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As falácias golpistas da mídia brasileira contra a Venezuela

Por Miguel do Rosário

21 de fevereiro de 2014 : 12h34

Reproduzo abaixo um artigo do Breno Altman para o 247, em que responde às tolices de Clovis Rossi, que escreveu ontem sobre a Venezuela. Eu só acrescentaria uma coisa. Não se trata aqui de divergências ideológicas entre direita e esquerda. Maduro é um presidente eleito. Goste-se ou não.

Ser uma pessoa que acredita na democracia é respeitar a legitimidade do presidente eleito de seu país, ou de outro, mesmo que se não goste dele.

O povo venezuelano tem instrumentos democráticos para tirá-lo do poder, se quiser. Apelar para distúrbios de rua, sob patrocínio de forças obscuras (mas velhas conhecidas nossas), é violar a paz e a democracia. O Brasil não pode compactuar com isso.

Por fim, Altman destrói a falácia do país dividido, segundo a qual o Brasil não deveria apoiar Maduro porque estaria esquecendo a “outra metade” do país. Isso não existe. Relações entre governos democráticos amigos são de apoio mútuo contra golpes. Um presidente deve se relacionar com outro presidente, porque ambos tem legitimidade comprovada. Não existe isso de presidente se relacionando com líder da oposição do país vizinho.  Que a oposição eleja o próximo presidente, e aí este será muito bem tratado pelo governo brasileiro. Enquanto Maduro for o presidente, é Maduro o interlocutor do povo venezuelano junto ao Brasil.

 

*

ALTMAN: HORA DE DIZER A VERDADE PARA CLÓVIS ROSSI

Em artigo exclusivo para o 247, o jornalista Breno Altman contesta tese de Clovis Rossi, colunista internacional da Folha, que defendeu uma censura do Itamaraty à Venezuela de Nicolás Maduro: “O presidente Nicolás Maduro tem reagido com firmeza e equilíbrio para deter a onda de violência e os planos de sublevação. Cumpre obrigação de preservar a democracia e a paz como manda a lei; estende as mãos para quem não compactua com o golpismo, ao mesmo tempo que promete ser implacável contra os que quiserem usurpar o poder pela força”, diz; “As correntes reacionárias podem reclamar o quanto quiserem, e Clóvis Rossi pode lhes oferecer consolo, mas a Venezuela não está isolada como o Chile de Allende ou o Brasil de João Goulart, a bel prazer dos que almejam destruir as instituições democráticas”, conclui
21 DE FEVEREIRO DE 2014 ÀS 05:56

Por Breno Altman, especial para o 247

O jornalista Clóvis Rossi, um dos mais respeitados do país, escreveu ontem, na Folha de S.Paulo, artigo intitulado “Hora de dizer a verdade a Maduro”, criticando a posição atual do governo brasileiro acerca da crise venezuelana. Seu texto considera, a partir dos números das últimas eleições presidenciais, que o vizinho ao norte está “rachado ao meio”. E conclui: apoiar o presidente Nicolás Maduro seria “dar às costas à metade da população venezuelana, erro que nenhum país sério pode cometer.”

Traz vício de origem o apelo à neutralidade e a eventual papel moderador que poderia desempenhar a diplomacia brasileira. Rossi, com a elegância de sempre, mas desconhecimento sobre o assunto, parece estar abordando situação normal de conflito. Como se fosse, por exemplo, uma competição eleitoral ou um rallypacífico de setores oposicionistas.

O venerando repórter atropela o próprio registro que encabeça sua coluna, ao lembrar do golpe de Estado que derrubou Hugo Chávez em 2002, para vender versão edulcorada e neutra dos acontecimentos em curso, insinuando que se trata de um choque legítimo entre blocos políticos.

Nem mesmo o governador de Miranda e ex-candidato presidencial da direita, Henrique Capriles, acredita nessa lorota. Faz questão de manter distância regulamentar da aventura extremista apelidada de la salida pelos white blocs do golpismo venezuelano. Ali está em curso, novamente, operação violenta e articulada para apear do poder um presidente constitucional.

Não pode haver hesitação quando está em jogo a democracia. Defender a legalidade e a soberania popular é a tarefa fundamental dos governos da região, a começar pela mais importante de todas essas nações. A presidente Dilma Rousseff, ao subscrever nota incisiva do Mercosul e declaração inequívoca da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), dá demonstração de grandeza e liderança. Contemporizar com o golpismo, como sugere Rossi, seria atitude pusilânime e apequenada.

Os interesses que se movem nas sombras do vandalismo oposicionista são tão perigosos quanto os objetivos dos grupos ensandecidos que fantasiam tomar Miraflores de assalto. A guerra cibernética e midiática, manipulando informações e imagens, sinaliza que o discurso de Barak Obama, alinhado à intentona da direita, não se esgota no palavrório. A Casa Branca dá sinais que considera a derrocada de Maduro, já e agora, um componente fundamental de sua geopolítica para o petróleo e a América Latina.

O silêncio brasileiro, portanto, não seria apenas desfeita à causa democrática que tanto sangue, suor e lágrimas custou ao continente. Nações que desejam construir caminhos autônomos, em aliança com seus parceiros naturais, devem ter na solidariedade uma política de Estado. Fraquejar nessas horas significaria retirar os sapatos diante de quem aspira retornar à época em que esse canto do mundo aceitava ser o quintal de uma potência imperialista.

Por fim, a tese da “divisão ao meio” é falácia para subtrair legitimidade de um governo soberano. Desde quando uma pequena diferença eleitoral torna iguais quem ganhou e quem perdeu na escolha popular? Está correto um jornalista do calibre de Clóvis Rossi omitir que o chavismo venceu 17 das 18 contendas eleitorais que travou desde 1998? Que elegeu 20 dos 23 governadores nas últimas disputas regionais? E 75% dos prefeitos em consulta às urnas há menos de três meses?

O presidente Nicolás Maduro tem reagido com firmeza e equilíbrio para deter a onda de violência e os planos de sublevação. Cumpre obrigação de preservar a democracia e a paz como manda a lei, mas sua aposta principal é convocar às ruas seus compatriotas, em defesa da Constituição. Estende as mãos para quem não compactua com o golpismo, ao mesmo tempo que promete ser implacável contra os que quiserem usurpar o poder pela força.

Não poderia ser outra a atitude do governo que não ombreá-lo na resistência legalista. As correntes reacionárias podem reclamar o quanto quiserem, e Clóvis Rossi pode lhes oferecer consolo, mas a Venezuela não está isolada como o Chile de Allende ou o Brasil de João Goulart, a bel prazer dos que almejam destruir as instituições democráticas.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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4 comentários

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Norberto Palacios

21 de fevereiro de 2014 às 22h09

Querem botar a mão de volta no petróleo venezuelano, esperto!! O pior analfabeto que há é o analfabeto político…

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Jotage

21 de fevereiro de 2014 às 17h24

Clóvis Rossi antes de falar besteira deveria ver o documentário Puente LLugano.
Se repete a história.

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Bruno Marinho

21 de fevereiro de 2014 às 18h30

O povo ir as ruas e pedir o fim do governo maduro, isso não é um meio democrático? O impeachment do collor no brasil começou assim e foi bem democrático

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    Luciano

    21 de fevereiro de 2014 às 16h50

    Collor nunca deveria ter sido eleito. Até as formigas do gramado do congresso sabem que a Globo elegeu ele para impedir que Lula ou Brizola chegassem a presidência e acabassem de vez com a concessão da Globo que apoiou a ditadura por mais de 20 anos. Tirar Collor foi a reparação de uma eleição ilegítima fraudada pela mídia.

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