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Os gritos de “Fora, Temer” e a solidariedade portuguesa à luta contra o golpe no Brasil

Por Miguel do Rosário

21 de maio de 2016 : 12h12

Foto: Mídia NINJA

Em Lisboa gritou-se “fora Temer” e “directas já”

No Público, de Portugal

Quis o acaso que a solidariedade portuguesa com os críticos do processo que afastou Dilma Rousseff da Presidência do Brasil contasse com várias vozes de sotaque fechado e nascimento tropical. Isabel Moreira e Miguel Tiago nasceram no Brasil. E agora são deputados em Lisboa, do PS e do PCP, respectivamente.

Gregorio Duvivier, o actor e humorista brasileiro (do colectivo Porta dos Fundos), que está com um espectáculo neste mesmo Teatro Tivoli, brincou com a revelação: “Isso explica o problema da democracia brasileira. Todos os bons deputados vieram morar aqui. Por isso eu vou pedir a repatriação do Miguel e da Isabel.”

Duvivier mostrou-se agradecido “pela fraternidade dos portugueses” e pela sala quase cheia do Tivoli, nesta tarde de sexta-feira. Nos camarotes uma frase exigia “golpe nunca mais”, enquanto que na sala vários dos presentes mostravam cartazes em defesa do Ministério da Cultura, extinto no novo Governo de Michel Temer, e pela “imparcialidade dos media”.

Joana Mortágua, deputada do BE, que escreveu o manifesto que convocou este encontro no Tivoli, justificou a fraternidade elogiada por Duvivier: “Nenhum povo se pode deitar à sombra dos direitos conquistados e assistir a um golpe noutro país.”

Apesar das diferenças, que o actor brasileiro fez notar, várias vezes, entre a situação dos dois países. “A democracia de vocês é mais amadurecida. Vocês reclamam muito da política aqui, mas é surreal a diferença”, insistiu Duvivier, alargando os elogios (por comparação) aos próprio media portugueses.

O encontro foi transmitido, em directo, para o Brasil, pelo colectivo Media Ninja. E um dos pontos altos foi a intervenção de Sérgio Godinho, que cantou, à capela, a sua canção “Democracia”, aquela que garante que “a democracia é o pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros”. Sérgio Godinho, muito elogiado por Duvivier, começou por citar uma crónica de Rui Tavares, no PÚBLICO, para garantir que “não temos nada a temer excepto o Temer”. Mas foi a jornalista Anabela Mota Ribeiro que pôs a sala a cantar o refrão da tarde: “O que aconteceu no Brasil é tão chocante, quase tão inverosímil, que temos de fazer tudo para pôr fora aquela gente. Fora Temer.”

O tom não foi de pesar, apesar de tudo. José Eduardo Agualusa vê “um lado bom em todo este processo: está a despertar consciências, há uma juventude em luta no Brasil.” E o próprio Duvivier garante que leva de Lisboa a frase que ouviu a um ouvinte português, num fórum radiofónico. “Quando os políticos nos fazem rir só nos restam os humoristas para nos fazer pensar.”

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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4 comentários

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Armando Monteiro

22 de maio de 2016 às 13h48

“Os gritos de “Fora, Temer” e a solidariedade portuguesa à luta contra o golpe no Brasil”. Depois os portugueses reclamam que são alvos de piadas dos brasileiros !

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Alexandre Moreira

21 de maio de 2016 às 13h47

“Quando os políticos nos fazem rir só nos restam os humoristas para nos fazer pensar.”

Se fosse essa a única contribuição dos irmãos portugueses, já seria muito válida.

É bom saber que não estamos sozinhos no mundo.

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    Octavio Filho

    21 de maio de 2016 às 17h56

    Eu acho que não dá para comemorar. Eu estou vendo o povo iludido pelas grandes mídias. A falta de comunicação do governo Dilma (e do Lula também) foi muito prejudicial à democracia. Os noticiários das grandes emissoras conseguiram iludir uma boa parte do povo com as suas mentiras. Pessoas, que eu tinha o maior conceito pelo seu nível de conhecimento, estão satisfeitos com o golpe, simplesmente porque o PT saiu do poder. Não estão nem aí pelo futuro que se revelará quando todas as estatais estiverem sido vendidas. O grande sustentador do golpe foi o Judiciário. Então, deduz-se que ele está todo comprometido com esta ditadura. Como um juiz não é eleito, não podemos simplesmente retirá-lo do poder até a sua aposentadoria. Como uma democracia pode suportar um judiciário corrupto? Simplesmente não há democracia com um judiciário e um MP como o brasileiro. Por isto, mesmo que a Dilma seja reconduzida, ainda não estaremos numa democracia.

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      Alexandre Moreira

      21 de maio de 2016 às 18h12

      Acho que as pessoas com acesso privilegiado às informações, e que aceitaram conscientemente esta profunda violação à democracia, só vão se lamentar disso mais a frente, caso esse golpe prevaleça. Mas não me preocupo com eles, seu número é insignificante perto daquelas pessoas politizadas dispostas a defender a democracia. Os golpistas não conseguirão esconder a realidade por muito tempo. O que realmente vai fazer a diferença é o engajamento do povão que aos poucos começa a tomar conhecimento dos fatos.

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