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Thomas Piketty: “Bernie Sanders pode mudar a face dos Estados Unidos”

Por Redação

17 de fevereiro de 2016 : 05h02

“O sucesso de Sanders mostra que hoje grande parte da América está cansada do aumento da desigualdade social”, diz Piketty (tradução livre)

por Carlos Eduardo, editor-assistente do Cafezinho

Em seu último artigo, publicado esta semana no Guardian, o famoso economista francês Thomas Piketty, autor do célebre livro O Capital no século XXI, afirma que o candidato presidencial pelo Partido Democrata, Bernie Sanders, pode finalmente despertar a elite econômica e o establishment político norte-americano para o crescente problema da desigualdade social que assola os Estados Unidos e o mundo, desde a crise de 2008.

“A campanha Sanders pode mudar a face dos Estados Unidos”, diz Piketty. (tradução livre)

Assim como já falei em artigo anterior publicado aqui no Cafezinho, Piketty também acredita que a eleição de Bernie Sanders pode representar o fim de um ciclo político-ideológico, iniciado na década de 1980 com a vitória de Ronald Reagan.

Para o filósofo americano Noam Chomsky, o que Bernie Sanders propõe nada mais é que um retorno à Era New Deal, do ex-presidente Franklin D. Roosevelt, quando os bancos eram altamente regulados pelo governo e o Estado promovia políticas de distribuição de renda.

Eu sei que Bernie Sanders se autodenomina como um “socialista democrático”, mas daí dizer que ele é um socialista bolivariano, com pretensões de estatizar todos os setores da economia, como dizem alguns de seus críticos, é uma palhaçada sem pé nem cabeça.

Os pais fundadores da nação americana (tradução livre para Founding Fathers of the United States) escreveram uma vez que os Estados Unidos não deviam repetir os erros da velha Europa monárquica, onde o rei e uma pequena aristocracia detinham toda a riqueza do país, enquanto o resto do povo sofria.

Tanto o ex-presidente Bill Clinton, quanto o atual presidente Barack Obama, foram incapazes de aprovar no Congresso americano uma reforma tributária mais justa, com menos impostos incidindo sobre a classe média e os pobres, e mais taxas sobre o capital financeiro — que além de não criar emprego e renda, paga pouco ou quase nada em impostos.

“Grande parte da América está cansada da crescente desigualdade social e quer reviver tanto a agenda progressiva, quanto a tradição americana de igualitarismo do passado”, diz Piketty. (tradução livre)

Sanders já deixou claro que pretende restaurar a tributação progressiva e dobrar o salário mínimo de US$ 7.25 para US$ 15.00 a hora de trabalho. Só isso já seria uma pequena revolução progressista, visto que dificilmente ele conseguirá passar todas as suas dez propostas para a economia em um único mandato, caso eleito.

Mas Sanders ainda defende duas propostas bem realistas, que podem passar com certa facilidade no Congresso americano: o acesso universal e gratuito à saúde pública; e subsídios para os filhos da classe média poderem estudar nas universidades norte-americanas, acabando de uma vez por todas com o crescente abismo entre pobres e ricos, num país onde a desigualdade no acesso à educação atingiu níveis sem precedentes.

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Antes: ‘o cachorro comeu meu dever de casa; Depois: ‘meu empréstimo estudantil comeu meu futuro’

Na prática, o discurso de meritocracia só vale para aqueles que conseguem pagar em média US$ 29.000 ao ano, para ter um diploma de ensino superior — o equivalente a R$ 117.000 ao ano, em valores atuais. Quem pode pagar por isso? Não é à toa que hoje nos Estados Unidos 40 milhões de formandos devem aproximadamente US$ 1.2 trilhão em empréstimos estudantis e esse número não para de crescer.

Abaixo segue o artigo de Thomas Piketty, publicado no Guardian. Lembrando que apesar da minha fluência em inglês, não sou nenhum tradutor. A tradução é livre.

***

Thomas Piketty sobre a ascensão de Bernie Sanders: Os Estados Unidos entram numa nova era política

por Thomas Piketty, no Guardian | Tradução: Carlos Eduardo

Como podemos interpretar o incrível sucesso do “socialista” Bernie Sanders nas primárias norte-americanas? O senador de Vermont está agora à frente de Hillary Clinton entre os eleitores democratas abaixo dos 50 anos, e é graças à geração mais velha que Clinton ainda mantém a liderança nas pesquisas.

Por estar enfrentando a máquina de Clinton, assim como o conservadorismo da mídia, Sanders pode não ganhar a corrida presidencial. Mas já está demonstrado que um outro “Sanders” — provavelmente mais jovem e menos branco — pode em breve ganhar as eleições presidenciais dos EUA e mudar a cara do país. Em muitos aspectos, estamos testemunhando o fim do ciclo político-ideológico aberto pela vitória de Ronald Reagan nas eleições de 1980.

Vamos relembrar o passado por um instante. A partir dos anos 1930 até os anos 1970, os EUA estavam na vanguarda de um ambicioso conjunto de políticas públicas destinadas a reduzir as desigualdades sociais. Em parte para evitar qualquer semelhança com a velha Europa, vista então como extremamente desigual e contrária ao espírito democrático norte-americano. Nos anos entre-guerras o país inventou um imposto de renda e sobre a propriedade altamente progressivo, nunca antes visto no nosso lado do Atlântico. De 1930 a 1980 — durante meio século — a taxa para aqueles de maior renda dos Estados Unidos (mais de US$ 1 milhão por ano) foi em média de 82%, com picos de 91% de 1940 para 1960 (de Roosevelt a Kennedy), e esta taxa era de 70% durante a eleição de Reagan em 1980.

Esta política de modo algum afetou o forte crescimento da economia americana do pós-guerra, sem dúvida porque não havia razão em pagar US$ 10 milhões para CEOs, quando US$ 1 milhão bastavam. O imposto de propriedade, que foi igualmente progressivo com taxas aplicáveis ??as maiores fortunas na faixa de 70% a 80% ao longo de décadas (essa taxa quase nunca excedeu 30% a 40% na Alemanha ou França), reduziu consideravelmente a concentração de renda norte-americana, sem a destruição e as guerras que a Europa teve de enfrentar.

Um capitalismo mítico

Na década de 1930, muito antes de os países europeus seguirem o modelo americano, os EUA também montou um salário mínimo federal. No final dos anos 1960 era de US$ 10 por hora (em valores atuais), de longe, o maior de seu tempo.

Tudo isso foi realizado quase sem desemprego, uma vez que tanto os níveis de produtividade e do sistema de ensino permitiam o crescimento. Este é também o momento em que os EUA finalmente colocaram um fim à discriminação racial antidemocrática que persistia institucionalizada no sul, e lançou novas políticas sociais. Toda essa mudança provocou uma oposição ferrenha, particularmente entre as elites financeiras e a franja reacionária do eleitorado branco.

Humilhada no Vietnã, a América dos anos de 1970 era ainda mais preocupada com os perdedores da Segunda Guerra Mundial (Alemanha e Japão na liderança) e por isso foi rapidamente alcançada por outras nações.

Os EUA também sofreu com a crise do petróleo, a inflação e a sub-indexação dos impostos. Surfando as ondas de todas essas frustrações, Reagan foi eleito em 1980 com um programa que prometia restaurar um capitalismo mítico, que este dizia ter existido no passado.

O culminar deste novo programa foi a reforma fiscal de 1986, encerrando em meio século um sistema fiscal progressivo, e baixando os impostos dos mais ricos para 28%.

Os democratas nunca contestaram de fato as escolhas de Bill Clinton (1992-2000) e Barack Obama (2008-2016), que estabilizaram a taxa de tributação em torno de 40% (duas vezes menor do que o nível médio para o período 1930-1980). Isto provocou uma explosão de desigualdade, juntamente com altos salários para uma pequena elite de super-gestores, bem como uma estagnação das receitas para a maioria da população — que foi acompanhado por um baixo crescimento.

A agenda progressista

Reagan também decidiu congelar o nível do salário mínimo federal, que no período de 1980 foi lentamente corroído pela inflação (pouco mais de US$ 7 por hora em 2016, contra cerca de US $ 11 em 1969). Mais uma vez, este novo regime político-ideológico não foi mitigado nos anos Clinton e Obama.

O sucesso de Sanders mostra que hoje grande parte da América está cansada da crescente desigualdade e pretende reviver tanto uma agenda progressiva, quanto a tradição americana de igualitarismo do passado. Hillary Clinton, que se posicionou à esquerda de Barack Obama em 2008, sobre temas como seguro saúde, aparece hoje como representante do status quo, apenas uma outra herdeira do regime político Reagan-Clinton-Obama.

Sanders deixa claro que quer restaurar a tributação progressiva e um salário mínimo mais elevado (US$ 15 a hora de trabalho). Ele acrescenta ainda acesso gratuito à saúde pública e de ensino superior, num país onde a desigualdade no acesso à educação atingiu níveis sem precedentes, com destaque para um abismo permanente entre as vidas da maioria dos americanos, e os discursos meritocráticos pronunciados pelos vencedores do sistema.

Enquanto isso, o Partido Republicano se afunda em uma onda anti-imigrante, hiper-nacionalista, e discursos anti-islâmicos (mesmo o Islã não sendo uma grande força religiosa no país) e uma glorificação ilimitada da fortuna acumulada por brancos ricos. Os juízes nomeados sob Reagan e Bush não impuseram qualquer limitação legal sobre a influência do dinheiro privado nas campanhas políticas, o que dificulta muito a tarefa de candidatos como Bernie Sanders.

No entanto, novas formas de mobilização política e financiamento, como o crowdfunding, podem prevalecer e empurrar a América para um novo ciclo político. Estamos longe de alcançar profecias sombrias sobre o fim da história .

Este artigo foi publicado originalmente no Le Monde, em 14 de Fevereiro 2016.

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17 comentários

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Carolina Ferraz

17 de fevereiro de 2016 às 22h55

Felipe Araújo

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João Vieira Soares

17 de fevereiro de 2016 às 22h36

Ao pig com carinho, CHUPAAAAAAAAAÁAAAAAAA !!!

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Regina Nilson Filho

17 de fevereiro de 2016 às 21h33

Se for pra tornar -se um país mais justo com seu pp. povo, deixar de ser ganancioso e não agir visando somente o seu enriquecimento, através da desgraça de muitos; que vá respeitar a liberdade e os direitos humanos de outras Nações, então, decididamente, ele não será eleito!

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Gabriel Fortes

17 de fevereiro de 2016 às 21h20

UP Bernie Sanders

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Luiz Otavio Faria

17 de fevereiro de 2016 às 18h12

A verdade aparece.

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Bárbara Silva

17 de fevereiro de 2016 às 17h00

Acho que o Sanders será assassinado se ficar claro que vai chegar à presidencia. Ele tem cara de ter mais pulso pra mudar as coisas. Isso seria ótimo pros eua, mas péssimo pro proprio sanders a nível de integridade física…

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Lilana Lima

17 de fevereiro de 2016 às 15h16

Quem sabe, novos ares estão surgindo? Fazem até parte da natureza essas mudanças! Sinas podem ser revertidas, felizmente!

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Mauricio Cardoso Bento

17 de fevereiro de 2016 às 13h59

Então vai Ovelha.

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Frederick Haendel

17 de fevereiro de 2016 às 13h28

Isso se depois de hipoteticamente eleito, Sanders não ceder aos interesses do mercado financeiro. Veremos!!!

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Alberto Gomes

17 de fevereiro de 2016 às 12h10

Democratas ianques à esquerda do PT. Quem diria!!

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Maurizio Prati

17 de fevereiro de 2016 às 11h42

Se ganhar será que leva?

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Vera Lúcia Piesanti Molinar

17 de fevereiro de 2016 às 11h40

o problema é a CIA deixar ele mudar o atual status quo em que os grandes interesses financeiros e armamentistas é que determinam as decisões.

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Luiz Rosemberg Filho

17 de fevereiro de 2016 às 11h31

O Obama também prometeu mudar, acabar com a guerra que lhe deu um NOBEL e não deixaram. As guerras continuam e o processo de destruição muito mais requintado contra as populações. Poder é algo muito podre e lá é o espelho do mundo. Por que iriam deixá-lo mudar?

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Marcos Marcos

17 de fevereiro de 2016 às 11h19

Sanders, é um bom exemplo para frear a estupidez abraçada por FHC e a imprensa brasileira.

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    Az Botelho Paiva

    17 de fevereiro de 2016 às 13h42

    Vocês petistas não perdem a velha mania de desvirtuarem o assunto, e trazerem o nome do FHC à baila, não é mesmo? Seria um amor Platônico? Ah para oh!!!

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