Haddad no Pânico

O sacripanta de 41 mil reais

Por Miguel do Rosário

08 de novembro de 2013 : 12h18

Daqui a pouco eu vou publicar o processo que Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, move contra minha pessoa, pedindo-me R$ 41 mil de indenização por danos morais, em virtude de lhe ter causado “imenso sofrimento”, e irei mostrar detalhadamente a sua inconsistência. Como já adiantei em texto anterior, 90% está baseado num erro primário de interpretação. Um erro verdadeiramente analfabeto. Ele passa páginas e páginas choramingando pelo sofrimento e pela injustiça de afirmar que ele “atenta contra a democracia” e “contra a dignidade humana”, quando o texto, que está reproduzido no processo, deixa bem claro que se trata da Globo, não dele, Ali Kamel.

Vou repetir mais uma vez o trecho que provocou “imenso sofrimento” em Ali Kamel:

“É inacreditável que o diretor de jornalismo da empresa que comete todo o tipo de abuso contra a democracia, contra a dignidade humana, a empresa que se empenha dia e noite para denegrir a imagem do Brasil, aqui e no exterior, cujos métodos de jornalismo fazem os crimes de Rupert Murdoch parecerem estrepolias de uma criança mimada, pretenda processar um blogueiro por causa de um chiste! “

Eu ainda repito duas vezes o termo “empresa”.

Mas Kamel é tão identificado com a Globo que ele incorpora as críticas como se lhe fossem dirigidas pessoalmente.

A única referência negativa a Ali Kamel no texto, portanto, seria esta:

“(…) sacripanta reacionário e golpista.”

Reacionário é uma crítica ideológica; não se pode condenar ninguém por isso. Golpista é uma crítica política; e a própria Globo admitiu há pouco que é golpista, porque apoiou o golpe de Estado de 1964, e tentou se desculpar por fazê-lo. Ganhou bilhões, ajudou a matar milhares por opinião política e outros milhões, por falta de dinheiro, e agora pede desculpas.

O único termo, portanto, que realmente poderia suscitar uma reação legal seria “sacripanta”.

Eu não sou nenhum maluco, embora possa parecê-lo às vezes. Eu meço as consequências de tudo que escrevo. Lembro-me bem quando publiquei esse texto. Eu medi o risco, e pensei assim: não é possível que alguém me processe por chamá-lo de “sacripanta”.

Por quê? Porque é um termo culto, raro, com um sabor exótico, e portanto tem valor literário e humorístico. Não é um termo chulo.

A liberdade de expressão no Brasil ficaria abalada se não pudéssemos usar um termo culto, raro e exótico para designar um adversário político. E Ali Kamel, ao mover processos contra aqueles que eu considero meus colegas de ofício, inscreveu-se no meu rol particular de adversários políticos.

O termo “sacripanta” se dirige a um diretor de jornalismo da Rede Globo que tenta asfixiar o pensamento divergente. O seu uso se inscreve, como fica bem claro no texto, num contexto de crítica política às linhas editoriais da empresa que Kamel dirige, e pelas ações de Kamel dentro dessa empresa. Não é uma crítica a nenhum aspecto da personalidade do executivo, e sim à sua atuação política à frente de uma concessão pública que recebeu mais de R$ 6 bilhões apenas do governo federal nos últimos 10 anos. Atuação esta que extrapola suas funções de diretor de jornalismo, e envereda para o campo da truculência judicial, mas sempre visando intimidar vozes críticas ao poderio da Globo.

O jornalismo da Globo, que é dirigido por Ali Kamel, acusou pesadamente o presidente do Equador, Rafael Correa, por ter processado um jornalista que assinou um editorial em que o chamava de “homicida”. Houve uma rebelião em Quito, que degringolou num tiroteio, com mortes. O jornalista em questão tentou jogar a culpa no presidente.

Correa processou o jornalista em alguns milhões de dólares. Mais tarde, quando saiu a condenação, ele retirou a exigência de valor. No entretempo, a Globo liderou uma campanha, atuando fortemente junto à Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e outros órgãos internacionais, na qual acusava o governo equatoriano de pretender calar seus críticos via manipulação judicial e asfixia financeira. A Globo faz a mesma acusação a vários os governos da América Latina.

Não é uma incoerência absurda que a Globo agora pretenda fazer o que ela mesma critica em governos latinos? E pior, não contra grandes jornais, mas contra pequenos blogs? Que pretenda intimidar as poucas vozes críticas a seu poderio, via manipulação judicial e asfixia financeira (indenização, advogados, etc)?

É muita covardia, porque ainda somos uma força nova. Somos pequenos. Não nos beneficiamos, como a Globo, de golpes de Estado e aportes de verba pública que, nos últimos 50 anos, devem ter consumido mais do que se gastou em programas sociais no período.

A Globo é a cabeça de uma rede. Os grandes grupos de mídia do Brasil são interligados ideologica, politica e empresarialmente, mas a liderança é exercida naturalmente por aquele que detêm o maior poder econômico, além de possuir a concessão pública de maior audiência no país. Folha, Abril, Estadão, latem muito alto. Mas quem morde mesmo é a Globo, porque só ela tem poder eleitoral efetivo.

Uma matéria exibida no Jornal Nacional, às vésperas de uma eleição, pode inverter uma situação de favoritismo e mudar o destino de 200 milhões de brasileiros. Dada a importância atual do Brasil no cenário geopolítico sul-americano, a Globo pode mudar o destino de toda a região.

A Globo sabe disso e, mesmo após a vergonha de ter apoiado um golpe de Estado que nos roubou mais de vinte anos de democracia, ainda continua praticando atos de vandalismo político. Nas últimas eleições presidenciais, a maior preocupação das pessoas politizadas era saber qual o “golpe” que a Globo iria aplicar no dia seguinte.

Enquanto nós, blogueiros, tentamos promover um debate político fundamentado em argumentos, ideias, estatísticas, a Globo sempre pode vir com uma “bala de prata” no último dia, e ganhar a eleição.

Felizmente, isso não tem acontecido (não por falta de tentativa), o que explica também o ódio e a amargura de Ali Kamel. Sim, porque somente uma pessoa muito amarga para processar um blogueiro por tê-lo chamado de “sacripanta”.

*

Eu recebi o processo terça-feira à tarde. Estava tranquilo em casa, quando o porteiro me interfonou, com voz culpada, falando que havia ali um oficial de justiça. Mandei subir. Fui fiador do apartamento de uma ex-amiga da minha esposa, que não pagou os dois últimos aluguéis antes de encerrar o contrato. Pensei que fosse algo relacionado a este caso, que tem me aporrinhado um pouco (mas só um pouco, visto que não é nada grande).

O oficial entrou e me apresentou o documento. “Este senhor aqui, cujo nome não consigo pronunciar, está entrando com um processo contra você”.

Eu peguei o documento e logo identifiquei quem era. Disse ao oficial: “É o Ali Kamel, diretor de jornalismo do Globo”. Analisei rapidamente o processo e vi que se tratava de um processo por dano moral por causa do post As taras de Ali Kamel. Eu sabia que a única coisa ali era o termo “sacripanta”. Mencionei o caso rapidamente ao oficial, e senti uma onda de simpatia emanando dele. O cara queria ficar ali, conversando.

Mais tarde, após escrever minha primeira defesa, fui dar uma volta na rua, e pensei: “cara, que erro primário da Globo”. Com isso, eles só vão chamar a atenção para o seu arbítrio, a sua truculência, o seu desconforto para com a pluralidade. A ditadura está no DNA da Globo, e por isso cometeram este erro.

Meus colegas blogueiros me ligaram em seguida e me alertaram para a força da Globo no Judiciário do Rio. “Eles têm lobistas na Justiça daí. Cuidado. Prepare-se para perder”.

Francamente, eu não posso acreditar que um juiz possa condenar um blogueiro político por ter chamado o diretor da Globo de “sacripanta”, não no contexto em que seu deu o referido artigo, e num processo repleto de erros ridículos.

Um advogado amigo que viu o processo observou ainda que Ali Kamel sequer pede a retirada do link da internet. Também não pede direito de resposta (o que seria ridículo partindo de uma pessoa que comanda a maior mídia do país, mas tudo bem). Ele simplesmente quer dinheiro. De um blogueiro notoriamente duro. E ainda diz que o Cafezinho não é simples veículo de manifestações das minhas ideias, mas “visa o lucro” porque eu vendo assinaturas, como que escarnecendo das minhas tentativas algo desesperadas para manter o Cafezinho vivo e poder, com isso, expressar minhas ideias.

É tanto cinismo, tanto escárnio, tanta prepotência, que até agora eu ainda não consigo acreditar. Eu tento fingir que está tudo bem, que isso no fundo irá se reverter a meu favor, mas é claro que isso me deixa um pouco nervoso. Não gosto de ser processado. Tenho o maior cuidado com isso, embora eu não seja perfeito e, no calor dos embates políticos, eu possa cometer erros. Mas quem se sentir ofendido, entre em contato, reclame. Se for o caso, eu peço desculpas, publico o texto da pessoa no blog. Querer punir um blogueiro situado à margem do sistema capitalista tradicional, exigindo-lhe uma indenização de R$ 41 mil, que é quase o preço que paguei, em 2007, pelo meu apartamento de quarto e sala, num prédio proletário situado numa rua suja e semi-destruída da Lapa, é uma violência imperdoável. Um erro político.

Um grande erro causado pela arrogância.

sacripanta

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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16 comentários

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Libertário

10 de novembro de 2013 às 11h18

Boa sorte, Blogueiro. Eu acho que o Brasil deve adotar uma legislação sobre os Meios de Comunicação como existe em países como Inglaterra, França, Suécia, e agora a Argentina. Esse debate pode e deve surgir a partir do seu processo. Quem sabe, fazer do limão uma limonada. Precisamos proteger o indivíduo dos poderosos conglomerados de comunicação, quase um Estado dentro do Estado, inclusive o direito de ele, cidadão, fazer críticas a estes. Acho que a censura dos debates entre Collor e Lula em 1989, o destaque nulo à queda do avião da Gol na Amazônia e tantos outros aspectos poderia ser produzido como prova, durante a audiência, a demonstrar que a conduta do meio de comunicação é que estava sendo em primeiro ponto questionada. Tem um vídeo da BBC que serve bem para esse debate: “Muito Além do Cidadão Kane”. Diz-se que se pode criticar a conduta de um governo, focando no presidente da república. Então, por que não se poderia também criticar o gestor de um meio de comunicação poderosíssimo? São debates de argumentos e ideias que podem eclodir deste processo, isso se ele não for arquivado de primeira. As conclusões das teses serão interessantes. Só não vale sair da razão e de argumentos e ideias para ir ao nível superficial das emotividades mais primitivas. É a minha opinião de leigo.

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Libertário

10 de novembro de 2013 às 11h08

Acho que se chamna “ilegitimidade”, quando a pessoa que entra com a ação não defende direito dele mesmo. Se a afirmação foi contra o meio de comunicação, é o direito constitucional de crítica. Porém, como a Globo defende a ausência de limites nas biografias, por coerência também essa parte de “Sacripanta”, que é uma palavra de sonoridade engraçada, usada por um personagem de novela da mesma Globo, em tom humorístico e não ofensivo, deve ser julgada da mesma maneira.

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Naaman Sousa de Figueiredo

10 de novembro de 2013 às 00h18

Por que a ideia de um jornal “escrito, de distribuição gratuita, de circulação semanal, ou mesmo quinzenal. Isto poderia ser viabilizado através de criação de uma associação de blogueiros progressistas, que editaria o tal jornal”, parece tão insignificante???? Por isso, a direita está sempre na frente. Porque o PIG é unido. Globo, FSP, Estadão, veja, estão sempre unidos martelando a esquerda. Blogueiros progressistas parecem vaidosos demais pra fazerem algo juntos. Tem que ser cada um por si, e pronto.

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Suzana De Souza Leão

09 de novembro de 2013 às 15h12

O fato é que a justiça brasileira me assusta…e os poderosos tem toda a facilidade para acionar a justiça para os seus interesses. :(

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O Cafezinho

09 de novembro de 2013 às 15h08

que patrocínio da caixa? quem dera! a caixa põe uns trocados em dois ou três blogs, não no meu, e 95% na Globo e outras grandes

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Thiago Luz

09 de novembro de 2013 às 13h31

o patrocínio da caixa não cobre esses reveses? acho que no contrato que os blogs ditos progressistas fazem com a caixa pra defender as falcatruas petistas deveria constar uma cláusula que obrigasse a cef a pagar advogado para os blogueiros que falam merda e não se garantem.

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Naaman Sousa de Figueiredo

08 de novembro de 2013 às 21h21

“Blogueiros unidos, jamais serão vencidos!”. Tá faltando o que???!!! “Deveríamos ter um jornal escrito, de distribuição gratuita, de circulação semanal, ou mesmo quinzenal. isto poderia ser viabilizado através de criação de uma associação de blogueiros progressistas, que editaria o tal jornal. Os custos poderiam ser cobertos por assinaturas, doações, publicidades, etc. Esta estratégia teria como finalidade fazer um contraponto à grande mídia. A internet é uma grande ferramenta, mas, não é tudo. A maioria do povão não faz uso da internet para se informar. Muitos são bombardeados noite e dia pela mídia, se informam por ela, então, está na hora de se editar um jornal escrito, seria até bom, pois os blogueiros, se tornariam mais conhecidos. Esse periódico poderia ser distribuído nas ruas, praças públicas, metrôs, etc. De graça, tudo mundo lê.”

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Suzana De Souza Leão

08 de novembro de 2013 às 20h06

Os blogueiros deveriam ter um advogado em comum… sei lá, um fundo em comum para poder reagir a esses ataques.

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Lilana Lima

08 de novembro de 2013 às 19h04

De verdade, acho que ele tá se aproveitando pra se vingar por ter delatado a sonegação da emissora!

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Fabrício Santana Santos

08 de novembro de 2013 às 18h58

é fato. como se não aparece no final de cada “programa jornalístico” a assinatura digital (ops!) do ANTROpólogo. figura pública ou pudica? a litigância de má-fé será SUScitada na contestação?

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Alexandre Pontes

08 de novembro de 2013 às 14h42

Miguel, o CNJ semana passada decidiu que o tj/rj deve aceitar pedido de gratuidade de justiça mediante simples afirmação de hipossuficiencia. Entendo que fazendo esse pedido, que me parece pertinente, tornaria vc isento do pagamento de uma hipoteticamente condenação por danos morais, acabando com a sanha do kamel de te atingir no bolso. Pode ser um dos caminhos na sua defesa. Sds.

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adhemir martins da fonseca

08 de novembro de 2013 às 13h58

caro miguel do rosário, a audiência será dia 11.02.2014 ás 11:20 horas estarei presente pra ver as fuças deste safado.

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Luiz Eduardo Brandão

08 de novembro de 2013 às 13h50

Do Houaiss:
sacripanta – datação: séc. XIX

n adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros
1 que ou aquele que é velhaco, patife, indigno

n substantivo de dois gêneros
2 falso beato

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Clea Toledo

08 de novembro de 2013 às 15h46

Ali Kamerda….

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Costa Lino

08 de novembro de 2013 às 14h57

TEM QUE PERGUNTAR AO AQUI-ALI-KRUMEL SE ELE SABER O SIGNIFICADO DA PALAVRA SACRIPANTA… ELE VAI FICAR ENVAIDECIDO!

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José Carlos Lima Spin

08 de novembro de 2013 às 14h34

Só falvava essa, a gente ser processado por emitir opinião politica sobre alguém, noutro pais o Kamel sofrieria pesada multa por liitgancia de má fé. Vou guardar isso em Spin Advogado

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