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Nassif analisa o papel da Globo no futebol brasileiro

Por Miguel do Rosário

10 de julho de 2014 : 14h20

Às vezes eu acho que estou ficando obsessivo com o tema da mídia e perseguindo a pobrezinha da Globo, uma emissora que faz novelas tão maravilhosas e tem um jornalismo tão “sério”.

Por isso é sempre com certo alívio que leio artigos, de pessoas inteligentes, apontando a questão da Globo como presente no núcleo duro dos problemas nacionais.

É o caso desta análise de Luis Nassif. Me parece um dos melhores textos que li até agora sobre a derrota no jogo contra a Alemanha.

*

CBF_REDE-GLOBO_SELEÇÃO

A Globo e as raízes do subdesenvolvimento do futebol brasileiro

qua, 09/07/2014 – 11:56 – Atualizado em 10/07/2014 – 15:33

Por Luis Nassif, em seu blog.

Os bravos jornalistas da CBN foram rápidos no gatilho: os 7 x 1 da Alemanha comprovam que a presidente Dilma Rousseff é “pé frio”.

Pé frio é bobagem. Não é o que dizem de Galvão Bueno?

Como são analistas sofisticados, da política e da economia, poderiam afirmar que Dilma talvez seja culpada – assim como Lula, Fernando Henrique Cardoso e outros presidentes – por não ter entrado na batalha pela modernização do futebol brasileiro.

Poderiam ter avançado mais no diagnóstico. Explicado que a maior derrota do futebol brasileiro – e latino-americano em geral – estava no fato de que a maioria absoluta dos seus jogadores serem de times europeus, da combalida Espanha, da Alemanha, Inglaterra e França.

Ali estaria a prova maior do subdesenvolvimento do futebol brasileiro, um mero exportador de mão-de-obra para o produto acabado europeu, campeonatos riquíssimos mesmo em períodos de crise.

Mas a questão principal é quem colocou na copa da árvore o jabuti do subdesenvolvimento futebolístico brasileiro.

Se quisessem aprofundar mais, poderiam mostrar conhecimento e erudição esportiva reportando-se a uma tarde de julho de 1921, em Jersey City, quando surgiu o primeiro Galvão Bueno da história, o locutor J. Andrew White, pugilista amador, preparando-se para narrar a luta história de Jack Dempsey vs George Carpentier para a Radio Corporation of America (RCA). 61 cidades tinham montado seus “salões de rádio” para um público estimado em centenas de milhares de ouvinte.

O que era apenas um hobby de radio amadores, tornou-se, a partir de então, o evento mais prestigiado nas radio transmissões.

Se não fosse cansar demais os ouvintes da CBN, os brilhantes analistas poderiam historiar, um pouco, a importância das transmissões esportivas para o que se tornaria o mais influente personagem do século no mercado de opinião: os grupos de mídia.

Mostrariam como foram criadas as redes, desenvolvidas as grades de programação, planejados os grandes eventos, como âncoras centrais da audiência.

Depois, avançariam nos demais aspectos dos grupos de mídia.

Num assomo de modéstia, reconheceriam que, em um grupo de mídia, a relevância do jornalismo é diretamente proporcional à audiência total; e a audiência depende fundamentalmente desses eventos âncora. Por isso mesmo, foi o futebol que garantiu o prestígio e a influência do jornalismo.

Não se vá exigir que descrevam a estratégia da Globo para tornar-se o maior grupo de mídia do Brasil e da América Latina. Mas se avançassem lembrariam que os eventos consolidadores foram o carnaval carioca e o futebol, pavimentando o caminho das novelas e do Jornal Nacional.

Algum entrevistado imprevisto, especialista em segurança, ou na sociologia do crime, poderia lembrar que, para conseguir o monopólio de ambos os eventos, a grande Globo precisou negociar, numa ponta, com os bicheiros que dominavam a Associação das Escolas de Samba do Rio; na outra, com os cartolas que desde sempre dominavam a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), desde os tempos em que era CDB (Confederação Brasileira dos Desportos).

Para não pegar mal para a Globo, diria que a grande emissora foi vítima do anacronismo da sociedade brasileira, que a obriga a entrar no pântano sem se sujar.

Aos ouvintes ficariam as conclusões mais pesadas.

Graças ao submundo dos bicheiros e cartolas, a Globo venceu a competição na radiodifusão. E graças à Globo, bicheiros e cartolas conquistaram um enorme poder junto à superestrutura do Estado brasileiro, um extraordinário jogo de ganha-ganha em que o sistema bicheiros-Globo e cartolas-Globo ganharam uma expressão política inédita e uma blindagem excepcional. Ainda mais se se considerar que o primeiro setor vive da contravenção e o segundo está mergulhado até a raiz do cabelo nos esquemas internacionais de lavagem de dinheiro, através do comércio de jogadores.

Aí a matriz de responsabilidades começa a ficar um pouco mais clara.

Um especialista em direito econômico poderia analisar o abuso de poder econômico na compra de campeonatos e os prejuízos ao consumidor, com a Globo adquirindo a totalidade dos campeonatos e transmitindo apenas parte dos jogos.

Para tornar mais ilustrativo o episódio, poderia se reconstituir a tentativa da Record de entrar no leilão e a maneira como a Globo cooptou diversos clubes, adiantando direitos de transmissão para impedir o avanço da concorrente. Ou, então, as tentativas de dirigentes mais modernos de se livrar do jugo da CBF. E como todos foram esmagados pelo poder financeiro da aliança CBF-Globo.

De degrau em degrau, de episódio em episódio, se chegaria ao busílis da questão, o bolor fétido que emana da CBF e que até hoje impediu que, no país do maior público consumidor, aquele em que o futebol é a maior paixão popular, o evento que mais vende produtos, mais galvaniza a atenção, não se consiga desenvolver uma economia esportiva moderna.

Completado o raciocínio, o distinto público da CBN entenderia os motivos do Brasil ser um mero exportador de jogadores, os clubes brasileiros serem arremedos de clube social, o fato de grandes investidores jamais terem ousado investir no evento esportivo de maior penetração no mundo, de jamais termos desenvolvidos técnicas em campo à altura do talento dos jogadores brasileiros.

A partir dai, ficaria claro as razões do subdesenvolvimento brasileiro e, forçando um pouco a barra, até a derrota de 7 x 1 para a Alemanha.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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19 comentários

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Jose Roberto

12 de julho de 2014 às 00h19

O governo Brasileiro cuida do futebol,e a Fifa cuida da saúde,educação,segurança,infraestrutura,quem sabe teremos um Brasil padrão FIFA

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O Cafezinho

11 de julho de 2014 às 23h52

Não, Rodrigo Ribeiro. Não poderia ser uma reforma como a feita pela Alemanha, com intervenção do governo? Viralatice agora é panamericana?

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Rodrigo Ribeiro

11 de julho de 2014 às 19h18

Vem aí o “Futbol para Todos” bolivariano.

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Rodrigo Ribeiro

11 de julho de 2014 às 19h18

Vem aí o “Futbol para Todos” bolivariano.

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MARIA CARDOSO

11 de julho de 2014 às 14h15

sinceridade? os caras da cbn sabem muito bem a quem servem e seus scripts estão prontos para cada uma das situações. não há ingênuos nos canais da mídia.

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Mauro

11 de julho de 2014 às 13h53

Concordo com quase tudo que a imprensa especializada tem falado sobre questões táticas e técnicas, sobre tudo na ESPN, e acrescentaria outras.
Mas nada explica o que aconteceu em campo, com os jogadores.
Vendo uma entrevista,na ESPN, do Marinho Peres, zagueiro na Copa 74, ele levantou uma questão interessante. Ele achou muito estranho o comportamento dos jogadores no jogo, e acha que isso deve ser apurado. Não acho que é uma teoria da conspiração , ao contrário, acho bem possível que a seleção estivesse dopada. Pelo que eu entendi, não lembro suas palavras, mas a hipótese dele é que tenham dado algum remédio para os jogadores pelo seu estado emocional. Vou além, e se a seleção foi dopada (talvez pela comida ou bebida) numa retaliação por causa do desbaratamento da quadrilha dos ingressos falsos? Para quem lembra do que aconteceu com Ronaldo em 98, e da água batizada que o Maradona deu para o Branco em 90, sabe que este tipo de coisa é bem possível.E temos eleições em Outubro…

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Jose Roberto

11 de julho de 2014 às 15h17

muda de canal,ou muda de assunto

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Heleno

11 de julho de 2014 às 11h02

O Nassif poderia aproveitar e analisar para os brasileiros o papel do BNDES na vida dele.Gostaria que o Nassif, tão ético e tão defensor da moral e dos bons costumes, mostrasse o DARF relativo ao pagamento das dívidas dele com o generoso banco estatal!

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    Miguel do Rosário

    11 de julho de 2014 às 12h53

    Nassif não é proprietário de concessão pública.

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      Heleno

      11 de julho de 2014 às 22h03

      E daí, porque não é proprietário de concessão pública pode pegar dinheiro no BNDES (dinheiro do trabalhador) e não pagar! Conta outra. É o sujo falando do mal lavado!

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        marcos

        12 de julho de 2014 às 09h05

        Pegar dinheiro do bndes? Que coisa ridícula. No máximo pagaram pro nassif alguma verba publicitária que não chega aos pés das verbas que recebe a globo. Tem cachorro adestrado no blog. Latindo contra qualquer avanço e discussão.

        Responder

    daniel

    13 de julho de 2014 às 14h19

    You have any proof? No? So shut up, dog.

    Responder

Juliana Krieger

11 de julho de 2014 às 08h02

Daniela Spadari Brandeburski

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Márcio Matos

11 de julho de 2014 às 00h39

Todo esforço é pouco pra ruir esse império.

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Vitor

10 de julho de 2014 às 21h09

Discordo que o 7×1 é resultado direto de nossos melhores jogadores estarem na Europa… Em 2002 eles também não estavam? Os argentinos também não estão? Os holandeses tb, em sua maioria, não jogam na Holanda… Perdemos por muito mais incompetência do Big Phil que do fato de Neymar jogar no Barcelona!

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Marcelo Gonçalves

10 de julho de 2014 às 23h52

Uma pequena ajuda ao texto do Nassif. Castor de Andrade comanda treino do Bangu e é entrevistado por Tino Marcos https://www.youtube.com/watch?v=abBK48z3eME

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