Comentários sobre o áudio vazado de André Esteves (BTG Pactual)

Algumas especulações geopolíticas

Por Miguel do Rosário

22 de maio de 2015 : 18h15

Antes de reproduzir uma notícia importante, sobre a aprovação na Câmara do banco dos Brics, permitam-me algumas especulações.

Algumas podem parecer paranoicas, mas estamos diante de uma virada geopolítica tão grande, com movimentos tão definidos, que podemos nos dar ao direito de suprir o que não sabemos com um pouco de imaginação.

Mesmo que nos faltem elementos para fechar o quebra-cabeça, isso não afetará o resultado final da análise, que é baseado em fatos: a China está trazendo para o Brasil os recursos que os EUA estão tirando. Exemplo: enquanto o sistema judiciário americano tenta ferrar a Petrobrás, a China está assinando acordos sucessivos para emprestar dinheiro à estatal, já anunciou investimentos aqui da ordem de R$ 200 bilhões para cima, e acertou com o Brasil a criação do banco dos Brics, que alocará outros bilhões na infra-estrutura brasileira.

Passei uma tarde inteira, na quarta, conversando com parlamentares, da Câmara e do Senado, e uma das teorias que circulam naqueles ambientes é a seguinte: a conspiração midiático-judicial-tucana para destruir a cadeia de indústrias do setor de petróleo é financiada pelos EUA, em especial pelas indústrias Koch, de propriedade dos irmãos Koch, os empresários mais ricos dos Estados Unidos.

Os irmãos Koch atuam em quase todas as etapas do setor, e são grandes especuladores no mercado mundial de petróleo.

Os Koch são ainda os principais financiadores do partido republicano, em especial de suas franjas mais radicais, como o Tea Party.

Outra teoria, e essa é a mais plausível de todas, porque há mais fatos: vários desses grupos “jovens”, que organizam marchas antigoverno no Brasil recebem dinheiro americano. Vem pra rua, Revoltados on Line, Movimento Brasil Livre, essa turma toda recebe, em alguns casos até sem o saber, dinheiro dos Koch ou de outro grupo vinculado à direita americana e às suas empresas de petróleo.

Os irmãos Koch fazem lobby pelo fim da lei de conteúdo nacional, e pelo fim do monopólio da Petrobrás como operadora, para que eles mesmo possam oferecer seus serviços e produtos à Petrobrás. Ou mesmo substituir a Petrobrás.

Corre à boca pequena no congresso que os tucanos não estão preocupados com a crise na cadeia de indústrias ligada ao petróleo e à construção civil, sob ataque político violentíssimo de setores conspiracionais do Ministério Público, porque o dinheiro deles já está garantido pelo Tio Sam.

O alto tucanato foi aos EUA, dias atrás, e seus membros foram homenageados num regabofe com bilionários.

Não me entendam mal. Ao contrário do clichê que se tem de um blogueiro progressista, não sou nenhum esquerdista antiamericano. Ao contrário, acho que o Brasil deveria desenvolver muito mais parcerias com os EUA, sobretudo nos campos da tecnologia da informação, ciências e cultura.

Mas evidentemente não faz sentido destruir a indústria brasileira de petróleo e substituí-la por empresas controladas pelos irmãos Koch, que representam o que existe de mais golpista, corrupto e reacionário nos EUA. Se existia corrupção na relação entre as indústrias brasileiras e a Petrobrás, com a entrada dos Koch essa corrupção seria alçada a uma magnitude muitíssimo superior.

A relação entre o dinheiro americano e a política brasileira ficou clara durante as eleições de 2014. Sempre que Dilma caía nas pesquisas, as ações da Petrobrás subiam, empurradas por pressões especulativas exercidas a partir da bolsa de Nova York.

O capital internacional, que ainda existe e não é delírio de mentes paranoicas esquerdistas, tem sede nos EUA e defende, em primeiro lugar, os interesses econômicos e políticos dos EUA.

É aí que mora o problema: os EUA nunca tiveram uma visão generosa para com o Brasil, porque nunca dependeram de nós para nada. Com exceção, talvez, do café, que não tem importância estratégica nenhuma.

Já a China realmente precisa do Brasil, porque depende de nossos produtos agropecuários e minerais. Interessa à China que o Brasil se mantenha forte, estável e em crescimento, com uma política independente dos EUA, e por isso ela está ajudando o Brasil a superar a atual crise.

Os fundamentos da indústria brasileira foram lançados na década de 40, quando o então presidente Getúlio Vargas usou a geopolítica da época para obter grandes financiamentos dos EUA.

Dilma está fazendo a mesma coisa. Está jogando o jogo macro da geopolítica para trazer ao Brasil grandes investimentos em infra-estrutura.

E de quebra ainda conseguirá desinfetar a maioria dessas conspirações midiático-judiciais, cuja principal arma seria espremer e ressecar a economia brasileira.

A história do poder americano sugere fortemente que mantenhamos o nível de paranoia em estado de alerta. Mas se quisermos nos ater estritamente aos fatos públicos, nossa análise não muda muita coisa.

Em termos gerais, as pressões políticas que vem dos EUA continuam negativas. E não é porque os EUA são malvados e os chineses, bonzinhos.

Os EUA, à diferença da China, não têm interesse, por exemplo, em financiar a nossa infra-estrutura.

No frigir do bolinho de arroz, isso é o que importa: obter recursos, muitos recursos, para financiar nossos trens, metrôs, portos e estradas.

Conseguimos isso com a China, o que forçará os EUA a também alocarem recursos aqui, se não quiserem perder influência e negócios.

Enfim, parece que Dilma, desta vez, soube ficar do lado certo do vento.

Leia a notícia abaixo. É de hoje.

*

No site do PAC.

Câmara aprova Banco do Brics que tem como prioridade financiar infraestrutura

22 de Maio de 2015

O plenário da Câmara dos Deputados aprovou nesta quinta-feira (21) a criação de um banco de desenvolvimento com atuação internacional ligado ao Brics – bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Os países representam 42% da população mundial, 26% da superfície terrestre e 27% da economia mundial. O principal objetivo do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) é financiar projetos de infraestrutura e de desenvolvimento sustentável – públicos e privados – dos próprios membros do bloco e de outras economias emergentes.

O NBD será uma instituição aberta a qualquer membro das Nações Unidas. Os sócios fundadores, no entanto, manterão poder de voto conjunto de pelo menos 55%. Além disso, nenhum outro país individualmente terá o mesmo poder de voto de um membro dos Brics.

Para o secretário de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MP), Claudio Puty, a aprovação do banco representa uma nova fonte de recursos para financiar projetos em áreas estratégicas aos países do bloco. “O investimento em infraestrutura é essencial ao desenvolvimento e à retomada do crescimento econômico brasileiro”, afirma. O secretário lembra que a criação do NBD “é ainda mais relevante em um momento que o Brasil está prestes a lançar um plano de investimentos em infraestrutura”, comentou. Os recursos da nova instituição, acredita o secretário, poderão ajudar no financiamento privado dos empreendimentos.

“Uma condição necessária ao planejamento de investimento de longo prazo é reconhecer os limites orçamentários que os países em desenvolvimento enfrentam. Assim é preciso buscar formas distintas e inovadoras de financiamento que combinem recursos públicos e privados. É nesse sentido que o NBD se institui como instrumento estratégico para o desenvolvimento dos países do bloco”, destaca Puty.

Capital

O acordo autoriza o novo banco a operar com um capital de US$ 100 bilhões. Este valor pode ser alterado a cada cinco anos pelo Conselho de Governadores, órgão máximo da administração do NBD, formado por ministros dos países fundadores.

Além dos empréstimos, o NBD poderá fornecer assistência técnica para a preparação e implementação de projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável aprovados pela instituição; criar fundos de investimento próprios; e cooperar com organizações internacionais e entidades nacionais, públicas ou privadas.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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25 comentários

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Vitor

25 de maio de 2015 às 10h49

Miguel, acho que suas conjecturas fazem sentido. A única ressalva que coloco é que vc já está contando com o dinheiro que ainda está na carteira dos chineses…
Eu sinceramente quero ver aonde exatamente os chineses irão investir e principalmente em quais condições…

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lao tzu

24 de maio de 2015 às 03h52

Se o Jogo é entre a China e os EUA, a merda da Dilma não joga nada, elaé só uma peça do xadrez geopolitico, ela não joga nada, é simplesmente usada neste jogo mundial!

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    Miguel do Rosário

    24 de maio de 2015 às 12h47

    Claro q joga!

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    Fábio Murilo Gil Brito

    25 de maio de 2015 às 20h52

    “Merdas” não jogam, camarada. No máximo se permitem jogar, e isso vale para a da Dilma ou para a sua, mesmo que você se considere um “GÊNIO”.

    Responder

paul moura

23 de maio de 2015 às 12h24

Olá Caríssimo Miguel,
O que foi classificado como paranoia pode estar tangenciando a curva de atuação dos BRICS.
Vejamos, o acordo de Bretton Woods, entre EUA e Grã-bretanha, foi a imposição americana para participar do ataque ao nazismo. A libra esterlina foi trocada pelo Dólar como meio de pagamento e reserva monetária internacional, depois colocado como “um pote de princípios” aos demais países signatários. Com o roubo da quebre do padrão-ouro, por Nixon em 1971, os americanos passaram a impor uma coroa de espinhos econômica a cada um de seus aliados. Favoreciam uns, como Japão e Coreia do Sul em detrimento de tantos outros.
Não é excelente você poder emitir um pedaço de papel em casa e ir ao supermercado e trocá-lo por um punhado de bens reais? Melhor não há!
Acontece que hoje, Miguel, os 5 maiores em desenvolvimento, já detêm um PIB (pela Paridade de Poder de Compra), maior que os 5 desenvolvidos.
Ou seja, produzem mais, e o lado da balança pende rapidamente para os BRICS. Considere, também, que dos 5 países com mais território, maior população e maior produção, 4 são BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China). Acrescente-se, que exceção feita ao Brasil, os outros são potencias nucleares e detentoras de tecnologia espacial equivalente ou superior as existentes no ocidente desenvolvido.
Em suma, as forças se emparelharam, tanto economicamente quanto em termos bélicos e de inovação tecnológica.
O que esta por trás de todos esses acordos, nossos, e de outros tantos realizados entre os BRICS, fundamentalmente esta transformando o mundo de “monopolar” em multipolar!
Ave BRICS, queiram ou não!

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Alexandre Maia Batista

23 de maio de 2015 às 13h03

além de uma nova moeda mundial…acontecerá mais cedo do que tarde…é só aparecer o momento dos países que tem reservas conseguirem se desfazer dessas…

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a vida como ela é

23 de maio de 2015 às 08h15

Delirium tremens

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Charles

23 de maio de 2015 às 04h08

Tio Sam, a sua casa está caindo e logo vamos chutar o seu traseiro!!!
O maldoso e defasado Capitalismo (responsável pela crise econômica global) está com seus dias contados, precisamos de um “novo sistema econômico” mais forte e justo.?

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Isadora Bonder

23 de maio de 2015 às 05h38

Bingo, super certeiro o raciocínio Miguel, finalmente saímos dos desmandos FMI; Dilma foi, está sendo uma enorme estrategista; com o BRICS vamos evoluir, e muito!!!

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Lauri Guerra

23 de maio de 2015 às 02h22

Para quem tiver interesse aqui vai um site de boicote aos (e produtos dos) irmãos Koch: http://www.boycottkochbrothers.com/

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Lauri Guerra

23 de maio de 2015 às 02h02

Os irmãos Koch estão para a política americana assim como a Krupp, Siemens, etc, estiveram para o hitlerismo. Jogam o mesmo jogo que aqueles e pelas mesmas razões. Andam de braços dados com o fascismo como forma de melhor defender seus interesses particulares, decorrentes de uma visão de mundo de senhores de escravos. Os Koch alinham-se com e financiam o que há de pior na direita americana e praticam o que há de pior no jogo político anti-democrático. Desdenham da democracia, apenas valem-se de mecanismos formais para assaltar o poder.
Nas ações no exterior coordenam-se com os serviços de inteligência (na verdade de espionagem e conspiração) que tem como principal característica ser um antro de fascistas a serviço do complexo industrial-militar, das petroleiras e dos financistas.
Aliás, gente destes mesmos setores da espionagem e repressão, por serem cidadãos americanos, em grande número participam da vida politica americana abraçados ao extremismo de direita, onde se aglutinam com os mesmos grupos que os Koch financiam.

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Valter Moreira Figueiredo

23 de maio de 2015 às 01h54

O MUNDO NÃO É O EUA e EUROPA .

Responder

Valter Moreira Figueiredo

23 de maio de 2015 às 01h54

O MUNDO NÃO É O EUA e EUROPA .

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Dilton Marinho Dos Santos Filho

23 de maio de 2015 às 00h02

Não adianta nada ser esquerda ou direita! O nosso jornalismo se agarra a quaisquer modismos idiotas (Geralmente criados pelos imbecis da globosta), do tipo: A aprovação “Na Câmara do banco dos BRICs”, em vez de : “A aprovação do banco dos BRICs na Câmara”. A entrada “No campo do Flamengo”, em vez de: “A entrada do Flamengo no campo”. Uma vez que, o campo não pertence ao Flamengo, ninguém, nem mesmo o Flamengo, entra no campo do Flamengo, que seria a Gávea. Assim também, os BRICs não tem Câmara, logo, não houve “Aprovação na Cãmara do banco dos BRICs”.

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    Farias Furtado

    23 de maio de 2015 às 10h54

    Dói dizer mas, as ordens de alguns tratores não modificam os viadutos , assim como , as dos fatores não alteram o seu produto !

    Responder

    Dilton Marinho Dos Santos Filho

    23 de maio de 2015 às 14h38

    Altera querido. E muito! Entrar no Campo do Flamengo, significa que: O Clube de Regatas do Flamengo, é o dono do campo. E, “Entrar o Flamengo no campo”, significa que o time do flamengo entrou em um campo qualquer, seja Maracanã, Engenhão, Moça Bonita, ou qualquer outro. Pelo menos, dessa forma eu aprendi na ESPM (Onde me formei publicitário), e, por conseguinte, homem de criação, inclusive de textos, e revisor.

    Responder

Sylvio Souza

22 de maio de 2015 às 23h14

Gosto das suas análises, porém às vezes sua visão é tipicamente ‘latina’, cheia de ’emoção’, idéias lúdicas……a ‘coisa’ normalmente não anda nesses caminhos.

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Lilana Lima

22 de maio de 2015 às 22h56

Parabéns pela “paranoia”

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Asdrubal

22 de maio de 2015 às 19h43

Interessante.

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emerson57

22 de maio de 2015 às 19h41

Eu desconfio de outra coisa:
A China é o maior credor dos EUA.
Isso significa ficar com muito dólar em caixa.
O Brasil está rico, sentado sobre o pote de ouro (pré sal).
Natural que a China queira distribuir os seus ovos em várias cestas.
E o histórico do Brasil é de honrar os seus compromissos e de estabilidade.

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Sandra Francesca de Almeida

22 de maio de 2015 às 22h23

Paranoia nada, Miguel. Pura realidade.

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mineiro

22 de maio de 2015 às 19h05

mas é ai que mora o problema , a fabricaçao de escandalos e golpes orquestradas por esses lacaios assassinos de democracia fazem. é uma noticia otima para nos todos da china investir no brasil . mas a banda podre de alguma forma a mando dos lacaios americanos dao um jeito de fabricar um escandalo em cima disso , pode ter certeza. nao tem jeito , tem que enfrentar o judiciario e o pig, caso contrario vai ser assim ate quando governos contrarios a eles ou fingem que é , no caso dessa que esta ai govenando , estiverem no poder. nao vai mudar nada , dessa corja golpista nao pode esperar outra coisa.

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Mauricio Gomes

22 de maio de 2015 às 18h45

Miguel, acho que se vasculharem a vida dessas figuras, como o tal do Rogério “cheque sem fundos” vai aparecer muita sujeira. Ele apareceu em um e-mail suspeito vazado pelo wikileaks, se não estou enganado. Viveu a vida toda nos EUA e de repente aparece aqui do nada, como herói da pátria. Aí tem…..

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Sueli Maria Pereira

22 de maio de 2015 às 21h43

Tem toda a elite americana atrás desses Koch… deu prá eles todinhos…finish…The End

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Débora Mustafá

22 de maio de 2015 às 21h28

Ótima análise!

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