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Em defesa de Noblat

Por Miguel do Rosário

21 de março de 2014 : 12h56

Assino embaixo das palavras do Fernando Brito no caso Barbosa X Noblat, e acrescento outras. Se Barbosa começar a processar seus críticos, será uma carnificina contra a liberdade de expressão.

Barbosa não pode aspirar a liberdade de falar pelos cotovelos, agredindo políticos, advogados, outros magistrados, Deus e o mundo, e pretender silenciar as críticas a si mesmo. Isso é despotismo!

Aliás, agora podemos ver quem é autoritário nesse país.

É bom deixar claro: o que está em jogo aqui não é a liberdade de imprensa. É algo maior. É a liberdade de expressão.

Barbosa é negro, e a questão de raça deve ser sempre respeitada e tratada com muito cuidado. Entretanto, isso não quer dizer que não se possa falar nada a respeito. Podemos até discordar da maneira como alguns tratam Barbosa, associando-o a símbolos como “capitão do mato”. Há racismo entranhado em toda parte. Mas não se combate isso com truculência judicial, agravada por vir da maior autoridade do judiciário brasileiro.

O que Noblat fala é o que se comenta em toda a parte, e não me refiro a ambientes dominados por membros da klu klux kan. Nos botequins, entre mulatos e negros, que somos nós mesmos, criticamos acidamente a decisão de Lula de indicar Barbosa, e nos perguntamos, entre perplexos e decepcionados, o que levou um político de inteligência e intuição tão reconhecidas a cometer um erro de consequências tão danosas para o país.

A resposta mais comum é que Lula escolheu Barbosa porque o ex-presidente tinha uma sensibilidade extrema para as desigualdades, inclusive a racial. Ele queria colorir o STF. A intenção foi das melhores. E escolheu o negro que acumulava mais diplomas que pode conhecer. Só que o inferno, como se sabe, tem uma super população de bem intencionados, e a gente só perdoa Lula porque é óbvio que ele não podia prever que Barbosa pularia, de maneira tão acintosa, para o lado da direita e da mídia.

A nossa grande mídia se preocupa com liberdade de expressão apenas em outros países. Quando é aqui, ela própria faz o papel de verdugo das liberdades, como é o caso de Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, que vem processando, sistematicamente, blogueiros independentes.

A Globo, por exemplo, fez uma campanha intensa em defesa de um jornalista do Equador que chamara o presidente Rafael Correa de “assassino” no editorial de um grande periódico. Correia processou-o e exigiu 1 milhão de dólares, mas depois perdoou o jornalista na questão do dinheiro. Exigiu apenas retratação. A Globo vai criticar Barbosa (presidente do STF!), por processar Noblat a partir da interpretação subjetiva, dúbia, de que o blogueiro, que aliás é um mestiço como a maioria de nós, cometeu crime de “racismo”?

Seria até eufemismo dizer que eu costumo divergir de Noblat. Minhas críticas ao blogueiro da Globo são pesadas e flertam com a ofensa, embora sempre, quero acreditar, dentro dos limites, às vezes tênues, mas claros, da liberdade de que gozamos, de um lado, e do respeito à honra alheia, de outro.

Nessa luta contra a truculência e despotismo de Joaquim Barbosa, no entanto, estou a seu lado.

*

Barbosa processa Noblat por racismo. Começou a vingança…

barbosa6

Por Fernando Brito, em seu blog.

Divirjo muitas vezes do jornalista Ricardo Noblat.

Quase sempre, aliás.

Muito menos aprecio a orientação política que ele assume em sua coluna em O Globo e em seu blog, na mesma empresa.

Não desconheço, também, que ele jamais tomou a defesa de outros profissionais, a que vê serem chamados de ‘blogueiros sujos”, sem que lhes proclame o direito de escrever o que pensam e tanto quanto qualquer outra publicação, merecerem – na proporção de suas audiências – a destinação de verbas publicitárias.

Nada disso, entretanto, faz deixar de ser absurdo que ele seja denunciado por racismo pelo Presidente do STF, Joaquim Barbosa, por tê-lo censurado por seus modos grosseiros ao agredir verbalmente Ricardo Levandowski.

Por dizer que Barbosa não tem o direito “tratar mal seus semelhantes, a debochar deles” e a “humilhá-los”.

Não tem, mesmo.

Ou que Barbosa teve, na sua indicação para a Corte,o fato de ser negro como elemento de convicção do Presidente Lula para decidir assim.

Foi, e que bom que tenha sido.

Porque significou a ascensão de um negro – como milhões de nossos irmãos – à corte mais alta do País, como é preciso para que esse país comece, um pouquinho, a exorcizar os séculos de discriminação, humilhação e injustiça.

Que Noblat tenha dito que o comportamento de Barbosa é eivado de autoritarismo e recalques, basta ver os espetáculos que ele protagoniza na TV Justiça, ante os olhos de todos.

Ou será que mandar um jornalista ir “chafurdar no lixo” é exemplo de comportamento equilibrado próprio de um magistrado?

Da mesma forma, não é temerário dizer que Joaquim Barbosa sabe do peso com que recai, diante do Ministério Público, uma demanda sua para que se processe alguém.

Noblat talvez seja só o primeiro.

O rancor da derrota final no processo da Ação penal 470, o chamado “mensalão”, já deixou claro, na diatribe final de Barbosa contra seus colegas, onde apontou um “maioria formada sob medida” que iria seguir sua “sanha reformadora”, que aquele era “apenas o primeiro passo”.

Talvez o primeiro passo seja justamente Noblat, a quem, por caminho transverso, se busque punir por ele, Barbosa, no trecho final do julgamento, não ter seguido razões de elevado valor jurídico, como a de dosar penas “sob medida” para evitar a progressão ao regime semi-aberto de determinados presos.

E talvez seja uma lição a Noblat de que os adversários que o enfrentamos com a verve, a ironia e o questionamentos políticos somos muito, muito mais democratas do que aqueles que acusam injúrias para exercer a perseguição.

Porque, afinal, o que se lhe imputa como injurioso é o mesmo – em palavras até mais duras – do que se acusou o jornalista Paulo Henrique Amorim em relação a Heraldo Pereira.

Quando muito, uma ofensa pessoal, não aos negros.

Noblat não achou isso merecedor de defesa.

Ainda assim, terá nossa defesa diante de um esgar autoritário.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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17 comentários

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j

23 de março de 2014 às 14h19

. EXMO SR MINISTRO JOAQUIM BARBOSA ESTOU COM O SR E NAO ABRO. ESTE FUXIQUEIRINHO DE MEIA TIJELA TEM QUE SER ENQUADRADO, PARA APRENDER A RESPEITAR AS AUTORIDADES.

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Mauro Silva

22 de março de 2014 às 08h29

Será que alguém teria dúvidas que esse sujeito togado iria usar sua origem dessa forma?
Essa conduta está a altura dele; é o nível dele.
A questão central reside no fato de que esse falastrão, obtusamente, confessou a articulação deliberada, para forjar maior punição ao réu José Dirceu, numa sessão pública do Supremo Tribunal Federal, diante de seus pares, do Procurador Geral da República e dos Cidadãos Brasileiros, perplexos com tamanha desfaçatez.
Essa ‘confissão’ enseja à NULIDADE ABSOLUTA do julgamento, além de condenar o responsável, no caso Joaquim Barbosa, a pagar pelas custas do processo. Está nos Códigos de Processo Civil e Penal.
Isso aconteceria, não fosse a ‘vacância’ da função de Procurador Geral da República.
A República ainda não abriu suas asas ao Ministério Público nem ao Poder Judiciário.

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Edesio Junior

21 de março de 2014 às 21h51

Chiiiiiiiiiiiiiii, ele começou a bater o pezinho, cacoete dos pequenos ditadores!

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Celso Orrico

21 de março de 2014 às 17h06

Miguel, sou Soteropolitano cidade com mais de 80% da população negra ou mulata, sou uma mistura de indio, italiano, português e brasileiro, sei bem o que é racismo..mesmo de forma escrachada como os baianos fazem ele está impregnado naquela sociedade de forma vertical o que é um paradoxo..lendo os dois lados, Noblat e JB, entendo que há excessos por ambas as partes..pra mim houve racismo na artigo de Noblat e desequilíbrio na atitude de JB, bastava uma contestação por escrito do Presidente do STF e já teria uma repercussão enorme, os dois perderam uma grande oportunidade para levantar a discussão sobre essa praga que acomete nossa sociedade..não sou partidário nem apreciador de nenhum dos dois, militam no mesmo campo político em profissões diferentes campo esse contrário ao meu mas não contemporizo com racismo, homofobia, pedofilia e quetais..nessa eu divirjo de vc e Fernando Brito o que devo admitir é uma situação rara de acontecer..
Bom fim de semana e abraços para todos..

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Helton Braga

21 de março de 2014 às 18h59

O Noblat não falou nenhuma mentira o Lula colocou o JB no STF por ser este negro, o pt tem essa mania de defesa das minorias, e ele foi o primeiro negro escolhido para ser ministro do Supremo e ainda chegou a presidência do mesmo, era para ter se portado com total lisura e se portado de maneira diferente do Gilmar Mendes, e não ter se comportado como um déspota e feito um julgamento de exceção, e tantos outros atos de tirania como no caso da advogada cega que teve o seu direito de trabalhar cerceada por um dispositivo errôneo e meio dúbio do cnj, que foi corrigido pelo Ministro Lewandowski.

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Regina Salomão

21 de março de 2014 às 18h21

Assim fica fácil.

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O Cafezinho

21 de março de 2014 às 18h15

Também não admito crimes de racismo. E por isso mesmo não admito que se use o trauma do racismo para se calar a crítica.

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Regina Salomão

21 de março de 2014 às 17h50

Se o JB não fosse negro e dai ele não pudesse acrescentar ” a cor”? A postura do JB seria analisada como? Como foram analisados os gritos e as vociferações do Gilmar?Não foram. Racismo.Isso eh racismo. Quem eh contra o racismo eh sempre contra o racismo. Não tem justificativa nenhuma,defesa nenhuma. Racismo eh crime.Sou petista filiada,me revoltei contra vários eventos do julgamento porque defendo o direito justo. E como petista Tb eu defendo as minorias e não admito,de jeito nenhum,crimes de racismo.

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Regina Salomão

21 de março de 2014 às 17h43

O que o Noblat fez foi levar aa condução da avaliação do JB através do critério da cor.”Para entender melhor Joaquim” eh preciso acrescentar “a sua cor”. E continua discriminando entre os negros que padecem de complexo de inferioridade e os que assumem uma postura oposta para enfrentar a discriminação.”

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Ricardo

21 de março de 2014 às 14h25

De onde saiu essa Regina Salomão? Não sabe o que está falando….

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Maninha

21 de março de 2014 às 14h24

Sinceramente, acho este JB feio pra caramba! Será que sou racista? Será que ele irá me processar? O Brasil inteiro será processado? Caberão todos na Papuda?

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Andre Kenji

21 de março de 2014 às 14h17

Infelizmente, isso não é impossível, ainda mais no Brasil, aonde muitas vezes uma pessoa 30% negra é racista com quem é 60%.

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Andre Kenji

21 de março de 2014 às 14h15

Diversidade racial é importante numa Suprema Corte: ela deve refletir a população, porque as decisões dela afetam a sociedade como um todo. Isso não é algo que é dito aqui no Brasil, mas nos Estados Unidos, sempre que aparece uma vaga na Suprema Corte deles. Quando Thurgood Marshall(O primeiro negro naquele tribunal) se aposentou em 1991, obviamente que Bush pai não iria colocar um branco no lugar. Obama basicamente limitou suas escolhas para a Suprema Corte para mulheres, que só contava então com uma mulher entre nove quando ele tomou posse.

E Juiz processando jornalista é coisa de republiqueta de Terceiro Mundo.

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Pedro Gomes

21 de março de 2014 às 17h11

Você é índio, Miguel. ou como seu pai chamava: ‘morenasso’. rs

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O Cafezinho

21 de março de 2014 às 16h47

Como é que eu, sendo negro também, poderia ser a favor do racismo, Regina Salomão?

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O Cafezinho

21 de março de 2014 às 16h37

Racismo é crime, certo, Regina Salomão. Em nenhum momento, eu falei que não. Eu ponderei aqui que Noblat não cometeu crime de racismo. Ele fez uma crítica, em que abordou o critério, na sua opinião, usado por Lula.

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Regina Salomão

21 de março de 2014 às 16h32

profundamente decepcionada com vocês. Racismo é crime!! Não tem buffet no racismo: revoltar-se com o racismo contra o Tinga é legal, contra os negros pobres é politicamente correto mas contra o JB é ilegal,porque fere a liberdade de expressão? Racismo é crime. O JB fez muito bem. Parem de misturar os canais. O tempo todo a cobertura do julgamento resvalou pra isso. O Gilmar foi muito mais brutal e não mereceu mais do que uma página. Os outros que votaram junto com o JB pra que a sentença fosse aquela são ignorados. Um absurdo esse blog fazer apologia ao racismo quando é conveniente. Absurdo,absurdo,absurdo!

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