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Discutindo nosso “batman de passeata”

Por Miguel do Rosário

02 de fevereiro de 2014 : 12h48

É hora de discutir à sério essa nova síndrome nacional, de achar que a solução de nossos problemas passa pelo surgimento de super-herois.

Fernando Brito, editor do blog Tijolaço, escreveu hoje sobre nosso Batman de passeata. Fiquei com pena do rapaz. Tenho impressão que é uma boa pessoa, um rapaz simples do subúrbio do Rio, cheio de boas intenções, mas que, de fato, é mais um boboca dominado pela cultura de celebridade.

Não percebe sequer o significado de sua própria fantasia: um vingador privado, herdeiro bilionário, que busca fazer justiça com as próprias mãos.

O pobre, o trabalhador, não pode entrar nessa, de entender a justiça como uma esfera privada. Ele tem de acreditar na democracia e se juntar a seus iguais. Quer fazer política? Organize-se, dentro de um partido ou não, mas participe do debate usando a cabeça, convencendo e ouvindo os outros, expondo ideias, com convicção, paixão e seriedade.

E ninguém deveria combater os males sociais com espírito de vingança, como faz Batman. Aliás, temos outro personagem também chamado de  “Batman” no Brasil, um juiz reacionário que não parecer dar muita bola aos direitos das pessoas que julga…

Entretanto, é bobagem fazer proselitismo ideológico com Batman. Eu mesmo sou fã do homem-morcego, justamente porque não fico pensando se o Batman é de esquerda ou direita. Não assisto enlatados de holliwood pensando em política. É entretenimento, diversão. Mas já que tem gente confundindo ficção com realidade, então vamos lá.

Batman é um herói ultraconservador e ultracapitalista. Não à tôa foi criado na década de 40, no auge da guerra fria. Não é um idiota, porém. É um ser humano atormentado, extremamente auto-crítico. No Cavaleiro das Trevas (2008), por exemplo, Bruce Wayne (identidade secreta do heroi) entende que a solução para a criminalidade e corrupção em Gotham City deveria passar pela via republicana, ou seja, deveria ser conduzida pelo novo promotor público, Harvey Dent. Planeja, com isso, aposentar o super-heroi.

Mas Bruce comete um erro ao depositar todas as esperanças em Dent, ou seja, ao apostar, mais uma vez, numa espécie de vingador, desta vez com a chancela do Estado. Batman deveria antes acreditar na democracia, investindo mais em debates sobre políticas públicas.

Ironicamente, é o Coringa quem vai acreditar na democracia, ao entregar uma bomba em mãos da tripulação de dois barcos, sendo que qualquer uma delas deveria acionar a bomba para explodir o outro barco e salvar o próprio. Só que Coringa se dá mal. Num dos barcos, lotado de presidiários, é justamente um criminoso algemado quem decide jogar o dispositivo da bomba pela janela, salvando o outro barco.

No outro barco, ninguém tem coragem de acionar a bomba para explodir o outro barco. A mesma democracia que derrotou Bruce Wayne, ao não proteger seus pais, mortos num assalto, também vence o Coringa.

Enfim, o Batman proporciona reflexões políticas muito além das ideias simplórias de nosso batman de passeata. O Batman verdadeiro, o do filme, jamais  glorifica a si mesmo, como faz nosso heroi de Marechal Hermes. Jamais se expõe desnecessariamente. Ele é, deliberamente, um personagem das sombras. Sua fantasia não tem objetivo político; ao contrário, foi especialmente elaborada para meter medo. Batman não veio para debater, para construir, para trazer soluções democráticas. É apenas um espírito de vingança. Uma catarse social, não apenas contra o crime, mas contra a burocracia do Estado democrático, que prefere combater a criminalidade com políticas públicas, muito mais demoradas, ao invés de simplesmente caçar bandidos nas ruas. Só que políticas públicas são a única forma de reduzir a criminalidade no médio e longo prazo. E o Estado nem sempre tem os ilimitados recursos financeiros que parece ter Wayne.

A grande contradição, que o filme não esconde, embora não a problematize, é que a própria riqueza desproporcional de Bruce Wayne, pode estar na raíz das violências que corróem Gotham City.

Vamos ao artigo do Fernando.

*

O Batman precisa de um analista, coitado…

Por Fernando Brito, no Tijolaço.

A matéria de Bernardo de Mello Franco, hoje, na Folha, mostra, coitado, o estado de fragilidade psicológica daquele rapaz que se tornou conhecido como “Batman” das manifestações.

“Tenho síndrome de super-herói”, diz o rapaz boboca (altere as vogais a seu gosto) para dizer que “não consegue ficar parado quando vê uma injustiça”.

O “Bruce Wayne” carioca, tem 32 anos. Será que ele só não conseguiu ficar parado diante das  injustiças nos últimos seis ou sete meses?

Ou será que antes de junho não havia injustiça no Brasil?

Há doze ou treze anos atrás, e ele já era maior de idade, não se tem noticia do dito cujo  desfilando suas fantasias em atos de protesto contra o arrocho salarial, contra a entrega do patrimônio público aos grupos privados, contra as exigências do FMI…

O pateta da capa e máscara é apenas mais um idiota da cultura de subcelebridades que a mídia vem construindo há tempos neste país.

Não importa como ou porque, o importante é aparecer.

Seja um “brother”, uma mulher-melancia, padre-voador pendurado em balões de gás.

O nosso Batman é só um pobre coitado que não cresceu e que, acredito, só tem uma tradução doentia daquela ideia de fama, que não vem pelo trabalho, pelo esforço, pela capacidade ou pelo talento: vem apenas pelo ridículo.

E também traduz, como o outro personagem com transtornos emocionais que vem sendo chamado de Batman por aqui, aquele desprezo olímpico pelo povo e sua capacidade, porque acha que é preciso este tipo exato de “herói” para salvá-lo.

Algo como o Bruce Wayne da série, um riquinho entediado e recalcado, que surge na noite para “vingar” os desvalidos.

O nosso Batman enverga suas roupas justas como uma criança veste uma capa para viver uma fantasia própria de sua imaturidade.

E a “tia Mídia”, como dizemos aqui no Rio, “bate palmas pra maluco dançar”  sem nenhuma cerimônia.

Mas Eron de Melo não é uma criança, tem 32 anos.

Deveria refletir e resolver seus desajustamentos de forma privada, não ajudando a promover conflitos, quebradeiras e, acima de tudo, querendo aparecer para os seus “15 minutos de fama”.

Aproveite a fantasia no Carnaval que vem aí, menino, e se quiser venha debater como um adulto que você deveria ser.

Escreva o que você pensa, apresente suas ideias e exponha-se ao debate político.

Senão, você será só uma pessoa com problemas que gosta de seu mundinho particular, onde é apreciado apenas por ser “diferente”.

Nós preferimos o contrário: queremos que as pessoas possam ser mais iguais.

E felizes sendo elas próprias, sem precisarem se fantasiar.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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4 comentários

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Cleide Portella

02 de fevereiro de 2014 às 22h44

Babaca!

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Fernando

02 de fevereiro de 2014 às 14h29

mais é muito entreguismo mesmo!!! vontade de ser escravo do Império!!!

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Renata Martins

02 de fevereiro de 2014 às 16h08

É isso aí menino. O recado foi muito bem dado tanto no texto do Fernando quanto do Miguel. Pensei que estávamos lidando com uma pessoa mais bem preparada. Mas pelo visto, nesse ponto você e o Batman do STF tem algo em comum, são dois personagens a favor da oposição partidária e midiática desesperada por um salvador. A diferença é que o último faz de forma consciente, proposital e maldosa. Já você não sabe nem o que que está fazendo.

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Barbara Ferreiro

02 de fevereiro de 2014 às 15h21

Perfeita a análise , um desmiolado de mente lavada por Hollywood , que vive no mundo do faz de contas e que não sabe separar o real do imaginário , não devemos sentir pena ..mas devemos insistir que ele enxergue que está doente e que precisa de uma psicanálise urgente….

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