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Pasadena e a estratégia do tiro no pé

Por Miguel do Rosário

03 de abril de 2014 : 10h02

Dilma finalmente se pronunciou sobre Pasadena. Foi esclarecedor. Numa só frase, a presidenta explicou os detalhes do negócio, as perspectivas do mercado de refinarias nos EUA, os planos internacionais da Petrobrás, e as estratégias para assegurar nossa soberania energética.

Ela disse o seguinte:

“Como presidenta do Conselho de Administração da Petrobras, a presidenta Dilma Rousseff não recebeu previamente o contrato referente à aquisição da refinaria de Pasadena”, disse Thomas Traumann.

Claro que estou sendo irônico.

Foi a nota mais lacônica da história do blog do Planalto. Pouco mais de 20 palavras. Pouco mais de 20 tiros no pé. Aliás, a esta altura não há mais pés. Nem joelhos.

Essa notinha é de uma incompetência estarrecedora, porque não explica nada, não agrega nenhuma informação. É apenas uma reação amendrontada. Parece uma criança assustada explicando ao pai que não tinha lido as instruções da garrafa de álcool antes de botar fogo na casa. Se a coisa continuar assim, a oposição está com a vida ganha.

Antes da lacônica nota de Dilma, a Petrobrás soltou uma parecida, falando em criação de uma comissão com prazo de “45 dias” para apresentar suas conclusões.

45 dias? Não podia ser 45 horas? Não basta pegar o telefone e dar umas ordens? Deus fez o mundo em 6 dias e descansou no domingo. A Petrobrás precisa de 45 dias para “apurar os processos de compra de Pasadena”?

Ora, uma apuração completa, em relação à qualquer negócio, pode demorar anos, mas a Petrobrás precisa acertar seu relógio. Tem que dar respostas pensando nos próximos segundos, não em “45 dias”.

A Petrobrás não percebe que a comunicação é alma de qualquer negócio?

A Petrobrás é uma empresa que opera no mercado de petróleo, explorando matéria-prima, refinando, distribuindo, vendendo. Ela é a maior dona de refinarias e postos de gasolina da América Latina. Está investindo centenas de bilhões de dólares em novas e gigantescas refinarias no Brasil. Por que não pode adquirir uma maldita refinaria nos EUA?

Petróleo bruto não serve para nada. A única maneira de dar uso ao petróleo, seja do pré-sal da costa brasileira, seja do golfo do México, é processando-o numa refinaria.

E não é esse o caminho certo para o Brasil? Industrializar-se? Internacionalizar-se?

Quer dizer que possuir uma tradicional refinaria de petróleo, no coração do país que mais consome gasolina no mundo, é um mau negócio? Que investimentos a Petrobrás deveria fazer nos EUA? Lanchonetes? Lojas de produtos eróticos?

O governo FHC pode dar mais de US$ 50 bilhões para os bancos, como fez com o Proer, sem nenhuma contrapartida, e a Petrobrás não pode adquirir uma das mais tradicionais refinarias americanas, com capacidade para processar mais de 100 mil barris por dia e estocar 6 milhões de barris?

O Brasil ainda é deficitário em gasolina. Precisamos importar bilhões de dólares em petróleo refinado. Se quisesse acabar com a “crise política” de Pasadena, Dilma só precisava dizer uma verdade: temos que assegurar nossa soberania energética, e Pasadena é um passo nesse sentido.

A Petrobrás, na minha opinião, poderia avançar ainda mais e adquirir alguns postos de combustível nos EUA, para vender a gasolina e outros derivados produzidos em Pasadena. Eu já imagino a cara de espanto de um coxinha vira-lata, ao se deparar com um posto da Petrobrás no meio do Texas!

O preço de Pasadena foi bom, até mesmo abaixo do mercado. Depois encareceu porque tivemos que pagar garantias bancárias milionárias, herança das dívidas anteriores da refinaria, mas que abrem o crédito imenso do mercado americano.

A obrigação da presidente, de qualquer forma, não é mais avaliar se foi ou não um bom negócio. Isso é trabalho para auditores especializados. O dever da presidenta é defender a Petrobrás, o que inclui a refinaria de Pasadena, e fazer o melhor possível para dar um sentido estratégico a esse ativo. A Petrobrás é uma empresa que explora petróleo e comprou uma refinaria de… petróleo.

Se Dilma agora acha que foi um mau negócio, ela deveria ter a dignidade de assumir a responsabilidade pelo erro. Tirar o corpo fora depõe contra ela mesma e contra todo o projeto do qual ela é apenas uma líder temporária.

A cláusula Marim não pode levar a culpa porque sequer foi usada, então não influenciou negativamente no custo final da Petrobrás, ou antes, até ajudou a reduzi-lo. A Put Option, que obrigou a Petrobrás a comprar a outra metade, é praxe nesse tipo de negócio. Quem estava querendo entrar no negócio era a Petrobrás, a Astra já estava dentro. A Put Option é uma cláusula de segurança para quem permite a entrada de um novo sócio. É uma cláusula lógica.

O negócio se deu quando Dilma era presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, além de ministra da Casa Civil, e já uma das pessoas mais influentes do governo. A compra final, mesmo compulsoriamente determinada pela justiça americana, aconteceu durante a sua gestão como presidenta. Qual a diferença, para a opinião pública, se recebeu o contrato 15 dias antes ou 15 dias depois?

Ao fazer silêncio sobre Pasadena ou, pior, ao divulgar essas notinhas lacônicas, cheirando a medo, a presidenta continua jogando a gasolina na polêmica envolvendo sua compra. E atiça os cães da oposição.

A tsunami nas redes sociais, agora reforçada pela temperatura eleitoral, só faz crescer. Eu pensei que, após as manifestações de junho do ano passado, o governo entenderia que as crises não se resolvem mais com telefonemas para donos de jornal. As redes agora formam uma multidão perigosa e instável, que pode pender para a direita ou para a esquerda ao sabor das ondas. Não há mais espaço para silêncios ou articulações palacianas. A saída não é derrubar a CPI da Petrobrás. É explicar! É trazer informação!

Se o governo não traz informação, então é melhor mesmo fazer uma CPI!

Se acha que houve alguma “treta” no negócio, a presidenta, tanto a da república quanto a da Petrobrás, deveriam esperar o término das investigações para se apurar a responsabilidade de cada um, e não sair cortando cabeças, o que apenas serve para criar novos inimigos. E, sobretudo, venham a público se explicar decentemente, ou dêem aval para alguém fazê-lo. A pior das atitudes é justamente a que elas vem adotando: ficar na defensiva, mudas, reagindo com notinhas lacônicas e evasivas às últimas notícias.

A estratégia de lançar a culpa toda em Cerveró ou em qualquer outro diretor é tardia, inútil e contraproducente. Dilma parece agir como um servidor público do baixo clero, que cumpre à risca o conselho de um advogado para não ser responsabilizado por um mau negócio. Só que ela não é um servidor do baixo claro, é a presidenta da republica. E a compra de Pasadena não foi apenas um “negócio”. Foi uma decisão estratégica, que fazia parte do plano de investimentos internacionais da estatal.

Se estivesse sendo julgada num tribunal, Dilma poderia até conseguir convencer o juiz de que não tem culpa pela compra de Pasadena, mas jamais um júri popular. Ela tem responsabilidades políticas sobre a refinaria. E tem de enfrentá-las!

Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás; Fabio Barbosa, hoje presidente da Abril; Gerdau, todo mundo defendeu a compra de Pasadena. Só a Dilma até agora não disse uma palavra em defesa da refinaria.

O brasileiro quer que Dilma lhe diga a sua opinião sobre Pasadena, enquanto decisão estratégica, e não se leu dias antes ou depois um relatório. E não vale repetir a estratégia da Petrobrás e enfiar a cara num buraco por “45 dias”.

Não será possível manter a estratégia do início do seu governo, quando, à semelhança da rainha de Alice no país das maravilhas, mandava cortar cabeças à primeira denúncia de jornal.

Com Pasadena, chegou-se ao limite. É a própria cabeça dela que está em jogo. E o futuro do país.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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12 comentários

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José Adriano Campos

04 de abril de 2014 às 03h54

Tudo tem limite. Enquanto me derem motivos, continuo fazendo meu papel de defender e apoiar os princípios sociais e de soberania desse governo no meio em que vivo. Porém, está passando da hora de encarar de frente o conservadorismo brasileiro, senão…

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Iuri Engel Francescutti

03 de abril de 2014 às 22h35

Simplesmente genial. Com o véu de estar questionando o tom lacônico do governo, o artigo desvirtua o foco da discussão.

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Leonardo

03 de abril de 2014 às 18h23

O PT é um poço de vassalagem!

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Gisele Vieira

03 de abril de 2014 às 18h07

Também não entendo essa letargia… Mas acho que estão naquela de enquanto os cães ladram a caravana passa… A Presidenta Dilma continua com indices elevados de aprovação. Seu eleitorado tá pouco se lixando pra Pasadena. Fora a Patrícia Poeta falar dia sim e outro também sobre o assunto, e os coxinhas das redes sociais com aquelas montagens e alusões pateticas, não é algo que esteja em debate no nosso cotidiano, como foi e ainda é o dito mensalão. Pelo menos é no que quero crer. Aecio e Campos são natimortos, e não é se Pasadena foi ou não um bom negocio que vai mudar isso… De qualquer forma vc está certo, essa forma de comunicação do planalto é irritante! Gostaria de ve-los mais inflamados em defesa da Petrobrás, do Governo, da Presidenta e do proprio PT.

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Ernani Zamberlan

03 de abril de 2014 às 17h48

Concordo em tudo, a Dilma é péssima comunicadora, quando abre a boca é para se defender e não defender o Partido, o Governo, o Brasil.

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Fábio B. Marinho

03 de abril de 2014 às 17h43

Perfeito! Não dá para entender as lideranças petistas, durante as campanhas eleitorais parecem leões dizendo que vão fazer e acontecer, passadas as eleições se comportam como gatinhos de apartamento, vai entender essa personalidade bipolar.

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Fabrício Procópio

03 de abril de 2014 às 16h54

Estou começando a ficar deveras preocupado com isso, apesar que no inicio do ano sugeri exatamente essa estratégia de dar corda, explico; A cultura dos boatos está instalada no Brasil. Querem os de bem ou não, ouvimos e por vezes sem querer replicamos boatos o tempo inteiro. É praticamente impossível checar tudo a todo o tempo e com o (des) nível de especialização dos boateiros, por vezes checamos e mesmo assim acreditamos.

Pois bem, após tomar muitas cervejas e dialogar por horas sobre o poder nefasto de um boato, me veio a cabeça que é ineficaz combate-los uma a um.

Todos os dias surgirão novos e novos e “eles” não pararão nunca! O que fazer então? Muito simples, pega-se um “boato nacional” , daqueles que todos os boateiros vão falar ao mesmo tempo (PETROBRAS) e deixem falar, deixem se esbaldarem de tanto falar, (ta louco?não, não estou louco), e quando todo o povo ou a maioria do povo, acreditando ou não no boato saber que este boato existe, A PRESIDENTA DILMA vem a publico, JUNTAMENTE COM O EX PRESIDENTE LULA E COM A PETROBRAS e acabe com a festa.

Demonstrem CLARAMENTE o que aconteceu, qual é realmente a situação da empresa, os passos que levaram a essa situação, como foi o processo de decisão de compra de Pasadena, quem participou (inclusive os conselheiros, ABRIL, e tal) e dê uma MACHADADA NOS BOATEIROS, NOS OPOSICIONISTAS, NOS PESSIMISTAS com o seguinte bordão: Ao ver um boato sobre qualquer assunto, esporte, economia, educação, corrupção, GRITE – EU ACREDITO NA PETROBRAS -pode-se até entonar PetroBrA ÁS como se fosse Brasil il il – kkkkkkkkkkk e assim, acabar com todos de uma só vez. Obs: meu medo é não vir ninguém a publico, os infograficos claros, objetivos não aparecerem e os boatos virarem verdade! Mas que seria um grande tapa na cara da oposição seria, aliás, como nunca antes na história do país!!

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Paulo Prado Queiroz Filho

03 de abril de 2014 às 16h50

Pois é, típico comportamento de gerentão autoritário. Mas o país não é “Ltda.”, ela não está gerindo uma empresa.

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O Cafezinho

03 de abril de 2014 às 16h01

sim, evanel, pega muito mal. é muita baixaria. a melhor estratégia é a transparência.

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alexandra aquino

03 de abril de 2014 às 12h47

Coincidência ou não o 45 é de PSDB? Sei que na Petrobrás tá cheio deles…

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Evanel Moraes

03 de abril de 2014 às 15h45

concordo rodrigo, e isso de se vcs aprovarem a cpi nos aprovamos outra, se nao aprovarem nos tb nao aprovamos, isso parece mais um pacto p q todos roubem em paz…

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Rodrigo Lima

03 de abril de 2014 às 15h31

Estou de saco cheio da imobilidade do governo! Agora luto não pela reeleição da Dilma, mas pela não-eleição de Aécio e Campos! Chega de lutar, lutar, e o governo e o PT não estarem nem aí! Frouxidão tem limites!

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