Ato em defesa da imprensa

Os intocáveis do PSDB

Por Miguel do Rosário

10 de dezembro de 2013 : 14h54

Se Dante Alighieri fosse vivo, poderia reescrever a Divina Comédia trocando o Paraíso pelo PSDB. É lá que os políticos descansam felizes, intocáveis, seguros, ao lado do Deus-mídia.

A coisa funciona assim. Se um assessor petista é pego com dinheiro na cueca, todas as fúrias do mundo se desatam contra o pobre coitado. O próprio presidente do partido é forçado a renunciar, tamanha a pressão. A coisa não pára aí. O presidente do partido é achincalhado por anos na imprensa, e por fim, condenado e enviado a um presídio, onde é humilhado por juízes e juntas médicas, os quais desdenham de seus graves problemas cardíacos. Oito anos depois, lá está o político petista, num apartamentozinho de 50 metros quadrados, em prisão domiciliar, com a mídia ainda tentando lhe destruir a moral dia e noite.

Quando o funcionário tem alguma ligação com o PSDB, contudo, podem encontrar, em sua casa, plutônio enriquecido com capacidade para destruir metade de São Paulo, junto com uma mala contendo meio bilhão de dólares, um monte de cartas assinadas por comandantes da Al Qaeda. A mídia e a polícia irão concluir que o funcionário foi vítima de algum complô, e que, sobretudo, não há envolvimento nenhum do partido na história.

De certa forma, tem sido assim com o trensalão. A quantidade de provas, confissões, testemunhas, documentos, auditorias, investigações internacionais, emails, é impressionante. Todas confirmam o envolvimento de autoridades de governos tucanos nas mutretas (que alguns chamam cartel) das empresas que forneciam trens e acessórios ao estado de São Paulo. Esta semana, a Istoé aparece com novas revelações. A grande mídia, no entanto, permaneceu muda. Quer dizer, no domingo, a Folha atacou a… testemunha e hoje a única notícia no jornal O Globo é que a “comissão de ética” pediu explicações ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que cometeu o “crime” de encaminhar uma denúncia à Polícia Federal.

Para completar o quadro de beatitude tucana, um delegado da Polícia Federal, Leonardo Damaceno, afirmou ontem que a família Perrella não tem ligações com os 445 quilos de cocaína encontrados num helicóptero, há algumas semanas.

Ora, essa. A droga estava em helicóptero do deputado estadual Gustavo Perrela, filho do senador Zezé Perrella, ambos grandes aliados de Aécio Neves. Não apenas aliados. A empresa deles, Limeira Agropecuária, ganhou três contratos sem licitação do governo de Minas Gerais, durante a gestão de Aécio.

O piloto do helicóptero, preso durante a apreensão da droga, era assessor de Gustavo Perrella – além de funcionário da Limeira Agropecuária.

O delegado, nem o jornal, não informaram a quem pertence a cocaína. E tudo fica por isso mesmo. Enquanto isso, a Folha de São Paulo comemora que um tetraplégico preso na Papuda, que fora flagrado em casa com 60 gramas de maconha, teve sua prisão domiciliar negada, transformando isso em mais um fato para humilhar e prejudicar José Genoíno – afinal, ele não é tetraplégico e pleiteia prisão domiciliar.

É assim: um tetraplégico pode ser preso por causa de 60 gramas de maconha. E tem prisão domiciliar negada!

Quando é um político ligado ao PSDB, nem meia tonelada de cocaína bastam para fazer um escândalo.

Há rumores (bem fundamentados!) de que uma grande emissora de TV recebeu mais de R$ 600 milhões do Banco Rural (o mesmo cujos empréstimos ao PT motivaram a prisão de Genoíno), sendo que este dinheiro veio de paraíso fiscal, mas aí ninguém faz nada. 

Genoíno é condenado sem que haja qualquer prova contra ele de que “comprou” deputados. Tudo que ele fez foi assinar empréstimos junto ao Banco Rural, devidamente quitados, para pagar dívidas do PT.

Joaquim Barbosa é nosso herói!

A imprensa, tão feroz e tão investigativa quando se trata de qualquer coisa ligada ao PT, dessa vez não mostrou nenhum interesse. Ninguém pesquisou a vida do piloto. Ninguém investigou a vida de Gustavo, nem do senador. Todos foram comoventemente blindados na mídia.

Teremos que repetir uma piada que vem correndo as redes: o helicóptero era dos Perrella; o piloto era duplamente empregado dos Perrela (funcionário da Limeira e assessor do deputado); o combustível era abastecido com verba pública dos Perrella (pai e filho usaram dinheiro parlamentar para isso); mas a droga era do… Espírito Santo!

Francamente, eu estou ficando com pena da família Perrella. Afinal, isso podia acontecer com qualquer um, né? A gente compra um helicóptero e, de repente, ele aparece com meia tonelada de pó. Que culpa tem o dono se isso acontece? Pó e helicóptero são dois elementos que se atraem inexoravelmente. É difícil, quase impossível, evitar que essa união se realize.

 

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Zezé Perrela e Aécio

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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9 comentários

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Marta Carbone Costa

10 de dezembro de 2013 às 23h14

Valdir R Fiorini, não sou fake e o meu perfil é aberto apenas para pessoas de meu interesse, principalmente meus familiares e parentes. Por isso, não podes ter acesso ao que não te diz respeito. Vá procurar “notícias”, fotos etc. de quem é de seu relacionamento.

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Marta Carbone Costa

10 de dezembro de 2013 às 22h30

Ok… entendido!!! Aliás, era bem isso daí q eu imaginava. rsrsrsrsrs

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Valdir R Fiorini

10 de dezembro de 2013 às 22h30

Cheiro fortíssimo de fake: não tem foto, não tem nada além de ódio ao PT e religião.

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O Cafezinho

10 de dezembro de 2013 às 22h28

Marta, já falei que a imparcialidade é xingamento para um blogueiro. Eu tenho lado. Defendo o meu campo politico, o campo que eu considero mais democrático e mais popular. A grande mídia tb defende o seu campo, mas com hipocrisia e falsidade.

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Marta Carbone Costa

10 de dezembro de 2013 às 22h20

Falo isso pq só vejo postagens suas contra os outros partidos, principalmente contra os tucanos, porém em se tratando do PT, vc só sabe querer “limpar” a barra deles. Desculpe, mas é estranho vc como um jornalista não ser imparcial em seus comentários e postagens. É apenas uma observação e como eu penso.

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O Cafezinho

10 de dezembro de 2013 às 22h08

Oi Marta, você está falando sério que eu deveria postar matérias da Veja no Cafezinho? Esse livro bomba não repercutiu nem na mídia tucana, de tão sem credibilidade!

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Marta Carbone Costa

10 de dezembro de 2013 às 21h46

Mas e daí, não vai postar nada sobre o LIVRO BOMBA? Por acaso vc NÃO PODE postar qualquer coisa q seja contra o PT? rsrsrsrs

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jõao

10 de dezembro de 2013 às 19h13

Dr. Janot, o “trensalão” agora é seu. Vai ser apurado ou ficará na gaveta do Supremo?
10 de Dezembro de 2013 | 16:39 Autor: Fernando Brito
trem
O juiz Marcelo Costenaro Cavali, da 6ª Vara Criminal Federal, decidiu, contra parecer do Ministério Público Federal, enviar para o Supremo o inquérito que apura corrupção nos contratos de compra e reforma de trens em São Paulo.
A decisão se justifica por que há parlamentares – deputados federais e um senador adivinhe-de-quem – mencionados nas acusações de propina.
A Alstom, como se sabe, fez muitos negócios com os governadores José Roberto Arruda e José Serra. Na foto, eles recebem trenzinhos miniatura da empresa.
Agora, depende do Procurador Geral Rodrigo Janot fazer o processo andar. Todos esperam que a Procuradoria demonstre a mesma celeridade que imprimiu ao caso do chamado “mensalão”. O da ação penal 470, claro, porque o “mensalão mineiro” está completando o décimo aniversário de gaveta.
Veja a matéria do Estadão:
Justiça envia inquérito do cartel de trens para Supremo

Fausto Macedo
A Justiça Federal decidiu nessa segunda-feira, 9, remeter para o Supremo Tribunal Federal (STF) o inquérito que investiga o cartel de trens no sistema metroferroviário de governos do PSDB em São Paulo, entre 1998 e 2008. A decisão, sobrescrita pelo juiz Marcelo Costenaro Cavali, da 6ª Vara Criminal Federal, acolhe representação da Polícia Federal.
“O inquérito policial foi remetido ao Supremo Tribunal Federal em razão de ter sido mencionada a eventual prática de infrações penais por autoridades detentoras de foro por prerrogativa de função perante àquela Corte”, esclarece, em nota, a Justiça Federal.
O inquérito da PF cita deputados federais e outros políticos que detêm foro privilegiado perante o STF. A menção aos parlamentares e outras autoridades chegou ao inquérito por meio de um relatório produzido pelo engenheiro Everton Rheinheimer, ex-diretor da divisão de transportes da Siemens, multinacional alemã que firmou acordo de leniência, em 22 de maio, com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
No relatório, o executivo disse ter provas suposto esquema de corrupção em governos do PSDB de São Paulo e no Distrito Federal. Rheinheimer fez delação premiada na PF e confirmou os termos daquele documento.
Na semana passada, o delegado Milton Fornazari Júnior, que preside o inquérito, representou pela remessa dos autos para o Supremo sob o argumento de que autoridades com prerrogativa de foro são mencionadas na investigação.
A procuradora da República, Karen Kahn, manifestou-se contra o deslocamento do inquérito para Brasília, alegando que a medida é prematura. Para Karen, o depoimento que cita autoridades, isoladamente, não é suficiente para provocar a transferência dos autos.
A Justiça Federal, em nota, ponderou que “a remessa dos autos ao Supremo Tribunal Federal não implica reconhecimento pelo magistrado responsável pela supervisão do inquérito da existência de indícios concretos de práticas criminosas pelas autoridades referidas”
A remessas do inquérito do cartel para o Supremo fundamenta-se “apenas no entendimento de que compete ao STF supervisionar eventuais medidas investigatórias relacionadas a tais autoridades”.

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Valdir R Fiorini

10 de dezembro de 2013 às 17h00

“Quando o funcionário tem alguma ligação com o PSDB, contudo, podem encontrar, em sua casa, plutônio enriquecido com capacidade para destruir metade de São Paulo, junto com uma mala contendo meio bilhão de dólares, um monte de cartas assinadas por comandantes da Al Qaeda. A mídia e a polícia irão concluir que o funcionário foi vítima de algum complô, e que, sobretudo, não há envolvimento nenhum do partido na história. “

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