Comentários sobre o áudio vazado de André Esteves (BTG Pactual)

Priolli rebate artigo pró-mídia de Eugênio Bucci

Por Miguel do Rosário

05 de janeiro de 2014 : 13h44

Estou há dias, agora quase semanas, querendo responder ao artigo de Eugenio Bucci, no qual fala que a imprensa brasileira é maravilhosa e que somente alguns bobocas esquerdistas a criticam por ser partidária. É um artigo relativamente fácil de responder, porque esquece, convenientente, todo o histórico golpista de nossa mídia, apoiando o golpe de Estado em 64, sustentando o regime militar, ajudando os torturadores (inclusive emprestando veículos, como no caso da Folha), tentando esconder o movimento das Diretas Já, fraudando debates, e, por fim, refestando-se numa hegemonia comercial e política construída a golpes de baioneta.

Só que um blogueiro tem a mania, algo delirante, de abordar todos os assuntos, e fiquei sem tempo de rebater às falácias de Bucci. Felizmente, Priolli o fez, com muita classe, de maneira que reproduzo seu artigo abaixo.

A imprensa de lado

Por Gabriel Priolli em 31/12/2013 na edição 779

Reproduzido do blog do autor, 26/12/2013; intertítulo do OI

Eugenio Bucci contesta hoje [26/12] no Estadão a ideia de que a imprensa atua como “partido de oposição”. Argumenta que essa ideia não causava preocupações enquanto parecia restrita a defensores irracionais dos projetos petistas, mas começa a tomar proporções preocupantes, agora que o próprio governo e lideranças do PT ecoam a mesma crítica.

“Numa sociedade democrática, relativamente estável e minimamente livre, os jornais vão bem quando são capazes de fiscalizar, vigiar e criticar o poder. O protocolo é esse. A normalidade é essa”, diz Eugenio, expressando o credo básico do jornalismo liberal. “Logo, o bom jornalismo pende mais para a oposição do que para a situação; a imprensa que se recusa a ser vista como situacionista nunca deveria ser atacada”, julga ele.

“Nossa imprensa, convenhamos, é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis, mas nunca se perfilou com a organicidade de um partido político”, observa Eugenio. Para ele, a imprensa não se articula nos moldes de um partido porque não segue comando centralizado, não se submete à disciplina que os partidos impõem aos filiados e não renunciou à função informativa “para abraçar o proselitismo partidário”.

Bucci acredita que a crítica ao partidarismo da imprensa está assentada “em bases fictícias, completamente fictícias”. Mas ela cumpriria uma função política. “Na falta de uma oposição de verdade que pudesse servir de vilã cruel, na falta de um satanás mais ameaçador para odiar (a ‘herança maldita’ de FHC não funciona mais como antagonista imaginária), querem fazer valer essa ficção ufanista de que o País vai às mil maravilhas, só o que atrapalha a felicidade geral é esse maldito partidarismo da imprensa”.

Confesso que sinto um considerável desconforto quando vejo Eugenio se referir ao petismo com essa alteridade impossível para quem, como ele, foi militante do PT a vida toda e funcionário em elevado cargo de confiança no Governo Lula. Mas o que interessa são os argumentos do colega e amigo, e se discordo deles, cabe rebatê-los.

Imprensa retrógrada

Primeiramente, observo que a imprensa não é criticada por converter-se formalmente em partido político, algo que, mesmo querendo, lhe seria impossível. A imprensa é criticada por agir partidariamente, por ter como único foco de crítica o PT e sua aliança governista federal, e por pautar o discurso e as ações dos partidos de oposição contra o governo petista. Desde Lula e agora sob Dilma.

Estão de tal forma sincronizados o noticiário da imprensa e as iniciativas do conglomerado PSDB-DEM-PPS, ambos alimentando-se mutuamente, que é dispensável qualquer organicidade partidária da mídia. Na verdade, mídia e oposição são faces inextrincáveis da mesma moeda, não existem mais separadamente. Fazem as mesmas críticas e defendem o mesmo receituário para os problemas do país, a ponto de certos parlamentares converterem-se em meros ventríloquos de conceitos exarados em editoriais e colunas de opinião. Ou vice-versa.

Mas é no plano estadual e municipal que se observa melhor como o empenho fiscalizador da imprensa aplica-se tão somente a gestões do PT. Erundina, Marta, Benedita, Olívio, Tarso, Jacques Wagner, qualquer governante petista sempre enfrenta o máximo rigor no julgamento de suas ações. Agora mesmo, Haddad está sob intenso fogo de barragem.

Já para os governos tucanos ou assemelhados, o que a imprensa oferece é pouca cobrança e muita condescendência. Haja vista tão somente o caso do Cartel do Metrô, falcatrua que envolve valores dez vezes maiores que o Mensalão, mas que está longe de ser tratada como “o maior escândalo de corrupção do pais”. Aliás, está longe de ser minimamente noticiada.

É nítido e insofismável que a imprensa opera com dois pesos e duas medidas. Que demoniza governos populares, mas não governos conservadores. Que carrega nas tintas e dramatiza qualquer irregularidade que envolva petistas, mas diminui, relativiza ou esconde os “malfeitos” de opositores dos petistas. Que não perde a menor oportunidade de jogar no colo do PT problemas que não foram criados por ele, como ocorre nesse instante, na cobertura da Máfia dos Fiscais paulistanos.

Portanto, são reais, completamente reais, as bases da cobrança ao “partidarismo” da imprensa. Não se trata da doença infantil do esquerdismo manifestando-se contra uma valorosa ferramenta da democracia, senão da ressurgência e agravamento da doença crônica do sectarismo na mídia, comprometendo a própria saúde da democracia.

O Brasil não vai às mil maravilhas, certamente, embora haja muito do que ufanar-se, nas conquistas de anos recentes. Mas o país não consertará seus problemas nem avançará com o auxílio dessa imprensa parcial, manipuladora e retrógrada, que sabe ser muito combativa quando lhe interessa e frequentemente omissa quando interessa a toda a sociedade.

*

PS O Cafezinho: A resposta de Priolli vale também para outro artigo na mesma linha, publicado no OI: “A doença infantil do esquerdismo antimídia”.

Mesmo assim, eu pretendo responder Bucci com um texto da minha própria lavra.

globo_ditadura

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

4 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Edinaldo

07 de janeiro de 2014 às 19h29

“Nossa imprensa, convenhamos, é preponderantemente de direita e, muitas vezes, apresenta falhas de caráter, algumas inomináveis…”, isso para mim já diz tudo desse indivíduo. Então, Miguel, para quê perder tempo respoendo a esse artigo?

Responder

Ninguém

06 de janeiro de 2014 às 18h14

O PIG é uma das coisas mais escrotas que existem no Brasil. Não tenho a menor dúvida disso.

Como alguém consegue defender o PIG e olhar para a própria cara no espelho?

Responder

Vixe

05 de janeiro de 2014 às 20h25

A “imprensa” é apartidária?
De onde esse boçal tirou essa idéia?
Basta ver o histórico de cobertura do chamado ‘mensalão”, comparado com as coberturas da cocaína no Helipóptero dos Perrella e do superfaturamento e cartel dos trens em São Paulo.
Esse Eugenio Bucci ou éstá de brincadeira ou má fé mesmo… pra não dizer mais coisas…

Responder

jõao

05 de janeiro de 2014 às 16h22

Qual seria o comportamento da imprensa brasileira ao saber que um amigo de Lula, Dilma e, principalmente, de José Dirceu ou José Genoino, teve seu fusca 66 apreendido pela Polícia Federal com 0,000000000000000000000000000000000000000000 gramas de cocaína? No caso do senador amigo de Aécio Neves, com 500 Kg de cocaína no helicóptero da família, a imprensa nunca relacionou os dois, já esqueceu e perdoou.

Responder

Deixe um comentário

Parlamentarismo x Semipresidencialismo: Qual a Diferença? Fernanda Montenegro e Gilberto Gil são Imortais na ABL: Diversidade Auxilio Brasil x Bolsa Família: O que mudou? As Refinarias da Petrobras À Venda pelo Governo Bolsonaro O Brasileiro se acha Rico ou Pobre?