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Wanderley Guilherme: A moral de ontem e hoje

Por Miguel do Rosário

14 de dezembro de 2013 : 18h44

Mais um artigo brilhante do professor Wanderley!

A MORAL DE ONTEM E A POLÍTICA DE HOJE

Marcus Tullius Cícero concorreu à posição de Cônsul de Roma em 64 a.C. Atribui-se a seu irmão, Quintus, autoria de uma carta com recomendações de campanha.

Por Wanderley Guilherme, na Carta Maior.

Marcus Tullius Cícero concorreu à posição de Cônsul de Roma no ano de 64 antes de Cristo. Atribui-se a seu irmão mais novo, Quintus, a autoria de uma carta com recomendações de campanha. Em edição bilíngüe, a Universidade de Oxford republicou a Commentariolum Petitionis, em 2012, com tradução e introdução de Philip Freeman. Transcrevo o resumo de alguns de uma longa lista de conselhos.

De início, a trivial recomendação de construir sólida e larga base de apoio. Toda a arte da campanha consiste em identificar de quem devem ser os apoios e como conquistá-los. Desde logo, o candidato lembrará a todos a quem tenha prestado favores que chegou a oportunidade de retribuir. E que, se eleito, poderá ajudar outra vez no futuro. Prometa tudo a todo mundo, aos grupos de interesse, organizações locais, populações rurais, jovens eleitores, aconselha Quintus.

Aqueles com os quais nenhuma pessoa decente se associa em tempos normais contam como amigos próximos durante a campanha, se isso assegurar a vitória.

Eleitores odeiam a quem lhes nega promessas e perdoam com relativa facilidade um recuo posterior. Depois da campanha é possível explicar a todos que, desafortunadamente, circunstâncias além de controle surgiram, impedindo que as promessas sejam pagas. Dê esperança às pessoas; até os eleitores mais cínicos desejam acreditar em alguém. Adule a todos sem qualquer pudor – olhe os eleitores nos olhos, dê tapinhas em suas costas, diga-lhes que são muito importantes. Faça-os sentir que o mundo pode ser melhor para eles e eles se tornarão os mais devotados seguidores – pelo menos até depois das eleições, quando inevitavelmente ficarão desapontados. “Mas aí a eleição já terá sido ganha”.

A crueza do resumo é um conto de fadas face à franqueza epistolar de Quintus.

Por exemplo: “Para um candidato, amigo é qualquer um que se mostre simpático à candidatura”. Ao mesmo tempo não se deve negligenciar “os parentes, vizinhos, clientes, antigos escravos e mesmo os servos atuais. Pois quase todos os boatos destrutivos que chegam ao público começam entre familiares e amigos”. Todos os apoios são bem vindos, “particularmente de pessoas de ilibada reputação porque, mesmo que não participem ativamente da campanha, conferem dignidade por mera associação”. A lista inclui ainda magistrados, antigos políticos poderosos e o correspondente, então, de oficiais militares.

Na busca de apoios, Quintus julga indispensável reconhecer “a diferença entre pessoas úteis e inúteis em qualquer organização, o que poupará investir tempo e recursos em pessoas que não trarão nenhuma ajuda”. A carta assegura que “não existe ninguém, exceto talvez os mais ardentes seguidores dos oponentes, que não possam ser convertidos a outras candidaturas, com trabalho persistente e favores apropriados”. Mas não deve haver engano, pois “os apoiadores especiais não são tolos. Eles só manterão o apoio se estiverem convencidos de que têm algo a ganhar”. Em certa passagem, se reconhece que “a política é cheia de engano e traição” sendo importante que o candidato seja “um camaleão, se adaptando a cada pessoa que encontra, mudando de expressão e de discurso quando necessário (…). Afinal, se um político só se comprometesse com o que estivesse certo de cumprir, não teria muitos amigos”.

Além destes conselhos, as recomendações sobre o crucial papel da propaganda, em especial da propaganda negativa sobre os concorrentes, garantiriam a Quintus Cícero fulminante enriquecimento na agência de publicidade que, com certeza, não deixaria de criar. Claro, a história registra a vitória do celebrado tribuno romano, Marcus Tullius Cícero.

Patrono dos marqueteiros, Quintus Tullius Cícero teve no renascentista Machiavelli exímio continuador. E quanto mais próximo da modernidade, maior o número de caçadores dos tesouros em que vieram a se transformar as campanhas eleitorais.

Certamente, os membros desta magnífica linhagem admitiram a existência de exceções. Nenhum, todavia, anteviu que a democracia, com a maior transparência e vigilância de todos os sistemas políticos, tentaria fazer com que Quintus vitoriosos sejam as exceções, não a regra. E isto é o essencial da democracia: empurrar para a clandestinidade política os artifícios do engodo, não obstante a baboseira com que é tratada, no Brasil corrente, a indomável tensão entre moral e política.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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2 comentários

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mauro f. lima

15 de dezembro de 2013 às 09h29

Pro ces verem que essa cascata é muito, muito antiga. Pena que, apesar do passar do tempo, não mudou nada.

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Juan Castro

15 de dezembro de 2013 às 00h55

Muy bien

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