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As lições do Padre Vieira para o governo Dilma

Por Miguel do Rosário

25 de fevereiro de 2016 : 17h44

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Análise Diária de Conjuntura – 25/02/2016

Não houve entrega do pré-sal. Ainda não.

Mas houve uma primeira investida, quase um teste de forças, vencido pela oposição, com ajuda de um governo tão acostumado a fazer gols contras, que passou a achar que o próprio gol é mesmo contra o qual se deve chutar a bola.[/s2If]

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O que se discutia, concretamente, era a obrigatoriedade da participação mínima de 30% da Petrobrás na exploração de novos campos.

Ao cabo, aprovou-se um substitutivo que é um meio termo entre os temores nacionalistas da esquerda e as ânsias entreguistas da oposição. Esta última tinha como objetivo enfiar uma cunha (sem trocadilho) anti-Petrobrás na exploração do pré-sal e, com isso, trazer para o cenário político toda uma nova gama de financiadores clandestinos de suas campanhas.

Uma característica interessante e emblemática do substitutivo aprovado é que a decisão, de tirar ou não a Petrobrás da exploração de novos campos, ficará em mãos do presidente da república.  A esquerda, insegura em relação aos resultados eleitorais de 2018, viu isso com maus olhos. Sentiu-se enganada pelo Senado e traída pela presidenta. E se Aécio ganhar em 2018, não é claro que ele usará essa prerrogativa justamente para entregar o pré-sal aos estrangeiros?

A existência desse dispositivo tem – repito – grande utilidade prática para os planos eleitorais da direita. Ele viabiliza o acesso, aos candidatos que apoiarem abertamente a entrega do pré-sal aos estrangeiros, a uma quantidade infinita de recursos, via caixa 2, para levarem adiante suas campanhas políticas, tanto em 2016 quanto em 2018.

Com a proibição das doações empresariais no Brasil, e as empreiteiras sob o facão do Judiciário, os candidatos da direita não hesitarão em pegar dinheiro lá fora, através das Mossack Fonseca da vida.

É muito perigoso dar esse poder ao presidente da república, porque abre um novo campo de tentações bilionárias aos entreguistas – e tentações não respeitam ideologia.

Uma decisão destas precisa estar expressa em lei. Não poder ser prerrogativa de um presidente.

Mesmo assim, a interpretação de que foi um recuo estratégico do governo também não está errada, porque sempre voltamos à política.

A política é a única coisa que importa, a única coisa que pode nos salvar ou nos perder, pois se a direita ganhar em 2018, e mesmo que não houvesse uma lei como essa aprovada ontem, ela poderia fazê-lo em duas semanas.

Há um lado bom, afinal, em haver convergência entre o Planalto e Renan Calheiros. O Brasil precisa vencer seus impasses políticos, superar a crise, e a criação de um espaço harmônico entre Planalto e Senado tem um valor inestimável.

Dilma pode usar o pensamento lampedusiano, mudou uma lei para que tudo continue o mesmo.

O governo já está fazendo, de alguma maneira, uma transição de poder, deslocando-o para o PMDB, fazendo concessões para evitar o pior, a quebra da lei da partilha.

O PMDB é poder. Foi errada a estratégia palaciana de ter junto a si um PMDB “decorativo”.

É inútil, de qualquer forma, sermos fatalistas.

O projeto de lei ainda percorrerá um longo caminho até ser sancionado, e sempre pode ser revertido, no caso de mudança na conjuntura, tanto política quanto do mercado de petróleo.

Quando baixar toda a justa gritaria dos sindicalistas (é obrigação deles desempenhar esse papel no jogo), ver-se-á que tudo continua na mesma.

A Petrobrás continuará, por muitos anos, a explorar sozinha ou com seus 30% garantidos, todas as reservas do pré-sal.

Até porque, no momento, não há ninguém querendo investir em novas explorações, visto que o mercado de petróleo enfrenta justamente excesso de produção e estoques.

Há um pouco de teatralidade na gritaria da esquerda. Uma teatralidade saudável, necessária, mas que disfarça a sua falta de criatividade em se tratando de oferecer horizontes à sociedade.

Perdida, confusa, ferida, por causa da violência semiótica e política de que tem sido alvo, dia após dia, há anos, sofrendo o inevitável desgaste junto à população, pelos treze anos de poder executivo contínuo, com gravíssima crise de criatividade, a esquerda partidária-sindical se agarra desesperadamente a questões como essa como a uma tábua de salvação para seus problemas de identidade.

Olhem para nós, somos realmente a esquerda, nós defendemos o pré-sal, gritam os chefes sindicais.

De fato, esse é um fator que ajuda a polarizar saudavelmente a sociedade brasileira.

O que pode existir de negativo, quando falamos em teatralidade, é que falta à esquerda um projeto estratégico mais palpável para mostrar à opinião pública.

Quais são os planos da esquerda organizada para questões de mobilidade urbana?

De qualquer forma, o que não parece prudente a ninguém é que, num momento tão frágil, o governo ainda se dê ao luxo de vender a sua reduzida e declinante – embora organizada e barulhenta – base social e parlamentar, em troca de… de quê?

De apoio no parlamento contra o impeachment?

Para isso não dependerá essencialmente de sua própria base social e parlamentar? Claro, sua base parlamentar será contra o impeachment de qualquer forma, mas a base social precisa ser estimulada, evidentemente. Com o avanço do golpismo e com a mídia praticando um desavergonhado terrorismo político contra os setores do Estado renitentes às suas vontades, as ruas permanecem a última esperança da democracia. Se o governo perder totalmente seu carisma, perderá as ruas, e abrirá espaço para o golpe.

O pecado do governo, portanto, é sua ausência do debate político. Os posicionamentos do governo deveriam ser claros.

Até mesmo suas “traições”, ou sobretudo suas traições, deveriam ser devidamente explicadas para sua base e para a sociedade, através de um porta-voz e uma estratégia de diálogo constante com a sociedade.

Um diálogo diário, direto, franco, adulto, entre o governo e sociedade, e não aquela palhaçada do Dialoga.gov, que mobilizou energias e recursos e fracassou miseravelmente: tem 24 mil usuários num país de 205 milhões de habitantes (só o Cafezinho tem 5 vezes mais leitores por dia).

Expliquem, falem de geopolítica, de correlação de forças. Tentem dar algum esclarecimento!

Além disso, não podemos esquecer que o pré-sal mexe, de maneira muito profunda, com nossos horizontes e esperanças, ou seja, exatamente com aquilo que tanta falta nos faz hoje.

Vale recordar uma das lições do nosso querido padre Vieira: o pior pecado é o pecado futuro.

O governo Dilma tem de tomar muito cuidado ao tratar das questões do pré-sal, porque essas questões não são peças quaisquer no tabuleiro do jogo político.

Com o petróleo a preços baixos, o pré-sal apenas valerá a pena se a Petrobrás mantiver o virtual monopólio de sua exploração, refino e distribuição, porque a verticalização do negócio protegerá a indústria nacional de petróleo como um todo.

Uma coisa é a gente perdoar os pecados passados do governo, outra é aceitarmos os crimes contra nosso futuro.

Dizia o saudoso Padre Antônio Vieira, abrindo o Sermão 1 do Quarto Sábado da Quaresma:

“O maior mal de todos os males… não digo bem! – o mal que só é mal e sumo mal, é o pecado; porque assim como Deus por essência é o sumo Bem, assim o pecado, por ser ofensa de Deus, é o sumo mal. Mas se entre pecado e pecado, pelo que toca a nós, pode haver comparação e diferença, o pecado futuro é o pior e mais perigoso mal. O passado e o presente, porque foi e é pecado, é a suma miséria; mas o futuro, porque ainda há de ser, sobre ser a suma miséria, é o sumo perigo.”

No front econômico, o IBGE publicou dados do desemprego em janeiro. Houve aumento, de 6,9% em dezembro para 7,6% em janeiro. Mas 7,6% ainda está longe de ser uma desgraça.

***

Os dados do CNT/MDA trazem ótimos números para o governo, conforme já divulgamos em outro post hoje. É um pouco divertido ver que Aécio caiu nas “pesquisas”, por mais ridículo que seja fazer pesquisa para 2018 neste momento.

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A aprovação ao desempenho pessoal da presidenta, por sua vez, cresceu cinco pontos, o que não é grande coisa, e pode não significar nada se o governo não aprimorar sua comunicação com a sociedade.

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A prisão de João Santana não teve o efeito esperado pela Lava Jato. Criou-se um desconforto político muito grande na sociedade, não apenas para o governo, porque as críticas às arbitrariedades da Lava Jato se elevaram muito. A estranha coincidência de o projeto de lei contra a Petrobrás ser aprovado 2 dias depois da espetaculosa prisão de João Santana fizeram ainda muitos nacionalistas ficarem de orelha em pé em relação aos objetivos secretos da Lava Jato.

O Judiciário não é como o Legislativo ou o Executivo. Ele não tem condições políticas de suportar críticas tão pesadas como as que está sofrendo.

A sua reação até o momento diante das críticas, tem sido a de elevar seu nível de violência e autoritarismo, aprovando jurisprudências ainda mais severas e punitivistas, criminalizando até mesmo a advocacia.

O Judiciário age assim porque, diante das críticas de setores intelectuais, ele procura apoio da mídia e do populacho, a “mob”, como se referia Hannah Arendt.

Mas isso é uma armadilha. É uma espiral negativa cujo fim não é promissor para o Judiciário. Qualquer força que se apoia na “mob” não tem futuro.

O único resultado duradouro das Operações Mãos Limpas, não me canso de repetir, foi a aprovação da Lei Vassili, que pune juízes e procuradores que abusam de seu poder e tomam atitudes que prejudicam deliberadamente os cidadãos perseguidos pelo Estado.

Não se pode confundir o populacho, a “mob”, com o povo, o “people”, que é um conceito mais abrangente. A opinião do povo não pode ser captada por um retrato instantâneo de seus vícios, como faz a mídia, ao manipular pesquisas de opinião de acordo com seus interesses. A opinião do povo flutua ao longo do tempo, e sua tendência à punir se equilibra com sua compaixão.

Após 48 horas de muito bombardeio midiático, a prisão de Santana, até o momento, serviu mais para colar a pecha na Lava Jato de conspiração golpista do que para, efetivamente, servir ao golpe.

E se a prisão se esticar no tempo, sem apresentação de provas concretas de que há razões para manter Santana preso, piorará a impressão de que a Lava Jato inaugurou um Estado de Exceção no país.

E quanto mais é criticada, mais violenta e mais arbitrária terá que se tornar a Lava Jato para manter o controle sobre a narrativa, numa espiral de truculência que, definitivamente, não beneficia a operação, visto que ela não poderá prender um país inteiro nem quebrar todas as empresas brasileiras.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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3 comentários

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Antonio dert

26 de fevereiro de 2016 às 01h51

Desserviço… Eh isso que os blogs de esquerda estao fazendo no momento ao governo Dilma.

A Dilma está escrava de uma aliança Renan-serra… Se o Pre Sal eh nosso e somente alguns como Requiao, Dilma, Lula e ciro podem continuar a protege-lo agora e em 2018, nesse momento ha um ataque a eles e uma aliança ate mesmo de supostos aliados (Renan), quem tem que ir as ruas e protestar, ligar pros senadores, pros deputados SOMOS NÓS. Se o Pre sal eh tao importante pro povo, o povo tem que brigar por ele qdo seus representantes estao combalidos. Nesse momento o governo precisa da cavalaria, mas a cavalaria esta na internet criticando o governo

Responder

eros alonso

25 de fevereiro de 2016 às 22h03

Dilma não pode vetar?

Responder

    Miguel do Rosário

    25 de fevereiro de 2016 às 23h19

    Você não entendeu. Dilma articulou essa derrota. Foi um acerto com Renan Calheiros.

    Responder

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