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Caçando urubus

Por Miguel do Rosário

07 de agosto de 2014 : 11h18

Hoje é um bom dia para caçar urubus. Temos duas notícias econômicas realmente boas, e um contraponto importante.

*

1) Pibinho pode ser Pibão

A primeira notícia boa foi encontrada na página A14 da edição impressa do Valor. Por razões misteriosas, eles estão escondendo a matéria no site, e desconfio que o resto da imprensa tentará desesperadamente ocultar a notícia.

Vou copiar alguns trechos da matéria porque se eu disser com minhas palavras, meus adversários acharão que estou mentindo.

“Os dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA) de 2012, divulgados sem alarde pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no dia 24 de julho, mostram que a trajetória da indústria brasileira desde 2009 pode ter sido mais benigna do que aquela até agora contabilizada pelo Produto Interno Bruto (PIB). Pela pesquisa, o valor da produção industrial do setor de transformação cresceu entre 36% e 40% no acumulado desde 2009 (…)”

(…)

“No final de julho, o IBGE liberou os dados das pesquisas anuais da indústria, construção e comércio de 2012. Com base nessas três pesquisas – falta divulgar a de serviços -, a LCA recalculou o PIB dos últimos anos e concluiu que o crescimento desde 2009 (último dado definitivo) pode estar subestimado. A maior diferença aparece em 2012 e no setor de transformação.

O estudo elaborado pela LCA Consultores utilizou o critério de VTI e mostra que, em 2012, de acordo com a Pesquisa Industrial Anual (PIA), o segmento de transformação produziu R$ 900 bilhões, crescimento de 6,8% sobre 2011, em valores correntes. De acordo com o PIB, o valor adicionado do setor foi de R$ 480 bilhões, queda de 6,4% sobre o resultado de 2011. “Desde 2007, se olharmos para o PIB, a indústria andou de lado. Se olharmos para a PIA, ela continuou crescendo”, pondera Borges. “Os dados, olhados ao longo do tempo, mostram uma diferença muito grande de tamanho de setor e de dinâmica”, diz o economista.”

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Agora vou tentar explicar com minhas palavras.

A fonte da notícia são números oficiais incontestáveis do IBGE, os quais são avalizados pela LCA, uma das consultoras mais respeitadas no mercado, inclusive pela mídia (seus consultores aparecem quase todo dia na Globonews e nas colunas da Miriam Leitão).

Em resumo, a notícia informa que PIB cresceu bem mais do que se tem divulgado.

Mas como assim, dirão os incautos?

Explico.

Calcular a riqueza de um país não é um processo simples. Há milhares de variáveis que precisam ser levadas em conta.

O IBGE está no meio de um processo de profunda modernização da metolodologia usada para o cálculo do PIB. A nova metodologia é muito mais detalhada, confiável, mas os pesquisadores ainda não concluíram o processo de conversão.

Somente a partir de meados de 2015, os PIBs desde 2010 serão divulgados com a nova metodologia.

Mas já é possível antecipar alguns resultados. E todos apontam para PIBs maiores do que os divulgados. E impulsionados principalmente pela indústria de transformação, que é onde os pesquisadores do IBGE e da LCA identificaram as maiores distorções.

Segundo o novo cálculo, a indústria brasileira de transformação cresceu, nominalmente, mais de 40% de 2009 a 2012. Pela a metodologia antiga, ainda usada, ela teria crescido somente 4%.

Em valor, a indústria de transformação produziu R$ 902 bilhões em 2012 conforme a metodologia nova, mas somente R$ 480 bilhões pela antiga, já defasada (embora seja a usada hoje).

*

2) Terceiro mês seguido de deflação

A segunda notícia boa também peguei no Valor, mas já deve estar publicada em toda parte. A inflação em julho, segundo o IGP-DI, fechou em queda.

Pelo terceiro mês seguido. E puxada sobretudo pelo setor de alimentos.

Vou reproduzir apenas um pedacinho, para não cansá-los.

SÃO PAULO – O Índice Geral de Preços-Disponibilidade Interna (IGP-DI) voltou a cair em julho, terceiro mês seguido em que registra deflação. O indicador recuou 0,55% no mês passado, após registrar declínio de 0,63% em junho e queda de 0,45% em maio, informou a Fundação Getulio Vargas (FGV). No ano, o IGP-DI acumulou alta de 1,54% e, em 12 meses, avançou 5,05%.

Dos componentes do indicador geral, o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), que representa 60% da formação dos IGPs, caiu 1,01% em julho, seguindo baixa de 1,21% um mês antes. Os produtos agropecuários cederam 2,81% e os industriais, 0,34%. Em julho, as taxas negativas tinham sido mais acentuadas, de 2,97% e 0,52%, respectivamente.

*

3) Setor de autopeças: copo meio vazio ou meio cheio?

O contraponto que eu gostaria de apresentar refere-se à manchete do Globo de hoje.

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A manchete não está errada, mas é um terrorismo chinfrim. A produção de automóveis caiu 20% sobre o mesmo mês do ano passado, mas cresceu fortemente (17%) sobre o mês anterior, num sinal de recuperação.

A mentira se encontra, sobretudo, na falta de contextualização, o que leva o leitor a pensar que a indústria vive uma crise estrutural, ou mesmo terminal, o que não é verdade.

Eu fui no site da Anfavea, a associação que representa o setor, analisei inúmeras estatísticas, e baixei o Anuário de 2014.

Descobri que os últimos meses tem sido difíceis. Mas os números mostram um setor evoluindo de maneira intensa nos últimos anos, e um mercado consumidor ainda com um gigantesco potencial de crescimento. Eu separei alguns gráficos e tabelas. Faço comentários sob cada uma das tabelas.

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faturamento


Observe que o faturamento do setor, em números já deflacionados, cresceu de US$ 46 bilhões em 1995 para US$ 94 bilhões em 2012. O ano de 2013, não presente no Anuário de 2014, também foi positivo. Talvez haja um declínio em 2014, mas sem afetar a tendência geral de aumento de produção e faturamento.

A participação do setor de autopeças no PIB industrial passou de 13% em 1995 para 19% nos últimos anos.

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A produção em 2013 marcou um recorde histórico: 3,73 milhões de veículos, quase o triplo do volume registrado em 1993.

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A produção de veículos passou por uma descentralização profunda. Antes, tínhamos quase tudo concentrado em Minas e, sobretudo, São Paulo.  Em 1990, São Paulo concentrava 75% da produção nacional de veículos; em 2013, por 43%. Rio Grande do Sul, Paraná, Bahia, Rio de Janeiro e Goiás passaram a ser players importantes.

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A produção de máquinas agrícolas em 2013 triplicou desde o final dos anos 90.  O Brasil produziu 100 mil máquinas em 2013.

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Desde 2004, o Brasil tem sido um dos países cuja produção de autopeças mais tem crescido. Observe que EUA e Japão produziam 12 e 10 milhões de veículos ano em 2004; no mesmo ano, a produção brasileira era de 2,3 milhões. Em 2013, o Brasil produziu 3,7 milhões, aumento de 61% em 10 anos. Não é pouca coisa! Em 10 anos, ultrapassamos  Canadá, Espanha e França.

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A tabela acima mostra o potencial de consumo de automóveis do Brasil, e porque tantas empresas do setor continuam a investir por aqui. O número de habitantes por veículo na Argentina, para ficar num país de renda similar (e até mesmo inferior), é de 3,6 por carro. Aqui no Brasil está em 5,3. Nos países desenvolvidos, o índice fica entre 1 e 2 carros por habitante.

Naturalmente, temos que melhorar a infra-estrutura das nossas grandes cidades, principalmente introduzindo transporte ferroviário.

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A frota de veículos no Brasil estava estimada, em 2012, em 37 milhões de veículos. Nos EUA, é de 251 milhões. No Japão, com população inferior à nossa, em 109,2 milhões. Isso mostra bem o potencial enorme de vendas para a indústria de autopeças.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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23 comentários

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Eder Barbosa de Sousa

08 de agosto de 2014 às 16h51

Matéria maravilhosa. E assim que se faz jornalismo de verdade, noticiando e fundamentando a denúncia. Parabéns Miguel.

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flavio jose

08 de agosto de 2014 às 16h36

A ausência de amor próprio e vergonha na cara, acredito que não é especialidade somente no Brasil. Hoje a mídia é desacreditada em qualquer lugar do mundo. Claro que existe uma parte decente.

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Vitor

08 de agosto de 2014 às 11h12

Heitor, nem sei se a questão aqui é sazonalidade, mas sim que junho/14 foi um mês tenebroso para a produção de veículos… Qualquer comparação que se faça com esse mês, estará supervalorizada. Em junho foram produzidos 216 mil veículos. A última vez que um mês foi mais baixo, foi em jan/12, mas janeiro é normalmente o mais fraco do ano. Para vermos quanto esse ano está ruim na produção de veículos, é só analisarmos que a produção de julho/14 (253 mil), que Miguel está exaltando só é melhor que a produção de julho de 2006. Em 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2012 e 2013 a produção de julho foi melhor que isso. Baixe os dados da Anfavea e analise. O ano já não estava muito bom até maio, mas no acumulado de maio ainda estava melhor que 2012, por exemplo. Em junho e julho a coisa degringolou mais, portanto não vejo recuperação nenhuma, ao contrário do nosso grande Miguel. Pra mim, bola fora dele nessa. Quis brigar com os números!

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    Miguel do Rosário

    08 de agosto de 2014 às 14h05

    Se aumentou 17% sobre o mês anterior, como não houve recuperação? O presidente da anfavea deu declarações otimistas para o segundo semestre e os investimentos estrangeiros no setor continuam a fluir. Note contudo que eu sempre alerto para a necessidade de criar uma industria ferroviária para q não haja essa dependência do desempenho de meia dúzia de montadoras e seus carros cada vez mais caros e inacessíveis a classe trabalhadora.

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      Vitor

      08 de agosto de 2014 às 16h08

      Miguel, houve recuperação em relação ao mês anterior porque o mês anterior foi muito ruim. Você tá parecendo o PIG, isso é verdade, mas não é o mais importante. É muito mais relevante dizer que a indústria vive um momento ruim, com junho e julho bem abaixo do normal, em comparação com anos anteriores. Desculpe, mas nesse caso acho a análise do Globo melhor que a sua…
      Ah, eu também não estou triste que a indústria não vive um bom momento. As montadoras assaltam o brasileiro com a venda de carroças a preços de “possantes”… Seria muito bom termos um transporte ferroviário eficiente e uma malha de metrô realmente abrangente! Eu seria o primeiro a deixar o carro em casa, aliás, na concessionária. Não acho que o Governo age bem com os intermináveis benefícios para as montadoras, até porque não adianta inundar as ruas de carros para depois restringir seu uso como em SP…

      Responder

    flavio jose

    08 de agosto de 2014 às 16h42

    Vitor: Pelo visto você não conhece nada de estatística. Em qualquer curso é sempre ensinado o jogo sujo para melar a resultado final, bastando para isso efetuar comparações de períodos onde sempre vai haver uma lacuna para sujeira.

    Responder

      Vitor

      08 de agosto de 2014 às 16h47

      Sim, você tem razão! Mas no meu entendimento quem está melando o resultado final é o Miguel…

      Responder

luiz mattos

08 de agosto de 2014 às 10h19

Os sites estão sofrendo ataques a partir de Rondonia,fiquem alertas!

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sergio

08 de agosto de 2014 às 01h41

Temos 2 Brasil, um que está bem e o outro o da mídia urubu, que pode quebrar amanhã.

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Sandro

08 de agosto de 2014 às 00h25

O resultado em relação ao mesmo período do ano anterior é menor por conta da diminuição das exportações para a Argentina que compra a maior parte dos carros que exportados, e cresce em relação ao mês anterior por conta da prorrogação da incentivo de redução do IPI.
O certo é que esse setor da indústria brasileira continuará a chantagear o governo, com ameaças de demissões, para conseguir pra si mais benesses.

Responder

Francisco Milton Da Silva Neto

07 de agosto de 2014 às 23h17

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Responder

Vitor

07 de agosto de 2014 às 15h42

Miguel, muito bacana essa questão do PIB, vamos esperar pra ver os resultados ajustados lá na frente. Fiquei até um pouco espantado com o tamanho do buraco, como assim ninguém percebeu que tinha um “rombo” de R$ 422 bilhões na indústria de transformação? Meio esquisito isso…
A notícia da inflação tb é ótima, principalmente com queda nos alimentos, que é onde pega parte da população menos favorecida.
Tenho porém, um grande problema com o que escreveu aqui:
“A manchete não está errada, mas é um terrorismo chinfrim. A produção de automóveis caiu 20% sobre o mesmo mês do ano passado, mas cresceu fortemente (17%) sobre o mês anterior, num sinal de recuperação.”
É sério isso? Sempre quando a mídia compara algum índice com o mês/trimestre anterior e não com o mesmo período do ano que passou, vc é o primeiro a chiar (e com razão). E agora vc me vem com essa? Fiquei bastante surpreso, não esperava essa contradição sua… Tenho certeza que se por algum motivo tivesse crescido sobre o ano anterior e caído em comparação com o mês passado, você estaria falando em sazonalidade, igualzinho a Veja, a Folha, a Globo e o Estadão fazem… Já te disse isso, mas vou repetir: não seja um espelho sujo da grande mídia! Seja coerente em suas análises!

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    Miguel do Rosário

    07 de agosto de 2014 às 16h49

    Não. Há números que se comparam com o mês anterior e outros que se comparam com o ano anterior, e há os que precisam ser comparados aos dois.

    Responder

      Vitor

      07 de agosto de 2014 às 16h55

      E qual o critério que esse especificamente é melhor comparar com o mês anterior (um mês com menor número de dias, aliás)?

      Responder

        Heitor

        07 de agosto de 2014 às 20h23

        Já pensou em comparar junho e julho de 2013 e junho e julho de 2014 e eliminar a sazonalidade?

        Responder

revenger

07 de agosto de 2014 às 15h40

Houve também queda de 90% de vendas de ar condicionado desde maio até aqui! Biquínis e maiôs, sungas e roupas de praia também diminuíram significativamente nos últimos três meses, assim como está quase zero as vendas de ovos de Páscoa e de panetones!

Mas em São Paulo, com a jestão de Aquamin, aumentou muito as vendas de água mineral engarrafada!

Também a Sabesp, numa inovação inédita, está entregando água rica em sais minerais!

Responder

Rodrigo Toledo

07 de agosto de 2014 às 16h23

Muitos que vejo comentar aqui nao faz a menor ideia do que é pib, pib nominal, real..deflatores..alem disso..pib nao mostra distribuicao de renda..enfim….to doido para ver essa “novo metodo” do ibge para medir o pib.

Responder

Rodrigo Toledo

07 de agosto de 2014 às 16h19

1. Todo baixo pib é ruim. Nem todo crescimento dw PIB é bom: se a petrobras derramar oleo no mar e gastarmos tufos de dinheiro comprando servicos e equipamentos para despoluir, isso aumenta o pib, mas nao é aspecto dos mais positivos..2. Nova metodologia do IBGE? Será a mesma que nao considera desempregado quem rcebe bolsa familia ou seguro desemprego? Será a mesma logica que considera uma obra do PAC como “no prazo” qdo ela na verdade teve sua data de conclusao postergada 2, 3 vezes?? O Cafezinho, por mais parcial que voce seja, nao se esqueca que tem alguma pessoas que o acompanham que tem cultur e formacao suficiente para nao ser ludibriada, ok ?

Responder

    sergio m pinto

    08 de agosto de 2014 às 06h42

    Se O Cafezinho é considerado parcial, o que dizer do resto da mídia nativa? Conta aí onde o pessoal que tem cultura e formação vai buscar informações.

    Responder

Marcos Paulo

07 de agosto de 2014 às 13h15

Que o PIB brasileiro está subestimado eu sempre soube. Não é possível um país crescer entre 1 e 1,5% ao ano e manter uma taxa de desemprego em torno de 5%. Logo, só mesmo um erro no cálculo do PIB para explicar isso.

Responder

Roberto Marconi De Macedo Filho

07 de agosto de 2014 às 15h44

Belo levantamento.

Responder

Pedro GOmes

07 de agosto de 2014 às 14h27

kkkk. ta se superado… (Y)

Responder

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