque a gente sabe muito bem de que lado estão e estarão os grandes meios de comunicação.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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3 comentários

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Marcos

04 de outubro de 2013 às 13h13

Acho que Campos pode ser candidato e faz certo sentido que apresente seu nome, mesmo sem chances em 2014, mas não dá para aceitar é o flerte com a direita/entreguista/neoliberalista. É contra a história do seu avô, é contra o Brasil e é contra o povo.

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Kazuhiro Uehara

04 de outubro de 2013 às 07h39

Mas, porém, contudo, nós poderemos aguardar a próxima reação dos reaças porque o think tanks do instituto Milleniun e a nova embaxatriz do Grande Irmão do Norte estão elaborando novos golpes contra a soberania tupiniquim, junto com colaboracionistas do PIG e os demotucanopps.

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Celso Pedrosa

03 de outubro de 2013 às 19h29

Por falar em PROS governista, louve-se a atitude tomada hoje pelo ministro dos Portos, Leônidas Cristino, de manter o seu pedido de demissão, mesmo já tendo saído do PSB e se filiado ao PROS.

Leônidas, que é indicação de Cid e Ciro Gomes, acompanhou os dois na mudança de partido, após a decisão de Eduardo Campos de lançar candidatura própria do PSB em 2014. Se Leônidas quisesse se manter no cargo, certamente Dilma o deixaria lá, já que agora ele é do PROS, e não mais do PSB. Mas o grupo político de Cid e Ciro decidiu manter o pedido de demissão de Leônidas, e anunciou que não pretende indicar o seu sucessor na pasta, como prova de que a sua decisão de mudar de partido para apoiar Dilma em 2014 nada tem a ver com “fisiologismo” para manter cargos no governo federal.

Um exemplo de republicanismo e coerência ideológica. Saíram do PSB para apoiar Dilma por convicção, e não para manter cargos.

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